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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do major-general João Vieira Borges. Muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar por falar sobre o memorando de entendimento entre Irão e Estados Unidos. Começam a ser conhecidos alguns dos pontos que devem ser assinados na sexta-feira, sendo que, major-general João Vieira Borges, o Irão vai poder voltar a exportar petróleo e combustível, segundo esse mesmo memorando de entendimento. Teerão tem por isso motivos para clamar vitória nestas negociações com base nesta decisão?
Muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. Teerão tem, efetivamente, motivos de satisfação, porque a situação anterior a 28 de fevereiro passou a ser mais favorável depois da assinatura deste memorando que terá lugar na próxima sexta-feira. E digo isso independentemente da destruição, independentemente da morte, da mortandade que houve, houve, sobretudo, o atingido de um objetivo fundamental, que era a resistência. Resistir à maior potência mundial, aliada ao maior inimigo do Irão. Essa resistência inevitavelmente provoca uma maior união em torno de um objetivo que é fundamental para o Irão, a tal sobrevivência, e certamente que fortalece a componente militar do regime, designadamente a Guarda Revolucionária Islâmica, em torno de um líder que é um líder ferido, que é um mártir. Portanto, isso deu-lhe uma força enorme, deu-lhe uma força geopolítica na região, designadamente na relação com todos os países do Golfo. Demonstrou na prática que tem maior capacidade e demonstrou que o fato de esses países estarem aliados aos Estados Unidos não lhes trouxe qualquer vantagem, antes pelo contrário. Portanto, a situação geopolítica na região será alterada, na minha perspetiva, independentemente daquilo que disse Trump, será alterada mais no sentido da China ter um espaço de maior intervenção na sua relação com os diversos países, inclusivamente de aproximação entre a Arábia Saudita e o próprio Irão, algo que há três, quatro anos não era minimamente previsível que viesse a acontecer. E esta guerra aproximou, independentemente dos ataques que houve, nas negociações que tiveram lugar, aproximou a própria Arábia Saudita, e eu já nem estou a falar do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos, que inclusivamente negociaram diretamente com o Irão para não serem atingidos por retaliações e com pagamentos de avultadas somas de dinheiro. Nós não temos informação de tudo, nem sequer daquilo que é o memorando, que há de ser divulgado por Trump, ainda não o divulgou por alguma razão. Ele quer divulgá-lo palavra a palavra porque sabe que poderá ser feita a comparação com o próprio acordo de 2015 de Obama e outras situações. Portanto, quer palavra a palavra para fazer logo ele próprio a análise e a interpretação no sentido de não ser esse mesmo acordo, quando for divulgado, ser interpretado de outra maneira por parte dos jornalistas e dos comentadores. Portanto, é também já um indício de que efetivamente a situação é mais favorável para Teerão.
Major-general, essa questão de Donald Trump querer ler o documento palavra a palavra, isto é também sinal de que o presidente norte-americano ficou satisfeito com o que foi alcançado?
É um indício de que não foi um acordo fácil. É um indício de que vai ter que ser ele a fazer a primeira interpretação, porque é uma questão de narrativa, é uma questão de gestão das perceções, e ele quer estar em primeiro lugar para fazer essa mesma interpretação, porque tem consciência que sendo um documento demasiado genérico, pode ser interpretado no sentido dessa derrota clara dos Estados Unidos relativamente ao Irão neste conflito. Portanto, ele diz sempre que é um bom acordo, ele já não diz que é um excelente acordo, ele já não diz que é um acordo melhor do que todos os acordos. Portanto, ele já diz que é um bom acordo, é muito diferente a linguagem. E a partir do momento em que diz que quer ser ele que faz a interpretação, nós percebemos perfeitamente que é um acordo que pode ter interpretações diversas numa linguagem essencialmente político-estratégica, que poderá levar a interpretações que nós sabemos e já deduzimos que coloquem os Estados Unidos numa situação bem pior do que era antes desta guerra. Agora, há aqui outros atores, além de haver oposição entre a China e os Estados Unidos a este memorando, também há divisões claras, como nós já vimos no Irão neste fim de semana, com manifestações contra o memorando. E depois há o outro ator que está fora, que é Israel, que pelos vistos tem que ser pressionado até a próxima sexta-feira, porque há uma relação direta da parte feita pelo Irão e publicamente transmitida pelos seus dirigentes, em especial pelo ministro de Negócios Estrangeiros, que tem um papel importante neste memorando, dizendo que há uma relação direta e, portanto, se não houver paz, Israel na sua relação com o Líbano, obviamente que cessa este memorando e cessa todo o projeto de negociação nos próximos 60 dias.
Major-general, posso depreender dessas palavras de que Israel pode colocar em causa este memorando de entendimento, até porque as forças israelitas continuam a atacar no sul do Líbano, só hoje provocaram quatro mortos. Estas ofensivas põem em causa os progressos alcançados pelo memorando de entendimento?
Já puseram em causa a evolução do memorando, quando estava prestes a ser assinado. Neste momento, estes ataques de hoje, como referiu e bem, já levaram Trump, na cimeira do G7, a referir que Netanyahu tem que ser mais responsável, julgo que foi esta a expressão que ele usou, mais responsável no Líbano. Mas há aqui qualquer coisa que nos está a faltar a nós comentadores na análise. Relativamente à pressão do Irão sobre os Estados Unidos como responsável por garantir que Israel não faça mais ataques no Líbano, há, por outro lado, a parte de responsabilidade do Irão em garantir que o Hezbollah também não faça ataques sobre Israel. E eu não vejo isso nas palavras nem de Trump, nem dos dirigentes mais próximos, que já nos apercebemos todos que foram proibidos de falar. Portanto, neste período crítico até sexta-feira, parece que só Trump vai falar. Exatamente pela grande sensibilidade, só Trump é que vai falar, só Trump é que vai fazer a interpretação. Há aqui algo que saberemos na sexta-feira melhor. Mas esta é uma questão estratégica, e era fundamental, na minha perspetiva, que também se remetesse para o Irão essa mesma responsabilidade relativamente à organização terrorista que eles apoiam e que ataca sistematicamente o norte de Israel. Eu não tenho visto isso, a não ser da parte de Israel, naturalmente, que diz que retaliou sempre os ataques. Mas depois, aquilo que me apercebi há pouco e acho que é importante, andávamos todos com muitas dúvidas relativamente à assinatura, se mantivesse as forças de ocupação, que não era assinado. Não, não é isso. Há pouco já houve um esclarecimento. A retirada das tropas israelitas do Líbano será feita durante a próxima fase, a chamada segunda fase de negociações com os Estados Unidos. A primeira foi difícil. Nós imaginamos a segunda, que será muito mais difícil, não só na questão nuclear, mas certamente nesta questão relativamente ao Líbano.
Major-General, vamos avançar. Temos ainda dois minutos para abordar a Europa. O Parlamento Europeu dá luz verde à implementação do acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos da América. Podemos falar numa melhoria das relações entre as duas partes e dizer que a questão das tarifas, que já tanto falámos neste ano, está ultrapassada?
A questão das tarifas para Trump nunca está ultrapassada. Em qualquer momento, nós sabemos que ele defende a teoria do caos na prática, em qualquer momento poderá voltar novamente a essa situação. É sempre uma arma econômico-político-estratégica para Trump. De qualquer maneira, é um sinal positivo, como disse agora. É um sinal positivo também porque julgo eu que Trump terá sentido a necessidade de ter aliados e, portanto, se entendeu fazer esta operação sem aliados, em função da praxis, da resposta da Europa, dos países europeus em geral e não só, e dos países da NATO, que inclui também o Canadá, certamente que alguém o avisou de que conduzir a política internacional tem que ser feita também com aliados. E os aliados não serão certamente a China e a Rússia, apesar de ele ter feito essas declarações recentemente, de elogio, curiosamente, à Rússia e à China, porque apoiaram o caminho para a paz naquela região do Médio Oriente e inclusivamente não fizeram qualquer intervenção militar que pusesse em risco também a paz entre a Rússia ou entre a China e os Estados Unidos. Obviamente que tudo isto leva a um processo de aprendizagem que, na reunião do G7, está a ter efeito, efeito positivo de união relativamente à situação da Ucrânia, relativamente às relações com a própria Europa. É um bom caminho para as reuniões que vão ter lugar amanhã, preparatórias da cimeira da NATO, que vão ter amanhã lugar em Bruxelas. E, portanto, tudo isto é um processo de aprendizagem dele, Trump, mas também de toda a administração Trump que o tem apoiado.
Chegamos ao final do nosso tempo neste Gabinete de Guerra. Muito obrigado, Major-General João Vieira Borges, esteve na análise estas questões geopolíticas mundiais. O programa está de regresso amanhã. Este e todos os episódios ficam disponíveis em podcast. Resta-me apenas agradecer de novo ao Major-General João Vieira Borges pela análise que fez no Gabinete de Guerra.