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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Eu sou o Martim Madeira e hoje contamos com a análise do especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque. Boa noite, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Olá, Martim, muito boa noite. É um prazer.

Vamos começar pela situação no Médio Oriente e mais especificamente pela entrevista de Donald Trump. O presidente norte-americano afirmou que o líder supremo iraniano está cada vez mais envolvido e que concordou em não ter armas nucleares. Uma declaração que já foi proferida pelos norte-americanos pelo menos quatro vezes, eu fui contá-las, uma em abril por Trump, outra em maio, outra ontem por Marco Rubio e agora hoje por Donald Trump novamente. O Irão nunca confirma estas informações de que concorda em não ter armas nucleares. Parece-lhe que desta vez este ponto vai ser resolvido ou é mais um tópico em vão de Donald Trump?

Deixe-me, antes de irmos ao Irão, começar só por saudar a excelente notícia hoje de que Portugal passou a ser um membro não permanente nos próximos dois anos do Conselho de Segurança das Nações Unidas e obviamente saudar todos aqueles que estiveram envolvidos ao longo de mais de uma década em todo este processo. Acho que é uma excelente notícia para a diplomacia portuguesa e para o prestígio que Portugal tem neste fórum internacional que são as Nações Unidas e a capacidade que poderá ter agora nos próximos dois anos a desempenhar um papel relevante a nível internacional. Indo diretamente à sua pergunta, é difícil perceber, acima de tudo por duas razões. A primeira porque isso representaria apenas o regresso àquilo que era a situação anterior a Donald Trump se ter tornado presidente americano. No fundo, o acordo que tinha sido estabelecido pelos Estados Unidos com o Irão previa precisamente um controle e uma vigilância muito apertada sobre o programa nuclear iraniano e era isso que estava em cima da mesa, que Donald Trump foi o responsável por ter rompido com esse acordo e, de certa maneira, deteriorado as relações entre os dois países. Em segundo lugar, porque depois deste ataque, de certa maneira inusitado por parte dos Estados Unidos e de Israel, eu acho que o Irão chegou a uma conclusão que é, de facto, sua capacidade de deterrence, de aplicar pressão e de certa maneira ter um trunfo como é a capacidade nuclear ou a possibilidade de vir a desenvolver a capacidade nuclear, é que é suficientemente dissuasora de ataques externos, sejam eles dos Estados Unidos, sejam eles de Israel, e portanto vê nessa capacidade uma parte essencial dos seus instrumentos de defesa, quer no presente, quer no futuro.

Ainda sobre esta entrevista do presidente norte-americano, Donald Trump admitiu que de facto houve uma chamada com Benjamin Netanyahu que foi tensa, no mínimo. O primeiro-ministro israelita também admitiu que houve discordâncias táticas, foi a expressão que usou, e afirma que os dois estão preparados para retomarem ataques contra o Irão. O facto de Donald Trump ter que recorrer a expressões como, por exemplo, "estarias na prisão se não fosse eu", mostram que o presidente norte-americano está a perder um pouco a mão sobre as ações do parceiro estratégico, que é Israel.

É sempre difícil fazer esse tipo de análises psicológicas sobre o presidente americano, mas eu acho que aquilo que Donald Trump tem evidenciado é que a única linguagem que conhece é a linguagem do poder e da força. Portanto, isto é, no fundo, uma tentativa de voltar a colocar para Benjamin Netanyahu a assunção da força dos Estados Unidos e a ideia de que são os Estados Unidos que estão no controle de toda esta operação. Mas isto é ao mesmo tempo também um reconhecimento de que, de facto, Israel, neste momento, e em particular Benjamin Netanyahu e o seu governo, são o principal obstáculo à estabilidade de toda a região do Golfo Pérsico, das relações com a Palestina e de todos os emirados que são vizinhos de Israel, na medida em que o próprio Irão tem colocado sistematicamente em cima da mesa, como ponto fulcral e central das negociações, o imediato cessar da invasão que Israel está a fazer neste momento ao Líbano. Portanto, é obviamente uma necessidade quase imperativa que Donald Trump sentiu de voltar a tomar controle sobre aquilo que são as ações sem escrutínio, em total impunidade, que Netanyahu tem levado a cabo no Líbano, com conquista de facto de território que não pertence a Israel e que estava dentro das fronteiras do Líbano e que obviamente constitui um fator acrescido de ameaça e que eu acho que houve algum interesse do presidente americano que esta conversa tivesse tornado pública com vista a reforçar aquilo que é a sua autoridade ou aquilo que ele entende ser a sua autoridade sobre o seu principal aliado na região.

Mostrar no fundo quem manda, até porque existem várias críticas mesmo dentro dos Estados Unidos de que Israel tem mais controle sobre Trump do que Trump tem sobre Israel. Também era esse o objetivo do presidente norte-americano?

Eu acho que essa é a única explicação, na verdade, para que os Estados Unidos tenham iniciado este conflito. Eu ainda não consegui encontrar uma outra explicação. Netanyahu há muitos anos.

Há mais de 30.

Exatamente, há várias décadas que Netanyahu tentava forçar as várias administrações americanas a terem uma atuação mais forte e mais incisiva sobre o Irão, porque considera que o Irão, e com razão, é de facto a única potência na região que tem capacidade de rivalizar do ponto de vista militar e do ponto de vista político, até histórico, com Israel. Portanto, conseguiu ao fim de muitas décadas convencer um presidente americano a juntar-se a esta iniciativa, que no meu entender é uma iniciativa quase louca, de afrontar o Irão desta forma sem que haja uma provocaçãoPorque ela efetivamente não existiu e, portanto, é obviamente a razão mais lógica que eu encontro para que os Estados Unidos tenham entrado neste conflito. E, portanto, esta ação agora de Donald Trump é precisamente para contrariar essa ideia de que é Israel que condiciona os Estados Unidos e não o contrário. E foi uma ação de força e muito necessária para reforçar a posição do presidente americano, que estava bastante fragilizada nesta relação.

Agora falar um bocadinho sobre as declarações de Marco Rubio numa entrevista à CNN Internacional. O secretário de Estado norte-americano diz que são os Estados Unidos que definem a vitória e afirma mesmo que venceram o conflito. Um conflito que ainda está um pouco estranho. Concorda com estas afirmações de Marco Rubio?

Eu acho que acima de tudo, a principal dificuldade, não só do ponto de vista dos analistas e dos observadores, mas acima de tudo para os decisores políticos americanos, é perceber o que é que poderia configurar como uma vitória. Eu não tenho dúvida absolutamente nenhuma de que os Estados Unidos e em particular Donald Trump, precisará de arranjar em algum momento um argumento, algum fator, algum fato que lhe permita clamar vitória e dizer que a operação teve um valor acrescentado para os Estados Unidos e que dela resultaram X ou Y ganhos. Não é fácil vislumbrar quais é que serão esses argumentos, porque não se percebe qual é que é o objetivo com que os Estados Unidos entraram para a guerra no início. E, portanto, torna-se muito difícil ouvir essas declarações de Marco Rubio e vislumbrar o que é que os Estados Unidos efetivamente ganharam, porque não dizimaram, como tinham alegado inicialmente, a capacidade nuclear iraniana. O Estreito de Ormuz, que estava aberto à circulação, está encerrado e assim continua. As hostilidades e a instabilidade na região permanecem altíssimas com as ações no Líbano, como referi há pouco, mas também na própria relação e no cessar-fogo, que não o tem sido, porque tem continuado a haver ataques de parte a parte no Irão.

Mesmo com Gaza, por exemplo, também.

Mesmo com Gaza, a mortandade em Gaza não para de aumentar de uma forma absolutamente violenta e, portanto, com uma agravante ainda maior, só para acrescentar e para terminar, de que o clima econômico mundial teve um agravamento brutal que se faz refletir no bolso dos cidadãos americanos, para além dos nossos, como é evidente, e portanto não se consegue vislumbrar exatamente a que é que Marco Rubio se refere quando fala de uma vitória americana e de que ela já terá acontecido.

Queria agora passar para um conflito diferente, o da Ucrânia. Houve hoje um ataque a um autocarro em Donetsk que fez oito mortos. A Rússia acusa a Ucrânia de estar por trás deste ataque. Inclusivamente, os jornais russos escrevem que negociar vidas civis e sangue de inocentes tem sido o passatempo favorito do regime de Kiev. Admitem também que a Rússia também ataca civis, mas que, ao contrário da Ucrânia, tem fundamento nesses ataques. É hipócrita este discurso da Rússia ou é esperado em termos de propaganda militar?

Eu acho que as duas coisas não são mutuamente exclusivas. Eu acho que ele é hipócrita, mas ao mesmo tempo expectável. Tem sido sempre, de certa maneira, esta a postura de Vladimir Putin e de Moscovo em relação a toda esta guerra, desde a narrativa inicial que foi utilizada como sendo uma operação especial, o fato de ter sido uma provocação ucraniana que levou ao início da guerra, a desnazificação da Ucrânia, que foi outro argumento que foi utilizado. E, portanto, há obviamente aqui uma tentativa de inverter o ônus da culpa e passá-lo para a Ucrânia como sendo a Ucrânia o agente provocador. Aquilo que nós temos verificado é que nos últimos dias e nas últimas duas semanas, os ataques à Ucrânia intensificaram-se de uma forma absolutamente brutal. Kiev tem estado debaixo de fogo com ataques dos mais mortais desde o início do conflito e isso demonstra que Vladimir Putin continua a intensificar os seus esforços militares, não vê qualquer possibilidade de abrandamento e o facto de haver neste momento algumas fragilidades defensivas da parte da Ucrânia leva a que efetivamente haja uma capacidade de maior empenhamento militar ofensivo por parte da Rússia, que leva a que estes ataques se tenham verificado em maior intensidade.

E é precisamente sobre a defesa da Ucrânia que queria também falar para finalizar este Gabinete de Guerra. Volodymyr Zelensky ameaçou demitir membros do governo devido ao atraso no fornecimento de mísseis Patriot. Há poucos dias, Zelensky dizia que a Ucrânia estava na melhor posição do conflito para negociar, mas esta ameaça por falta de mísseis defensivos e tendo em conta os ataques massivos da Rússia, que falávamos mesmo agora, mostra algum tipo de fragilidade da Ucrânia?

Não sei se é fragilidade, mas certamente há algum desespero. Aquilo que nós temos visto recentemente é que o conflito com o Irão e em Gaza tem levado a um desgaste muito rápido das munições, dos mísseis que integram as baterias Patriot e, portanto, as recargas de mísseis que são necessárias para o funcionamento das baterias Patriot. E isso tem levado a que haja uma menor capacidade dos Estados Unidos de entregarem e de fornecerem à Ucrânia os necessários mísseis. Isto não tem diretamente a ver, ou pode não ter diretamente a ver com o mau funcionamento da administração ucraniana, mas com uma circunstância de, de fato, as pressões militares que neste momento existem com os diferentes conflitos tenham levado a que haja uma disrupção ou pelo menos uma disrupção temporária da capacidade de fornecimento. E isso obviamente tem consequências muito negativas para a Ucrânia e para a sua capacidade defensiva. A que não é de desconsiderar também o fato de que os Estados Unidos, estando diretamente envolvidos no conflito, tendam, e isto tem vindo a ser muito visível, a priorizar o seu próprio empenhamento militar e a priorizar as suas próprias ações militares do que a fornecer mísseis para a Ucrânia e para a sua defesa contra a ofensiva russa.

Chegamos ao final do nosso tempo. Obrigado, João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Obrigado por esta análise no Gabinete de Guerra.

Muito obrigado, Martinho. Foi um gosto.

O Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.