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Como fica o conflito do Médio Oriente com a morte de Yahya Sinwar, líder do Hamas, e também o plano de vitória para a Ucrânia apresentado por Zelensky esta semana. Temas para detalhar neste gabinete de guerra, hoje com Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Eu sou Miguel Cordeiro e vamos começar precisamente pelo Médio Oriente. Jorge Rodrigues, a morte de Sinwar está em destaque. Há, nesta altura, com a morte do líder do Hamas, condições para pensar num cenário de paz?
Boa tarde, Miguel. Isso é o "if only", que realmente seria um bom momento, talvez o melhor momento que temos desde o início do conflito, em que as condições acabam por se reunir nessa direção. Queiram os atores, nós temos visto a comunidade internacional, de alguma forma, a falar no day after, a pressionar um pouco no sentido de indicar que estão reunidas as condições que podem mudar a sua atitude a posteriori. Vemos os Estados Unidos, vemos os aliados naturais, embora já não muito, de Israel, como Espanha, Irlanda, França, Reino Unido, Alemanha e mesmo Itália, com Meloni a visitar o Líbano, a irem mudando a sua atitude e a deixar bem claro que esse apoio pode estar em casa, de forma a pressionar realmente Israel. Só que os atores locais não me parecem tão orientados nessa direção. Por um lado, temos o Hamas, que já indicou que vai continuar o combate enquanto a ofensiva israelita prosseguir. Tem na mão uma imagem moralizadora de um mártir inspirador, já que foi apanhado em situação de combate e não escondido num túnel. Prepara-se já com uma liderança para substituir Sinwar. Ele já não liderava muito, é verdade. Pelo menos operacionalmente, era mais uma referência moral e de alguma forma já prepara uma liderança bipartida, como teve no passado, eventualmente com Khaled Meshaal no Qatar, política, e o irmão de Sinwar, mesmo para valorizar essa questão moral, Mohammed Sinwar, para a liderança militar no terreno. E o Hamas com as características centralizadas e com a capacidade renovadora, de alguma forma apoiada numa ajuda externa do Irão, poderá continuar esse combate, porque realmente é particularmente difícil a situação em Gaza. Do lado de Israel, teve uma grande vitória, não há dúvida nenhuma. Juntamente com os restantes líderes, já foi eliminando seja do Hamas, seja outros líderes do eixo de resistência, tem um efeito moral muito elevado. Demonstra que persegue sem desistir e tem uma taxa de sucesso assinalável. Estamos obviamente referindo-os ao ponto de vista operacional e não a uma opinião pessoal, naturalmente. Portanto, as condições para a paz parece-me que poderão ainda não existir ou ainda não existe esse equilíbrio. Aliás, Netanyahu já deixou bem claro que prefere a via militar à política e negociação. Basicamente, disse: "Rendam-se e libertam os reféns ou morrem". Portanto, demonstra que os objetivos ainda não estão atingidos e que pretende explorar o sucesso. A prioridade nunca terão sido propriamente os reféns, é uma verdade, e poderá usá-los como uma desculpa para tentar adquirir o que perdeu, a imagem que ficou danificada no sete de setembro, dissuadir novos ataques dos seus adversários e aproveitar, por que não? Nós sabemos que a realidade é mesmo assim, aproveitar para alargar a influência regional, nomeadamente nos territórios que estão fronteiriços com Israel.
Sendo que Netanyahu já convocou essa reunião extraordinária do Conselho de Segurança para discutir as implicações da morte de Sinwar e essas negociações com vista à libertação de reféns. Já Joe Biden, que está pela Alemanha, já disse hoje, por exemplo, que esta morte do líder do Hamas abre um caminho para um cessar-fogo. Esta pressão dos Estados Unidos é importante? O papel dos Estados Unidos neste conflito a partir de agora?
Muito bem perguntado, Miguel. É essencial. Só os Estados Unidos poderão travar Israel. Aliás, essa aliança é uma aliança armadilha, em que o mais pequeno acaba por liderar as capacidades de Netanyahu conseguir negociar bem, mas nunca cumprir a sua parte. Aliás, a famosa discussão com Clinton, em que Clinton perguntava quem é afinal a superpotência. A verdade é que tem tido sempre sucesso, apoiando-se muito na necessidade dos Estados Unidos de manter um ponto de ligação na região, apesar de estar a desenvolver uma retração estratégica no Médio Oriente, não pode abdicar de ter o seu único representante da ordem liberal na região. Por outro lado, tem uma pressão interna da comunidade judaica que também não é deficiente, nomeadamente no momento de eleições. Mas as prioridades dos Estados Unidos são outras. A nível interno, precisa de resultados imediatos para ainda serem válidos para o momento das eleições e a nível externo precisa, de alguma forma, voltar a tentar equilibrar a competição global, se estamos a falar de outra dimensão, de uma competição a nível de sistema político internacional, em que precisa de, por um lado, sinalizar a retração e as outras prioridades, mas por outro lado, sinalizar que vai intervir no grande tabuleiro e avisa o Irão e os respectivos aliados. E como é que o fez? Por três linhas de ação, uma demonstrando o apoio incondicional quando enviou os sete sistemas THAAD, de defesa aérea para Israel, outro com a movimentação de tropas e esquadras para a região e o terceiro Passou um pouco despercebido, talvez, mas com o ataque dos bombardeiros B-52 às forças do IRGC é muito acima do que é necessário a nível operacional, mas foi uma sinalização para deixar bem claro, e nomeadamente ao Irão, que vai intervir e que não deixará passar em vão qualquer ataque e qualquer situação que coloque em causa a existência de Israel.
Temos ainda tempo para falar um pouco sobre a Ucrânia e sobre esta semana da apresentação do Plano de Vitória, apresentado no Parlamento Ucraniano, apresentado também durante a semana aos países que fazem parte da União Europeia, aos líderes europeus. De fato, este plano pode mudar alguma coisa. Já hoje Vladimir Putin disse que é impossível derrotar a Rússia no campo de batalha, de certa forma a dizer também que a Rússia está disponível para negociar, claro, mas noutros termos, nos termos que a Rússia considera justos. De que serve, afinal, este plano de vitória? Pode alterar alguma coisa neste conflito, este plano de Zelensky?
Miguel, verdadeiramente quem mais reagiu foi Putin, de fato, em que lhe deu alguma importância. Falou na provocação perigosa da Ucrânia ter armamento nuclear, falou na disponibilidade para negociações, mas com base em Istambul de 2022, que basicamente se refere à perda de território nacional da Ucrânia, à neutralidade da Ucrânia, ou seja, não entrar na NATO, não aderir à NATO, e não ter armamento especial, ou seja, ser armamento básico que impedisse, de alguma forma, colocar em causa a segurança da Rússia. Porque verdadeiramente pareceu uma ação de tentativa de dinamizar para trazer a opinião pública ocidental e pressionar os líderes ocidentais, mas também, custa dizer, alguma ação de desespero, em que verdadeiramente não vemos em nenhum dos cinco pontos levantados grande probabilidade do sucesso. E por que agora? Porque a situação no terreno está péssima para a Ucrânia. Está a perder a norte, está a perder em Kharkiv, Kupyansk tem um plano de evacuação obrigatório para 4 mil cidadãos, perde na Rússia. A Rússia está a tentar procurar ocupar o máximo de terreno, tentando antecipar umas negociações em que pretende ter uma posição vantajosa com alguma capacidade de conquistar terreno na própria Ucrânia e criar ali uma buffer zone nas províncias que já se tinham indicado. Mas está a fazê-lo à custa de 1500 mortos/dia. É muito, mas a Rússia está realmente a apostar forte nessa situação. Por outro lado, os líderes ocidentais também um pouco... Zelensky não teve sorte, a situação no Médio Oriente tirou-lhe alguma visibilidade, acabou por não ser notícia como pensaria que iria ser. O Biden chegou tarde, não esteve presente no momento do lançamento. Foi todo um conjunto de aspetos.
Joe Biden está agora na Alemanha, com reuniões marcadas com Alemanha, França, Reino Unido, reuniões importantes. É de esperar algum tipo de posição conjunta destes líderes, uma definição mais concreta daquilo que pode ser o apoio a este plano de vitória?
Eu penso que a visita de Biden tem basicamente duas direções, dois vetores principais. Um é o simbolismo, o simbolismo de ser a última viagem à Europa e tentar de alguma forma marcar com os líderes da Europa, que seja a Alemanha, a França e o Reino Unido, e uma segunda que será verdadeiramente preparar para o cenário pós-eleições. E os dois cenários com uma vitória de Trump e alguma instabilidade e a mudança do rumo da política estratégica dos Estados Unidos, mas mesmo com Kamala Harris, de alguma forma, prosseguir com a reorganização estratégica, uma reorientação para o teatro de operações mais preocupante dos Estados Unidos, que consta realmente no National Defense, na doutrina dos Estados Unidos, que acredito que será semelhante com Kamala Harris, em que de alguma forma essa reorientação exigirá também uma redução da dependência europeia dos Estados Unidos. Eu penso que isso procura, de alguma forma, encontrar aqui uma resposta mais direta à situação na Ucrânia, eventualmente no sentido de procurar, já vamos tendo alguns sinais, pontos de convergência para negociações e para um acordo de paz. E por outro, realmente promover, eu diria, a segurança europeia dentro da NATO. Quer isto dizer que não será nada concorrente com a NATO, mas integrada na NATO, mas com uma maior capacidade europeia que já há muito se diz como essencial.
Sim. Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por mais uma participação do Gabinete de Guerra. O Gabinete de Guerra está de regresso na próxima segunda-feira.