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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje com a especialista em Relações Internacionais, Ana Cavalieri. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Começamos pelo Medio Oriente e por uma das questões mais cruciais neste momento, o Líbano. Está prevista para os próximos dias uma ronda de negociações entre Israel e Líbano, em Washington. Um porta-voz do governo israelita veio já dizer que não há razão para que não se possa chegar a um acordo com o Líbano, mas Benjamin Netanyahu hoje voltou também a repetir que Israel não vai sair do Líbano e que as tropas têm total liberdade de ação. O que acha que pode sair deste encontro nos Estados Unidos? Acredita que Israel possa ser, de alguma forma, persuadido a retirar as tropas ou pelo menos a comprometer-se com o cessar dos ataques?

Já houve vários momentos de acordo entre o governo libanês e o governo israelita, naturalmente mediados pelos Estados Unidos, mas é importante frisar que o grande problema desta situação é que o governo libanês não consegue controlar o Hezbollah. Ou seja, estamos aqui a chegar a um acordo diplomático, que é importante, porque nesta perspectiva quase que se pode conceber tanto o Líbano como Israel como vítimas do Hezbollah, partindo do pressuposto, naturalmente, que um dos grandes objectivos do governo libanês, através das suas forças armadas, que neste momento não têm capacidade, seria o desarmamento do Hezbollah. Neste momento existe a aparência, pelo menos, de que tanto o Líbano como o próprio Irão conseguem controlar o Hezbollah naquilo que são os ataques ao norte de Israel, porque muitas vezes foi-se o foco, penso eu, naquilo que tem sido as operações de Israel no Líbano, esquecendo-se que durante um ano, entre 2023 e 2024, o Hezbollah atirou para o norte de Israel milhares de rockets, de bombas, e só no fim de um ano, em 2024, é que se assinou a opção da operação terrestre. Isto porque nós sabemos que o Hezbollah tem em várias vilas e mini cidades do sul do Líbano, a sul do rio Litani, as suas infraestruturas subterrâneas e também algumas centrais de comando e controle. Isto conjugado com os ataques aéreos em Tarhia, no sul de Beirute, onde está a liderança do Hezbollah, Israel alega que é absolutamente necessário, não só para contrariar aquilo que são os milhares de rockets que o Hezbollah tem atirado desde 2023, para não falar também das últimas décadas, mas também que aquilo que são os ataques aéreos em Tarhia são para dissuadir aquilo que é a liderança do Hezbollah, que continua focada nos ataques ao norte de Israel. Eu penso que os comentários de J.D. Vance na última semana devem ter preocupado a liderança política de Israel, na medida em que tem havido uma espécie de mudança de narrativa. Antes, Donald Trump parecia 100% certo como método de limitação da ação israelita, mas havia uma óbvia, intensa e permanente aliança com aquilo que são os objectivos securitários de Israel. Mas J.D. Vance começou a introduzir algumas críticas que Israel não aceita que sejam feitas, nomeadamente a crítica de que, para eliminar um comandante do Hezbollah, os israelitas não estão a ter cuidado com as vítimas civis e destroem prédios de uma forma sem critério, e os israelitas vão se opor a esse argumento. Mas, neste momento, há aqui também um desentendimento de interesses, ou seja, os Estados Unidos querem levar avante ao máximo que podem o memorando de entendimento e, portanto, as negociações que esse memorando de entendimento introduziu com o Irão. Nesse memorando de entendimento, os Estados Unidos quase que aceitam o Hezbollah como uma espécie de proxy paramilitar do Irão, uma extensão que até agora os Estados Unidos nunca tinham formalizado ou legitimado esse entendimento, que o Hezbollah estaria incluído naquilo que seria a esfera de influência direta do Irão, ao ponto de a segurança, um acordo com o Irão depender também de algum safra com o Hezbollah, e Israel, naturalmente, não vai aceitar isso enquanto tiver que ver a sua fronteira norte ser bombardeada.

Vamos agora olhar para a viagem do secretário de Estado norte-americano ao Medio Oriente. Marco Rubio vai entre amanhã e quinta-feira passar pelos Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrain. O que se espera desta visita? Qual é a agenda da Casa Branca?

Antes de mais, eu gostaria de introduzir a noção aos ouvintes de que isto é uma administração que está um pouco dividida em duas fações, e a fação do J.D. Vance, Jared Kushner e Steve Witkoff ganhou, ou seja, a versão do memorando de entendimento e daquilo que é a linha negocial americana está a ser liderada por J.D. Vance, e Marco Rubio, John Ratcliffe, que é o diretor da CIA, e também Pete Hegseth perderam naquilo que seria a opção que eles preferiam, que com certeza, ou aquilo que é alegado, não passaria pelos termos deste memorando de entendimento. E então aquilo que o Marco Rubio, como o diplomata mais sénior desta administração, está agora a fazer é reunir os apoios ou aquilo que serão as linhas de concordância necessárias com os aliados do Golfo, e em várias medidas. Primeiro, saber até que ponto é que se podem, a médio e longo prazo, estabelecer caminhos alternativos ao Estreito hormuz, ou seja, aquilo que vai ser fundamental na arquitetura regional do Medio Oriente para tentar fazer com que o Irão não tenha na sua mão esta carta tão importante, como poder constranger o Estreito hormuz, é fazer todos os oleodutos e mecanismo necessários para fazer com que O petróleo do Bahrein, do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos não tenha de sair pelos Estreitos de Ormuz, mas tenha de sair por oeste, e isso são grandes investimentos que são necessários fazer. Depois, outra grande linha de comunicação que Mike Pompeo provavelmente vai discutir tem a ver com os ativos congelados que estes países possam ter do Irão. Não só os ativos congelados, mas também aquilo que são as informações financeiras, que finalmente, por exemplo, os Emirados Árabes Unidos abriram os livros à administração americana para saber em que contas é que estão e se esses ativos forem libertados, por onde é que vão ser caminhados. Isso vai ser uma informação muito importante para os americanos dividem. E depois, acima de tudo, também aquilo que estes aliados estão disponíveis para aguentar, caso aquilo que Donald Trump mais uma vez diz, mas com pouca credibilidade, se as negociações falharem, então os Estados Unidos iriam bombardear o Irão e, naturalmente, a retaliação iraniana iria se dirigir a estes países. Então, tem a ver com uma estrutura sempre muito concertada, não só com Israel, mas com todos os países do Golfo, que têm um interesse maior em ver esta ameaça regional iraniana controlada.

Entretanto, na sequência do pelo menos aparente sucesso das negociações com o Irão, os Estados Unidos suspenderam todas as sanções ao petróleo iraniano. O Departamento do Tesouro anunciou a emissão de uma licença de 60 dias ao Irão, que autoriza a produção, a entrega e venda de petróleo bruto. Esta licença dura até 21 de agosto. Acha que vamos realmente chegar até essa data com esta licença?

Sim, isso tem a ver com uma urgência que os americanos sentem em aumentar ao máximo a oferta de petróleo no mercado global. Ou seja, existe uma grande prioridade e uma pressão do lado da política interna americana de baixar os combustíveis o mais depressa possível. E para isso, naturalmente, é preciso encher o mercado, em termos de oferta, com o máximo de quantidade de petróleo necessário, nomeadamente o iraniano. Isso faz com que haja um alívio de sanções, o que os críticos deste memorando vão dizer que é uma tragédia, não é disso tudo, porque aquilo que é a grande alavancagem negocial, o grande excedente negocial americano, sempre foi a arma econômica com estas sanções que degradaram muito a economia iraniana e dentro daquilo que é um combo geral de sanções contra o regime iraniano, que são cerca de quase 60 páginas, as mais importantes têm a ver com a indústria de petróleo, porque esta licença que Scott Bessent autorizou hoje não se limita apenas ao petróleo bruto, é tudo o que são produtos privados, produtos refinados desse petróleo, também petroquímicos e todos os serviços financeiros associados a essa venda destes produtos que estavam até agora limitados, foram, neste momento, ou vão ser permitidos. E, aliás, no memorando, era uma das condições para os iranianos se juntarem às negociações mais técnicas relativamente a este âmbito nuclear. É uma urgência de mercado, de alívio da economia global, de alívio também da pressão político-eleitoral que Trump sente no âmbito doméstico, mas para aquilo que são as grandes ferramentas que os Estados Unidos possam ter de pressão negocial naquilo que é importante, que é a questão nuclear, os Estados Unidos já dão, não é dão de barato, mas já dão logo à partida essa ferramenta que tanto era preciosa naquilo que era a pressão negocial que os Estados Unidos podiam fazer. Todavia, J.D. Vance também anunciou que esses ativos vão ser descongelados. Ou seja, não estamos a falar das sanções relativamente ao petróleo, porque nisso aí o Irão vai por mês conseguir bilhões de dólares que não teria acesso antigamente, mas também relativamente aos ativos descongelados, já existem supostamente protocolos que esses ativos vão ser usados em produtos agrícolas americanos, o que significa que os agricultores americanos, que são um segmento eleitoral importante para o Partido Republicano, nomeadamente em estados como Iowa, vão ter algum benefício econômico. O J.D. Vance poderá apresentar isso como uma espécie de vitória neste processo negocial aos interesses americanos e também o fato de estes ativos descongelados vão ser utilizados para comprar produtos agrícolas e, portanto, vão ser para alimentar a população iraniana que está a sofrer de uma economia que está absolutamente obliterada. Sendo certo, naturalmente, o dinheiro é fungível e, portanto, OK, esse dinheiro provavelmente vai ser utilizado para alimentar o povo, mas então dinheiro que este governo teocrático e extremista provavelmente teria de gastar para alimentar o povo, já poderá vê-lo solto para outros âmbitos menos favoráveis aos Estados Unidos da América.

Vamos olhar ainda para a crise política no Reino Unido. Com esta demissão de Keir Starmer, pode haver mudanças na política externa britânica em relação ao conflito no Meio Oriente ou vai manter-se tudo na mesma? Eu perguntava-lhe também se acha que a relação de Keir Starmer com Donald Trump pode ter de alguma forma contribuído para este desfecho.

O desfecho deve-se em termos diretos de Keir Starmer a vários escândalos. O primeiro foi talvez a indicação para embaixador inglês nos Estados Unidos da América, de Mendelssohn. Nós depois sabemos que ele tinha conexões com Epstein que eram conhecidas, e eram conhecidas também de Keir Starmer. Isso foi um grande escândalo ao nível diplomático. Depois, em termos também ao nível de política internacional, foi efetivamente o embate entre Keir Starmer e Donald Trump por causa da utilização de algumas bases e de rotas aéreas neste apoio logístico para esta operação no Irão. Houve aí um atrito direto e intenso, que depois o rei Carlos, na visita de Estado aos Estados Unidos, tentou amenizar É importante, todavia, também relembrar que o Starmer sempre foi uma figura importante ou de relevo, juntamente com o Keir Starmer e o Merkel, naquilo que é o bloco de apoio à Ucrânia dentro da Europa. Mas eu penso que quem será o substituto de Keir Starmer na liderança trabalhista, sendo certo que nós ainda agora vamos ter de passar num processo de liderança. Os candidatos vão ter de passar alguns requisitos internos do partido, nomeadamente apoio de sindicais, apoio de members of parliament, ou seja, membros do Parlamento, e também apoio da estrutura local do partido, para depois fazer uma espécie de eleição geral de todos os membros do Partido Trabalhista e também daquilo que se chamam as organizações especiais sindicais, que têm ainda uma grande relevância dentro do partido. Outro grande escândalo que foi importante e que de alguma maneira poderá estar ligado com as relações americanas, ou então aquilo que foi a necessidade do aumento de despesas da defesa, foi o desentendimento do orçamento pra defesa, que levou à demissão do ministro da Defesa inglês, por haver uma discordância na quantia que seria disponibilizada para essa área, para esse departamento. Mas eu penso que a sucessiva substituição de líderes políticos, que na Inglaterra ou no Reino Unido é normal pelo sistema parlamentar, ou seja, desde que a maioria parlamentar mantenha uma realidade, a liderança do partido, o primeiro-ministro cabe a quem irá ser o líder do partido. E, portanto, o primeiro-ministro será do partido Labour. Todavia, as questões de sistema continuam presentes, aquilo que afetou as possibilidades dos conservadores fazerem reformas profundas. Provavelmente, e que também aplicaram a sua influência àquilo que foi o governo de Keir Starmer. Volto a aplicar, provavelmente, ao sucessor, que será o ex-mayor, provavelmente, de Manchester, que foi um escândalo político interno, que o Keir Starmer não quis que ele fosse a eleições. E depois houve um debacle nas eleições locais, agora em maio, em que o Labour perdeu imensos pontos fortes de mayorships e de governos locais que tinham sobre a sua égide. E então, em termos daquilo que são a grande preponderância e influência britânica em negociações, ou naquilo que é o apoio à Ucrânia, eu penso que isso vai se manter. A relação estreita e absolutamente fundamental com os Estados Unidos vai se manter, não há aliança mais importante. Por exemplo, nem a aliança entre os Estados Unidos e Israel se compara de longe à intensa aliança entre os Estados Unidos e o Reino Unido, isso vai se manter. Mas agora vamos ver se existe uma maior estabilidade em Inglaterra, no Reino Unido, para o próprio Reino Unido, quem estiver a liderar a diplomacia britânica, nomeadamente através da agenda do primeiro-ministro, tenha essa legitimidade, tenha essa força a nível internacional, porque a credibilidade de um líder a nível internacional depende sempre muito de como ele é visto como tendo legitimidade interna, ao nível de política doméstica, em Keir Starmer isso já estava a falhar.

Muito obrigada. O nosso tempo chegou ao fim. Ana Cavalheiri, especialista em relações internacionais. Obrigada pela sua análise. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.