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Arranca agora o gabinete de guerra das Manhãs 360, hoje com José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas e também em Relações Internacionais. Bom dia, professor José Filipe Pinto.
Muito bom dia, João Miguel. Bom dia, senhores ouvintes.
Professor, vamos começar por esta informação da última hora. Joe Biden acredita que o Irão pode adiar o ataque se houver um acordo para um cessar-fogo em Gaza. Entretanto, o Hamas também já anunciou que não vai participar nas negociações. O que é que resulta daqui, professor José Filipe Pinto?
Resulta uma situação cada vez mais complexa, cada vez mais difícil de prever. Por quê? Porque este cancelamento, ou melhor, o adiamento da visita de Blinken e a não comparência do Hamas às negociações visando o cessar-fogo, acabam por ser as duas faces da moeda de insegurança e de guerra psicológica que o Irão pôs a circular naquela região. Se o Hamas quisesse efetivamente a paz ou se quisesse o cessar-fogo, não teria escolhido Sinwar para líder, porque havia personalidades muito mais moderadas, por exemplo, Meshaal. Só que Sinwar tinha um ativo, tinha sido ele o responsável pela aproximação do Hamas ao Irão, que tinha sido quebrado em 2011 devido à questão na Síria. Portanto, o que está em causa? No fundo, é uma tentativa do Irão se assumir como a potência liderante da ordem islâmica. Daí o apoio que ele tem vindo a dar a grupos terroristas que operam naquela zona, tanto em termos de material bélico como de treino militar. O problema é que estes proxies sabem que precisam desse apoio, mas também têm agendas próprias e essas passam pela afirmação nas respectivas áreas ou países como a principal força, dito de uma forma muito dura, mas muito realista. É evidente que o Hamas sonha liderar aquilo que seria um Estado palestiniano, que o Hezbollah pretende controlar o Líbano e também não se importaria minimamente de liderar um Estado palestiniano, que a Jihad Palestiniana também tem esse objetivo. Há muitas fações palestinianas naquela zona. É evidente que todas elas sonham controlar.
E estão a medir forças também, não é? Ou pelo menos a mostrar que têm a força.
Repare, o Hamas acabou de lançar dois mísseis sobre Tel Aviv. Lançar dois mísseis, mais a mais com resultados conhecidos, é uma prova não de força, é de fraqueza, mas é uma prova de vida. É a maneira do Hamas mostrar que continua a dispor de bases para poder fazer esses lançamentos, apesar de as tropas de Israel terem praticamente destruído todas as infraestruturas existentes em Gaza. Repare, o Hezbollah continua a enviar rockets sobre o território israelita.
Ainda na última noite.
Ainda na última noite. Isso mostra o quê? Mais rockets do que aqueles que efetivamente o Hamas consegue mandar. São aliados, mas todos eles têm a sua agenda própria. E como têm a agenda própria, querem mostrar aos outros que a solução, no futuro, passará por eles. Qual é o grande problema? Repare, a China convocou estas fações palestinianas para, em Pequim, delinearem um projeto comum. Eles só têm uma coisa em comum, João Miguel: não querem reconhecer a existência de Israel e querem um Estado palestiniano desde o rio até ao mar. Quanto ao resto, eles estão perfeitamente afastados em tudo. Há mais um elemento que poderá ser de união: é o elemento religioso. Mas o elemento político afasta-os completamente, porque todos eles sonham liderar a ordem islâmica, ou melhor, o Estado palestiniano, e ao mesmo tempo, temos do outro lado o Irão a tentar liderar a ordem islâmica. Repare, Mahmoud Abbas foi onde? Foi a Moscovo. Falar com quem? Com Putin. Para quê? Para também se mostrar no terreno, para também mostrar que dispõe de aliados internacionais. E esta ligação é muito importante, porque como nós sabemos, há uma ligação estreita entre Putin e o Irão.
O professor começou a sua intervenção por falar do cancelamento da visita de Antony Blinken à região. O que lhe pergunto é se esse cancelamento estará relacionado com a aprovação da venda de armamento a Israel no valor de mais de 20 bilhões de dólares. Estará?
Está relacionado com isso e está relacionado com a instabilidade no terreno. Significa o quê? Que o Irão, neste momento, tende a retaliar, até para manter a face perante os seus aliados, os seus proxies. Mas simultaneamente, envolveu, como eu disse na semana passada, esses proxies na retaliação. E é por isso que nós assistimos ao Hamas a dar prova de vida e o Hezbollah a ter estes ataques contínuos sobre o norte de Israel. Por quê? Por uma razão simples: o que aqui está é a instabilidade, a insegurança. E o que é que o Irão está a tentar fazer? Está a tentar gerir esta guerra psicológica. E por isso mesmo, Blinken sabe que os Estados Unidos nunca abandonarão Israel, qualquer que seja a administração que tome conta da Casa Branca. E por isso mesmo, repare, onde é que Biden, por exemplo, está a tentar lutar? Está a tentar lutar para deixar um legado. Era conseguir o acordo de paz. Ora, ele sabe, de antemão, que não se consegue um acordo de paz ao mesmo tempo que se vendem armas a uma das partes E por isso mesmo, o que aqui está é Blinken, é aquilo a que nós chamamos o realismo, o pragmatismo. Blinken sabe que não há condições para se deslocar, porque nem vai haver negociações para o cessar-fogo e mais do que isso, ele pode correr um perigo efetivo, porque é evidente que nós temos de perceber que, e essa tem sido a minha posição, eu não acredito que a retaliação do Irão atinja aquilo a que se pode chamar a espetacularidade. O que eu acho é que o Irão vai retaliar muito sobre alvos, alvos simbólicos ou alvos humanos. Preferentemente sobre alvos humanos, na impossibilidade sobre alvos simbólicos. E é evidente que é um risco, neste momento, apesar de todas as medidas de proteção, a deslocação ao Médio Oriente. Não é por acaso que também as companhias aéreas estão a evitar voos para aquela região.
Professor José Filipe Pinto, vamos falar sobre o conflito na Ucrânia. A ofensiva a Kursk dura há mais de uma semana. Há aqui uma notícia que me deixou intrigado. Gostava de lhe perguntar: os Estados Unidos já vieram dizer que não estiveram envolvidos nas operações ucranianas em solo russo. Por que esta necessidade de afirmar publicamente que não estão envolvidos no terreno?
Tem a ver com um outro dado, a meu ver. É que ficaram a ser conhecidos da opinião pública os relatórios dos estudos feitos pela Rússia sobre a utilização de armas nucleares táticas em ataques ao Ocidente antes de ter começado a anexação da Crimeia. E o que os Estados Unidos aqui estão a fazer é a distanciar-se. Por quê? Este ataque surpresa da Ucrânia, quando passou da fase defensiva à fase ofensiva, foi um sucesso, por exemplo, em Kursk, mas criou um cenário para o qual Putin não estava preparado. E a reação de Putin foi intempestiva e colou a Ucrânia à condição de subserviente ou marioneta nas mãos ocidentais. E quando diz as mãos ocidentais, são as mãos da NATO, e quando diz as mãos da NATO, são as mãos dos Estados Unidos. Portanto, neste momento assistimos a um pedido da parte de Zelenskyy para que os aliados o deixem utilizar em território russo as armas que lhe forneceram. E, por outro lado, assistimos os Estados Unidos com o medo do escalar do conflito, a tentar que isso não aconteça e tentar que Zelenskyy perceba que não pode continuar a avançar. Há aqui um dado também que eu reputo muito importante. Prende-se com esta circunstância. Há quem continua a entender que há condições do exército ucraniano para avançar em território russo. Não acredito. Eu penso que se ele avançasse em território russo, a qualquer momento seria considerado uma ilha rodeada de tropas russas por todos os lados. Isso iria levar a condições muito nefastas. Eu penso que a Ucrânia vai tentar manter aquilo que ocupou, mas não vai conseguir, porque vai haver uma retaliação russa. E repare, neste momento há um endurecer do discurso de Vladimir Putin, tanto para nível interno como para nível externo. E os Estados Unidos, que estão em período de campanha eleitoral, não estão minimamente interessados em abrir mais uma frente de conflito, porque já lhe basta bem o que se passa no Médio Oriente, com a agravante de que no Médio Oriente, como nós sabemos, os Estados Unidos não se podem afastar do conflito, até porque há um elemento histórico de ligação, de aliança, mas há também, como acabamos de ver, um grande interesse do ponto de vista monetário, do ponto de vista daquela que é uma das elites que controla a vida americana. A vida americana é controlada por três elites: a elite econômica, a elite política e, evidentemente, a elite militar. E é evidente que há aqui sempre uma ideia de exportar o modelo, mas também exportá-lo em termos economicamente favoráveis.
Professor José Filipe Pinto, muito obrigado e bom feriado.
Muito obrigado, João Miguel.