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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Professora Lívia Franco, a Ucrânia e o mundo estão a ficar sem munições, são palavras do primeiro-ministro ucraniano. Isto pode ser fatal para a Ucrânia ou o governo de Zelensky está, sobretudo, a tentar chamar a atenção para a guerra no país, muito esquecida por estes dias?
Eu acho que são as duas coisas. A situação da falta de munições não é uma situação de agora. Já há longos meses que ela se tem vindo a fazer sentir por razões que também não são difíceis de compreender. Felizmente, o mundo, e em particular o mundo ocidental, vive em paz há muitas décadas e, portanto, houve um grande desinvestimento nas indústrias de defesa, obviamente no fabrico de munições e os estoques que os países parceiros da Ucrânia tinham eram estoques já relativamente baixos e o mesmo se passava com a própria Ucrânia. Não é uma situação de agora. No entanto, essa questão obviamente vai-se agravando à medida que a guerra vai evoluindo e que os meses vão passando e que a resposta da produção das munições também não sendo automática, é uma resposta lenta. Nós sabemos que esse esforço da reindustrialização, por exemplo, na Europa, no sector do armamento, se está a fazer, isso é do conhecimento geral, mas demora tempo. É um tempo que não acompanha o próprio tempo e o ritmo das exigências da guerra. Por outro lado, é lógico que há aqui uma dramatização do discurso político do presidente da Ucrânia. Eu não acho que seja propriamente um esquecimento daquilo que se está a passar na Ucrânia, mas face a uma maior prioridade que a situação no Médio Oriente, até por causa das razões ligadas a contágio, tem tido impacto sobre aquilo que é a agenda mediática e, portanto, o presidente Zelensky faz, como tem feito também com muita mestria desde o princípio da guerra, é tentar de alguma maneira chamar as atenções dos media e da discussão internacional para aquilo que é a própria situação da Ucrânia, porque precisa mesmo desse apoio e que esse apoio seja contínuo.
Já agora, o presidente da Ucrânia diz que a frota russa não é capaz de operar na parte ocidental do Mar Negro e que está a fugir gradualmente da Crimeia. Diz que se trata de uma conquista histórica, a confirmar ser mesmo um sinal das dificuldades dos russos. Já agora, que consequências pode ter a perda da Crimeia para Putin?
A Crimeia tem duas razões pelas quais são prioritárias na estratégia de Putin, nomeadamente para esta zona do estrangeiro próximo, que obviamente inclui a Ucrânia. A primeira é que nós sabemos que uma das principais bases navais da Marinha de Guerra russa é a de Sevastopol, na península da Crimeia, e que dá um acesso constante aos mares quentes, em particular ao Mar Negro, o que confirma a navegabilidade da força naval da Rússia, que sendo uma grande potência, tem essa fragilidade de ser, sobretudo, rodeada por mares que são mares que estão congelados na maior parte do mundo. Do ponto de vista operacional, militar e naval, assegurar a sua posição no Mar Negro, nomeadamente nessa base fundamental na península da Crimeia, é muito importante. O segundo aspecto são razões histórico-políticas. Nós sabemos que a política externa da Rússia, nomeadamente em relação à Ucrânia e à anexação desta parte do território da Ucrânia, que é a Crimeia, é explicada numa narrativa histórica que dá um enquadramento à razão pela qual se tem verificado esta intervenção russa na Ucrânia, nomeadamente que do ponto de vista histórico, a Ucrânia faz parte da Rússia e a perda deste território que foi anexado e cuja propriedade ou cuja soberania da Rússia não é reconhecida pela lei internacional, mas que do ponto de vista de facto foi anexada em 2014 pela Rússia, será uma derrota política e uma derrota do ponto de vista desta guerra de informação também, da guerra das narrativas, que não me parece que Putin seja efetivamente disponível a acontecer. Eu acho que vai haver sempre um grande investimento no sentido de continuar a manter a Ucrânia sob ocupação russa. Agora, que efetivamente a posição da Ucrânia na Crimeia se tem vindo a degradar, sobretudo por causa da criatividade da estratégia ucraniana, e nomeadamente a utilização, por exemplo, dos drones para atingir aquilo que é a armada russa na Crimeia, isso é verdade. Isso é um facto. Vamos seguir com muita atenção o que tem acontecido e nós notamos já uma certa retração. Um acordo foi assinado entre as autoridades russas e as autoridades da zona separatista da Geórgia, da Abecásia, para a criação de uma nova base naval da Rússia no Mar Negro, o que mostra exatamente a necessidade que a Rússia tem de reforçar a sua posição no Mar Negro, nomeadamente tendo em vista o enfraquecimento da sua posição na península da Crimeia. Vamos seguir com muito interesse e com muita atenção os acontecimentos relativamente a essa zona do Mar Negro e em particular à questão da Ucrânia, que nós já vimos, é fundamental para a estratégia russa.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem uma nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.