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Bem-vindo, Bruno Cardoso Reis, a mais um "Gabinete de Guerra". Vamos continuar a olhar para aquilo que foram as conclusões da Cimeira da NATO, que ontem terminou em Haia, com esse acordo entre os aliados para atingir a meta dos 5% do PIB em defesa até 2035. Bruno, esta era a conclusão esperada? Ficou aquém? Como é que avalias aquilo que sai desta cimeira?
Olá a todos. Sim, era a conclusão esperada. Tivemos aqui este dado, que foi a Espanha fazer uma certa resistência, no fundo, dizer que considerava que conseguia cumprir os compromissos necessários em termos de equipamento e de missões com a Aliança, que justificam supostamente este número dos 3,5% em despesa propriamente militar, mais tradicional, em equipamento, tropas, etc. E excluindo aqui 1,5%, que foi, aliás, algo que a Espanha defendeu muito, e muito bem, no meu ponto de vista, da importância do outro investimento, não estritamente em defesa, mas que é muito importante para contrariar, por exemplo, ciberataques ou ataques híbridos. Investir em infraestruturas críticas e na sua segurança. Tivemos aquele episódio, por exemplo, do apagão ibérico, que aparentemente terá sido uma questão acidental, mas que tinha a ver precisamente com fragilidades também nessas infraestruturas, etc. Mas realmente, genericamente, todos os países aceitaram que, por um lado, por causa de Vladimir Putin, por outro lado, por causa de Donald Trump, realmente era a solução melhor. No fundo, também como acontece geralmente nestas cimeiras, as coisas já estão muito preparadas e a cimeira é mais uma formalização de algo que já foi decidido, preparado e negociado antes. Sim, desse ponto de vista correspondeu ao que era esperado. Eu diria, à partida, é uma boa notícia, embora seja muito exigente, mas é uma boa notícia neste sentido, que é realmente a Europa tendo a investir mais em defesa, porque pode contar menos com os Estados Unidos, com Donald Trump, com o trumpismo, e tem aqui na sua fronteira leste, um país, a Rússia, que está claramente a rearmar-se a um ritmo muito acelerado, que tem uma agenda expansionista agressiva, que não respeita os acordos que estabelece na lei internacional, que pelos vistos considera que países que fizeram parte no passado do Império Russo ou do Império Soviético devem voltar a estar sob o controle ou pelo menos sob a influência, serem uma espécie de satélites da Rússia. Ora há muitos países nessa circunstância naquela região, desde a Finlândia aos países bálticos, à Polónia, à Moldávia, partes de outros países. Realmente, isso parece-me avisado. Agora vai ser exigente, porque sabemos que, de facto, há países que têm grandes disponibilidades financeiras, por exemplo, a Alemanha, mas outros nem tanto. É o caso dos países mais a sul. Em todo caso, este ponto que é: por que a Europa precisa também de se rearmar e inclusive, idealmente, deveria fazê-lo com uma certa margem de vantagem em relação à Rússia, em termos do volume de investimento? Porque isso é a chave para a dissuasão, ou seja, para nós conseguirmos aquilo que temos conseguido nestas muitas décadas, que é evitar sequer que a Europa seja atacada a partir do exterior. Não só é muito importante contar com os Estados Unidos, que são a maior potência militar a nível global, mesmo que não se goste muito de Donald Trump, mas é fundamental, de facto, termos aqui uma vantagem em termos tecnológicos, em termos de qualidade de equipamento, da perceção das capacidades das nossas Forças Armadas, que seja claramente superior para evitar que o outro lado sequer ache que vale a pena testar essa possibilidade, no fundo, avançar para um ataque para ver se resulta. E mesmo para terminar, diria que apesar de tudo, houve aqui uma parte que não terá corrido assim tão bem, que é, de facto, Donald Trump não teve aqui uma explosão de hostilidade em relação à Europa, não disse que se ia deixar de comprometer com a NATO, etc. Mas não foi muito claro nem taxativo, por exemplo, no compromisso com o Artigo Quinto. Aquilo que ouvimos dizer foi: "Sim, mas isso é sujeito a interpretação, depende das circunstâncias."
Era isso que eu te ia perguntar a seguir, Bruno, se foi importante também o fato de, na declaração final desta cimeira, ficar reiterado esse compromisso relativamente ao Artigo Quinto.
Sim, foi importante isso, foi importante também o compromisso em relação à Ucrânia, o apoio à Ucrânia, mas mais uma vez, o país-chave, aquele que levanta mais dúvidas, e que dá o contributo mais importante nesses dois aspetos, que é realmente os Estados Unidos, depois, nos comentários do presidente, que é realmente quem decide estas coisas, de facto, anulou um pouco, eventualmente, o bom impacto que isso poderia ter. A grande questão do Artigo Quinto, realmente, em termos de uma leitura estrita, literal, analítica do Artigo Quinto, é verdade aquilo que diz Donald Trump. O Artigo Quinto não obriga os Estados a entrar em guerra se um Estado membro da Aliança for atacado. O que o Artigo Quinto diz é que os Estados comprometem-se num processo de defesa mútua, comprometem-se a ajudar esse Estado a defender-se com as medidas que forem adequadas, inclusive militares. Mas isso não quer dizer que sejam necessariamente militares ou que seja um envolvimento pleno numa guerra, pode ser equipamento. Agora, aquilo que tem sido a prática até aqui é, no fundo, ter uma interpretação maximalista desse artigo e também o mais possível manter aqui um nível de compromisso que, mais uma vez, evite ou dissuada outros atores, inimigos, adversários da Aliança, no fundo, testarem essa ideia. E mesmo em relação à Ucrânia, Donald Trump, até em resposta a uma pergunta, por exemplo, de uma jornalista ucraniana Mostrou alguma compreensão com os problemas e as preocupações dos ucranianos e deixou claro que não está a ter um bom resultado esta tentativa de negociação com Putin, mas não fez especiais críticas a Putin. Disse que tinha tido até uma chamada agradável, embora lhe tenha dito que precisava era de ajuda com a Rússia e não com o Irão. E também não teve um compromisso absolutamente claro, por exemplo, em termos desta questão do fornecimento de armamento. Pareceu dizer que sim, mas que os Estados Unidos também precisam, outros países também precisam. Portanto, acho que provavelmente foi o melhor que se conseguiria, mas isto tudo mostra que realmente o nível de compromisso dos Estados Unidos com a aliança não é nem perto nem longe do que foi no passado. Donald Trump é muito imprevisível e portanto, eu diria que a cimeira correu relativamente bem desse ponto de vista, de gerir estas duas grandes prioridades históricas da aliança desde o início, que é manter os americanos na Europa e manter os russos fora da Europa livre. Mas a questão está longe de estar encerrada e os problemas estão longe de estar todos resolvidos. O grande teste aqui será realmente o fornecimento de armamento, a compra, na verdade, de armamento americano à Ucrânia, se isso será possível. A questão das tropas americanas na Europa, a expectativa é que haja alguma retirada, mas vamos ver se é uma retirada parcial, gradual ou se é uma retirada brusca e sobretudo em zonas cruciais, como por exemplo os países bálticos. Isso teria potencialmente um efeito extremamente negativo em termos da credibilidade deste compromisso dos Estados Unidos com a segurança europeia. Apesar de tudo, estes últimos ataques ao Irão, por exemplo, mais uma vez ilustraram a enorme importância, a enorme mais-valia que as bases norte-americanas na Europa são para os Estados Unidos, ao contrário do que dizem os trumpistas, que fazem parecer que isso é uma espécie de favor que os americanos fazem à Europa. É verdade, tem vantagens para a Europa em termos de dissuadir ataques, de ter uma presença dos Estados Unidos que concretiza este compromisso dos Estados Unidos com a segurança europeia, mas são uma enorme mais-valia para a projeção de poder dos Estados Unidos no mundo, em zonas muito problemáticas, como o Médio Oriente ou África. No caso do ataque ao Irão, por exemplo, os B-2 só conseguiram conduzir aquela missão com reabastecimento a partir de bases europeias, em particular a base das Lajes, e muitos dos aviões que poderiam ter sido destruídos, por exemplo, pelo ataque iraniano à base de Al-Dhaid, aparentemente terão sido retirados e tudo indica que foram retirados para bases seguras próximas, ou seja, basicamente na Europa, mais uma vez.
O que é certo é que, Bruno, Donald Trump acabou por fazer um balanço positivo no final desta cimeira, que acontece também depois de toda a intervenção que teve no conflito entre Irão e Israel. Donald Trump sai reforçado destes últimos dias de acontecimentos internacionais ou como é que podemos olhar para aquilo que tem sido a postura do presidente norte-americano nestes últimos dias?
Sim, teremos de ver nas sondagens como é que é a avaliação dos norte-americanos, mas sobretudo se este cessar-fogo durar, sobretudo se for possível evitar um envolvimento mais direto dos Estados Unidos, parece-me evidente que sim. Há uma controvérsia que mais uma vez reflete a grande polarização também nos Estados Unidos sobre a questão da prestação de contas ao Congresso, sobre a questão do nível de destruição provocado pelos ataques, que é uma questão que até realmente faz algum sentido, mas que está claramente muito polarizada. Portanto, isso mostra que provavelmente Donald Trump não vai ganhar apoios entre um setor muito importante da sociedade americana, que é muito hostil e que se sente até ameaçada pelo trumpismo. Mas uma questão que já é evidente é que ele realmente conseguiu conquistar o apoio dos republicanos, que estavam muito céticos em relação a este ataque. Aí já temos sondagens, à volta de 23% só é que apoiavam o ataque ao Irão e a seguir ao ataque, a sondagem que tivemos apontava para volta de 70% a apoiarem esse ataque. Portanto, eu diria que sim. Em relação à questão da Europa, no fundo, Donald Trump, até aquela divulgação bastante questionável do ponto de vista diplomático, mas que se percebe do ponto de vista político e do que tem sido a política do trumpismo, a divulgação daquelas mensagens do secretário-geral da NATO, Mark Rutte, muito elogiosas, até questionáveis no tom excessivamente elogioso, vamos dizer assim, de Donald Trump, no fundo, também são uma forma de Donald Trump mostrar que, mais uma vez, sobretudo aos seus eleitores, que ele é que é o homem forte, que ele consegue obrigar os europeus a pagar aquilo que não pagavam antes em defesa. Portanto, no fundo, ele claramente apresenta isso como uma vitória perante o seu eleitorado e estou certo que, pelo menos em setores mais à direita, já mais alinhados com Donald Trump, tem sido uma semana positiva para a imagem do presidente.
Mas voltando ao que dizias sobre as mensagens de Mark Rutte, Bruno, o certo é que mesmo na conferência de imprensa final, o secretário-geral da NATO disse que Trump merece alguns elogios, que é um bom amigo, que está a fazer coisas boas e a forçar mais investimento na NATO. Como é que interpretas também esta troca de elogios, nomeadamente de Mark Rutte para Donald Trump?
Acho que são justos, ou seja, acho que toda gente percebe que o secretário-geral da NATO não vai entrar aqui em conflito com o presidente dos Estados Unidos, isso seria desastroso. Ele foi eleito porque era visto como alguém que se dava bem com Donald Trump, como primeiro-ministro dos Países Baixos e que conseguia gerir o ego também de Donald Trump. Agora, acho que há aqui claramente um excesso de zelo, quer dizer, acho que não é preciso ir tão longe neste Muito corresponde da parte dos europeus a uma queixa que já se começa a ouvir, que é, de fato, a missão do secretário-geral da NATO não é ser embaixador dos Estados Unidos na NATO. Há um embaixador dos Estados Unidos na NATO, como aliás todos os países membros. Portanto, convinha que, apesar de tudo, e combinando elogios talvez um pouco mais moderados a Donald Trump, de vez em quando Mark Rutte também defendesse um pouco os europeus. Por exemplo, não o ouvi dizer nada sobre a importância das bases europeias nesta missão, que ele elogiou como sendo um extraordinário sucesso. Portanto, de fato, nunca se vê nestas declarações nenhum tipo de defesa da Europa. Parece que Mark Rutte tem como grande missão validar até algumas críticas excessivas aos europeus. Por exemplo, esta ideia de que os europeus não estiveram a pagar aquilo com que se comprometeram. Basicamente, não é assim. A verdade é que este compromisso dos 2% tinha como prazo até 2024 e a generalidade dos países cumpriram isso e vários até excederam. E os que não excederam é por razões muitas vezes compreensíveis. São genericamente os países do sul da Europa, que os mesmos aliados, a começar pelos Países Baixos de Mark Rutte, que agora dizem que têm de gastar muito em defesa, independentemente dos limites orçamentais, foram os que impuseram esses limites orçamentais, os que pressionaram o corte em todas as áreas, até na da defesa, e disseram que a prioridade devia ser o crescimento econômico. Ora, se há muito crescimento econômico, a despesa em defesa, mesmo que seja igual ou superior, vai ter um peso menor no PIB. Pediu-se aqui uma espécie de quadratura do círculo a muitos países do Sul, que são também os que estão mais afastados da ameaça russa, quando os Estados Unidos dizem que isso é um problema dos europeus, porque vocês é que estão ao pé da Rússia. Os Estados Unidos estão, sobretudo os Açores, mais perto dos Estados Unidos do que propriamente da Rússia. Portanto, eu acho que temos que ter algum cuidado com esses argumentos, porque se formos ao elo mais fraco, a Rússia claramente está numa postura muito agressiva, inclusive nesta dimensão de guerra híbrida, mas a verdade também é que seria bom que o secretário-geral da NATO procurasse ter aqui uma função de facilitador, mediador, certamente procurar manter uma boa relação com o presidente dos Estados Unidos, mas volto a dizer, parece-me isto excessivo, exagerado, até leva a um certo descrédito e alimenta, do meu ponto de vista também, em setores trumpistas, esta ideia de que a Europa é fraca e vou citar aquele famoso Signalgate patética. Temos ministros americanos a usar linguagem desse tipo. E Donald Trump tende a respeitar um pouco mais a força. E realmente acho que falta aqui algum esforço também em defesa da posição dos países europeus.
Bruno Cartaxo Reis, obrigado pela tua análise em mais um Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã.
Obrigado