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Este é o Som do Gabinete de Guerra, hoje com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política, especialista em movimentos extremistas e que acaba de lançar mais um livro, "A Europa numa Encruzilhada". Bom dia, bem-vindo, professor.

Muito bom dia, Maria João. E primeiro de tudo, uma palavra de solidariedade para a Maria João pela situação que viveu, porque nós nunca estamos preparados para ver partir um familiar para a outra dimensão. Portanto, a minha solidariedade.

Muito obrigada, José Filipe Pinto. Começamos pelo acordo entre Israel e Líbano, depois do enviado especial dos Estados Unidos para as negociações ter dito que o cessar-fogo é permanente. Israel veio contrariá-lo, diz que o combate pode recomeçar a qualquer momento. Já o Hezbollah diz que continua em total prontidão para reagir ao inimigo. Professor, estão todos à espera de um motivo para recomeçar ou este é o tipo de discurso que faz parte de duas partes que nunca se entenderam e se vão entender?

Faz parte precisamente disso. Há muita desconfiança de ambas as partes. Nós estamos perante uma pausa ou um cessar-fogo temporário, não estamos perante um acordo de paz. E este compromisso, a meu ver, só foi possível porque neste momento, para além da mediação dos Estados Unidos, foi possível satisfazer os interesses momentâneos de todas as partes, tanto dos Estados Unidos, de Israel, do Hezbollah e até do Irão. Vamos lá tentar explicar resumidamente por quê. Eu penso que os Estados Unidos estão interessadíssimos neste acordo porque Biden quer deixar um legado e ele está a tentar evitar que Donald Trump surja como aquele que tem capacidade, que tem poder para impor a paz. Aliás, repare, Biden também vai fazer pressão para um cessar-fogo também em Gaza. Só que a situação em Gaza é muito mais complexa, desde logo porque o Hamas continua a ter um trunfo muito grande, são reféns. E Gaza é uma faixa. O Líbano é um Estado, ainda que um Estado falhado. Depois Israel. Israel, repare, já destruiu praticamente 70% a 80% dos drones e dos mísseis do Hezbollah. Já decapitou largamente as lideranças, tanto a política como a militar do Hezbollah, mas precisa de recuperar as Forças Armadas, porque essas Forças Armadas dispõem de um efetivo pouco numeroso e além disso, não podiam continuar muito mais tempo com uma guerra. Esta é a guerra mais demorada que Israel trava desde a independência. O Hezbollah, porque perdeu muito, teve perdas a nível humano e militar, mas corria o risco, e este dado eu reputo de muito importante, de perder o apoio da população do Líbano, principalmente dos arredores de Beirute e do sul. E por quê? Repare, neste momento o Hezbollah controla, tal qual como o Hamas fazia em Gaza, os hospitais, as escolas, os serviços. E nós não podemos esquecer que a guerra obrigou 1/4 dos libaneses, e 1/4 são 5 milhões, a deslocarem-se, a abandonarem as casas. E por isso mesmo, o Irão também está interessado neste cessar-fogo, porque quer completar o seu projeto nuclear e não lhe interessa que o Hezbollah fique socialmente fragilizado, na esperança de que ele venha a recuperar e, portanto, venha a ter outra vez um papel muito ativo. Há um elemento que eu considero que os nossos ouvintes deveriam ler. É o comunicado final do Hezbollah. E por quê? Porque ele reivindica a vitória. E isso é um comunicado.

Vitória sobre o inimigo, não é? Sim.

Evidente, a retórica imagina vitórias onde só existem derrotas. Portanto, face a todo este cenário, é muito possível que este cessar-fogo não dure os 60 dias, mas temos de perceber também que é do interesse dos Estados Unidos que dure até porque daqui a 60 dias teremos Trump já no poder.

Exatamente. Portanto, coincide mesmo com a tomada de posse da administração Trump. E o que isto nos diz sobre o futuro do conflito?

Diz-nos que Trump e a administração norte-americana está a tentar chegar à paz, tanto na Ucrânia como no Médio Oriente. Só que os países, por exemplo, no Médio Oriente, nós temos que perceber que a região não ficou mais segura, porque esta acalmia é temporária e é preciso ver o que é que Trump consegue no que diz respeito ao mundo árabe, designadamente à Arábia Saudita, ao Egito.

Onde tem interesses, sim.

Evidente, à Jordânia, ao Qatar. Por quê? Estes países estão muito hesitantes, Maria João. Estão muito hesitantes entre o quê? Entre negociar agora com Biden, que está de saída, ou esperar por Trump, que vai entrar. E esta posição vai marcar todo o conflito. Portanto, nós temos aqui uma situação que é muito instável, é muito volátil. A qualquer momento o conflito pode regressar. E por quê? Repare, o que é que o Egito já disse? Que quer também a paz para Gaza. Mas o que é que diz Israel? Que verdadeiramente quer continuar no sul do Líbano enquanto aquela força internacional não estiver operacional. Porque Israel desconfia muito do exército libanês. Sabe que esse exército não consegue controlar o Hezbollah. E por isso mesmo, é uma situação instável que a todo momento pode derrapar, apesar do discurso de Biden e da administração norte-americana, que é o discurso que tente fazer.

Noutra frente, Donald Trump nomeou o general Kellogg como enviado especial dos Estados Unidos para a Rússia e Ucrânia. Professor, quem é este homem e isto é uma boa ou uma má notícia para Kiev?

Eu penso que inserto-se, tal qual como no Médio Oriente, na perspetiva de Trump. Uma das grandes ambições dele é o Prêmio Nobel da Paz E por isso mesmo, ao querer o prémio Nobel da Paz, ele teria de resolver a situação tanto no Médio Oriente como na Ucrânia. Nós estamos perante alguém que trabalhou na segurança e Kellogg já apresentou até a Trump um plano para acabar com a guerra. Mas o que é que esse plano exigiria? Que a Ucrânia aceitasse negociações a troco da cedência de armas. O que isto é dizer? A meu ver, é o realismo a ditar a sua lei. Na realidade, a Rússia está a avançar na Ucrânia a um ritmo cada vez mais intenso. Repare, Mari João, neste momento a Rússia controla 18% da Ucrânia, na totalidade, e tem a Crimeia totalmente controlada, 80%, à volta disso, do Donbass, na zona de Luhansk e Donetsk, tem mais do que 70% em Zaporíjia e Kherson, tem 3% em Kharkiv, e repare, acaba também em Kursk por estar numa fase de recuperação. Ora, o que é que a administração dos Estados Unidos está a dizer? Que provavelmente, com tanta dificuldade que está a enfrentar, a Ucrânia tem de reduzir a idade de recrutamento para os 18 anos, porque é insuficiente o atual recrutamento e os militares ucranianos estão perfeitamente cansados, estão fatigados de uma guerra muito morosa e que chega a ter 45 combates no mesmo dia. E isto implica perdas humanas a um ritmo galopante. O que é este senhor? Este senhor é alguém que está ligado à segurança e por isso mesmo vai transmitir a imagem de Trump, que é o quê? A Ucrânia tem de perceber que já passou o tempo em que pode reivindicar tudo. E por isso mesmo, Zelensky tem de perceber a inevitabilidade de aceitar perdas territoriais. Agora, o importante, e Trump não vai abandonar totalmente a Ucrânia, o importante é tentar limitar ao máximo essas concessões, até porque não interessa a Trump que Putin possa reclamar vitória. Porque uma coisa é reclamar, como no caso do Hezbollah, uma vitória onde toda a gente percebe que há uma derrota, outra coisa é Putin conseguir ficar com toda a zona que tem ocupada na Ucrânia, porque isso efetivamente seria mesmo uma vitória e uma derrota, portanto, da ordem liberal. Trump não pode começar o seu mandato com uma derrota inequívoca da ordem liberal. Vai encontrar aqui um ponto de equilíbrio. E esta escolha, a meu ver, é uma escolha que podemos considerar normal. E por que normal? Porque é alguém que já lhe apresentou um plano de como é que é possível transformar a situação no sentido de um acordo e da via diplomática, não abandonar totalmente a via militar, mas encaminhar-se, portanto, para a mesa das negociações.

Entretanto, o diretor dos Serviços Secretos da Alemanha alertou que a utilização extensiva de medidas híbridas pela Rússia podem levar a NATO a invocar a cláusula de defesa mútua do artigo quinto. Professor José Filipe Pinto concorda com Bruno Calle? Parece-lhe uma realidade cada vez mais próxima?

Eu penso que não. Neste momento, tudo se encaminha para as negociações. E repare, nós percebemos a questão da NATO, mas nós também percebemos que a NATO tem, por exemplo, a Turquia. E percebemos a posição da Turquia, por exemplo, relativamente à questão no Médio Oriente. Nós percebemos que há uma distância muito grande entre as palavras e a realidade. E nós percebemos que Zelensky, desde o início, quis chamar a NATO para o conflito. Ora, não é possível, neste momento, mais a mais com a Alemanha, como nós percebemos, a ir a eleições, com Robert Fico da Eslováquia a aceitar ir à comemoração no dia 9 de maio, do Dia da Vitória em Moscovo, com Orbán sempre mais do lado de Putin do que do Ocidente. Portanto, com o Grupo de Visegrád completamente dividido entre o apoio à União Europeia e o apoio a Moscovo, nós percebemos que esta questão de aumentar o elemento bélico está em contraciclo. Neste momento, nós temos de ir não para uma escalada, mas para uma desescalada. E vamos ter de utilizar um elemento que é a dissuasão. Repare, quando Putin mostrou aquele míssil experimental, avisou os Estados Unidos. No sentido de quê? De avisar os Estados Unidos de que dispunha de novos materiais, que não conviria, portanto, abastecer muito a Ucrânia, já que lhe permitiriam utilizar os materiais norte-americanos, os ATACMS, em território russo, que não conviria esta escalada, porque é evidente que nós percebemos a regra de Mahatma Gandhi, que olho por olho, dente por dente, o mundo acaba cego e desdentado. E portanto, não é possível, de maneira nenhuma, continuarmos este discurso de escalada. E é importante percebermos que neste momento o importante é um discurso de mais suavidade, no sentido de percebermos que não vamos conseguir a paz, Mari João, vamos conseguir um armistício, mas é este armistício que vai implicar uma estabilização da situação, que não serve verdadeiramente os interesses de ninguém, que até serve mais os interesses de Putin do que da Ucrânia. Uma escalada à face da ordem liberal.

José Filipe Pinto, muito obrigada pela sua análise. Um bom dia, professor.

Um bom dia para si, Mari João.

Muito obrigada.