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Gabinete de Guerra na Rádio Observador esta noite. Vamos analisar os principais focos de conflito com o nosso convidado Orlando Sá Mois. Boa noite, Orlando. Muito obrigada por estar conosco mais uma vez neste Gabinete de Guerra. O presidente norte-americano admitiu que a guerra com o Irão poderá prolongar-se ainda por duas ou três semanas e descartou que o tempo seja um fator crucial para os interesses de Washington. Disse que os Estados Unidos ou fecham acordo com o Irão ou ganham a guerra com muita facilidade. Se assim fosse, Orlando, os Estados Unidos não teriam já terminado com o conflito que nem sequer reúne consenso dentro do núcleo do Trump?
Boa noite, muito obrigado pelo convite. Nas palavras é mais fácil resolver conflitos do que na realidade. Estamos a viver não só alguns impasses, como na realidade a natural guerra de informação, que faz com que seja muito complicado, por vezes, analisarmos. Há essa vontade de tentar terminar rapidamente, mas note-se que os prazos também já estão eles próprios muito dilatados, porque a guerra começou a 28 de fevereiro e está a impor um conjunto de custos enormes. Agora tem vindo a público o conjunto de embarcações de navios, muitos milhares, que estão ainda dentro do Golfo e que não conseguem sair. Estima-se entre 20 mil a 22 mil pessoas envolvidas. Algumas até mesmo desde quase o primeiro dia têm vindo a público. Daí esta necessidade, que Trump também falou e apelidou de humanitária, e bem, de tentar libertar e não bloquear mais o estreito de Ormuz. Ora, agora estamos com estreito contra estreito e é também isso que nos ajuda aqui a verificar este prolongamento da guerra, porque, na realidade, o Irão continua a estar pouco disposto a fazer concessões, porque nota que continua a poder impor alguns danos sobre os navios através das famosas speed boats, como agora se diz, estas lanchas rápidas que apesar de muito desproporcionais em força, e Trump até brinca um bocadinho com o fato de não terem naturalmente a capacidade da Marinha dos Estados Unidos. Claro que não, mas para danificar navios é o suficiente e, portanto, mantém-se com essa intenção, com a intenção de cobrar portagens. Agora já têm novos desenhos para a forma como os navios podem entrar e sair, porque desejam controlar e não admitir que sejam mesmo águas internacionais. Portanto, o Irão mostra que não está disposto a colaborar. Sabemos que Trump fala sempre no deal, no acordo, quer muito chegar a acordo, ainda vem muito desta sua vocação empresarial e acha que tudo se terminará se fosse possível juntar o Irão num acordo melhor para os Estados Unidos do que aquele que foi proposto e assinado durante o regime de Obama e que ajudou a controlar em parte algum do impulso do Irão em alimentar o seu programa nuclear. Mas como hoje sabemos, também pode não ter sido bem assim e continuou o Irão a articular sua posição para com os grupos que tentavam replicar a revolução iraniana, mas noutros pontos do mundo, os grupos terroristas, esses proxies, e continuaram a enriquecer provavelmente às escondidas, se calhar até muito para além daquilo que estava estabelecido nesse acordo. E, portanto, as posições continuam muito difíceis de sobrepor e de se encontrar consenso, mas Trump tem que continuar a dizer que de certa forma a guerra também está parada, porque se calhar não quer mesmo arriscar uma tensão para com o Congresso, que detém a autoridade passados os 60 dias, ainda mais, se bem que desde o primeiro dia apenas o Congresso devia poder declarar guerra. Mas enfim, há esta almofada de 60 dias perante um ataque iminente que foi usada, mas que neste momento está esgotada e por isso não há nada como sobre tempo voltarmos às palavras de Pete Hegseth, que hoje disse: "The clock stops", assim que lhe foi perguntado precisamente se o cessar-fogo terminar agora, o que acontece? Bom, mas para já continua o cessar-fogo and the clock stops. Portanto, o relógio não está a contar, continuamos em cessar-fogo, se calhar seja o interesse de todos.
Orlando, mas também é certo que nós recebemos hoje notícias que dizem que Israel está a coordenar com os Estados Unidos um ataque ao Irão, que pode colocar em risco o cessar-fogo e deve incidir sobre a infraestrutura energética e sobre dirigentes seniores. Isto é uma boa ideia nesta altura, porque há pelo menos uma tentativa de negociações?
O uso da violência nunca é boa ideia e aqui o nosso anseio seria uma mudança de regime, de preferência pacífica.
Isso é mais do interesse de Israel ou dos Estados Unidos e na eventualidade de estar de fato a ser coordenado um ataque ao Irão.
Enfim, nós aquilo que temos notado é esta insistência de Israel em limitar o máximo possível as capacidades do Irão. Israel é o país que sente a desestabilização, que se sente ameaçadoQue no fundo, sente também o ataque destes proxies constantemente, também em infração de cessar-fogo, que depois acaba por ser mútua e portanto tem mais vontade de que não haja um acordo tão claro que venha possibilitar o Irão de voltar ao seu programa nuclear e por isso quer mesmo limitar mais a capacidade deste regime e deste país que a partir de 79 passou a ter muito más relações com Israel. E quanto aos Estados Unidos, como disse e bem na primeira pergunta, é que na realidade até pode haver alguma divisão mesmo dentro da administração. Há diferentes leituras dos acontecimentos e possivelmente Trump pode ser um bocadinho mais permeável e flexível à ideia de se tentar limitar o dano a partir de agora. Por isso é que ele vai tantas vezes falando, fala em termos sempre de como que o regime já tivesse mudado, é mais fácil e até chega a utilizar adjetivos muito corajosos, dizer que é mais razoável esta atual liderança iraniana do que a anterior, quando na realidade tudo aquilo que temos aponta quase em sentido contrário, de se notar que continuam a carregar e a se impor muito sobre os anteriores manifestantes pacíficos e o regime continua a entrincheirar-se nas suas posições para continuar a centralizar todo o poder e toda a força e que continuam completamente dispostos a usar de violência até sobre os países vizinhos, nomeadamente e ao arrepio desta trégua que se estaria a passar agora, assim como as próprias lanchas, que também são uma forma de violência. Portanto, o Irão continua agressivo e muito pouco interessado em colaborar. Aliás, se virmos as palavras, creio que de hoje mesmo, de Ghalibaf, que ele dá a entender no seu post que o status quo, esta posição atual, é mais intolerável para a América, é a América que está em dificuldades, deixando entender, o presidente do Parlamento iraniano, de que eles estão dispostos a continuar e a prolongar, porque o conseguem como que se não sentissem essa fadiga da guerra, nem os efeitos da atual guerra económica. Ele aliás termina com a frase misteriosa talvez, mas também ameaçadora: "Nós, Irão, ainda nem começámos". Como que a dizer que estão preparados para isto. De facto, numa democracia como os Estados Unidos, muito mais escrutinada pelos media e pelas pessoas, é muito mais difícil de sustentar o prolongar de uma guerra que normalmente gera muita impopularidade nos líderes que a começam. E Trump está de facto a sofrer muito em termos de sua popularidade e são números que ele próprio também observa com algum cuidado, porque tem uma forma de estar em que, no fundo, tem muito amor próprio, está sempre interessado em querer se gabar dos seus feitos e, portanto, possivelmente também sente essa pressão. Agora, aqui a posição relativa entre Israel e Estados Unidos é sempre difícil. A impressão que temos pública é que é Israel a puxar pela iniciativa para tentar limitar este regime do Irão, das suas possibilidades. Mas na realidade eu acho que deve ser mais conjunta, articulada é certo, muito embora Trump por vezes também esteja muito disposto a articular as suas posições para com outros países, nomeadamente não o Irão, mas os árabes da região, que nem sempre também têm boas relações para com Israel. E portanto nota-se que muitas vezes Trump está mais interessado em atalhos que o possa conduzir a acordos dos quais os Estados Unidos possa sair beneficiado, mais do que uma ideologia muito vincada sobre questões de geopolítica que pudessem fazer esse tipo de nuances. Creio até que muitas vezes é sincera a forma como ele olha para a Arábia Saudita como um parceiro, ou naturalmente Kuwait, mas isso é, e os Emirados e os países do Golfo, como Bahrein e o Qatar, que normalmente também cooperam bastante em termos de segurança e são de certa forma aliados. De certa forma, não. Têm as principais bases da região dos Estados Unidos e portanto são sem dúvida aliados e Trump respeita muito esse tipo de aliança.
Falemos ainda da Ucrânia antes de fecharmos este gabinete de guerra. Tem havido aqui uma troca de ideias relativamente a uma trégua temporária. Putin quer um cessar-fogo nos dias oito e nove, a pretexto da celebração do Dia da Vitória sobre a Alemanha Nazi. Quer estar à vontade para fazer o desfile, digamos assim. E Volodymyr Zelensky diz que é um ato de puro cinismo tentar um cessar-fogo para fazer uma festa. E, portanto, o presidente ucraniano decide fazer, sim, um cessar-fogo, mas não nos dias em que o presidente russo sugere. Volodymyr Zelensky confirmou hoje que inicia-se um cessar-fogo à meia-noite. Hoje, à meia-noite. Qual é a ideia do presidente ucraniano? É demonstrar que não é Putin quem dita todas as regras?
Nós temos sempre um pouco esta discussão sobre o Dia da Vitória, que na Rússia corresponde um pouco mais a nove, nós temos mais a tendência de olhar para o dia oito de maio, mas creio que a partir de agora estaremos a celebrar o fim da Segunda Guerra Mundial. A Rússia lá terá a sua parada. Desta feita acho que vai ser mais limitada a nível do aparato militar que normalmente é mostrado. Vai ter, de facto, um efeito um pouco mais festivo e procurará demonstrar também um pouco as ligações que tem ao resto do mundo e os países queDe forma mais ou menos indireta, vão poder aparecer ao lado da Rússia, independentemente da leitura que até se possa fazer disso. Talvez a Rússia tivesse, de facto, algum receio que nesses dias pudesse haver um pouco mais de fragilidade em alguns pontos da guerra e das posições e esteja a pedir para uma arrumação de forças. A Rússia e a Ucrânia não estão em guerra por acaso e não conseguem articular naturalmente posições, por isso é que temos guerra. Muitas vezes temos guerras porque não conseguimos nos ouvir uns aos outros ou porque as pretensões de um país, neste caso a Rússia, seriam mesmo incomportáveis para um país soberano como a Ucrânia. Quando se toca a falar de cessar-fogo, também é natural que nem sequer nesse ponto haja entendimento, precisamente pelas posições estarem muito afastadas. E ambas as posições parecem que estão a ver os dias como sendo a possibilidade de arrumar forças, deslocar posições, estudar melhor os inimigos, fazer as movimentações que, naturalmente, estando numa posição de cessar-fogo, são mais fáceis de reorganizar do que quando estamos ainda a meio de uma situação, de um momento de tensão e de guerra com tiros de parte a parte. Quando há o som da guerra no ar, é mais difícil fazer movimentações de tropas. Por isso mesmo, há muito ceticismo de parte a parte sobre a forma como estas tréguas são usadas. Relembro que as vezes que ocorreram outras tréguas, nalguns casos não este ano, mas até no passado, na Páscoa, e outras tentativas, foram sempre muito reduzidas em tempo e, na realidade, fazem lembrar um pouco mais até desta trégua, porque as guerras estão interligadas entre o Irão e os Estados Unidos neste momento. O general Dan Kane ainda hoje disse uma frase que nos diz tudo sobre um cessar-fogo. Ele diz: "Na realidade, todos os ataques que houve estão abaixo do limiar que nos levaria a voltar às operações de combate". Ou seja, tudo aquilo que está a acontecer entre o Irão e os Estados Unidos, neste momento ainda está abaixo. E quando é que será acima, se na realidade estamos a olhar para a violência de um lado e de outro, ou mesmo entre o Líbano e Israel? No fundo, o Hezbollah, como não é parte, continua também nas suas operações e continua a atacar Israel e depois também a ter respostas com isso. Aqui um pouco a mesma coisa. No fundo, há esta vontade, numa altura de celebração, mas que a desconfiança é tanta que provavelmente vai continuar a haver alguma escaramuça e alguma tentação de aqui e ali reposicionar, tentar ver alguns pontos que sejam mais frágeis e que possam ainda ser atingidos. É muito difícil o cessar-fogo ser muito hermético e fechado, como todos gostaríamos que fosse, que fosse mesmo um verdadeiro bloqueio das operações militares no sentido de se respirar a trégua e até, quem sabe, sublinhar ainda mais a diplomacia e as conversações. Seria isso que nós desejaríamos sempre à humanidade, mas infelizmente a guerra também já ocorre na situação em que tudo correu mal e não podemos esperar que haja acordo perante o cessar-fogo. Já seria um princípio de um acordo, mas que não fosse só no dia 6 de Maio, nem nos dias 8 e 9. O ideal era que até fosse mais prolongado para que as partes pudessem negociar directamente, se possível, mas provavelmente aquilo directamente se possível é muito difícil, precisamente porque a Ucrânia está numa posição de grande desvantagem e de grande desproporção na sua força. Creio que até parte da perplexidade de Zelensky prendeu-se com o facto de ele ter sido, de certa forma, excluído dessas negociações. Ele até deu a entender que parecia que tinha sido acordado entre Trump e Putin. E também reconhecemos esta relação um pouco estranha entre o presidente dos Estados Unidos e o presidente da Rússia, que por vezes têm uma facilidade de falar um com o outro, esquecendo que a parte mais interessada, a Ucrânia, também devia ter voz à mesa, devia estar a ser ouvida, quer de um lado, quer de outro, mas se calhar mais dos Estados Unidos, que tinha aqui um pouco mais de obrigação, desde 94, desde o memorando de Budapeste, de dar alguma protecção no caso de ataque à Ucrânia.
Orlando Samões, muito obrigada pela sua análise neste Gabinete de Guerra. Desejo-lhe bom resto de semana.
Bom resto de semana. Obrigado.