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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360º, esta segunda-feira com análise de Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João. Bom dia, boa segunda-feira.
Igualmente. Começamos por Donald Trump, que em entrevista ao Financial Times deixou uma ameaça às Nações Unidas. Disse: "A NATO arrisca-se a ter um futuro muito sombrio se os aliados dos Estados Unidos não contribuírem para a reabertura do Estreito de Hormuz". Então Miguel, afinal a NATO e os aliados importam, onde é que está o Conselho de Paz?
Pois a NATO importa. A NATO importa primeiro porque é quem garante aos países, às nações amigas da NATO, é quem garante o pagamento às empresas norte-americanas de produção militar e, portanto, isso na altura obrigou a que efetivamente Donald Trump se focasse na questão do aumento daquilo que era a contribuição para a questão militar por parte dos países da NATO para chegar aos 5%. E agora Donald Trump tem um problema, é que Donald Trump criou um problema no Médio Oriente, um problema sério no Estreito de Hormuz, e criou este problema que entretanto globalizou economicamente para o restante mundo. E, portanto, o Irão está nesta batalha, não só no campo militar, mas no campo económico, e neste momento Donald Trump precisa de diluir política e militarmente esta questão, obrigando a que os países da NATO entrem neste processo, ajudem efetivamente a desbloquear o Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% daquilo que é o combustível que nós utilizamos. Mas acima de tudo, ele quer fazer duas coisas. Ele quer, primeiro, quer dividir os custos militares, porque já se percebeu que isto afinal não é aquela guerra de meia dúzia de dias que Donald Trump talvez tenha pensado.
Imagine, pois.
Talvez tenha pensado na sua cabeça por falta de informação, porque não ouve os chefes militares, porque Marco Rubio, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, como nem os sapatos pode escolher, aparentemente ficámos a saber que é Donald Trump que escolhe os sapatos que toda a gente tem que usar na Casa Branca, e portanto, ninguém deve lhe ter dito grande informação e ele, puxado pelos israelitas, acaba por entrar nesta guerra. E neste momento precisa de diluir custos militares, mas custos políticos, porque internamente Donald Trump não consegue mais justificar a razão porque foi feita esta guerra, uma vez que dos cinco principais objetivos, que é a destruição do regime, permitir que houvesse uma revolução no povo iraniano, destruição do programa de mísseis balísticos, do programa nuclear e destruição das defesas, quer aéreas, quer da marinha, nenhum destes cinco objetivos foi cumprido. E, portanto, Donald Trump precisa trazer agora os aliados da NATO para que os aliados da NATO entrassem neste processo, para que esta guerra, para que todo este processo deixasse de ser só norte-americano e passasse a ser efetivamente uma questão da NATO, uma questão que fosse alargada, permitindo assim até ele, de alguma forma, poder retirar parte das forças americanas e estarem lá, por exemplo, forças francesas, alemãs, inglesas, etc. A Alemanha já disse que não vai participar e já disse que esta não é a prioridade europeia, que a prioridade europeia é a questão ucraniana, é a questão da Rússia. Em relação ao Conselho para a Paz, esse órgão que ele criou a tentar rivalizar com as Nações Unidas, basta ver quem é que nós tínhamos lá. Nós temos lá tudo o que é, digamos assim, o pior do mundo geopolítico e internacional. O Vladimir Putin, o outro senhor amigo dele, da Bielorrússia e por aí em diante. Portanto, como aquilo é um conjunto de pessoas que na altura se juntaram a Donald Trump porque queriam ficar bem na fotografia, efetivamente que aquilo é, digamos assim, é quase como se fosse uma administração de uma empresa que quer tomar a economia internacional e Donald Trump quer fazer daquilo como se fosse um feudo seu. E portanto, agora precisa dos aliados da NATO, mas os aliados da NATO não querem efetivamente entrar neste lamaçal político e militar em que Donald Trump se pôs, primeiro porque não querem ficar com a responsabilidade e depois porque perceberam que neste momento os Estados Unidos querem encontrar uma rota de fuga deste problema criado, acima de tudo porque esta guerra é de Israel.
Mas no meio de tudo o que está a passar, é a Rússia que está a ganhar com este conflito. O Irão diz que tanto Rússia como China estão a prestar cooperação militar. O que isso significa?
Bom, nós sabíamos desde há muito tempo que a Rússia, já na altura da guerra dos 12 dias, que a Rússia tinha dado imensa cooperação militar. Na altura, inclusive, todo o sistema de defesa era coordenado por um sistema russo. Neste momento, nós sabemos que o sistema deixou de ser russo, passou a ser um sistema chinês. Por isso também é que se acredita que a precisão dos alvos e a tática utilizada desde o primeiro dia de resposta a Israel e aos Estados Unidos correu tão bem, digamos assim. E portanto, nós sabemos que grande parte dos mísseis e de tecnologia dos mísseis balísticos também vem da China e há o interesse, quer da China quer da Rússia, de não permitir que este regime caia. Primeiro, porque a China depende, em grande parte, daquilo que é o combustível que vem do Irão. Tem um contrato com o Irão com um preço fixo. Portanto, neste momento, a China não sofre do problema de aumento de preços, porque tem um preço fixo nesse contrato por um período muito longo. E depois tem outra questão: a Rússia não só ganha.
Aliás, as sanções já foram levantadas sobre o petróleo russo por parte dos Estados Unidos.
Exatamente. Não só ganha no campo econômico, porque com o aumento do preço do petróleo, a Rússia também o vende mais caro. E se em fevereiro a Rússia tinha tido o seu pior ano em termos de exportação de combustíveis, vai ter agora, com certeza, um dos melhores meses, porque vai conseguir vendê-lo a um preço muito elevado, fornecendo assim mais capacidade à sua economia de guerra e mais capacidade de continuar a guerra na Ucrânia. Depois tem outra questão, não esquecendo que muita da tecnologia militar que hoje é utilizada na guerra contra a Ucrânia, nomeadamente os drones, são fabricados no Irão. E depois tem aqui uma conclusão que é muito óbvia: nem a Rússia nem a China querem perder esta capacidade política que têm no Oriente Médio. O Irão também serve de proxy aos dois para este combate, para esta guerra com os Estados Unidos. E os Estados Unidos estão realmente agora aqui numa encruzilhada muito grande, porque veem a Rússia a ganhar no campo econômico, mas também no campo político. E se formos pensar, até no campo jurídico, porque se andamos aqui a criticar, por razão do direito internacional, que a Rússia não poderia invadir a Ucrânia, neste momento, a Rússia tem agora este respaldo por parte dos Estados Unidos, porque os Estados Unidos acabam por fazer a mesma coisa, que é atacar o Irão. Portanto, política e economicamente, são os vencedores. E a China é também. Não militarmente, mas economicamente é. E depois tem outra coisa, muito rapidamente. A China demonstrou, nesta situação, que é um parceiro internacional fiável, nomeadamente para aquilo que é o sul global. Ou seja, a China acaba por ser o país internacional que maior cooperação econômica, estratégica e política tem com o mundo. Mundo esse onde os Estados Unidos antigamente estavam e que foram saindo ao pouco ao longo dos últimos 20, 25 anos, e que a China foi entrando e foi tomando o lugar dos Estados Unidos. E enquanto os Estados Unidos vão para a mesa das negociações, quer seja com a Venezuela, quer seja com o Irão, e a meio das negociações decidem atacar e fazer uma intervenção militar, a China não faz isso. Até porque a China não se preocupa com os regimes com quem está a negociar. Preocupa-se, efetivamente, é com a questão econômica e com a questão da cooperação. Portanto, a China também, no mundo geopolítico e no mundo das relações internacionais, ganha com esta intervenção que os Estados Unidos estão a fazer.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra da boa semana. Obrigada, Miguel.
Não, obrigada. Bom dia. Obrigado.