Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador. São dois conflitos em curso em partes bem diferentes do mundo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. E nos próximos minutos vamos falar sobre estas duas guerras com a ajuda do major-general Isidro Morais Pereira. Major-general, muito boa tarde. Ainda ontem a Ucrânia cortou o transporte de gás natural russo através do seu território. A Europa vai estar mais segura sem o gás russo, como diz o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano?
Menos no futuro próximo e a médio prazo, e até a longo prazo, veremos. A gente não sabe como é que vai terminar ou como é que vai cessar este conflito entre a Federação Russa e a Ucrânia, e se as ambições expansionistas russas poderão ou não cessar no futuro. De qualquer maneira, nunca é bom pra um espaço geopolítico, como é a União Europeia e a Europa como um todo, ter uma dependência como já teve, tremenda das fontes energéticas russas. Isso tem uma explicação, no fundo. Essa dependência energética não apareceu ao estalar dos dedos. Foi algo que foi um bocado culpa nossa, dos europeus. Foi também resultado de alguns incidentes infelizes, como o desastre de Chernobyl e o desastre de Fukushima, no Japão, com centrais nucleares, que levaram a que grandes movimentos políticos europeus, designadamente os verdes na Alemanha, tivessem uma posição favorável ao encerramento de tudo quanto era centrais nucleares. Por exemplo, dou-lhe o exemplo da Alemanha, que é um exemplo que eu conheço, porque vivi na Alemanha três anos, praticamente, e assisti a tudo isso, quer dizer, esses movimentos, no sentido de evitar catástrofes parecidas, porque o nuclear era algo que era visto como mau, como prejudicial à natureza, porque poderia provocar desastres como aqueles a que assistimos, e houve uma tentativa de encerrar as centrais nucleares. O que é facto é que o mundo ocidental, designadamente a Alemanha e outros países altamente industrializados, precisam de fontes de energia, precisam de energia barata, energia em grandes quantidades pra poder apoiar o funcionamento das suas fábricas, sejam elas fábricas de máquinas industriais, sejam elas fábricas de automóveis, seja aquilo que for. Quando a Alemanha começou a encerrar paulatinamente as suas centrais nucleares, neste momento só tem abertas três centrais. Tinha quase 20 centrais nucleares, neste momento só tem três. E foi as substituindo por centrais movidas a gás. As centrais movidas a carvão também eram demasiado poluidoras e não assentavam bem na ideia daquilo que eram os defensores de um mundo mais verde, um mundo mais puro, menos poluído. E tudo isso é muito bom, mas de fato, a tecnologia nuclear evoluiu. Hoje em dia, as centrais nucleares são mais pequenas, mesmo que houvesse um evento ou acidente, o acidente é muito mais fácil de controlar e os seus efeitos são muito menos perniciosos. Por exemplo, dou-lhe o exemplo da França. A França nunca encerrou as suas centrais nucleares. A Inglaterra tem projetos para construir mais cerca de uma dezena de centrais nucleares. Nós fomos, ao longo de décadas, fundamentalmente após a implosão da União Soviética, já antes havia dependência do gás russo, fundamentalmente dos países que pertenciam à União Soviética e aqueles que pertenciam ao Pacto de Varsóvia, não sendo repúblicas da URSS. Mas fundamentalmente, foi se aproveitando o fato de a Rússia ser um grande exportador de energia fóssil, fundamentalmente o seu gás, e fomos transformando as nossas necessidades de produção de energia elétrica, fomos baseando essas necessidades fundamentalmente em centrais termoelétricas movidas a gás, e a gás que vinha dos gasodutos da Rússia. Isso foi algo com que Putin jogou. Pra além de Putin conseguir arrecadar muitas somas de dinheiro, que lhe permitiram pôr em marcha uma reorganização das suas Forças Armadas e suportar este tremendo esforço de guerra, nós criamos uma grande dependência, uma dependência que neste momento muitos países já conseguiram furtar-se à mesma, inclusivamente a Alemanha. Neste momento, a Alemanha praticamente pouco ou nenhum gás importa da Rússia, foi substituindo por gás importado da Noruega, por gás vindo de alguns países do norte da África, por gás natural liquefeito transportado por grandes navios vindos dos Estados Unidos. E neste momento ainda havia um conjunto de países, fundamentalmente três países que estavam altamente dependentes ainda do gás russo. Era a Áustria, a Áustria, entretanto, também encontrou soluções, porque a própria União Europeia foi dando prazos para que os países fossem encontrando outras formas de Energia, de poderem adquirir esse tipo de necessidade, cobrir esse tipo de necessidades, mas tínhamos fundamentalmente a Eslováquia e a Hungria, que foram altamente renitentes e que continuaram a depender do gás russo e fundamentalmente do gás que era transportado pelo território ucraniano. Volodimir Zelenskyy já tinha avisado praticamente no início do ano que passou que mal terminasse o contrato, que foi um contrato estabelecido em 2019 e que teria quatro anos de duração, e ele sempre disse que não era à custa do transporte de gás através da Ucrânia que a Rússia iria financiar o seu esforço de guerra. E fechou a torneira às 7h da manhã, locais, fechou a torneira dos gasodutos que transportavam o gás vindo da Rússia para abastecer ainda alguns países da Europa. Portanto, isso teve alguns efeitos, fundamentalmente sobre países que não eram propriamente hostis à Ucrânia, como a Moldávia. A Moldávia neste momento está a passar por sérias dificuldades, principalmente a região da Transnístria, daquelas repúblicas que são independentistas, fundamentalmente ligadas à Federação Russa, que pediram uma solução ao Kremlin, e o Kremlin a solução que lhes deu até é algo cômica. Quer dizer, aquilo que lhes foi dito foi: "Olha, juntem-se todos, ocupem pequenos espaços, coloquem cobertores junto às janelas e aguentem-se". Esta foi a solução que a Rússia deu para os problemas energéticos da Moldávia. No entanto, neste momento parece que a própria Ucrânia atacada todos os dias, a sua rede energética atacada todos os dias, a Ucrânia que está a importar energia elétrica, fundamentalmente de quatro países do oeste europeu, incluindo a Eslováquia, que chantageou a Ucrânia dizendo que deixaria de exportar eletricidade para a Ucrânia. Não sei se já o fez, mas de qualquer maneira só representava 19% das necessidades e o próprio primeiro-ministro da Polónia já disse que aumenta a produção para cobrir esse déficit.
Mas a decisão da Ucrânia não o surpreende.
Não, absolutamente nada. É uma decisão mais que esperada. O presidente Zelensky não estava a brincar quando disse pela primeira vez há um ano e quando foi dizendo ao longo deste ano, que às 7h da manhã do dia 1 de janeiro de 2025, quando terminava oficialmente o contrato de quatro anos que foi estabelecido entre a Ucrânia e a Federação Russa, permitindo o gás da sua maior empresa de gás, que é a Gazprom. Ele não estava a brincar, estava a falar a sério e estes países deviam-se ter preparado para esta eventualidade. A Hungria parece que tem os problemas mais ou menos resolvidos, porque no fundo ainda há um gasoduto, que é o TurkStream, que é um gasoduto que vem da Rússia, passa pela Turquia, passa pelas águas do Mar Negro e chega à zona dos Balcãs e parece que a Hungria vai continuar a ser abastecida através deste gasoduto. De qualquer forma, a Eslováquia não sei que solução arranjou, mas estará a passar por algum momento difícil. Agora, esta medida tinha que ser tomada, porque um país que está sistematicamente a agredir outro país de forma ilegal e que sistematicamente ataca o Ocidente, os Estados Unidos e os países ocidentais, classifica-os de inimigos e de serem os apoiantes de um regime nazi que está a governar a Ucrânia. Toda esta narrativa que temos ouvido não faz qualquer tipo de sentido nós continuarmos a consumir bens a partir dos quais a Rússia consegue apoiar o seu esforço de guerra. Afinal, parece que as ditas sanções económicas estão a funcionar. Parece que a economia russa está a dar sinais de poder colapsar. Alguns entendidos, fundamentalmente nessas questões macroeconômicas, dizem que a Rússia poderá aguentar mais dois semestres, outros dizem que na melhor das hipóteses três semestres, mas todos eles apontam análises que são absolutamente claras, que a Rússia não vai aguentar um esforço de guerra como aquele que está a levar efeito na Ucrânia há muito mais tempo. Aliás, o próprio chefe dos Serviços de Informações Externas da Ucrânia, Kyrylo Budanov, num estudo que também fez e que publicou e em declarações que prestou à imprensa ucraniana, está otimista, diz que 2025 poderá ser um bom ano pra Ucrânia e fundamentalmente porque a Ucrânia está capaz de produzir grande parte do armamento que necessita, sem depender diretamente do fornecimento do armamento ocidental, mesmo de longo alcance. E uma outra razão, essa ainda mais importante, é que segundo as previsões que ele faz, ele é o chefe do serviço de informações, no fundo, são previsões que ele faz e são bem baseadas em fatos e bem consolidadas, é que a Rússia poderá colapsar economicamente ou ao longo de 2025 Isso notar-se-á naturalmente numa menor capacidade de continuar a apoiar o esforço de guerra. No meio disto tudo, temos ainda aqui uma grande questão: como é que o novo gabinete norte-americano, a partir de 20 de janeiro, quando o Donald Trump tomar oficialmente posse, vai colocar em marcha o tal plano que ele tinha para em 24 horas acabar com a guerra na Europa? Não sei, vamos ver. Temos aí uma grande interrogação também no meio disto, mas tudo indica que, pelo menos pelas declarações oficiais de altos dignitários do Kremlin, designadamente o Lavrov e o porta-voz do presidente russo, Peskov, todos eles dizem a mesma coisa: que a Rússia nunca aceitará a presença de tropas ocidentais como forças de interposição na Ucrânia. Isto é absolutamente claro. Aquela ideia que nós tínhamos do plano Trump para assegurar a paz na Ucrânia partia do pressuposto de que alguém queria que havia um cessar-fogo nas atuais posições e que havia tropas que teriam que ir. Teriam que ser tropas de manutenção da paz ou de interposição, melhor dizendo, mas a Rússia não aceita. Portanto, parece que vamos ter a guerra por muito mais tempo. O próprio presidente Donald Trump afirmou de forma categórica que afinal o problema é muito mais complicado do que ele pensava. Vamos ver no que isto vai dar.
Próximos capítulos em 2025. Major-General, muito obrigado. Já ficamos sem tempo. Agradeço-lhe imenso a análise destes dois conflitos em curso. O Major-General Isidoro Morais Pereira esteve conosco no "Gabinete de Guerra". Muito obrigado pela ajuda, Major-General. Obrigado. O "Gabinete de Guerra" regressa, Maria, já amanhã.