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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise da especialista em Relações Internacionais, Madalena Mayer Resende. Madalena, seja muito bem-vinda à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre memorandos de entendimento. O memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos, conhecido ontem, ainda a marcar a atualidade. Está próximo o acordo, é o que dizem ambos os lados. Ainda assim, o país islâmico avisa que a retórica norte-americana tem de mudar. Madalena Mayer Resende, é justo dizer que estamos no limiar do entendimento?

Bom dia. Sim, eu penso que há claramente desenvolvimentos que nos apontam para esse cenário. Eu acho que a novidade não é apenas que Donald Trump diz pela 35ª vez que um acordo está próximo, diz que um acordo está iminente no próximo dia, e também que o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, tenha dito que o memorando de entendimento nunca esteve tão perto. E por isso acho que há uma convergência real sobre uma fórmula de prolongar o cessar-fogo, reabrir ou normalizar a circulação no Estreito Ormuz e realmente abrir uma janela de negociação sobre o programa nuclear iraniano.

Madalena Mayer Resende, o Irã diz que nunca esteve tão perto de um acordo com os Estados Unidos. Nós já ouvimos esta retórica de "o acordo está próximo, o acordo vai acontecer", mas muito por parte de Donald Trump. O fato de ser agora o Irã a dizer isto é sinal de que é para ser levado um pouco mais a sério?

Sim, penso que sim. Ou seja, este memorando de entendimento está a ser negociado há várias semanas, portanto, não é nenhuma novidade que estas negociações estavam a ter lugar. Nos últimos dias, nesta última semana, houve uma escalada por parte dos Estados Unidos e do Irã com o abate de um helicóptero americano. E o que dizem as fontes é que realmente o risco de uma escalada mais violenta levou a que as duas partes tenham realmente decidido negociar este acordo interino.

Quanto ao dossiê nuclear, o assunto ficará para uma outra fase. Para já, é o que está a ser veiculado na imprensa internacional. O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros admite que as exigências dos Estados Unidos não são, para já, aceitáveis. Estamos aqui, Madalena Mayer Resende, perante uma questão que pode, de certa forma, dinamitar este entendimento?

Sem dúvida que é o ponto mais sensível, o ponto mais importante e na verdade, o ponto que tem marcado o verdadeiro avanço das negociações. Penso que os dois lados estão muito mais próximos do que estiveram nas últimas semanas. E daqui também acho que é preciso dar crédito ao presidente Donald Trump, que foi o presidente que arriscou mais no sentido de resolver este problema nuclear do Irã. E parece estar a fazer mesmo, apesar dos custos eleitorais que este conflito poderá vir a ter nas midterms. E de fato, há aqui a questão do desmantelamento de partes essenciais do programa nuclear, nomeadamente a retirada do urânio enriquecido que está no Irã, e a degradação de outros stockpiles que também estejam, não a um grau tão alto, mas que são também considerados perigosos para a possibilidade de fazer um programa nuclear. E também, obviamente, chegarmos a um acordo sobre um regime de inspeções de longo prazo. Obviamente que para o lado iraniano, esta formulação é explosiva, é difícil. O Irã não quer aparecer como país que capitula depois de uma guerra e da pressão militar dos Estados Unidos. Portanto, obviamente, vão sempre dizer que as fórmulas não são aceitáveis, e vão tentar o melhor que podem dourar a pílula, obviamente.

Muito obrigado, Madalena Mayer Resende, é especialista em Relações Internacionais. O nosso tempo está a chegar ao fim. Agradeço-lhe a análise a estas questões geopolíticas, a marcar também a situação no Médio Oriente, numa altura em que está muito perto de ser alcançado um acordo com esse memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, fica como sempre disponível em podcast.