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Gabinete de guerra no dia em que há indicação de que o Irão terá atacado com dois mísseis o navio de guerra dos Estados Unidos que procurava entrar no Estreito de Ormuz, sendo que os Estados Unidos negam que esse ataque tenha acontecido. Entretanto, há minutos, um alto responsável iraniano dizia que não era certo que o navio tenha sido atingido, embora confirme que de fato foi disparado um tiro de aviso. Bruno Cardoso Reis, boa tarde, bem-vindo. Há aqui uma tensão latente. Podemos abandonar a trégua que entretanto foi celebrada entre Estados Unidos e Irão e regressarmos a um conflito armado a pretexto da intenção de abertura ou de bloqueio do Estreito de Ormuz?
Boa tarde a todos novamente. Realmente os sinais não são muito animadores, ou seja, temos notícias de que há trocas de propostas negociais, mas as negociações não são presenciais, não são com altos responsáveis, portanto são por via de mensagens, se quisermos assim dizer, trocadas com o Paquistão servindo de intermediário e pelo que vamos percebendo, essas propostas de fato continuam muito próximas dos objetivos maximalistas dos dois lados. No fundo, parece confirmar-se esta ideia de que quer o Irão quer os Estados Unidos continuam convencidos que estão em vantagem neste conflito e portanto podem manter exigências muito grandes em relação ao que seria um acordo ou ao que seriam as cedências necessárias do outro lado. Tendo em conta que a situação no Estreito também é realmente um problema enorme pra economia global, é um problema enorme também pra economia do Irão, também importa dizer isso, embora o regime iraniano não tenha propriamente dado prioridade à economia ou à prosperidade da população durante as últimas décadas, mas também é um problema, obviamente, pra economia americana, em particular num ano eleitoral. Portanto, parece difícil que a situação se mantenha assim indefinidamente, digamos, com trocas de propostas que não parecem permitir nenhum avanço negocial, ao ponto de fato de não haver novamente encontros entre os negociadores de uma parte e do outro e, por outro lado, de fato, da manutenção desta espécie de duplo bloqueio. Portanto, parece que terá de haver aí alguma evolução ou há sinais de que há avanço ao nível negocial ou provavelmente voltaremos a ter algum tipo de ação militar, de escalada em termos militares.
Parece-te imprudente esta decisão do regime iraniano de atacar embarcações? Não há confirmação oficial. De resto, os Estados Unidos já aqui deram conta e negam que esse ataque tenha acontecido. Mas parece-te imprudente esta decisão do regime iraniano de atacar alvos militares dos Estados Unidos? Tem capacidade militar para enfrentar a força norte-americana no Estreito de Ormuz?
Em termos convencionais, não tem. Não vamos ter uma batalha naval com meios, com plataformas tradicionais do Irão contra os Estados Unidos, porque aliás, grande parte desses meios convencionais já foram afundados, alguns até na costa do Sri Lanka, por exemplo. Agora outra questão é a utilização de meios não convencionais, ou seja, de drones, seja drones aéreos, seja drones aquáticos ou subaquáticos, de minas, destas lanchas rápidas que podem fazer ataques rápidos e depois tentar novamente evadir da detecção ou rapidamente sair da região. Tudo isso é uma espécie de guerrilha marítima, é algo mais realista. E depois temos também permanentemente esta guerra da informação, e aí o facto da administração Trump também não ser conhecida por ser muito rigorosa na questão da gestão dos factos, também não ajuda a credibilizar aquilo que normalmente é o caso, que seria, à partida, daríamos sempre mais crédito, embora num conflito armado haja que ter alguns cuidados em relação a qualquer beligerante, mas à partida dar-se-ia mais crédito aos Estados Unidos do que ao Irão, até porque há toda uma imprensa livre também a escrutinar as coisas. Eu acho que hoje em dia já é mais duvidoso podermos fazer exatamente isso, pelo menos em relação a declarações de altos responsáveis políticos. Em relação aos comunicados dos militares, apesar de tudo, parece-me que continuam a merecer algum crédito do lado dos Estados Unidos, nomeadamente. E portanto, se os militares americanos dizem que o navio não foi atingido, parece-me que provavelmente isso merece algum crédito, até porque se fosse atingido e tivesse causado baixas, etc, sabemos que depois a família e tudo isso teria de ser informada. Portanto, é possível que o Irão tenha disparado alguma coisa, mas também é possível que tenha disparado de forma a não atingir nada pra manter um pouco aqui esta ameaça de que os navios americanos tentarem forçar algum tipo de ação na zona do Estreito terá alguma resposta do Irão, mas também para já sem pôr imediatamente em causa o cessar-fogo. Agora, o problema aqui, e o que torna este cessar-fogo tão frágil e a possibilidade de escalada realmente um risco real, é que basta haver um incidente deste tipo. Sabemos que o Irão está a funcionar também com um sistema muito centralizado, até pra evitar o risco de ficar paralisado por estas operações de decapitação dos Estados Unidos e de Israel. E portanto, basta um comandante local interpretar mal as ordens que recebeu ou ter uma ação mais arriscada e que tem aqui um resultado mais sério, mais imprevisto para, no fundo, quase que forçar depois algum tipo de escalada. Portanto, a par do risco de escalada por vontade das partes ou por impossibilidade de chegar a um acordo, temos também este risco de escalada acidental.
Hoje alguém dizia aqui na antena do Observador que esta decisão e este anúncio feito ontem por Donald Trump, de que os Estados Unidos vão escoltar navios que há muito aguardam por autorização para atravessar o Estreito de Ormuz, que é uma forma de pressão sobre o regime iraniano e que coloca o regime iraniano aqui perante um dilema: atacar ou não atacar os alvos militares dos Estados Unidos que pretendem garantir essa navegabilidade segura no Estreito de Ormuz. É de fato assim? É uma decisão difícil pro regime do Irão?
As decisões são difíceis para todos e todos nós pagamos um preço, inclusive aqui em Portugal, embora obviamente muito mais na região. Mas é verdade que eu dou crédito, por exemplo, a esta afirmação, este comunicado oficial do comando operacional americano desta região do Médio Oriente, o CENTCOM, a dizer que há dois destroyers, que têm como missão, nomeadamente, muitas destas missões de interceção antiaéreas. Há dois destroyers que realmente entraram no Golfo, que os americanos designam como Golfo Arábico e não como Golfo Pérsico. Também faz parte da guerra da informação terem optado pelo nome que os países árabes defendem de Golfo Arábico, em vez de Golfo Pérsico. Mas a questão é que eu percebo essa análise, ou seja, acho que sim, acho que é uma forma realmente de fazer pressão no contexto negocial sobre o Irão, ou seja, passar a mensagem de que eles não podem estar seguros, que vão conseguir manter este estrangulamento do estreito indefinidamente e que os Estados Unidos não irão fazer nada a esse respeito, e que podem ter opções que não são simplesmente opções de uma escalada militar, também mais arriscada em termos de baixos custos para os Estados Unidos. Mas, de facto, a ameaça é ela própria bastante ambígua, ou seja, o que é dito, por exemplo, não é que vai haver um sistema de escoltas, é que os Estados Unidos vão ajudar os navios a atravessar o Estreito de Ormuz, mas sem se comprometerem a escoltar esses navios. E portanto, aí voltamos ao problema de base, que é o que torna isto tão complicado para os Estados Unidos e tão fácil para o Irão, mesmo com meios muito inferiores. Ou seja, será que os navios vão arriscar isso? Vão arriscar serem guiados via rádio, com a ideia de que haverá alguma proteção, mas mais afastada dos meios militares americanos, vão arriscar forçar essa passagem, podendo ser alvo de minas ou de outro tipo de meios iranianos, por exemplo. Em relação às minas, não se percebe muito bem o que é que estes destroyers por si só fariam, teria de ser outro tipo de meios de desminagem. Portanto, acho que sim, acho que faz parte desta estratégia de pressão sobre o Irão. Não sei se será assim tão eficaz. E tem sempre este problema, que é o problema dos Estados Unidos e Trump desde o início neste conflito, que é quando se faz ameaças muito extremadas, do gênero daquela "vou destruir uma civilização inteira" ou "vou destruir todas as pontes e todas as centrais nucleares". Não só isso cria problemas em termos da legalidade, da legitimidade do conflito, porque basicamente viola a lei internacional concretizar ameaças desse tipo, mas depois também cria o problema que são ameaças tão extremadas e que colocam vários problemas, também práticos, que depois, muitas vezes Donald Trump não as consegue concretizar ou opta por não as concretizar. E portanto, isso também mina muitas vezes o efeito de pressão que Donald Trump procura fazer. Se não se é muito credível nas ameaças, se as próprias ameaças são tão extremadas que tendem a ser pouco credíveis, o seu efeito acaba por ser um pouco nulo ou muito mais reduzido do que seria o caso, de facto, se o presidente norte-americano fosse visto como um ator que aquilo que dizia era o que depois fazia.
Está a decorrer na Arménia a oitava cimeira da Comunidade Política Europeia, marca presença o Reino Unido e também o Canadá, o primeiro-ministro canadiano. Que sinal transmite esta presença de Mark Carney nesta cimeira?
É um sinal muito importante e bastante claro. Nas próprias declarações que fez, tem sido muito claro. É significativo porque realmente esta Comunidade Política Europeia, que é uma iniciativa de Macron, visava realmente incluir países europeus que estão fora da União Europeia, e há vários muito importantes no contexto atual, em que estamos muito a falar de questões de defesa, de segurança ou de energia. Países como, por exemplo, a Noruega, que é uma potência energética, ou a Grã-Bretanha, obviamente, que é uma potência militar, nuclear, naval muito importante. A própria Turquia também, os países do Cáucaso, não é por acaso que isto tem lugar na Arménia, que se está a afastar aliás da Rússia, com quem tinha uma aliança próxima, que foi completamente inútil para travar os ataques do Azerbaijão, porque a Rússia está completamente esgotada militarmente por causa do conflito na Ucrânia. Mas obviamente aqui o Canadá não é um país europeu, inclusive há a especulação de que se pode até alterar a designação para Comunidade Euro-Atlântica ou algo desse gênero. Mas o que é muito significativo realmente, e é deixado claro pelo Mark Carney, é esta ideia de que o Canadá, que até por razões geográficas tem uma aliança extremamente próxima com os Estados Unidos, realmente estão a repensar as suas prioridades, estão a deixar claro que não vão alinhar automaticamente com os Estados Unidos, tanto mais quando são muitas vezes ameaçados, pressionados, chantageados economicamente, prejudicados em termos do seu comércio externo com estas guerras comerciais que Donald Trump tanto gosta e portanto estão a procurar parceiros mais fiáveis, ou seja, como disse Mark Carney, que partilham os nossos interesses, mas também os nossos valores. E aí ele tem deixado muito claro, e isso também tem sido acolhido de braços abertos pelos líderes europeus, quer pelas instituições em Bruxelas, a presidente da Comissão, o presidente do Conselho, quer pelos vários Estados-membros, que de facto a Europa está muito interessada nessa cooperação com o Canadá. Basta recordar que, por exemplo, o Canadá integrou aquele projeto de rearmamento, de financiamento do rearmamento mais acelerado dos países europeus e, portanto, apesar de não ser obviamente um país membro da União Europeia, por não ser um país europeu.
Na próxima quinta-feira há um encontro do Papa Leão XIV com Marco Rubio, o secretário de Estado norte-americano. Haverá também um encontro com Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana. Um encontro que é visto, e uma diligência que é vista como a tentativa dos Estados Unidos de repararem as relações e a troca de argumentos bastante conturbada entre Donald Trump e o Papa, e também a chefe do governo italiano. Como é que antecipas este encontro? Parece-te que, de facto, o secretário Marco Rubio, o secretário de Estado norte-americano, terá o condão de reatar estas relações, colocar estas relações nos carris da normalidade?
Acho que não. Acho que é um sinal interessante e diria que positivo. Donald Trump, realmente, nesta questão, ao contrário de em quase todas as outras, rapidamente pareceu recuar e até assumir uma posição, no fundo, mais defensiva, dizer que ele tinha direito a expressar alguma divergência em relação ao Papa, mas não insistiu nos seus ataques, que é geralmente o que acontece quando ele decide que alguém se tornou um inimigo dele. Enfim, são publicações nas redes sociais, umas atrás das outras, cada vez mais insultuosas, e realmente isso não aconteceu com o Papa Leão XIV, que é bastante popular nos Estados Unidos. É também o primeiro papa americano, aliás. Isso parece-me ser um sinal de que a administração está a tentar conter os estragos, controlar, melhorar, no fundo, como dizias, procurar restabelecer boas relações com o Papado, com o Vaticano, que é este microestado, menos de 1 km², mas obviamente, que é o governo de 1,6 mil milhões de católicos e tem uma enorme influência para fora do mundo católico, dos católicos, dos crentes, é uma autoridade moral muito importante na política internacional, com muito prestígio. Parece-me que os Estados Unidos fazem bem tentar isso, mas eu tenho dúvidas que seja possível. Parece-me que as divergências entre o Papa Leão XIV e a forma como ele vê o cristianismo, como ele vê a política internacional, há ali divergências fundamentais com a administração Trump. Esta ideia do "quero, posso e mando", do desprezo completo pela internacional. Tudo isso são coisas que realmente não vejo que o Papa vá mudar de ideias a respeito de ser má ideia e que coloca enormes perigos, riscos em termos da manutenção da paz, etc. A rejeição da ideia do cristianismo poder ser usado para justificar guerras, uma espécie de nova cruzada contra o Islão. Isso é algo que múltiplos papas, desde logo São João Paulo II, também fizeram muita questão de criar canais de diálogo com o mundo islâmico, portanto, não creio que isso vá ser posto de lado. Em relação mesmo à própria Itália, só para terminar, a Giorgia Meloni, ainda na semana passada com uns colegas italianos, diziam que a impressão deles é que Trump tornou-se extremamente tóxico, politicamente impopular na Itália. Os italianos são muito sensíveis também ao conflito do Médio Oriente. A Itália está no meio do Mediterrâneo, está muito mais próxima do Médio Oriente do que nós estamos. Portanto, é muito sensível aos impactos negativos que isso pode trazer e desestabilizadores. Basicamente, a avaliação deles é: Giorgia Meloni também vai ter eleições para o próximo ano, em princípio, e está basicamente a distanciar-se de Donald Trump, porque percebe que politicamente isso também é o mais vantajoso. Provavelmente haverá aqui palavras de sinalizar alguma normalização de relações, mas tenho dúvidas também que mesmo no caso de Itália, as coisas voltem a ser como eram.
Está agendado para a próxima quinta-feira esse encontro do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, com o Papa Leão XIV e também com Giorgia Meloni. Será seguramente tema para abordar na edição de "Gabinete de Guerra", que hoje contou com a presença do historiador Bruno Cardoso Reis. Um abraço, Bruno.
Obrigado