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Começa agora uma edição extra do Gabinete de Guerra sobre a eleição do novo papa, comigo e com a Carla Jorge Carvalho. Já está o historiador Bruno Cardoso Reis a partir de Washington. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, obrigado.

Bruno, pela primeira vez temos um papa norte-americano de Chicago. Como é que foram as reações aí nos Estados Unidos quando foi anunciado o nome do Robert Prevost?

Foi de algum espanto. Aliás, o próprio irmão do papa foi entrevistado e ele próprio mostrou-se espantado porque estava ciente desta ideia de que, de facto, por regra, não se elege um papa da grande potência, do grande império da época. O próprio papa atual terá dito isso ao irmão. Ou seja, falaram obviamente pouco antes de ele entrar para o conclave e ele ter lhe dito: "Mas tu apareces nas listas todas de papáveis e tal", mas ele disse: "Mas isso não pode ser, porque ser um papa norte-americano seria quebrar um precedente histórico". À partida, não se sabia quem era, portanto, seria sempre uma surpresa, mas foi uma particular surpresa e obviamente foi algo que foi muito valorizado pelos norte-americanos em geral, todos os canais, e em particular também pelos de Chicago. Por exemplo, o presidente Barack Obama, que não é católico, mas é de Chicago. Refere exatamente isso, destacou isso no seu canal Twitter e obviamente foi algo que foi bem recebido pela generalidade dos americanos, embora com esta nuance, que é, por exemplo, vendo a Fox News, havia muito a ideia de que ele seria mais à esquerda, se quisermos, mais progressista do que aquilo que seria desejável. O próprio Steve Bannon, que é uma figura ideologicamente muito importante e próxima do presidente Trump, há umas semanas atrás tinha falado do nome dele, e sendo crítico, ou seja, dizendo que era uma coisa preocupante, porque seria uma figura muito à esquerda. Acho que isso não faz muito sentido. Pelo que se percebe, é realmente uma figura que faz um certo compromisso. Obviamente, tem uma grande preocupação social, é alguém também, em termos pessoais, bastante próximo do Papa Francisco. Lá está, o próprio irmão do atual papa referiu isso, que eles se tinham conhecido e se tinham tornado amigos, ainda enquanto colegas bispos na América Latina, antes do Papa Francisco ser papa e obviamente é ele que depois o chama para ter um cargo importante, ser, no fundo, o ministro responsável do Dicastério, do ministério encarregue da seleção e da gestão dos bispos.

Bruno, e há precisamente esta questão, esta ligação ou esta comparação com Donald Trump. Há aqui uma diferença muito grande da forma como cada um deles pensa, ou pelo menos como pensamos que o novo papa olha para o mundo. Num certo sentido, ele é visto nos Estados Unidos como um contraponto à presidência norte-americana.

Foi muito destacado. Tal como a ala mais trumpista mostrou desagrado, obviamente, os opositores de Donald Trump e inclusive os republicanos opositores de Donald Trump, porque também se percebeu que antes ele teria estado registrado como norte-americano. Ele viveu grande parte dos últimos 40 anos no Peru, mas esteve cá durante dois períodos e estava registrado como republicano. Mas obviamente, ser republicano em 2012 ou em 2013 está muito longe de querer dizer que estivesse identificado com a linha de Donald Trump e, portanto, os próprios republicanos contra Trump, há toda uma organização, inclusive muito presente também nas redes sociais, vieram destacar isso e muitas figuras mais à esquerda, mais do Partido Democrático, esta questão, por exemplo, das críticas dele públicas nas redes, por exemplo, à questão da deportação de migrantes. A crítica à forma como isso está a ser feito sem qualquer processo. No fundo, também falta aqui de caridade cristã, se quisermos, em relação a pessoas em situação vulnerável, etc. E também uma polêmica recente que envolveu o vice-presidente J.D. Vance, que é um católico, um convertido ao catolicismo, mas um católico com uma posição destacada e que procurou fazer uma espécie de interpretação teológica nesta ideia de que havia uma espécie de hierarquia no dever de amor ao próximo e, portanto, que seria primeiro à família e que em último lugar ou não haveria grande lugar para estranhos. E o próprio, então cardeal Prevost, e agora papa, nas redes veio dizer que ele estava errado e que não era essa a interpretação correta. Ainda por cima, ele é um agostinho, portanto, essa ideia surge ligada precisamente ao próprio Santo Agostinho, que é o patrono dessa ordem. De facto, há um pouco essa ideia de que será uma figura que não estará alinhada com Donald Trump. Certamente, essa é uma das razões também pelas quais terá sido eleito. Eu diria que certamente ele não teria sido eleito se fosse visto como alguém identificado com Donald Trump.

Próximo.

E também se fosse apenas cidadão norte-americano. O facto de ter um percurso realmente muito variado, como missionário, como bispo no Peru, etc. Ter até nacionalidade peruana, ser absolutamente fluente no espanhol, etc. Tudo isso certamente terá ajudado. Isso é geralmente algo que se espera num papa. Cada vez mais, aliás, é que tenha uma experiência bastante diversificada. Ser bispo diocesano, ser missionário, ter estas responsabilidades também na Cúria, ou seja, no governo central da Igreja, tudo isso são coisas que valorizaram muito o percurso dele.

Bruno, nas primeiras palavras, o Papa falou em construir pontes dentro e fora da Igreja Católica. Isto pode dar algum sinal sobre a intervenção que o novo papa pretende ter no mundo?

Sim, eu diria. Aliás, tenho sempre chamado a atenção para isso, que esta ideia de papas progressistas e papas conservadores tem de ser visto com algum cuidado, desde logo porque, à partida, os responsáveis da Igreja Católica valorizam muito esta questão da unidade da Igreja dentro da diversidade. O próprio mote episcopal e provavelmente o mote papal do novo papa aponta nesse sentido, no fundo, a unidade na diversidade. E também falarmos em progressistas no interior da Igreja Católica não é bem a mesma coisa do que falar em progressistas em termos políticos nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental. Portanto, acho que a ideia de que ele irá fazer uma espécie de revolução na Igreja não me parece que seja algo muito crível. Agora, ele realmente parece identificar-se muito com esta ideia, que era também muito querida ao Papa Francisco, de que a Igreja, independentemente da questão dogmática, da questão doutrinal, deve ser realmente uma igreja de portas abertas. O Papa Francisco usava esta imagem de uma espécie de hospital de campanha, em que o que é importante é acudir às pessoas que precisam de ser ajudadas e não propriamente estar a fazer julgamentos sobre quem é que são ou de onde é que vêm. Portanto, parece-me que, nesse sentido, essas palavras apontam exatamente numa linha de continuidade nesse aspecto e também noutro aspecto, que tem implicações para a política global, que é: estamos numa era de grandes conflitos, conflitos entre grandes potências, múltiplas guerras. E aí, historicamente, a função do papado tem sido procurar muitas vezes ser realmente a ponte, ser o mediador, pelo menos procurar ter alguma função diplomática, nem que seja mais humanitária, de facilitar trocas de prisioneiros, etc. E, portanto, tudo isso também eu diria que são provavelmente prioridades importantes para o novo papa.

Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Obrigada por este gabinete de guerra especial dedicado à eleição do novo papa Leão XIV. Bom fim de semana, Bruno.

Obrigado eu. Bom fim de semana.