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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra, onde olhamos para o ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje com Carlos Gaspar, professor e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Carlos Gaspar, bem-vindo.

Obrigado.

Muito obrigado por estar com a Rádio Observador. Começamos pela notícia do dia, que vai marcando também a atualidade internacional. Donald Trump disse esta manhã que vai haver uma conversa com Vladimir Putin. Entretanto, o Kremlin confirmou que isso vai mesmo acontecer e que vai acontecer por telefone. O que lhe pergunto, Carlos Gaspar, é o que isto representa para as próximas semanas nestas negociações. Estamos cada vez mais perto também de um encontro entre Putin e Trump, e o que isto nos diz sobre o papel da Europa na mediação deste conflito?

A Europa, aparentemente, não tem nenhum papel nas conversações entre os Estados Unidos e a Rússia. O presidente Trump não falou da Rússia na conversa anterior entre o secretário de Estado norte-americano e o ministro das Relações Estrangeiras russo. Aparentemente, também não houve nenhuma referência à Europa, pelo menos que quisessem tornar pública. A mesma coisa quando o negociador principal norte-americano esteve com Vladimir Putin no fim da semana passada em Moscovo. Portanto, uma preparação nos últimos dias bastante intensa desta conversa. O presidente Putin disse duas ou três coisas, umas mais claras, outras menos claras, sobre quais são os temas que quer levar à conversa. Nenhum deles é sobre a Europa. Ele disse que ia falar sobre territórios, que ia falar sobre centrais energéticas e também uma referência críptica que ia falar sobre a divisão de assets, de bens, mas não se percebe muito bem exatamente se são bens ou recursos. "Assets" foi a expressão que ele usou, mas não é evidente. Há pouca informação, finalmente, até este momento sobre as conversações e mesmo a sua ordem de trabalhos. A única coisa que nós podemos concluir é que o telefone foi bem preparado de parte a parte e que, portanto, provavelmente, se as coisas se passarem como Washington quer, se pode avançar rapidamente, como disse, para uma cimeira entre os dois presidentes.

E com este aproximar entre Putin e Trump, a Ucrânia vai se vendo cada vez mais obrigada ou cada vez mais empurrada para a inevitabilidade de ter de aceitar um acordo com a Rússia que passe, por exemplo, pelo cessar de territórios, ceder de territórios?

Não há nada de inevitável neste processo. Aquilo que toda a gente, aparentemente, já concluiu é que, no plano norte-americano, os Estados Unidos estão preparados para dar à Rússia a vitória que ela não teve no campo das armas. A Rússia não conseguiu derrotar a Ucrânia no campo das armas, mas os Estados Unidos querem, por um lado, garantir que a Rússia fique com os territórios que já ocupou e, provavelmente, o presidente Putin está a ganhar tempo para as suas tropas recuperarem as posições ocupadas pela Ucrânia no distrito russo de Kursk, para se poder chegar a uma forma em que as partes ficam no momento do cessar-fogo nas posições que ocupam nesse momento. O presidente Putin não quer que haja quaisquer tropas ucranianas em território russo. Portanto, os Estados Unidos, por um lado, como dizia, estão preparados para reconhecer uma situação de fato da ocupação russa, não só da Crimeia, como dos quatro distritos ucranianos que anexou em setembro de 2022, formalmente. E também está preparado para garantir que a Ucrânia não entra na NATO. A Ucrânia só pode entrar na NATO se tiver a aprovação de todos os Estados membros, maxime os Estados Unidos, e que os Estados Unidos também estão preparados para não estar presentes no terreno com qualquer garantia de segurança à Ucrânia depois de um cessar-fogo e mesmo depois de haver acordos de paz. Isso significa que a Rússia pode, no dia seguinte, declarar que o essencial dos seus objetivos foram alcançados graças à diplomacia norte-americana, graças ao plano do presidente Trump. A Ucrânia não tem que forçosamente aceitar isso, sobretudo se as conversações entre os Estados Unidos e a Rússia excluírem, proibirem ou quiserem proibir A presença de tropas europeias em território ucraniano para se substituírem à garantia que os Estados Unidos se recusam a dar.

Era precisamente por aí que queria perguntar-lhe a seguir. Ouvimos hoje também Paulo Rangel, que esteve presente na reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros em Bruxelas, dizer que nesta altura ainda é demasiado cedo, é totalmente extemporâneo, foi a expressão usada por Paulo Rangel, para pensar se o país deve ou não integrar uma missão de manutenção de paz na Ucrânia, isto na eventualidade de um acordo com a Rússia. Parece-lhe a posição certa e que papel é que pode assumir Portugal?

Todos nós temos assistido nos últimos dias a uma sucessão de reuniões que não são apenas de ministros, não são apenas reuniões de políticas, mas são reuniões dos responsáveis operacionais, dos chefes de Estado-Maior, estiveram em Paris, vão estar agora em Londres. Quando os chefes de Estado-Maior se reúnem é para definir os planos concretos para a formação dos contingentes e das posições que vão ocupar na Ucrânia a seguir à cessação das hostilidades ou no momento que entenderem possível. Portanto, está em curso uma programação operacional em que, obviamente, um certo número de Estados, até agora mais de 20 Estados já declararam que estão prontos a enviar tropas e meios, em que datas para colocais dentro desse quadro de uma coligação informal, uma coligação ad hoc, aquilo que os ingleses chamam uma coalition of the willing, fora da União Europeia e fora da NATO, mas incluindo membros da NATO e da União Europeia, que vão estar na Ucrânia para dar garantias mínimas aos ucranianos de que o cessar-fogo pode ser respeitado. Portanto, todos esses países estão a preparar as suas forças para avançarem nesse sentido. Todos esses países não entendem que seja extemporâneo falar da sua presença militar na Ucrânia. Se Portugal acha que é extemporânea é porque ainda não chegou a uma decisão sobre qual vai ser a sua posição.

E hoje, Carlos Gaspar, ouvimos também esta tarde, Kaya Callies, a chefe da diplomacia europeia, a alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, falar num amplo consenso para um apoio de 40 mil milhões de euros para ajuda à Ucrânia, mas sem concretizar exatamente o que é que vai estar incluído. Eu pergunto-lhe, Carlos Gaspar, o que é que devia incluir um pacote que fosse realmente eficaz de ajuda à Ucrânia?

Os europeus têm, por um lado, de continuar a fazer aquilo que faziam, isto é, garantir o financiamento do Estado ucraniano. Eles são, os países da União Europeia, os principais financiadores do Estado ucraniano e, por outro lado, têm que fazer um esforço adicional para substituir, na medida do possível, os Estados Unidos, que são o principal fornecedor militar das Forças Armadas ucranianas. Alemães, suecos, franceses, britânicos têm dado um apoio militar significativo. Mas o principal apoio militar são os Estados Unidos, são, têm sido e continuam a ser, neste momento, o principal apoio militar das Forças Armadas ucranianas, mas é preciso fazer um esforço para substituir os Estados Unidos, quanto mais não seja, antecipando situações em que pode haver, de novo, mais uma vez, interrupções na assistência militar dos Estados Unidos.

E precisamente sobre os Estados Unidos, antes de olharmos também para o conflito do Médio Oriente, perguntava-lhe, Carlos Gaspar, hoje soubemos também que os Estados Unidos vão abandonar o grupo de investigação à invasão da Ucrânia, o chamado Centro Internacional para a Acusação do Crime de Agressão contra a Ucrânia, que investigava Vladimir Putin, mas também os aliados da Bielorrússia, a Coreia do Norte, o Irão. Estamos a ver cada vez mais o aproximar de Donald Trump a Vladimir Putin. Até que ponto é que isto vai chegar? E pergunto-lhe se podemos ver, por exemplo, Donald Trump em breve a visitar a Rússia. Chegou-se a falar na visita do presidente norte-americano ao Dia da Vitória, o dia 9 de maio em Moscovo. Vê isso como uma possibilidade?

É certamente uma possibilidade, é certamente aquilo que o presidente russo tinha previsto desde há algum tempo, contando com o rapprochement entre Moscovo e Washington, que se está a verificar tal como era o cálculo estratégico da Rússia desde há vários meses, desde antes das eleições norte-americanas. O presidente russo quer fazer uma grande cimeira tripartida entre os Estados Unidos, a Rússia e a China em Moscovo no dia em que se comemora a vitória sobre a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Ele chama mesmo ao seu programa fazer um segundo Yalta, uma segunda divisão de esferas de influências entre as grandes potências. Essa é a visão do presidente russo. Não é evidente que seja essa a visão Do presidente Trump, que disse que queria ir a Moscovo antes do dia 9 de maio deste ano, porque tem pressa em terminar o acordo sobre a Ucrânia, que é a sua prioridade neste momento.

E essa visita de Donald Trump representaria uma vitória da visão de Vladimir Putin?

O facto de existirem conversações e de se estarem a restaurar as relações diplomáticas a todos os níveis entre os Estados Unidos e a Rússia significa o fim do isolamento da Rússia. A Rússia continua a ser o agressor, um país membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas que violou todas as regras da Carta das Nações Unidas, invadiu a Ucrânia sem qualquer tipo de provocação, com uma justificação ideológica e mitológica enunciada por parte do presidente Putin. Não obstante, o presidente Trump decidiu que tinha de concluir a paz na Ucrânia, como ele disse durante a campanha, em 24 horas, e é exatamente isso que ele está a fazer, esquecendo-se que ter pressa e mostrar ter pressa é a pior posição possível numa negociação, qualquer que ela seja.

E olhamos agora para o conflito no Médio Oriente, também com os Estados Unidos como o principal protagonista neste momento, isto porque Israel e os Estados Unidos veem agora a Síria como a possível nova casa para os habitantes da Faixa de Gaza, isto no âmbito do plano de reconstrução de Donald Trump, que tinha primeiro sugerido limpar a Faixa de Gaza, levando os palestinianos para a Jordânia e para o Egito. Ora, essa proposta não foi bem recebida por estes dois países. Agora diz-nos a imprensa norte-americana que a nova casa, a nova hipótese em cima da mesa é a Síria. Pergunto-lhe, Carlos Gaspar, se este plano é viável e se podemos esperar que de facto avance.

Não me parece viável. Há refugiados palestinianos na Síria, na Jordânia, no Líbano, desde 1947 e, portanto, nesse sentido, não seria propriamente uma novidade haver refugiados palestinianos na Síria. Só é aceitável e só é realista, de resto, esperar que haja um certo número de palestinianos que saiam da Faixa de Gaza, se eles assim o entenderem fazer voluntariamente e não com um grande plano de recolocação que possa envolver vários países e identidades. Nada disso me parece ser realista. É uma violência adicional esta pressão que estão a exercer contra a comunidade palestiniana em Gaza, que é oprimida pelo Hamas no seu próprio território e pressionada para sair do seu território pelos Estados Unidos e por Israel. É uma situação excessiva.

E nesse sentido, parece-lhe mais viável o plano que é avançado pelos líderes árabes, que hoje até foi admitido por Kaja Kallas?

Sim, é um plano que tem algumas omissões importantes e outros pontos em que as coisas estão longe de estar concluídas. Em primeiro lugar, é indispensável haver uma força internacional que garanta a segurança em Gaza. Em Gaza continua a haver uma posição forte militar do Hamas e justamente o plano árabe exclui o Hamas do governo do território de Gaza, mas não tem uma verdadeira alternativa para o antigo governo do Hamas, uma vez que a Autoridade Palestina, neste momento, não tem condições para a exercer. Falta preencher todas essas condições com a brevidade possível, mas parece-me indispensável haver clarificação sobre essas duas questões, antes de haver um apoio, que não seja apenas um apoio de princípio, por parte da União Europeia.

Ainda muita tinta por correr aqui, tanto na Ucrânia, tal como no Médio Oriente. Fica por aqui mais um "Gabinete de Guerra".

Se for só tinta, não é nada mau.

Muito obrigado, Carlos Gaspar, professor e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Fica por aqui então mais um "Gabinete de Guerra" que está de volta amanhã.