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Este é o Som do Gabinete Guerra das manhãs 360, hoje com a análise de Tiago André Lopes, coordenador da licenciatura em Relações Internacionais na Universidade Portugalense. Bom dia, professor. Muito obrigada por estar conosco.

Olá, bom dia.

Bom dia. Começamos por Kazakistão, onde estão reunidos vários líderes numa cimeira sobre segurança e defesa na região. O presidente russo se reuniu com Xi Jinping e Erdogan. Professor, sobre a China, Putin diz que as relações estão numa era dourada. Quanto à Turquia, o Kremlin afastou a hipótese do presidente turco assumir o papel de intermediário no conflito com a Ucrânia.

O Kremlin afastou essa hipótese, mas em bom rigor, depois entrou em negociações com a Turquia e saudou o papel que a Turquia faz nesta ligação entre o mundo ocidente e o Oriente. É curioso essa dualidade. Acima de tudo, parece-me que Vladimir Putin quer que Erdogan, nesta cimeira, se foque no papel que terá, que é o papel de parceiro de diálogo da Organização de Cooperação de Xangai, e não necessariamente de dar uma expectativa de que vamos para a mesa negociar e de que vamos começar a negociar. Agora, eu não levaria muito a sério este afastamento da figura de Erdogan como mediador, porque o afastamento de Erdogan não afasta o Estado turco, afasta apenas o presidente. É provável que figuras como Hakan Fidan, o ministro dos Negócios Estrangeiros, continuem a fazer esse papel e nós sabemos que eles têm tido intervenção nesta tentativa de reaproximação entre Kiev e Moscovo.

O secretário-geral da ONU também marca presença nesta cimeira e o Kremlin diz que pode até vir a reunir-se com Putin. António Guterres, numa entrevista de cerca de 20 minutos à agência estatal russa TASS, mencionou a guerra na Ucrânia apenas uma vez, Tiago André Lopes. O que isso significa ou pode significar?

Significa duas coisas. Parece-me que António Guterres quer manter a porta aberta para eventualmente se poder encontrar com Vladimir Putin e para isso não o hostilizar com uma entrevista que fosse vista até como algo ofensivo ou ostensivamente mais agressiva. E parece-me também que Guterres se prepara para tentar empurrar Vladimir Putin para ponderar negociações eficazes e verdadeiras e não obviamente negociações com o guião que Moscovo queria dar, para começar a deslindar o problema da guerra na Ucrânia. Não estou a ser tão otimista quanto a isso, um caminho para a paz, mas algo que permitisse, ponto um, a devolução total das crianças ucranianas que ainda estão por devolver, que estão em solo russo. Obviamente, também recuperar, e esse é um ponto que a ONU tem insistido muito em off, o acordo dos cereais para garantir alguma estabilidade do mercado de cereais, do trigo, da cevada e do centeio, que têm subido de preço nas últimas semanas, e garantir também que se evita o uso de novos tipos de equipamento militar, porque aquilo que nós temos visto em 2024 é a utilização de equipamento militar que é condenado em várias conversas internacionais. Ele não está propriamente proibido, mas há uma condenação por causa dos efeitos perniciosos que ele tem sobre a população civil. E parece-me que Guterres quer evitar que a Rússia utilize esse tipo de equipamento, porque já terá algum tipo de garantias de que a Ucrânia não usará esse tipo de equipamento.

Entretanto, Olaf Scholz assegura que não vai apoiar a proposta de cessar-fogo da Rússia, onde a Ucrânia teria de abrir mão de territórios anexados. Professor, nas palavras do chanceler alemão, isso mostra o quão cínico é o pensamento russo e que Putin não tem qualquer intenção de pôr fim à guerra.

Essa é a questão com os planos de paz. Quer o plano de paz de Moscovo, quer o plano de paz de Kiev, obviamente, são centrados no seu interesse e não no interesse da outra parte. São imposições e não planos de negociação e por isso é que têm que ser vistos dessa forma. Eles são ponto de partida e não ponto de chegada. Eu acho que é importante Scholz ser muito claro que não aceita este plano. Também já percebemos que os parceiros da Ucrânia não estão muito convencidos com relação ao plano de Kiev. Aliás, por isso que na semana passada e de forma inteligente, o presidente Zelenskyy disse que estava à procura de novas fórmulas para chegar ao entendimento para a paz, porque ele percebeu que o seu plano também não galvaniza propriamente os seus aliados mais próximos e portanto, estes planos têm que ser entendidos dessa forma. Agora, o afastamento total da concessão territorial é algo que me parece arriscado Scholz já colocar em cima da mesa, numa altura em que nos parece cada vez mais claro que esse tipo de concessões territoriais vão quase de certeza acontecer.

Olhemos agora para os resultados de um novo estudo do Conselho Europeu de Relações Exteriores, que mostra que os europeus estão céticos em relação à vitória da Ucrânia. De um terço a metade dos inquiridos acredita que a guerra vai terminar no acordo negociado. Tiago André Lopes, o que dizer destas conclusões e qual a utilidade, sobretudo para a Ucrânia, de tornar público este estudo?

Este estudo é bastante interessante que ele seja publicado agora e demonstra não só que a questão da guerra está a perder o ímpeto que tinha há um ano, por exemplo, onde havia uma grande maioria de inquiridos europeus que acreditavam na vitória da Ucrânia, mas ainda mostra uma segunda coisa, que a figura do presidente Zelenskyy é cada vez menos popular na Europa, com exceção de Estados como a Estónia, onde ainda tem uma imagem muito positiva. Em média, menos de 40% dos europeus acredita que o efeito de Zelenskyy se manter na presidência é benéfico. E isso é muito interessante. Pode ser uma de duas coisas: ou é apenas para dar clareza, porque havia já, de facto, várias vozes que se perguntavam por que as famosas sondagens sobre a posição dos europeus tinham, a grosso modo, desaparecido do espaço público. Ou então, é mais um sinal daquilo que eu tenho dito às vezes, há cada vez sinais mais claros de que há uma luta de poder em Kiev, há uma luta inter-elites e há claramente uma luta de posicionar-se e mostrar que o presidente Zelenskyy já não tem a legitimidade plena, numa altura em que há novos rumores e a imprensa ucraniana está cheia desse tipo de notícias, de que Zelenskyy se prepara para eventualmente demitir, inclusivamente, o seu primeiro-ministro.

Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano falou com o homólogo israelita. Kuleba diz que ele e Katz trocaram visões sobre uma série de ameaças regionais e globais colocadas pela Rússia, o Irão e a Coreia do Norte. Professor, no que pode resultar uma eventual cooperação entre os dois países?

Esta é a parte da estratégia da Ucrânia que eu acho que não é a mais inteligente, tendo em conta o efeito tóxico do ponto de vista mediático que a aproximação a Israel pode ter. Portanto, percebendo obviamente que a Ucrânia precisa de ter parceiros, também temos que perceber que, principalmente as ações militares muito descontroladas, muito descompassadas contra civis que Israel vai fazendo, podem ser pouco benéficas para a imagem que a Zelensky quer dar, de ser apenas um povo em modo defensivo e não em modo ofensivo. Portanto, esta parceria, acima de tudo, é para serenar os ânimos nos Estados Unidos. A verdade é que há cada vez mais vozes nos Estados Unidos que pedem uma viragem, olhando apenas para o Médio Oriente, eventualmente para o Extremo Oriente, para a tensão crescente em Taiwan e nas Coreias. E aí Zelensky está a tentar posicionar-se e dizer: "Não, mas nós somos parceiros de Israel e a segurança de Israel depende também de securitizar a Ucrânia", tentar dar a ideia de que isto é um grande conflito global e não apenas conflitos regionais que estão dispersos e deslaçados.

Ontem, ao fim do dia, ficámos a saber que Israel já recebeu a resposta atualizada do Hamas à proposta de cessar-fogo e de libertação dos reféns. Telavive diz que está a analisar a resposta. Tiago André Lopes, entretanto conhecem-se mais pormenores desta proposta do Hamas. Parece-lhe que é desta que há um acordo?

Eu ainda não estou muito otimista, porque a verdade é que nós estamos há três semanas e meia, quatro semanas a falar de propostas e a falar de resposta a propostas.

Que andam para lá e para cá, exactamente.

E nunca temos tido luz verde das duas partes, ou seja, o Hamas vai dando sinais de que a proposta é boa, mas não a aceita de forma clara. Israel mantém-se nesta postura permanente de que está a estudar propostas e respostas a essas propostas e não há um deslace. Agora, há aqui uma data que já passou e que nos próximos dias tem que produzir alguma coisa. Israel estava obrigado a apresentar a 24 de junho um relatório ao Tribunal Internacional de Justiça, com relação às medidas para parar aquilo que estava a acontecer na Faixa de Gaza. E a verdade é que nós já estamos a 1 de julho, passou mais de 10 dias desde o prazo dado pelo tribunal e ainda não há relatório, não há sessão marcada. E a questão que agora fica no ar é por quê? Numa altura em que o próprio Tribunal Penal Internacional também não é capaz de emitir os famosos mandatos de captura, por que o Tribunal Internacional de Justiça, que tem legitimidade sobre todos os membros da ONU, não é capaz de fazer avançar com uma decisão que claramente foi violada?

Entretanto, Israel transferiu cerca de 107 milhões de euros de receitas fiscais retidas para a Autoridade Palestiniana. Segundo os acordos de Oslo de 93, Israel está obrigada a fazer estas transferências todos os meses, mas foram interrompidas em outubro sob a acusação de a Autoridade Palestina financiar o Hamas. Professor, o retomar das transferências tem algum significado?

É um bom sinal, é um sinal de que pelo menos há uma percepção de que nesta frente, na questão económica, Israel tem de facto de cumprir, pelo menos no grau mínimo, com os acordos. É aqui também um sinal claro, e há que dar mérito da interferência norte-americana. São os Estados Unidos que estão por trás desta devolução do dinheiro que já devia ter sido entregue. Mas é também, obviamente, pressão dos parceiros europeus, que estão muito descontentes com esta proposta de legitimação dos colonatos. E é nessa frente que Israel está a tentar jogar, ganhar tempo, porque está a ser muito pressionada pelos europeus. Não é apenas Borrell, vários líderes europeus têm falado de que a legalização dos colonatos não pode ser permitida e não pode ser normalizada.

Professor Tiago André Lopes, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia para si.

Obrigado. Eu é que agradeço.