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Este é o Som do Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões e hoje está conosco o historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.

Olá, obrigado. Bom dia.

Olá, Bruno. Começamos pelo Médio Oriente. Israel e a Hamas podem estar mais próximos de um acordo de cessar-fogo e da libertação de reféns. É possível que o façam a 25 de dezembro. Bruno, acreditas que seja desta? Não estamos a falar de paz, mas sim de um cessar-fogo com tempo limitado.

Sim. Eu tenho sido sempre muito cético em relação aos cessar-fogos e infelizmente isso tem-se confirmado muitas vezes, mas realmente desta vez parece haver algo diferente. Por um lado, não são os americanos ou os egípcios, ou no fundo, os mediadores a mostrar alguma esperança no acordo. São fontes israelitas e a explicação para isso também parece ser que a Hamas está especialmente enfraquecida em termos militares, que até politicamente começa a sentir uma enorme pressão da parte da população de Gaza, que está completamente esgotada depois de 14 meses de conflito. Isso realmente pode fazer alguma diferença, pode dar mais credibilidade a essa possibilidade. Agora, em todo caso, eu mantenho a regra que tenho mantido sempre até aqui, que é: temos de esperar até o acordo ser assinado e depois temos de o ver ser realmente implementado, porque tendo em conta a enorme desconfiança entre as partes e o facto de termos assistido a múltiplas ocasiões em que houve rumores deste tipo e depois não se concretizaram, acho que é o mais prudente. Mas reconheço que provavelmente desta vez há talvez mais razões para achar que sim, que é possível que haja realmente um compromisso de cessar-fogo, como dizias, com essas qualificações que inclusive são fundamentais para a viabilidade do acordo, ou seja, o Hamas deixou cair, por exemplo, a exigência que fazia da retirada de tropas israelitas ou de ser um cessar-fogo definitivo e não realmente um cessar-fogo temporário.

Entretanto, sobre a Síria, Israel expandiu a população nos montes Golã. O que isso significa, Bruno?

Sim, anunciou essa intenção de expansão dos colonatos nos montes Golã. Eu acho que isto mostra bem o perigo desta situação de enorme vantagem militar e de reais vitórias militares que Israel conseguiu depois deste mais de um ano de conflito. Ou seja, o risco disso é que realmente isto dê ainda mais força aos sectores mais radicais, menos dispostos a qualquer tipo de compromisso político dentro do governo israelita, dentro da política israelita e portanto leve Israel mais uma vez a desperdiçar uma oportunidade para aproveitar realmente uma situação de vantagem militar, para tentar fazer avançar algum processo político que permita uma acomodação mínima, digamos, quer dos vizinhos árabes, dos países árabes vizinhos, quer da opinião pública árabe em termos mais gerais, quer dos palestinianos. No fundo, depois de décadas de um regime sírio muito hostil a Israel e que apoiava ativamente, por exemplo, o Irão, que é o grande inimigo de Israel na região, que possibilitava armar, financiar, etc, o Hezbollah, que é a milícia armada mais ameaçadora para Israel, depois da queda desse regime e de ter um movimento que, apesar das suas origens até extremistas deixa claro publicamente não tem qualquer intenção hostil em relação ao Estado de Israel. Enfim, essas declarações valem o que valem, mas para já, pelo menos parece um bom ponto de partida. O que acontece é que Israel usa isso para expandir a zona síria que ocupa, porque é preciso recordar que em termos da lei internacional, os montes Golã são território sírio, mas ainda ocupa uma zona tampão para além dessa zona tampão e além disso anuncia que em termos dos montes Golã vai duplicar realmente a presença de colonatos. Ora, isso realmente é ilegal à luz da lei internacional. E para terminar, também mostra que Israel não está tudo preocupado com a sua imagem, quer na região, quer a nível internacional. A mim parece-me que realmente isso comporta grandes riscos, porque não há dúvida que no curto prazo a situação mostra-se vantajosa para Israel, graças à sua eficácia militar. Mas realmente aquilo que nós vimos também ao longo destas décadas é que Israel tem ganho muitas guerras, mas não tem conseguido acabar com o conflito. O sete de outubro mostrou bem que isso é assim.

Bashar al-Assad falou ontem pela primeira vez desde a queda do seu regime, diz que foi Moscovo que deu indicações para a sua saída imediata para a Rússia. Isto muda alguma coisa, Bruno?

Acho que é um pormenor curioso. Eu até acredito que o próprio Assad acredite naquilo que diz. É um bocadinho como o nosso último raio, Dom Manuel II, que também quando se retirou na Ericeira, quando embarcou no iate real na Ericeira, a intenção aparentemente era ir para o Porto e continuar a combater a partir de lá o golpe republicano, mas depois foi dito que já não tem tropas para combater e, portanto, que o melhor é retirar para um país amigo como a Inglaterra. Na verdade, sabemos também que ele enganou os seus elementos próximos. Temos testemunhos na imprensa internacional, por exemplo, da sua porta-voz, que testemunhou que lhe foi dito para ir ao Palácio Presidencial para tratar de uma intervenção, isto uma hora, enfim, pouco tempo antes de o presidente, de facto, sair por via aérea de Damasco, aparentemente em direção a esta base russa. Parece-me que isto é uma forma de usar a Rússia para justificar e tentar responder um pouco às críticas que têm sido feitas, nomeadamente por estes elementos próximos do próprio regime, que de facto se sentiram abandonados por Assad. Também mostra, para terminar, a importância que a Rússia tinha na sobrevivência do regime sírio. Portanto, em última análise, aparentemente de acordo com o seu próprio líder, acaba por ser a Rússia a decidir se ele fica ou se vai para Moscovo, se vai para o exílio.

Sobre a guerra na Ucrânia, o embaixador russo na ONU diz que a Rússia rejeita categoricamente a proposta de Zelensky para congelar o conflito e envolver a NATO na resolução. Bruno, com isto cai por terra a ideia de que um possível acordo estaria para breve?

Eu acho que isto mostra que realmente vai ser bastante mais difícil do que simplesmente Trump dizer: "Eu quero a paz" e portanto vai haver a paz. Eu recordo o que é que aconteceu na presidência anterior com a questão da Coreia do Norte, em que Trump também dizia: "Basta eu encontrar-me com o Kim", com o líder norte-coreano e a questão resolve-se. E obviamente, isso esteve muito longe de ser verdade. Portanto, é realmente um conflito extremamente complexo, que já se arrasta há bastante tempo e em que as posições das partes continuam a ser completamente incompatíveis. A Ucrânia até estaria disponível a um cessar-fogo, porque também está esgotada pelo conflito e porque teme o fim do apoio militar americano com Donald Trump, mas não em quaisquer termos, sobretudo tem o enorme receio que isso seja aproveitado para a Rússia recuperar e depois preparar-se para um novo ataque em grande escala contra a Ucrânia no futuro, em particular se não tiver significado ou se até uma das condições do acordo, que é o que a Rússia diz, for o corte da Ucrânia com os seus aliados ocidentais. Isso é absolutamente vital para a viabilidade da Ucrânia e para a segurança da Ucrânia no futuro. Mas também se percebe que realmente do ponto de vista de Putin, aceitar, por exemplo, uma Ucrânia na NATO, seria reconhecer uma enorme derrota. Ele já teve de aceitar o alargamento da NATO a novos Estados membros, nomeadamente à Suécia e à Finlândia, assustados, depois de séculos de neutralidade, com esta nova agressividade russa. Aceitar a Ucrânia seria ainda mais complicado de explicar politicamente, depois dos enormes custos que este conflito teve, quer em termos de vidas, centenas de milhares de baixas, quer em termos económicos. Temos a Rússia neste momento com taxas de juro de 21%.

Sim. Bruno, a Alemanha vai a eleições. Que impacto pode esta crise política ter na guerra da Ucrânia e também no resto da Europa?

A Alemanha faz tudo com enorme lentidão. Isso tem vantagens, mas também tem enormes desvantagens. Portanto, já há mais de um mês que se espera que o governo alemão caia e que vá haver eleições em breve, mas o processo todo demorou até agora. Portanto, formalmente, o governo só caiu ontem. Esse é desde logo um dos problemas. Temos uma política alemã extremamente lenta e que demora imenso tempo a resolver as suas crises políticas. Provavelmente, depois das eleições em fevereiro, vamos ter de esperar alguns meses para um novo governo de coligação. E portanto, tudo isso é péssimo para a Europa, numa altura em que enfrenta enormes desafios, por exemplo, a Rússia agressiva na Ucrânia, mas também a eleição de Donald Trump, vamos ter um governo alemão de gestão fraco durante uma série de meses que podem ser decisivos. Em termos de apoio à Ucrânia, é uma das grandes questões na queda do governo e até na campanha, ou seja, muitas vezes a política externa não tem uma grande importância, mas aqui até tem, ou seja, foi um dos factores de divisão desta coligação. Os Verdes e os Liberais eram muito mais favoráveis a um apoio muito mais musculado à Ucrânia e têm poucas esperanças de um compromisso sério com a Rússia, ou seja, consideram que a Rússia não negocia de boa-fé há muitos anos com Putin. O SPD está completamente dividido, mas a linha que domina é uma linha mais à esquerda, mais tradicional, continua a achar que os velhos princípios da cultura estratégica alemã de que a guerra é sempre má, de que o armamento é sempre uma coisa má, continuam a fazer sentido no contexto atual. Isso parece-me bastante duvidoso, mas é o que prevalece. Daí ser Scholz a recandidatar-se a chanceler e não alguém até bastante mais popular em termos do eleitorado em geral, que é o ministro da Defesa, o Boris Pistorius, que faz parte de uma ala mais à direita dentro do SPD, que também partilha destas dúvidas em relação à Rússia. A oposição, o líder do maior partido da oposição, Merz, da CDU, portanto, o partido principal da direita alemã, também faz campanha, inclusive esteve em Kiev a semana passada, a dizer que vai ser muito mais robusto no apoio à Ucrânia e muito mais sério do que em relação à Rússia. Mas depois também temos os dois partidos dos extremos que estão a subir, quer da extrema-esquerda, quer da extrema-direita, a Alternative für Deutschland, que são bastante claros numa posição bastante pró-russa, crítica da NATO, no fundo, basicamente repetindo a narrativa russa. Portanto, é realmente uma eleição onde a guerra da Ucrânia acaba por ter aqui um papel relativamente central, embora seja bem possível que os alemães não votem, sobretudo. Por isso, o seu voto certamente terá algum impacto importante na posição, apesar de tudo, do país que é a maior economia europeia e que em termos sobretudo financeiros, tem sido um apoiante também importante da Ucrânia, apesar de todas estas oscilações e todas estas dúvidas.

Bruno Carlos Reis, obrigada pela análise. É mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia, Bruno.

Bom dia, obrigado.

Até amanhã.

Até amanhã.