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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares. Hoje temos conosco o historiador Bruno Cardoso Reis. E Bruno, há esta notícia dos últimos minutos de um acordo preliminar que terá sido alcançado entre os negociadores norte-americanos e iranianos, que envolve um cessar-fogo de 60 dias e também um enquadramento para as negociações nucleares depois de alcançado esse acordo. Que significado é que tem este acordo, este entendimento, tendo em conta que ainda falta haver a decisão política sobre tudo isto?

Olá, boa tarde, Luís e a todos. Eu penso que realmente temos que ter grande cuidado, porque o Axios está bastante bem informado, em particular este jornalista, o Barak Ravid, tem dado informações em primeira mão várias vezes, nomeadamente a respeito de tudo o que tem a ver com o Médio Oriente e com a ação americana lá. Mas a verdade é que ele também já disse mais ou menos a mesma coisa no domingo e sobretudo, ele volta agora a dizer que aquilo que falta é o acordo dos líderes máximos dos dois lados. Ora, o problema que nós temos aí é que Donald Trump, aparentemente, continua a insistir que precisa de pensar, que acha que se calhar o acordo podia ser melhor. E também temos tido declarações nesta semana, já são duas declarações, tendo em conta que o guia supremo Khamenei filho, Mostafa Khamenei, tem falado pouco, duas declarações também bastante agressivas do líder máximo do Irão ou pelo menos de quem fala por ele. Portanto, acho que realmente temos de ter aí grande prudência. Aparentemente, também está anunciada a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão a Washington, à capital americana, para amanhã, para sexta-feira, e portanto, isso poderá ser eventualmente uma ocasião para os paquistaneses, que têm tido aqui um papel crucial como mediadores para tentar convencer Donald Trump que isto é o melhor que se consegue, mas teremos de ver. E mesmo o acordo que está anunciado e que é referido em traços gerais também nessa notícia da Axios, ele próprio tem algumas fragilidades, porque é um período de transição de 60 dias, portanto é um acordo intermédio ou parcial. Também sempre foi o que pareceu mais provável, muito centrado na questão do Estreito de Ormuz, mas por exemplo, mesmo em relação ao Estreito, diz que haverá navegação, garantias de navegação segura, mas os iranianos terão de retirar as minas, mas têm 30 dias para fazer isso. Enquanto não retirarem as minas, e tendo em conta o número de navios que passam, os Estados Unidos também deixarão passar alguns navios iranianos ou destinados ao Irão, portanto também reduzirá o seu bloqueio ao Irão. Mas tudo isso, tendo em conta a enorme desconfiança entre as partes, realmente aponta para um acordo sempre com algum risco de depois falhar também na fase de implementação. Mas para já, ainda nem sequer estamos aí. Falta que as duas partes confirmem, e sobretudo os líderes máximos das duas partes confirmem que realmente estão de acordo com este acordo.

E supostamente ainda levará alguns dias até Donald Trump tomar uma decisão, pelo menos é o que também está adentrado nesta notícia e, portanto, é preciso ainda aqui alguma prudência. Prudência também, porque tem havido essas notícias nas últimas horas de ataques de parte a parte. Os Estados Unidos realizaram novos ataques contra o Irão, também o Irão garante ter atacado uma base aérea norte-americana. Isto também não ajuda muito a que seja alcançado um acordo, não é Bruno?

Sim, Donald Trump insiste sempre que tem todo o tempo que for preciso, que não está nada preocupado com as eleições, mas a verdade é que as notícias que temos é que ele estava cada vez mais impaciente com este impasse, com não haver nem um acordo, nem guerra, portanto, e que foi ele que terá pressionado para haver uma operação militar, embora a justificação oficial foi de que havia aqui uma espécie de um risco crescente ou iminente de concentração de meios iranianos na zona do Estreito, que poderiam ameaçar os meios navais americanos que estão nessa zona. Mas enfim, as duas coisas também não são completamente incompatíveis, mas a ideia é que o próprio Donald Trump mostra aqui alguma impaciência e que parece estar convencido, mais uma vez, mostrando força militar, que isso irá forçar o Irão a aceitar um acordo mais próximo daquilo que os Estados Unidos querem. Mas isso não é totalmente evidente e o que aconteceu foi uma resposta também militar do Irão, que inclusive ataca uma base aérea americana, mas ataca ao mesmo tempo, até porque os meios não são muito precisos, com drones e mísseis o Kuwait, que até tem sido um país que tem procurado, ao contrário, por exemplo, dos Emirados Árabes Unidos, tem tido uma postura de sinalizar que quer o fim do conflito e que quer depois tentar algum tipo de normalização de relações também com o próprio Irão, mas nem isso evitou que fosse mais uma vez apanhado aqui neste fogo cruzado.

O certo é que Donald Trump continua a insistir nessa ideia de que não lhe interessa propriamente o custo econômico deste conflito. Podemos acreditar nestas palavras de Donald Trump?

A mim parecem pouco credíveis. Se há alguma coisa que apesar de tudo tem condicionado um pouquinho Donald Trump é muito a questão de alguns indicadores econômicos, embora seja verdade que o que lhe parece interessar mais é sobretudo a evolução das ações do mercado da bolsa, que é muito relevante também para os seus próprios investimentos, e temos aliás indícios que ele tem lucrado imenso e pessoas próximas dele de acesso à informação privilegiada, enfim, de uma legalidade duvidosa. Mas é mais essa dimensão da economia mais especulativa, mais ligada ao movimento de grandes volumes de capital, que é também muito importante para os amigos bilionários e apoiantes de Donald Trump. É sobretudo mais isso do que propriamente a economia real ou a questão do americano médio. Mas ainda assim, há limites para a capacidade da bolsa ignorar a realidade econômica ou simplesmente continuar a ser alimentada por esta febre da inteligência artificial. E portanto, parece-me que isso é um pouco bluff de Donald Trump, sobretudo se começarmos a ter realmente escassez de combustível e em muitos países isso vai afetar os Estados Unidos, mesmo que os Estados Unidos sejam autônomos na produção de petróleo, tão dependentes em parte, pelo menos, do resto do mundo. Isso vai começar a perturbar ainda mais as cadeias de abastecimento, de importações, exportações, no fundo, o comércio mundial, que é muito importante também para a economia americana. Além da questão do preço, que mais uma vez iria disparar ainda mais. E isso realmente afeta os norte-americanos e portanto, afeta a dinâmica política nos Estados Unidos. A mim parece-me que isso é um pouco bluff, não é muito credível. É evidente, no entanto, que pelo menos no curto prazo, no imediato, Donald Trump não se tem deixado condicionar tanto por esses indicadores como se pensou inicialmente, como muitos pensavam inicialmente. Claramente ele está disposto a aceitar aqui algum custo econômico e até político, porque está convencido que vai conseguir no final ganhar esta guerra e retirar daí todos os benefícios dessa vitória.

Vamos ainda olhar, Bruno, para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Tem existido ameaças da Rússia sobre Kiev, tem-se pedido que os cidadãos saiam da capital ucraniana, nomeadamente o pessoal diplomático e assim. É de levar a sério esta ameaça da Rússia sobre Kiev ou Kiev, por outro lado, a Ucrânia está aqui a ganhar alguma vantagem na guerra com a Rússia?

Eu acho que estas ameaças são, desde logo, uma estratégia de terror psicológico, portanto fazer mais uma vez pressão sobre a Ucrânia, sobre o resto do mundo, como resultado precisamente da campanha russa não estar mais uma vez a correr de acordo com o plano. Neste momento, Putin já abandonou a ideia inicial, tomar conta de toda a Ucrânia, já abandonou até a ideia de anexar quatro províncias ucranianas, já são só duas, mas mesmo essas duas que pareciam que estavam ao alcance da Rússia com estas novas táticas, agora com a última vaga de adaptação ucraniana, nomeadamente com o uso de drones terrestres, etc, parece cada vez mais distante. A Ucrânia tem conseguido nos últimos dois meses recuperar um pouco mais de território no balanço geral do que a Rússia tem conseguido ocupar. Portanto, realmente isso leva a Rússia a esta escalada. Até que ponto ela é credível nos factos? Eu acho que pelo menos pode ser vista como um sinal de que provavelmente a Rússia estará disposta a atacar de forma ainda mais massiva e ainda mais indiscriminada, ignorando inclusive questões como a segurança de embaixadas, etc, a capital ucraniana. Em todo caso, aquilo que sobretudo tem travado a Rússia é a questão das defesas antiaéreas ucranianas e também tudo o que são abrigos e portanto todos os cuidados, os sistemas de alerta e de abrigos que têm permitido à população procurar algum tipo de refúgio e portanto reduzir o número de vítimas desses ataques. Portanto, acho que como declaração de intenções vale alguma coisa. Vamos ver realmente se a Rússia tem os meios para conseguir fazer isso e qual é a capacidade de resposta também das defesas ucranianas, que têm este problema de todas as defesas antiaéreas, que é o problema da saturação, ou seja, se há demasiados alvos, isso torna-se a certa altura impossível de interceptar. E também tem o problema, obviamente, das restrições que a administração Trump colocou à venda de alguns desses intercetores, quer por razões de falta de simpatia com a Ucrânia, quer agora por causa também dos constrangimentos da guerra no Médio Oriente.

O certo é que no meio de todo este cenário, o presidente da Rússia diz que está disponível para conversações com a Europa. Já a Kaya Kallas, alta representante para a política externa, veio avisar que a União Europeia não vai cair na armadilha da Rússia. Que armadilha é esta?

Eu acho que é a ideia de que a Kaya Kallas tem uma visão muito crítica do papel da União Europeia até 2022 e todo o chamado Processo de Minsk, em que sistematicamente a Rússia demonstrou não estar de boa fé, mas em que, no fundo, os países europeus iam fazendo algumas cedências e procuravam manter algumas relações, inclusive econômicas, com a Rússia, também em nome da ideia de que isso poderia ser uma forma de moderar o comportamento russo e de evitar uma escalada no conflito. No fundo, aqui a ideia dela, que ela aliás concretiza, é que a Europa não deve ser um mediador, não deve ter uma posição neutra, que é a do mediador ou facilitador no conflito, deve estar do lado da UcrâniaE portanto, acho que desse ponto de vista ela tem razão. Outra coisa é a ideia de que não se deve negociar com a Rússia, não se deve conversar sequer com a Rússia, até a Rússia aceitar certas condições, nomeadamente um cessar-fogo. Eu acho que até para negociar um cessar-fogo valia a pena ter alguns contactos. E portanto acho que, de facto, a ideia de que a diplomacia é algo que nós devemos reservar apenas para os amigos ou aliados, é uma ideia errada. Agora, é verdade que se deve pensar muito bem que formato é que se quer ter. São contactos genéricos com a Rússia, a que nível. É muito importante que não se possa também passar a ideia de que a Rússia é que vai escolher quem é que fala em nome da Europa, isso seria ridículo.

E qual é que poderia ser essa figura?

Eu penso que a ideia de que a Kaias Kalas dificilmente poderia ter essa função, até porque claramente não está interessada nisso e é vista como visceralmente hostil à Rússia, até por ser alguém dos países bálticos. Mas, por exemplo, falou-se até na possibilidade de um português. Eu penso que alguém como, por exemplo, Durão Barroso, podia ser realmente um nome interessante. Ele, aliás, deu uma entrevista há uns dias atrás em que falou um pouco desses temas. Ele tem realmente muita experiência de falar com o Putin do período em que era presidente da comissão e penso que é alguém que dá garantias, como aliás ficou claro nessa entrevista, que percebe esta questão, que não deve haver equívocos sobre o facto da União Europeia estar ao lado da Ucrânia e rejeitar esta guerra de agressão, mas ao mesmo tempo pode ser importante realmente abrir canais com a Rússia, até para evitar estarmos completamente dependentes das informações que nos chegam em segunda mão da administração Trump, que não é propriamente muito credível, nem tem mostrado muita preocupação com os interesses dos seus aliados europeus.

Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua análise em mais um Gabinete de Guerra. Boa tarde.

Obrigado. Boa tarde.