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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Falamos de conflitos em curso, falamos principalmente da tensão crescente entre Estados Unidos da América e do Irão. Vamos abordar também o conflito na Ucrânia. Estamos à beira dos quatro anos deste conflito e, naturalmente, também esse revés nas taxas norte-americanas que Donald Trump parece que quer forçar e continuar a aplicar até de outra forma. Ana Cavalieri, bem-vinda à Rádio Observador, especialista em assuntos internacionais, também acompanha de perto a realidade norte-americana. Ana, antes de falarmos desta tensão crescente entre os Estados Unidos da América e Irão, gostaria de falar sobre esta problemática em torno das tarifas. Donald Trump ontem disse que quer agravar as tarifas globais de 10 para 15% e volta, de certa forma, a desafiar o Supremo norte-americano. Que leitura fazes desta posição de Donald Trump? E se está aqui a entrar numa guerra difícil de vencer, Donald Trump.
Daquilo que foi a interpretação do Supremo Tribunal, é preciso lembrar que aquilo que o Supremo Tribunal fez foi dizer que a base legal que Donald Trump estava a utilizar, que é um estatuto específico, uma lei específica aprovada no Congresso nos anos 70, que é o AIPA, não lhe concedia a possibilidade de fazer tarifas, de aplicar tarifas, de forma absolutamente unilateral e quase satisfazendo o seu ímpeto de aplicar tarifas para todos os países, para todos os setores, essas tarifas globais e que ele chama de recíprocas. Basicamente, o que Donald Trump pode fazer agora é tentar ter outros fundamentos legais em outras leis, nomeadamente relativamente a depósitos de segurança nacional, que é isso que tem possibilitado tanto Donald Trump como Biden, de aplicar tarifas relativas a especiais setores que possam ter impacto na segurança nacional. Ele fez isso, por exemplo, relativamente à China, ou também relativamente a determinadas cadeias de abastecimento e de valores, para conseguir, no fundo, ter uma posição geoestratégica mais favorável. E ele tem utilizado dois artigos de outra lei para aplicar essas tarifas. Agora, ter estes ímpetos que eu penso que é impossível remeter a uma ideologia absolutamente estável de política comercial, quando ele só para, no fundo, reagir a uma contrariedade do Supremo Tribunal, ele decide passar 10% para 15%. E eu penso que fica claro aquilo que é as bases que ele tem utilizado para estas tarifas, que ele, no fundo, gosta de usar tarifas para ter uma espécie de ascendente negocial quando está a fazer acordos, quando está a negociar acordos comerciais com os seus vários parceiros. Então ele utiliza isso como leverage para tentar impor a sua vontade ou melhores condições para os Estados Unidos na negociação. Tenta também usar tarifas para perseguir uma política de reindustrialização dos Estados Unidos, quebrando dependências daquilo que tem sido o outsourcing da capacidade industrial americana para outros países, nomeadamente a China, mas também outros países do sudoeste asiático, por exemplo. E depois ele também utiliza tarifas para conseguir fazer uma espécie de decoupling, ou seja, de tornar-se independente daquilo que são as fragilidades das dependências de cadeias de abastecimento relativamente à China. E no fundo, a lógica é: nós não podemos estar dependentes naquilo que é a nossa subsistência das linhas e cadeias de abastecimento, relativamente ao nosso mais importante adversário geopolítico. Estas são as três grandes razões que Donald Trump utiliza para aplicar tarifas. Todavia, tarifas relativamente a parceiros econômicos como a União Europeia e outros parceiros, é um pouco difícil de justificar, se entendermos que a razão ou fundamento legal que ele utiliza é aquele estatuto, que é o AIPA, que possibilita o presidente ter mais poderes relativamente a emergências econômicas. Ora, não me parece que para a União Europeia esteja em casa relativamente à relação comercial que nós temos com os Estados Unidos, não há ali uma emergência econômica que justificasse a utilização do AIPA. E eu penso que vai ser também um pouco estranho, porque na terça-feira vai haver o chamado State of the Union Address, ou seja, é o discurso anual que o presidente dos Estados Unidos dá perante o Congresso, e os juízes são convidados sempre para assistir. Ele já disse que eles vão ser convidados, mas muito a contragosto. E também há uma coisa boa para retirar disso, é que as pessoas que acham que o Supremo Tribunal, por ter uma maioria chamada conservadora, está a fazer de forma acéfala ou de uma forma cega as vontades do presidente, aqui podem ter a prova que isso não é verdade.
Vamos ver como avança também este processo em torno das taxas, mas naturalmente, esta guerra comercial passa a ter também focos de conflito dentro dos próprios Estados Unidos da América. Vamos falar desta crescente tensão entre Estados Unidos e Irão. Nos últimos dias, temos dito, de certa forma, que pode estar iminente, acaba por ser um pouco redundante também esta expressão. Mas a verdade é que Donald Trump admite um ataque limitado contra o Irão, depois coloca Prazos e deu um período entre 10 a 15 dias para tomar uma decisão, mas sabemos que com Donald Trump estes prazos podem nem sequer ser cumpridos. É sempre muito imprevisível o presidente norte-americano. O que sabemos nesta altura e o que pode levar os Estados Unidos da América a avançarem mesmo com o ataque sobre o Irão?
Eu penso que toda esta mobilização, nós temos aquilo a que se chama dois air strikers, ou seja, são dois porta-aviões, o USS Lincoln e o USS Gerald Ford. O Gerald Ford é talvez o porta-aviões mais sofisticado e poderoso que alguma vez foi feito. Sabemos que eles estão bem posicionados. Também sabemos que durante os últimos dias, aeronaves estratégicas de carga que estão a levar para o Médio Oriente todas as capacidades que serão necessárias para defender não só os porta-aviões, porque o pior que poderia acontecer a Donald Trump é que se o Irão respondesse, ainda com os mísseis balísticos e os drones que têm, e se conseguissem ferir, para não dizer pior, afundar, mas se conseguissem ferir um destes dois porta-aviões, isto seria uma desgraça para o presidente americano. Também seria uma desgraça se os iranianos conseguissem atingir de forma relevante as bases que os Estados Unidos têm, não só no Catar, mas também em Omã, nos Emirados Árabes Unidos. Isso é algo que é preocupante. Então nós sabemos que há uma mobilização extensa e intensa relativamente àquilo que são as capacidades de defesa antiaérea. Isso é importante. Basicamente, toda a estrutura militar americana neste momento está não só a mover-se relativamente àquilo que são os serviços de informação americanos e também os israelitas, para saber verdadeiramente quais virão ser os alvos específicos que os americanos estão prontos para atacar, que serão alvos absolutamente cruciais relativamente à guarda revolucionária e consigam ferir o regime dos aiatolas, mas também precisam de se preparar para aquilo que será uma possível retaliação, para tentar fazer com que os Estados Unidos não tenham quaisquer vítimas mortais dos seus soldados, isso é fundamental, mas também do seu próprio armamento e dos seus porta-aviões e dos seus aviões. Isso para o Trump é fundamental, reiterando que ele vai ter o State of the Union Address, ou seja, aquele discurso anual sobre o Estado da União na terça-feira, e eu penso que ele também está a lidar com esse momento. E eu penso que ele estará a não querer atacar antes de terça-feira para poupar qualquer tipo de consequências negativas que depois ele tenha de explicar ou de atualizar o seu discurso na terça-feira. E então eu penso que se haver ataque, será depois de terça-feira, mas eu posso estar enganada, pode ser que ele queira jogar com esse discurso na terça-feira e se ele tiver a certeza do bom sucesso dessa operação, então ele hoje ou amanhã, ou mesmo na terça-feira durante o dia, mas não, serão à madrugada, em princípio, os ataques, ele querer avançar.
De facto, só essa descrição de cenários e de possibilidades mostra o quão imprevisível acaba por ser Donald Trump, mesmo em assuntos tão sérios como estes de um possível ataque a outro país.
Exatamente.
O Irão, de facto, pode fazer alguma coisa nos próximos dias para inverter totalmente esta situação. Do lado do Irão, parece manter-se tudo na mesma. Donald Trump considera que estão a desafiar a autoridade, neste caso, a possível autoridade dos Estados Unidos da América, e o Irão parece manter-se como se nada fosse.
Há três exigências que os americanos estão a fazer para não executar este ataque. É o programa nuclear, ou seja, haver um abandono total desse programa nuclear, sendo certo que o ataque em julho com os bombardeiros B-2 fortemente teriam ferido de morte o programa nuclear, mas isso ainda estará em cima da mesa. Também a ausência ou o abandono do programa de desenvolvimento dos mísseis de longo alcance e de drones, e também cessar o financiamento de grupos terroristas como o Hamas e o Hezbollah. Nós sabemos que o Irão é o maior financiador de terrorismo no mundo, e isso seria uma outra reivindicação que os americanos estão a fazer. Todavia, é preciso referir que ele tinha estabelecido duas linhas vermelhas há poucas semanas, relativamente aos manifestantes que foram mortos. Ele primeiro disse que se os manifestantes fossem mortos, haveria consequências, e também se aqueles que tinham sido presos fossem executados, também haveria consequências. Ora, se não haver consequências, e atenção, eu não estou a criticar o fato dessas consequências demorarem semanas a acontecer, porque os americanos para atacarem, naturalmente, precisam de semanas para mobilizar todos os seus "assets" para exercer essas consequências sem haver vítimas americanas e sem haver destruição do seu próprio equipamento e das suas bases. Não é essa a minha crítica. A minha crítica é que se não houver consequências, independentemente daquilo que têm sido os objetivos geopolíticos, é uma descredibilização da autoridade de Donald Trump.
Ana Cavalheiro, estamos mesmo a chegar ao final do nosso tempo. Só um, dois minutos para abordar a situação na Ucrânia, porque tivemos mais explosões. Estamos à beira de quatro anos deste conflito, isso vai acontecer na próxima terça-feira. Tivemos reuniões trilaterais nas últimas semanas, continuamos a ter reuniões em agenda, mas o conflito não abranda.
Exato, não abranda e a entrada deste quinto ano demonstra a incompetência daquilo que têm sido as Forças Armadas Russas e daquilo que tinham sido as expectativas de Putin, porque principalmente no último ano, com o sacrifício de centenas de milhares de soldados russos, o avanço do território por parte de Putin é muito lento, nomeadamente esta última semana, por causa da ausência do serviço de Starlink, que os russos não têm conseguido ter acesso para fazer os seus ataques de drones. Os ucranianos têm conseguido, de forma muito heroica, algumas contraofensivas na zona de Kupiansk e Zaporizhzhia, que têm sido muito importantes e para a moral do exército ucraniano, isso tem sido importante. Agora, aquilo que têm sido as dissidências fundamentais, que é no fundo, os Estados Unidos a quererem pressionar a Ucrânia de ceder o controle militar de facto do território que ainda tem em Donetsk. Os ucranianos, e bem, consideram isso inaceitável. E também não tem havido nenhuma indicação que os russos estão dispostos a aceitar aquilo que são as garantias de segurança que os Estados Unidos estão prontos e os parceiros europeus estão prontos a oferecer à Ucrânia para dissuadir aquilo que será a renovação da ambição russa, com certeza, de tentar invadir ou ter toda a Ucrânia sobre a sua esfera de influência. E ainda não há novidades sobre esses dois grandes pontos de dissidência.
Ana Cavalheiro, muito obrigado por esta participação no "Guerra &" e bom fim de semana.
Muito obrigada