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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos do conflito. Hoje com Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Bernardo, boa noite. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, boa noite.
Começamos pelo Médio Oriente. Depois de ontem o Paquistão, país mediador, ter dito que tinha sido cancelada a cerimónia da assinatura presencial do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irão, que estava planeada para a Suíça, hoje o ministro iraniano dos negócios estrangeiros vem dizer que não há urgência para um encontro com os negociadores norte-americanos. O que se passa aqui? Acha que o Irão está a tentar evitar reunir de perto com a Casa Branca? Isto pode expor ainda mais as fragilidades internas do regime?
O Irão está numa posição frágil desde o início da intervenção dos Estados Unidos, principalmente porque teve logo a sua cabeça, a sua liderança, decapitada. No entanto, o Irão está numa posição frágil desde sempre, ou seja, não começou agora. O Irão está perante sanções norte-americanas há cerca de 10, 15 anos, sanções essas que não estavam relacionadas com o bloqueio do Estreito de Ormuz, mas que acabavam por impactar muito aquilo que também são as exportações da economia iraniana, portanto, o fluxo que vem do Irão para outras geografias. E a verdade é que tem conseguido sobreviver, ou seja, à base desta ideia do anti-imperialismo, desta ideia de negarem tudo o que seja a possível intervenção externa, principalmente desde a revolução islâmica de 79. E portanto, o Irão, apesar de não estar contente, obviamente, ou a Guarda Revolucionária Iraniana não está contente com este conflito, com esta presença dos Estados Unidos à sua porta, mas ao mesmo tempo também não tem pressa, porque é algo ao qual já está muito habituado. Portanto, é uma dinâmica das relações internacionais que já se vem vivendo há algum tempo. E tivemos agora esta ideia também do memorando de entendimento e agora é o quê? É preciso entender que o memorando de entendimento não é um acordo, portanto, o que estamos a falar é de um cessar-fogo que já tinha sido anunciado antes. Temos a questão do Líbano, e poderemos falar sobre ela hoje, ainda para resolver. Sabendo que tivemos novos ataques durante esta noite e que morreram inclusive também soldados israelitas. E este é outro dos problemas relativamente ao memorando de entendimento. E o Irão já percebeu que há aqui uma clivagem nas relações entre Israel e Estados Unidos, ou pelo menos nas relações entre Netanyahu e Donald Trump, e por outro lado, já percebeu que o que Donald Trump quer, e é o que temos vindo a falar quase há três meses aqui, é também sair o mais depressa possível do conflito. Então Donald Trump optou, neste memorando de entendimento, optou quase por pagar uma série de concessões, fazer uma série de concessões ao Irão. Para quê? Para que se consiga não só libertar o estreito de Ormuz e assim retirar o garrote aos mercados globais, mas também conseguir de alguma forma uma saída limpa que permita focar-se noutros objectivos, sejam eles Cuba, no sentido da política externa, mas principalmente no sentido da política interna, aquilo que são as eleições intercalares que estão para vir e aquilo que é o contribuinte norte-americano que está bastante descontente, até o contribuinte norte-americano que é da base MAGA. Portanto, o Irão também percebe isto e o Irão pode não ganhar guerras, mas também não perde negociações e só tem a ganhar se continuar a adiar este memorando de entendimento ou este acordo eternamente, até porque depois de sairmos desta dúvida, vamos entrar noutra, que é quem é que fica com o urânio do Irão, se esse urânio será destruído ou se irá para uma terceira parte, se for realmente para uma terceira parte, como é que irá para essa terceira parte sem causar danos à saúde pública, se for realmente destruído, como é que será o mesmo novamente sem causar danos à saúde pública, garantindo que não estamos a falar aqui de um novo enriquecimento daqui a 10, daqui a 15 ou daqui a 20 anos, em que a nossa conversa será a mesma, ou seja, os Estados Unidos vão procurar nova intervenção no Irão para proteger, neste caso, a outra potência regional que está historicamente alinhada com os Estados Unidos, que é Israel, e que neste momento está numa situação particularmente instável.
Entretanto, também a propósito do que dizia há pouco, nas redes sociais, Donald Trump veio hoje atacar os críticos, diz que o Irão está acabado e sem condições para continuar a lutar, rejeitando assim as críticas do Partido Democrata norte-americano. Começava por lhe perguntar se de facto considera que o Irão está realmente enfraquecido e perguntava-lhe também se Donald Trump está, de certa forma, a ficar algo isolado, até porque foi conhecida uma sondagem que revela que 65% dos norte-americanos não aprova esta gestão do presidente norte-americano em relação ao Irão.
Indo então primeiro ao enfraquecimento do Irão. O Irão, como estava a dizer há pouco, tem uma derrota logo no primeiro dia, que é o facto do Aiatola cair com estrondo e de forma muito rápida, muito repentina, em que os serviços de inteligência do Irão claramente não conseguiram acautelar aquilo que era a competência dos serviços secretos israelitas e norte-americanos e a sua capacidade militar. Mas a verdade é que depois disso, o Irão não sofreu grandes perdas, ou seja, o que o Irão tem feito é um pouco uma gestão do caos, ou nesse caso, não o Irão, mas o governo iraniano e a Guarda Revolucionária, o que têm feito é um pouco uma gestão do caos no Estreito de Ormuz através daquele sistema de portagens. Depois foram atacando, perceberam que um dos pontos fracos são os aliados do Golfo dos Estados Unidos, até porque Donald Trump tem negócios muito envoltos, principalmente no âmbito da tecnologia. O Jared Kushner tem um negócio na ordem dos biliões com a Arábia Saudita, com os fundos sauditas, e portanto O Irão rapidamente percebeu que atacando as bases norte-americanas do Golfo Pérsico, criavam ali uma dúvida nos Estados do Golfo Pérsico, que é: será que agora os Estados Unidos continuam a ser esta potência protetora, este escudo defensivo destas potências do Golfo Pérsico, destes Estados do Golfo Pérsico, como monarquias do Golfo Pérsico, se quisermos, ou será que, pelo contrário, neste momento, terem o apoio dos Estados Unidos e uma aliança com os Estados Unidos coloca um alvo nas costas destes países do Golfo Pérsico? Portanto, este é um dos problemas e o Irão tem gerido assim o conflito, principalmente através do ataque às centrais de dessalinização. E depois, por outro lado, temos isto que a Laura estava a dizer, e muito bem, que é: Donald Trump tem não só agora uma reprovação grande do lado democrata, como sempre teve, principalmente neste conflito. E é preciso dizer que este conflito se calhar até poderia ser aceitável para os democratas, porque foi a própria Hillary Clinton que, ainda durante a campanha de Obama, veio dizer que Israel tem que ser uma das linhas mestras da política externa norte-americana. Portanto, havia apoio também dos democratas a uma espécie de erosão das estruturas iranianas ou das áreas de influência iranianas no sistema internacional. No entanto, a forma como foi feito e o timing em que foi feito e a influência de Israel no processo, deixou claramente os democratas muito descontentes, mas também alguns republicanos descontentes. E há pouco, quando te falava da base MAGA também estar descontente, o que não é um prenúncio nada positivo para Donald Trump agora para as intercalares, é que falamos de pessoas que já foram declaradamente apoiantes de Donald Trump, como Tucker Carlson, Joe Rogan. Portanto, são pessoas que têm podcasts, muitos deles, e podcasts muito influentes, com muitos milhões de público. E depois, na verdade, se formos olhar para o que esta intervenção do Irão trouxe dentro da política interna para Donald Trump, é uma inversão da perspectiva destas pessoas. Estas pessoas eram baluartes das campanhas de Donald Trump de forma informal, principalmente através da internet, e agora passaram a ser vozes críticas. E tudo isto pesa no eleitorado, tanto MAGA como no America First, que agora também está dividido. Portanto, Donald Trump, e claro que acautelando aqui uma questão da qual falo sempre, que é os republicanos tipicamente respondem menos a sondagens e também reagem menos ao resultado dessas mesmas sondagens. Portanto, como dizem os ingleses, é preciso ter aqui um grãozinho de sal nesta abordagem. Mas a verdade é que há a possibilidade quase certa, que também historicamente costuma ser assim, do partido do presidente perder as intercalares. No entanto, agora resta saber, e para isto é que importa muito a guerra do Irão e a continuidade ou não da guerra do Irão, que é durante quanto tempo é que teremos conflito, porque se tivermos conflito até novembro ou perto de novembro, não só os mercados continuam bloqueados e o peso cai, como dizia, no contribuinte norte-americano, como também esse contribuinte norte-americano vai naturalmente vingar-se de Donald Trump nas intercalares. E, portanto, o tempo está muito contado aqui e para além de estar muito contado, é importante dizer que Donald Trump contava com o apoio israelita até aqui, do lobby israelita dentro dos Estados Unidos, de estruturas bastante grandes de apoio diplomático israelita dentro dos Estados Unidos e que o ajudaram também e que o catapultaram nalgumas eleições. E esse apoio, se a relação sair magoada agora entre Estados Unidos e Israel, ou entre Donald Trump e Netanyahu, esse apoio pode mudar um pouco e por isso é que o caso parece não estar assim tão bem parado para Donald Trump. E Donald Trump, evidentemente, por aquilo que estava a dizer do Irão, não ter pressa, no sentido em que vive uma crise do rial iraniano, uma inflação galopante do rial iraniano que chegou agora a níveis que só esteve na Segunda Guerra Mundial, estamos a falar de níveis históricos, e que consegue lidar com isso bem ou mal, porque a guarda revolucionária iraniana está preocupada em sobreviver, não está preocupada em garantir as condições de vida à população. A população vai saindo aos poucos, principalmente através dos estudantes, mas sempre de forma muito esporádica, espontânea e claro, com muito medo, com muitas cautelas relativamente à sua segurança. E, portanto, a guarda revolucionária iraniana, este regime xiita, musculado, teocrático, não tem incentivos para a negociação, a não ser o desbloquear dos fundos iranianos, que parece que irão acontecer paulatinamente se, pelo que Donald Trump disse, o Irão se portar bem nos próximos 60 dias. Mas a verdade é que Donald Trump, neste caso, tem muito mais a perder, por estas razões todas que enumerava do ponto de vista da política interna.
Vamos agora olhar então para Israel e para o Líbano. Esta tarde um alto funcionário dos Estados Unidos revelou que Israel e o Hezbollah tinham iniciado um cessar-fogo e o Hezbollah chegou mesmo a confirmar. No entanto, já depois disso, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, partilhou um vídeo de ataques contra o Hezbollah, dizendo que Israel eliminou dezenas de terroristas. Em que é que ficamos? Este alegado cessar-fogo é apenas para fazer a vontade aos Estados Unidos e para tentar não comprometer o entendimento entre Washington e Teerão depois dos avisos do Irão?
Laura, todos estes cessar-fogos dos quais falamos agora, tanto no Irão como no Líbano, é um bocadinho como aquele filme do "Inception". Nunca sabemos se é um sonho e se for um sonho, qual é o sonho, se é o segundo, terceiro ou quarto sonho, porque a verdade é que o cessar-fogo é muitas vezes um cessar-fogo já sobre o cessar-fogo e portanto agora estamos a falar de memorandos de entendimento sobre o cessar-fogo que já existia. E no Líbano é esta a questão. Se formos olhar para a questão de Gaza, se formos olhar para a questão do Líbano, percebemos que as linhas orientadoras das forças militares israelitas ultimamente, principalmente desde que temos este governo entre Netanyahu e as forças mais talmúdicas ultraconservadoras É uma linha em que assinam o cessar-fogo, e isto para o direito internacional fica bem, mas depois o direito internacional também não tem a capacidade coerciva de implementar esse mesmo direito que está escrito na lei. E portanto, Israel vai avançando no território, vai violando várias vezes o cessar-fogo, muitas vezes de forma muito violenta. A notícia foi da Reuters, que anunciava que afinal havia agora um acordo de paz ou de cessar-fogo, pelo menos entre o Hezbollah e Israel. Mas a verdade é que Netanyahu só está a fazer isto porque tem medo de ficar completamente isolado, porque Netanyahu tem eleições em outubro. Se Netanyahu, por acaso, até outubro, cria grandes tensões com Donald Trump, e criar grandes tensões com Donald Trump, parece-me que será tentar avançar no Líbano a todo o custo, principalmente, não naquela zona a sul do rio Litani, que essa já foi criada uma espécie de zona tampão para as forças israelitas, mas principalmente nos subúrbios da capital Beirute, onde se sabe que existem madrassas, redutos de militantes do Hezbollah. Portanto, se Netanyahu continuar a atacar Beirute e provavelmente, mesmo apesar desta notícia de cessar-fogo, provavelmente continuará a acontecer, como já vimos antes, portanto, é um filme que não é novo, a relação pode ficar muito crispada. E se a relação fica muito crispada com Donald Trump, que tem sido até agora o maior apoiante de Israel, principalmente se olharmos para os últimos anos da política norte-americana, ou ficará também muito penoso, caso Netanyahu volte a ganhar eleições, eventualmente, ficará muito penoso também para Netanyahu, depois ter que lidar com aquela região ou com uma tensão com Donald Trump, ou até, eventualmente, dependendo da duração do mandato de Netanyahu, se ganhar em outubro, ou até eventualmente com um próximo presidente norte-americano que pode não ser tão favorável a Israel. Portanto, Israel tem aqui uma oportunidade, que é: ganhou algo importante naquilo que eram as suas aspirações para esse conflito e para a intervenção no Irão, que é um combate mais direto ao Hezbollah, com ganho de território ali junto ao rio Litani, a sul do rio Litani, criou, portanto, a tal zona tampão para proteger também as suas fronteiras, que é um objetivo já de longo prazo e está contemplado naquela ideia do grande Israel. Portanto, aqui há uma dimensão de sobrevivência, que é a dimensão do espaço vital, expandir o seu espaço para assim conseguir também maior amplitude de sobrevivência. Depois, por outro lado, para não perder tudo, para não perder o apoio dos Estados Unidos e não ficar numa zona ainda mais instável, depois desta intervenção dos Estados Unidos e de Israel no Irão e com o ódio visceral, como sabemos, do governo iraniano a Israel, se não quiser perder tudo, vai ter que perceber que tem que apostar numa estrutura diplomática. Ou seja, aquela postura de Ben-Gvir, de Katz, de Smotrich, que é a postura de vamos lá e rebentamos com tudo, vamos lá e procuramos a expansão contínua. Essa perspectiva terá que ser trabalhada, porque é preciso um aparelho diplomático israelita que faça o que não tem feito na última década, que é procurar uma via diplomática também com os Estados Unidos, sob pena de, se não encontrar essa via diplomática, se não encontrar esse aparelho, poderá estar sozinho numa região inóspita para as intenções de Israel nas próximas décadas.
Já não temos muito tempo, mas vamos rapidamente aqui a uma última questão. Soubemos hoje que o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, vai a Washington na próxima semana reunir com Donald Trump. O que é que podemos antecipar que vai estar em cima da mesa neste encontro? O conflito na Ucrânia, sobretudo?
Sim, será principalmente o conflito na Ucrânia. E é interessante que hoje ao folhear os jornais russos, alguns textos de opinião começavam a falar de uma espécie de ameaça à Ucrânia, depois deste ataque de grande escala que tivemos da Ucrânia a Moscovo. Começava-se a falar que a Ucrânia tem que ter muita precaução na forma como ataca a Rússia, porque estão a lidar com uma potência e vocês não sabem, diziam os russos para os ucranianos nestes jornais da região de Moscovo, vocês não sabem a nossa capacidade nuclear, vocês não sabem a nossa capacidade de retaliação. Portanto, há claramente uma sensação de surpresa nas hostes russas pela Ucrânia estar a defender-se desta forma e agora conseguir ataques até em profundidade no território russo, mas em simultâneo começa a haver alguns zunzuns de nuclear nos meios de comunicação russos, e isso não deixa de ser preocupante, num momento em que não só o tratado de não proliferação de armas nucleares neste momento está em baixo porque não se chegou a acordo para a sua revisão há cerca de duas semanas, como também aqueles acordos que vinham da Guerra Fria entre Vladimir Putin e Donald Trump, optaram por não renovar, como o Start, como o Salt, que não foram renovados há cerca de um ano quando tiveram essa oportunidade, deixou o mundo, do ponto de vista nuclear, mais instável. E o que Mark Rutte vai fazer a Washington é, no fundo, pedir aos Estados Unidos que não larguem o apoio e este eixo transatlântico e o apoio à Ucrânia, claro, esse é o primeiro ponto. E depois vai fazer aquilo que acabou de fazer agora durante esta semana no seu discurso, que é: vai explicar a Donald Trump que realmente até concorda com o presidente norte-americano no ponto em que os europeus precisam desenvolver uma estratégia de defesa que implique gastar bastante do orçamento de cada estado membro europeu, cada estado membro da NATO Europeu, porque não podem viver para sempre à sombra do guarda-chuva nuclear, do guarda-chuva de proteção norte-americano. E Mark Rutte está alinhado com esta ideia e isto também é uma oportunidade para os europeus continuarem a desenvolver o seu armamento e o seu aparelho coercivo para acompanhar a normatividade europeia, sabendo que também não podem hostilizar os Estados Unidos, porque quer queira, quer não, apesar do seu falhanço no Irão, se quisermos assim, apesar da sua relação dúbia neste eixo transatlântico agora, também é verdade que nós teremos alguma dificuldade em sobreviver num conflito da Rússia e da Ucrânia, que não sabemos quanto tempo é que irá durar, porque sabemos que a economia russa está em baixo, mas a verdade é que continuam a ter a capacidade de fazer aqueles ataques quase em desespero, ataques em profundidade, lançados em larga escala e que depois são acompanhados de dois, três dias sem ataques notórios e que depois voltam novamente a um ataque de grande escala. Tem sido esta agora a solução russa encontrada perante uma economia que se está a desfazer. E o que Mark Rutte vai garantir é que esse eixo transatlântico não é quebrado e que há aqui uma pacificação das relações entre a América e os europeus para manter também aqui um fluxo de armamento, um fluxo de financiamento que permita a Zelensky e que permita à Ucrânia continuar agora não apenas a defender, mas também a atacar a Rússia em profundidade, a isolar a Crimeia, que tem sido agora essa a estratégia ucraniana. Portanto, Mark Rutte neste momento tem a vida mais facilitada do que tinha há um ano atrás, quando teve aquele momento menos feliz em que chamou "daddy" a Donald Trump, em que claramente estava desesperado pelo apoio de Donald Trump e percebia que, perante o avanço russo na altura, era impossível combater essas forças e afastar a Rússia da Europa sem o apoio norte-americano. Neste momento, há aqui uma almofada de conforto, percebendo que a Ucrânia desenvolveu também o seu aparelho militar, desenvolveu o seu complexo militar industrial, tem capacidade de defesa, a Europa está a trabalhar na sua capacidade de defesa e os Estados Unidos, apesar da tensão que existe entre os Estados Unidos e Europa, os Estados Unidos continuam a ser um parceiro fundamental e por isso é que não faz sentido destruir a NATO, mas faz sentido, e talvez faça sentido para ambos os lados, repensar o contributo que cada estado-membro tem para o esforço militar da NATO.
O nosso tempo chegou ao fim, mas obrigada pela sua análise, Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Obrigada. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.