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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Carlos Gaspar, Bruno Cardoso Reis, ficamos a saber na última hora que Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, aceitou encontrar-se com Volodymyr Zelensky, mas ironiza que não percebe sobre o que o presidente da Ucrânia quer falar. Carlos Gaspar, Orbán tem sido uma força de bloqueio, portanto, este encontro, mesmo que aconteça, à partida, não podemos esperar muito dele?

Julgo que não. Viktor Orbán é um problema dentro da União Europeia e não é, naturalmente, um mediador conveniente numa relação entre a Ucrânia e a Rússia. Mas a Ucrânia tem que se empenhar na resolução dos problemas que tem e vai continuar a ter com os seus principais vizinhos, designadamente a Polónia e a Hungria, que são importantes politicamente, diplomaticamente e também como retaguarda operacional para a Ucrânia. Viktor Orbán faz o seu papel, tenta ter uma posição que lhe permita tirar partido da deterioração das relações entre a União Europeia e a Rússia para se apresentar como um dirigente que continua a dialogar com Vladimir Putin e a manter em aberto a possibilidade de uma negociação, mas, na realidade, essa hipótese parece estar completamente excluída. O próprio Vladimir Putin não me parece que tenha qualquer interesse numa negociação com a Ucrânia, no momento em que está a começar a sua campanha eleitoral interna para a eleição presidencial.

Kiev vai recrutar ucranianos no estrangeiro, pondera sancionar até quem não se apresente nos gabinetes de recrutamento. Bruno Cardoso Reis, isto é um recrutamento à força, sinal de muitas baixas e cansaço das tropas?

Penso que é evidentemente isso, também. Nós tivemos a informação naquela conferência de imprensa de fim do ano do presidente Zelensky de que as chefias militares tinham pedido uma nova mobilização à volta de 500 mil soldados. Esses são números enormes para uma população que, apesar de tudo, eu sei que é mais que Portugal, mas são só 40 milhões, quando comparados, por exemplo, com os 140 milhões do lado russo. Sabemos também que houve milhões de pessoas que saíram da Ucrânia. Ainda por cima, o presidente Zelensky disse que não queria introduzir a mobilização obrigatória de mulheres, que é algo relativamente raro, mas que existe nalguns países em guerra, por exemplo, Israel, que se sentem sob ameaça permanente. Eu logo na altura, a comentar essas declarações, disse que me parecia muito difícil conseguir isso, por exemplo, sem recorrer a esses métodos extraordinários de mobilização de mulheres, e também de mobilização de pessoas que estão fora. Destes milhões que estão fora, uma parte serão os jovens, ou relativamente jovens, que estarão ainda em idade de mobilização. Mas acho que é evidente que isso criará algumas tensões. Em princípio, as pessoas organizaram sua vida fora da Ucrânia, portanto criará aí alguns problemas, algumas tensões. Será eventualmente difícil de implementar, porque como é que se obriga essas pessoas a regressar? E claramente, como dizias, mostra que realmente houve muitas baixas do lado russo. A maior parte das estimativas apontam para mais de 300 mil soldados mortos ou feridos graves, mas também terá havido um número próximo disso, talvez um pouco menor em termos de mortos, mas se calhar maior em termos de feridos, porque há um maior cuidado do lado ucraniano em tentar salvar as pessoas, mas feridos graves também, inclusive com amputações, etc. São pessoas que não podem voltar a combater e num conflito que se mantém num nível de intensidade bastante elevado, que se prolonga sem fim à vista, é normal que comecem a aparecer estas medidas excepcionais, que vão criar, como dizias, também aqui algumas tensões, alguns problemas.

Vamos olhar agora para o lado russo. Sabemos hoje que Moscovo precisou de investir quase 11 mil milhões de euros só na aviação para manter o setor ativo. Professor Carlos Gaspar, afinal as sanções até estão a ter um efeito maior do que o esperado?

Têm sempre um certo efeito, embora haja muitas maneiras de contornar as sanções, e isso é uma oportunidade para vários países, alguns casos óbvios, como o Irão ou a Coreia do Norte, que estão muito empenhados em garantir os fornecimentos militares à Rússia, mas também, obviamente, com a China. O aumento das trocas comerciais entre a China e a Rússia é impressionante. Não sabemos qual é o preço a que a Rússia está a vender petróleo e o gás à China, mas provavelmente há aí também uma vantagem importante para a economia chinesa. E depois há muitos pequenos intermediários, por vezes surpreendentes, Cingapura, o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, que como sempre, sempre que há Sempre que há sanções e bloqueio económico, aparecem intermediários que tiram partido dessa situação. Mas, no fim do dia, tudo isso pesa sobre a Rússia e sobre a economia russa de uma maneira muito significativa. É uma ilusão que a propaganda russa tenta sustentar, imaginar que a economia russa está a aguentar bem o esforço de guerra e as sanções. A conjunção das duas coisas vai provocar, com certeza, dificuldades acrescidas do lado de Moscovo.

Bruno Cardoso Reis, parece que está para chegar uma parceria militar mais firme entre a Rússia e a Coreia do Norte?

Sim, o general Gerasimov, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas russas, confirmou ou anunciou isso, o que ele chama uma parceria estratégica reforçada, holística, portanto multissetores com a Coreia do Norte. O que é que aqui também é revelador? Por um lado, é que é só com a Coreia do Norte, eventualmente com o Irão. A Ucrânia tem dezenas e dezenas de países a apoiarem com todo o tipo de meios militares e financeiros o seu esforço de guerra. No caso da Rússia, há muitos países que estão dispostos a continuar a fazer comércio com a Rússia, não querem aderir a sanções ocidentais porque acham que conseguem bons negócios, como dizia o Carlos Gaspar, mas isso é muito diferente de se envolverem, de apoiarem ativamente o esforço de guerra russo. Basicamente, a Rússia conseguiu isto com estes dois Estados párias. Já agora, também é revelador de outra coisa, que é: na altura em que houve aquela cimeira com o presidente Kim, da Coreia do Norte, e o presidente Putin, houve alguma especulação sobre o alcance desse acordo. A Rússia muitas vezes queria uma certa desinformação, mas depois muitas vezes é apanhada nas suas próprias mentiras e deu a entender que o acordo não era assim tão amplo e que se calhar nem envolvia armamento. Houve até alguns analistas em Portugal que nisto, como noutras coisas, também compram essa propaganda, essa desinformação russa. Isto só mostra como realmente é difícil manter essas mentiras mais ou menos coerentes. O general Gerasimov hoje queria anunciar boas notícias e esqueceu-se dessa narrativa e veio confirmar aquilo que toda a gente já suspeitava, que é: não havia cimeiras nem todo aquele tipo de encontros entre vários responsáveis da Coreia do Norte e da Rússia simplesmente para negociar vistos turísticos. Claramente tinha a ver com o esforço de guerra e é isso que é hoje oficialmente confirmado pelo chefe máximo das forças militares russas.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.