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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares. Conosco temos hoje a especialista em Relações Internacionais, Daniela Nunes. Boa tarde, Daniela. Começamos inevitavelmente pelo Médio Oriente e pelos ataques a aparelhos nas últimas horas. Ontem, milhares de pagers explodiram, centenas de elementos do Hezbollah ficaram feridos, mas há também 12 mortos, entre eles duas crianças. O Hezbollah responsabiliza Israel pelo ataque, de resto, diz já ter atacado apostos militares israelitas já em retaliação a estas explosões. Agora há também a notícia de walkie-talkies a explodir no Líbano. Daniela, estamos aqui a falar de um ataque com milhares de aparelhos a explodir em simultâneo. Necessitou, necessariamente, de bastante planeamento este ataque.

Olá, Luís, boa tarde, boa tarde a todos e também aos nossos ouvintes. Primeiro, deixa-me fazer aqui uma distinção entre duas coisas que me parecem muito importantes. A primeira é que o Hezbollah não é o Líbano. E a segunda é que o Líbano é um Estado, como de resto é Israel, Portugal ou Espanha, e goza, por isso mesmo, de um conjunto de mecanismos, proteções, leis e até de uma certa conduta de que não gozam grupos como o Hezbollah, mas também o Hamas e a Jihad Islâmica. Isto serve para dizer o quê? Serve para dizer que há uma diferença entre as respostas israelitas aos ataques de um grupo terrorista, que é o Hezbollah, e atacar o que está para lá deste grupo, portanto, neste caso, o Líbano, hostilizando e envolvendo diretamente, e já agora fatalmente também, porque morreram muitas pessoas, um conjunto de elementos, designadamente civis e crianças, que não têm propriamente alguma coisa a ver com a dinâmica de conflitualidade que opõe forças israelitas e forças terroristas estacionadas no Líbano. Assim é que é. Parece-me esta uma distinção muito relevante na medida em que há aqui um autor internacional com um peso distinto do Hezbollah, que é o Líbano, e isso pode trazer a Israel um conjunto de consequências indesejáveis, como, por exemplo, o que já está a acontecer com o Egito, que é a reprovação de um conjunto de Estados, não só o Egito, mas o Egito já se manifestou, que têm até aqui tido um papel bastante preponderante na mediação do conflito em toda a região do Médio Oriente. E já agora dizer também que estes passos dados por Israel, às vezes maiores do que a perna, colocam também aqui os Estados Unidos numa posição algo complicada. Nós sabemos que menos de 24 horas depois do sucedido, o Pentágono, por alguma razão, veio muito rapidamente a público demarcar-se das explosões e dizer que Washington não teve nada a ver com elas. Estou a referir aqui às explosões com os pagers. Agora, também me parece que tudo isto pode ter fomentado aqui um outro debate, e este mais ao nível das causas e muito particularmente ao nível do timing destas explosões, que começaram anteontem e que pelos vistos continuam ontem e anteontem.

E hoje mesmo também.

Foram os pagers e hoje mesmo a questão dos walkie-talkies. Por que agora? É uma questão pertinente e há várias teorias em cima da mesa. Eu posso sucintamente deixar aqui três em cima da mesa. A primeira tem a ver com questões domésticas. O que aconteceu na segunda-feira veio, de certa forma, atrasar um processo delicado para o executivo israelita, no momento em que estava por definir, ou continua por definir, aliás, a manutenção ou a saída do ministro Galante da Pasta da Defesa em Israel. Para já, tudo isto ficou em suspenso e é um problema, digamos que empurrado com a barriga. Outra teoria diz respeito a uma tentativa de demonstrar capacidades por parte das forças israelitas. Isto tem tudo a ver com a forma como a abertura de uma frente no Líbano não impede Israel de continuar a sua batalha em Gaza. Há aqui uma clara demonstração de que o país, Israel, consegue fazer face a todas as ameaças e em simultâneo, portanto, em várias frentes. E finalmente, e esta, a meu ver, pode ser a teoria mais viável, ou pelo menos aquela que faz mais sentido, que tem a ver com uma questão de oportunidade. Aparentemente, na segunda-feira, Israel desconfiava que o Hezbollah, de alguma forma, tinha conseguido descobrir a estratégia dos pagers, e antes que fosse possível colmatar os estragos causados pelas explosões de segunda-feira, Israel decidiu não perder a oportunidade e avançar no imediato. Porventura numa altura mais precoce do que o inicialmente imaginado, mas de qualquer das formas com resultado final, eu diria, bastante satisfatório aos olhos do executivo de Netanyahu.

Daniela, olhando um pouco para as consequências, já falou um pouco disso também, mas, por exemplo, a Rússia na reação a estes ataques diz que foi para provocar uma enorme guerra no Médio Oriente. Há pouco também houve uma declaração de António Guterres a dizer que estes eventos confirmam que há um risco sério e dramático de uma escalada de tensão também no Líbano. O que muda, o que estas explosões vêm mudar na forma como a comunidade internacional pode olhar para Israel?

Luís, francamente, julgo que nada. Nós todos já temos uma perceção algo negra sobre a postura e as metodologias que Israel tem vindo, e muito especificamente este executivo israelita, tem vindo a adotar. E mesmo a posição da Rússia, certamente também a do Irão, que eu ainda não conheço, mas penso que já houve alguma manifestação iraniana sobre o que está a acontecer no Líbano, e naturalmente, não é? Sabemos que estes Estados árabes têm desenvolvido e têm fomentado o estreitar de laços uns com os outros Especialmente desde o 7 de outubro. É natural que estes países, onde se inclui também a Rússia, por uma questão de interesses econômicos, mas também diplomáticos, venham alimentar a narrativa de que Israel, à semelhança do que está a fazer desde 7 de outubro, está a correr riscos desnecessários e também, como eu comecei por dizer, está a envolver um ator internacional, que é um Estado que goza de um conjunto de prerrogativas que não estão ao nível dos grupos terroristas como o Hezbollah, como o Hamas e também a Jihad Islâmica. Não valia a pena, era perfeitamente desnecessário envolver o Líbano nesta dinâmica de conflitualidade. A comunidade internacional pode ter um olhar em relação à luta dos israelitas contra um conjunto de grupos terroristas, que é, de resto, uma luta do mundo ocidental e não apenas dos israelitas. Ninguém se esquece da luta dos Estados Unidos contra Osama bin Laden e contra as forças da Al-Qaeda. Tudo isto é uma luta global, ocidental, democrática, mas que Israel, infelizmente, está a minar por envolver Estados, entidades que não têm nada a ver com este conflito, no conflito. E também, de alguma forma, por distorcer esta luta, no contexto da qual e no âmbito da qual poderia recolher muito mais apoios do que aquilo que tem recolhido. Por isso, julgo que não há grande novidade em relação a essas manifestações, estão perfeitamente em conformidade com aquilo que têm vindo a ser as posições, neste caso, como dizias, da Rússia.

Já agora, só para ficar aqui também essa nota, a reação do Irã foi de condenar necessariamente o que aconteceu, fala num assassínio em massa e apela à comunidade internacional também para atuar rapidamente para contrariar aquilo que deixa ser a impunidade das autoridades criminosas sionistas, é o que diz o comunicado de Israel.

Claro, naturalmente. Isso está perfeitamente, como eu dizia, em conformidade com o que é uma narrativa israelita, que é de querer minar e dizimar não apenas um conjunto de grupos terroristas que rodeiam o Estado de Israel, mas também um conjunto de Estados árabes. Não conseguem dizimar um Estado palestiniano, porque nem sequer permitem que ele exista. Nesse sentido, acho que estamos aqui a lidar com uma normalidade muito infeliz. Eu ia dizer desde 7 de outubro, mas na verdade, esta normalidade já tem décadas. É Israel, a meu ver, esta é uma leitura bastante pessoal, quem está a fomentar aqui uma, é arriscado dizer, aproximação da comunidade internacional à narrativa iraniana, que é aquela que estamos a falar. Mas o que é fato é que muitas vezes estes Estados, estas narrativas por eles desenhadas, do ponto de vista daquilo que acontece no terreno, fazem sentido, têm razão. Aquilo que está a acontecer no Líbano era perfeitamente desnecessário. Não faz sentido na dinâmica da conflitualidade que envolve e que opõe forças israelitas e forças terroristas, neste caso, do Hezbollah, o Líbano não tem que ser um ator necessariamente envolvido. As forças terroristas estão estacionadas no Líbano, mas esse, a meu ver, é um acaso. Isso não significa que o Líbano deva ser envolvido neste conflito, até porque Israel, não sei se este governo, se este executivo liderado por Netanyahu tem essa noção, isso não será benéfico na dinâmica que envolve depois também Estados como o Irã, protetores de um conjunto de outros Estados árabes mais pequenos. O Irã é um Estado com poder nuclear e se tiver que ir em socorro destes seus irmãos mais novos árabes, está aqui também em jogo a ameaça nuclear. Nesse sentido, penso que, mas isso já há muito tempo, Israel e Netanyahu têm sido bastante inconsequentes.

Daniela Nunes, vamos olhar ainda nos minutos que nos restam deste gabinete de guerra para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Os Estados Unidos dizem que já tiveram acesso ao chamado plano de vitória de Volodymyr Zelensky, que é o plano que o chefe de Estado ucraniano prometeu apresentar a todos os aliados na próxima semana. Ainda não se sabe muito do que é exatamente este plano, mas o que é que ele vale? O que vale este plano de vitória de Volodymyr Zelensky?

É exatamente como dizes, Luís. Nós ainda não conhecemos os contornos exatos deste plano, sabemos algumas coisas sobre ele e, por exemplo, já até sabemos a mais importante de todas, que é: este plano não é uma proposta de cessar-fogo, não é um baixar de guarda relativamente ao que são as condições básicas de integridade territorial e soberania da Ucrânia e este plano não é uma oferta de paz ao agressor russo.

Daí chamar-se um plano de vitória e não um plano de paz.

Justamente. Este plano não serve para abrir caminho à capitulação ou ao congelamento das coisas como elas estão. E aliás, como sabemos que acontece noutros casos, noutras antigas repúblicas da União Soviética, onde é comum designar por congelados aqueles conflitos que desde o princípio da década de 90 esperam por uma solução viável. Agora, e mesmo tendo as autoridades ucranianas sido muito discretas acerca do tal plano de vitória, o que sabemos também é que, ponto número um, a operação em Kursk já faz parte dele, já faz parte deste plano, já integra uma estratégia de levar a guerra até à Rússia, mas isto também não é propriamente uma novidade. O próprio Zelensky já veio várias vezes falar nessa tentativa de levar o conflito e as consequências mais práticas do conflito até à origem de tudo, até à Rússia. Sabemos ainda, ponto número dois, que este plano vai procurar propor um esvaziamento diplomático e económico da Rússia, por via de estratégias, essas ainda desconhecidas, mas estratégias que incluem os parceiros da Ucrânia e também alguns países que se têm mantido algo neutros neste conflito, numa tentativa de chamar a atenção desses países para as consequências globais de deixar a Rússia vencer na Ucrânia. Sabemos também que, como começaste por dizer, Luís, parte deste plano ou o plano na íntegra, não sabemos, já será do conhecimento do secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, mas que ainda não é do conhecimento do presidente Biden. Os Estados Unidos aqui numa posição de preponderância e de altíssimo importantismo, os primeiros a ter algumas noções acerca dos planos do executivo ucraniano para os próximos tempos e muito provavelmente também Zelensky e a sua comitiva a querer aqui fechar algumas negociações e algumas conversações importantes com a administração norte-americana vigente antes da eleição de novembro. Eu julgo que muito em breve teremos mais novidades e todos os detalhes sobre este plano, mas para já parece-me que o mais importante é começar por frisar que ele não é uma proposta de abrandamento do conflito, precisamente por isso chama-se plano de vitória e não plano de abrandamento ou plano de cessar-fogo. E dizer também que se este fosse um plano de cessar-fogo ou um plano de abrandamento do conflito, isso só afastaria a atenção do mundo e imediatamente a atenção mediática do mundo em relação a esta guerra e obviamente ofereceria à Rússia um tempo de ponderação e um tempo de preparação que a Ucrânia e os aliados obviamente não querem oferecer-lhe de mão beijada.

Daniela Nunes, muito obrigado pela sua análise. Eu sou o Luís Soares, este foi mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador.