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Gabinete de Guerra com a analista de assuntos internacionais Helena Ferro Gouveia. Venezuela, controle norte-americano do petróleo e a Gronelândia na nossa ordem de trabalhos. Muito bem-vinda, Helena.
Olá, muito boa tarde e obrigada pelo convite.
Vamos começar precisamente por aqui, pela Gronelândia. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, e também o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, dizem agora que Donald Trump quer comprar a Gronelândia, mas ao mesmo tempo a Casa Branca não exclui que haja uma aquisição à força pela via militar. Podemos dizer que o território autónomo da Dinamarca é oficialmente o próximo alvo dos Estados Unidos, se dúvidas houvesse?
Bem, Shakespeare escreveu no "Hamlet": "Há algo de podre no reino da Dinamarca". Eu agora diria que há algo de cobiçável no reino da Dinamarca, que é a Gronelândia. Isto não nos devia surpreender. Os Estados Unidos já tentaram por cinco vezes comprar a ilha: em 1867, 1910, 46, 55. Trump referiu pela primeira vez em 2019, aliás, tal como referiu a questão da Venezuela, e agora desde 2024 tem vindo a pressionar a Dinamarca neste sentido. Por isso, parece-me ser muito claro que os Estados Unidos falam muito a sério. Depois de nós termos visto a operação que decorreu para infiltrar Nicolás Maduro, temos consciência que Trump estará a falar a sério. Como é que isto se poderá parecer? Apesar de nós termos aqui um comunicado conjunto dos líderes europeus dizendo que a Gronelândia pertence ao seu povo e que só a Dinamarca e a Gronelândia podem decidir assuntos que digam respeito ao que concerne ao seu território, a verdade é que a pressão norte-americana é mais do que muita e nós podemos cenarizar aqui duas opções. A primeira opção é a maioria dos groenlandeses querem ser independentes da Dinamarca, e isto já antes da pressão norte-americana. Embora, apesar de quererem ser independentes, nenhum deles quer pertencer aos Estados Unidos. Poder-se-á desenhar, e eu estou a falar aqui hipoteticamente, em termos de cenário, um acordo de desassociação. Não poderá haver uma compra, um acordo de desassociação.
O que isso quer dizer?
Quer dizer, teríamos ali uma espécie de uma província autónoma como o Porto Rico, portanto um estatuto de autonomia, mas associado aos Estados Unidos. Agora parece-me ser muito claro, quando nós olhamos para a posição geográfica da Gronelândia, que com o aquecimento climático e com o degelo cria novas rotas marítimas e poderá reduzir a distância entre o Atlântico e o Pacífico, temos aqui algo muito apetecível do ponto de vista comercial. Depois, olhamos para os recursos que possui. Estamos a falar de gás, estamos a falar de petróleo, estamos a falar de metais raros. A Gronelândia tem 25 dos 34 metais raros que são considerados críticos, e eles são essenciais para as baterias dos carros elétricos, que são mais básicos, para as turbinas, para o equipamento militar. E isto é muito importante, porquê? Não apenas por estes efeitos diretos, mas é porque a China, neste momento, tem o domínio na matéria dos metais raros e com isto pressiona os Estados Unidos. Portanto, a Gronelândia, quando Donald Trump ou a sua administração diz que é importante para a segurança, não é apenas pela sua posição geoestratégica entre os Estados Unidos, a Europa e a Rússia. Claro que isso é um fator muito importante e não é à toa que existe lá a base, a Space Base de Pituffik, onde é a defesa de mísseis da NATO, a vigilância espacial, onde se faz "imaging", se fazem imagens, se processa "intelligence", se faz vigilância, e se alerta, tem um sistema de alerta precoce contra eventuais ameaças de mísseis, pela posição geográfica, geoestratégica que tem. Mas esta questão dos recursos é fundamental, porque nós estamos a entrar numa era de competição entre grandes potências. Aquela competição entre a China e os Estados Unidos, que já se desenhava há mais de uma década, agora assume cada vez mais importância. E esta questão dos metais raros, e não é à toa que há livros escritos sobre isso, e que se chamam "A Guerra dos Metais Raros". De alguma forma, está a haver aqui uma guerra por quem tem o domínio, porque os metais raros também são importantes, por exemplo, para as questões da inteligência artificial, de determinados "image". Tudo o que tem a ver com desenvolvimento tecnológico passa por aqui e a Gronelândia aqui tem um papel.
É um ativo importante.
É um ativo importante, por isso parece-me que o futuro da Gronelândia, e eu não gostava de estar a dizer isto, mas analisando de uma forma realista, passa por, a prazo, estar de alguma forma sob a alçada dos Estados Unidos.
Falava há pouco nessa declaração de vários países europeus, que é de resto sobrescrita por Portugal, a avisar para a dissuasão de adversários e para esse apoio à Gronelândia e à Dinamarca. Entretanto, hoje há um aviso do presidente do Conselho Europeu, António Costa: "A União Europeia não vai aceitar violações da lei internacional, seja onde forem", é esta a declaração de António Costa. Em que é que se pode materializar este aviso?
Essa é uma excelente pergunta, o que a União Europeia vai fazer além de comunicados e de avisos? E este é um tema que temos vindo a debater há cinco anos, de uma forma bastante premente, diariamente. A Europa, tendo por devido aquilo que é o seu poderio militar, tem pouca capacidade de resposta perante a violação de normas internacionais. Neste momento, é um gigante económico, mas não tem forma de exercer nenhum tipo de pressão. E isto é muito interessante. Quando nós olhamos para a ordem mundial liberal, que assenta no sistema westfaliano, na Paz de Westfália, que foi concebida na premissa que há um sistema de Estados independentes, que se abstêm de interferir nos assuntos dos outros, que limitam as ambições dos outros mediante um equilíbrio de poder. A Europa, que foi a inventora deste equilíbrio de poder e que assentava no poder económico e no poder militar Deixou de cair o seu poderio militar. Portanto, a questão é: o que vai a Europa fazer ou o que pode fazer a Europa? Não vai confrontar os Estados Unidos militarmente. Não acredito nesta possibilidade, até porque seria esmagada. Nós temos que ser realistas. Portanto, tenta, através da diplomacia, da política, das alianças, manter os Estados Unidos por perto. Pode fazer este tipo de declarações? Naturalmente que pode e que deve fazer este tipo de declarações. Agora, quem conhece a história também norte-americana, os Estados Unidos têm alternado entre a defesa desse sistema vestfaliano e também na crítica daquelas que são as suas premissas de equilíbrio de poder e de não ingerência. Portanto, nós estamos a entrar num mundo, se quisermos, novo, num mundo em que a ordem liberal está a ser completamente desafiada. Está a ser desafiada pela Rússia, está a ser desafiada pela China, está a ser desafiada no Médio Oriente. E a Europa aqui deixou-se, de alguma forma, adormecer e agora está a tentar recuperar de uma forma bastante rápida, mas vai precisar de pelo menos uma década para conseguir poder responder e poder ser levada a sério. Portanto, em termos concretos, não me parece que a Europa possa fazer grande coisa além destes comunicados e deste palavreado.
Sendo que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou um encontro na próxima semana entre os responsáveis diplomáticos dos Estados Unidos e da Dinamarca, precisamente com a Gronelândia em cima da mesa, naturalmente. O facto de a Dinamarca ter aqui respaldo europeu pode ou não ter peso neste encontro? Pelo que estava a dizer há pouco, imagino que não, mas o que é que espera desta reunião da próxima semana?
Nos Estados Unidos, há aqui uma espécie de histeria que será o fim da NATO e apesar do presidente norte-americano hoje ter publicado na sua rede social um ataque à NATO, um ataque que aliás, é muito pouco justo para os parceiros da NATO, porque a única vez que o artigo quinto, portanto, a defesa mútua, foi acionado, foi acionado pelos Estados Unidos após os atentados de 2001, e que todos os países da NATO responderam de forma positiva e opuseram as suas tropas, os seus recursos, os seus aviões. Aliás, Portugal perdeu dois militares, o sargento Roma Pereira e o soldado Oliveira Pedrosa, que morreram ambos no Afeganistão, em missão, em defesa também dos Estados Unidos e dos interesses norte-americanos. Mas apesar de todos estes ataques e toda esta histeria em relação à NATO. A NATO é algo que também serve os interesses nacionais norte-americanos. É preciso entendermos que os norte-americanos e esta administração, em particular, releva muito aquilo que são os seus interesses nacionais e os seus interesses de segurança. Por isso vai ser procurada aqui, se quisermos, uma via diplomática, embora possamos falar de coerção diplomática. Não será a diplomacia clássica. Há aqui uma diplomacia com coerção, mas vai-se procurar aqui uma solução que não envolva nenhuma ação militar, até que para os Estados Unidos isso é algo que não interessa e também não interessa o sair desta aliança, embora exerça muita pressão sobre a aliança, mas não é o único presidente a dizê-lo. Eu recordo-me que o primeiro presidente norte-americano a exercer muita pressão sobre os aliados foi Barack Obama, em 2008, que disse aos europeus que tinham que, de facto, investir em defesa, e que toda a gente fez, e perdoem-me a expressão, orelhas moucas, e chegamos onde chegamos agora, porque as componentes do poder, e isto é da literatura, são, de facto, o poder económico e o poder militar. Só sob estas duas pernas é que um país ou uma zona geográfica tem capacidade de influenciar diplomaticamente os acontecimentos. A Europa tem uma perna bastante forte, agora tem que muscular claramente a outra para, neste mundo novo, que irrompeu não em 2022, mas em 2014, com a anexação da Crimeia. E nós agora, nos últimos dias, temos falado muito em violação do direito internacional pelos Estados Unidos e, de facto, aqui uma violação clara das normas do direito internacional. Só que o direito internacional enferma de um pecado: não tem meios de o fazer vigorar. E assim sendo, é um instrumento fraco. E também só para concluir aqui o meu raciocínio, este direito internacional também foi criado pela Europa no âmbito do sistema vestfaliano e, portanto, sem poder militar ou sem poder para o fazer valer, é um conjunto de normas jurídicas, mas que estão a ser cada vez mais questionadas.
Por falar em ações musculadas, Helena Ferro Gouveia, e só temos aqui mais um minutinho, mas gostava de ouvi-la sobre esta apreensão pelos Estados Unidos de dois petroleiros, um deles de bandeira russa, e esta declaração de Marco Rubio, também desta quarta-feira, de que os Estados Unidos querem retirar todo o petróleo da Venezuela.
Isto que se está a passar é uma guerra energética. Nós temos aqui duas operações distintas: a apreensão de dois petroleiros, um no Atlântico, o Bella I, que já havia escapado ao apreço, e outro nas Caraíbas, o Sofia, que vinha do Irão, curiosamente, para a Venezuela. O que os Estados Unidos estão a fazer, e há aqui um bloqueio completo do petróleo, é tentar retirar a inimigos ou a países que os Estados Unidos consideram como inimigos, sejam eles o Irão, que aliás, será o próximo alvo, e nós vamos ouvir falar do Irão nas próximas semanas, nos próximos meses, a breve trecho. Portanto, retirar a países como o Irão, como a China, que neste momento está muito aflita quanto à compra de petróleo, porque comprava 80% do petróleo que vinha da Venezuela, a possibilidade de ter aqui este recurso. E portanto, isto é mais uma peça, se quisermos, naquela confrontação entre potências. Nós temos falado muito num mundo que vai ser dividido em esferas de influência. Eu não considero a Rússia aqui tão importante como a China, será um parceiro menor, se quisermos, mas nós assistimos a um mundo onde vai haver uma confrontação entre Estados Unidos e quem estiver com os Estados Unidos e o bloco chinês e a influência chinesa. E esta operação na Venezuela não é apenas para petróleo. Nós estamos a falar aqui de geoestratégia. Não temos muito tempo para explicar isso, mas o que está aqui em causa é algo bastante mais profundo. E só para concluir, e isto vai influenciar a Ucrânia, aliás, Putin deve estar bastante aflito, porque a Venezuela era um dos poucos países que reconheceram a anexação ilegal da Crimeia em 2014, até Maduro esteve em Moscou em maio de 2025. E o que a Venezuela vem mostrar é que depois da Síria, onde a Rússia não conseguiu fazer nada, depois do Irão, onde a Rússia não conseguiu fazer nada, depois da Arménia, onde a Rússia deixou os seus aliados sem apoio, uma vez mais prometeu o apoio total à Venezuela e não conseguiu. Expõe-se aqui também a fraqueza russa. Portanto, estes conflitos andam todos relacionados e prendem-se sobretudo com o momento em que vivemos, que é de confrontação de grandes potências.
E a evolução ainda a ver para que lado vai. Muita imprevisibilidade também nesta altura. Muito obrigada, Helena Ferro Gouveia, pela análise neste Gabinete de Guerra.
Muito obrigada, uma boa noite.