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E hoje contamos no gabinete de guerra com José Filipe Pinto, professor catedrático de Relações Internacionais e também especialista em movimentos extremistas. Bem-vindo, José Filipe Pinto. Um bom ano também para si.
Muito bom dia, Luís. Bom dia, senhores ouvintes. Evidentemente, retribuo os votos tanto pro Luís como pra os nossos ouvintes.
José Filipe Pinto, começávamos se calhar pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia, porque houve essa concretização do fim da passagem de gás russo pelo território ucraniano. Volodymyr Zelensky fala numa das maiores derrotas por parte de Moscou, o fim dessa passagem. Tem razão Zelensky nesta análise?
Parcialmente, Luís. O ano novo acabou por trazer aquilo que era expectável. São discursos velhos, tanto de Putin como de Zelensky. Putin, apesar de aquele ar circunspecto com que falou, recuperou a mensagem que nos lembra o tempo da pandemia, de que tudo vai ficar bem em 2025 e que o destino da Rússia e o bem-estar dos cidadãos são a força motriz da sua ação. É claro que ele também misturou o orgulho pelo que já foi feito com o aviso de que há muito a fazer. E Zelensky, pegando na questão que o Luís me coloca. Zelensky fingiu esperança e referiu que Moscou sofreu uma das maiores derrotas com a proibição da passagem de gás pelo território ucraniano. Nós sabemos que ambas as narrativas apontam para amanhãs que cantam e não colocam o enfoque no custo humano e material que a guerra está a exigir. Nós sabemos também que mentir durante uma guerra decorre da vida habitual. Agora, esta interrupção da passagem do gás russo pela Ucrânia acabará, a meu ver, por ter custos para a Rússia, é evidente que tem custos econômicos, mas vai aproximar também muito a Hungria e a Eslováquia da Rússia e vai colocar, já está a colocar, a Moldávia a tremer de frio e transformará a Transnístria num território ainda mais pró-russo. E, portanto, a União Europeia, quando nós ouvimos as suas mais altas entidades dizerem que a União Europeia já calculou a situação porque dispõe de rotas alternativas, por exemplo, dos Estados Unidos, da Noruega, do Catar, há um dado que tem de ser chamado à colação, Luís. É que essas alternativas são mais caras, o preço é mais elevado e essa é uma circunstância que acabará por beneficiar a administração norte-americana, que receberá mais receitas, mas exige um esforço suplementar à União Europeia. E nós vamos perceber que isso se vai sentir nos contribuintes. E é evidente que, se já há um cansaço de guerra, se a opinião pública já é muito desfavorável à manutenção deste apoio à Ucrânia, é evidente que a situação vai reverter também contra a Ucrânia. E repare, nós pensamos que a Rússia não tem alternativas. Claro que tem alternativas. Tem a de vender mais barato, vai continuar a vender principalmente para a China e a economia chinesa, que não está a crescer ao ritmo que era previsto, 6%, que é o ritmo mínimo pra evitar problemas sociais, é evidente que esta economia chinesa vai ficar muito satisfeita que a Rússia ainda baixe mais os seus preços. Portanto, Xi Jinping criou na China um capitalismo de Estado que verdadeiramente o PCC, quer dizer, o Partido Comunista Chinês, está interessado em manter e por isso mesmo o conflito está para durar.
E precisamente era nesse sentido que eu lhe ia colocar também a próxima pergunta, José Filipe Pinto, porque Vladimir Putin fez também uma mensagem de Ano Novo de otimismo, a dizer que tudo vai ficar bem. Será que este ano que agora começa será um ano em que poderemos ver o final deste conflito?
O conflito não termina. É provável que termine a guerra. O conflito em si não vai terminar e vai permanecer durante o próximo ano e os anos seguintes. E por quê? Aquela ideia de que, a exemplo do que aconteceu no final da Segunda Guerra Mundial, vai haver uma revisitação do Tribunal de Nuremberg que castigará os culpados, a meu ver, é uma perfeita utopia. Esta guerra não vai conhecer vencedores, vai conhecer vencidos e não vai conhecer uma paz justa pra qualquer dos lados. Aquelas que são as linhas vermelhas, eu acho que se aproxima o tempo de ambas começarem a ficar cada vez mais esbatidas, tanto do lado ucraniano como do lado russo. A Ucrânia será obrigada a ceder territórios. A Rússia não vai fazer da Ucrânia uma espécie de Estado fantoche ou um Estado vassalo, como fez da Bielorrússia. Portanto, o discurso de Putin, o discurso de Zelensky apontam para que é possível neste momento atingir o máximo dos máximos, mas realisticamente, tanto um quanto o outro sabem que não irão atingir esse máximo dos máximos. Vão se ficar pelo mínimo dos máximos, aquilo que é possível neste momento. Só que é um momento que, como eu disse, é uma paragem, um ponto de equilíbrio, mas temporário. A guerra vai parar, as armas podem calar-se quase, mas o conflito vai permanecer. E isto é o mundo de múltiplas ordens, Luís. E é este mundo que está a ditar as leis. Algo que ficou patente, por exemplo Nós pensamos que Putin fez um discurso rodeado dos seus generais mais medalhados e a dizer que as fronteiras dos interesses da Rússia são muito superiores, vão muito além dos limites geográficos da Rússia. Portanto, em termos reais, verdadeiramente, o que aqui está é uma Europa numa encruzilhada e uma Ucrânia que vai perder parte do seu território.
José Filipe Pinto, olhando agora para o conflito no Médio Oriente, é notícia nestas últimas horas o pedido de apoio do Hamas às Nações Unidas para que ajude a lidar com o frio que se vive em Gaza por estes dias. Há também notícia de bebés, por exemplo, a morrer por hipotermia. Israel devia estar a ser mais sensível à situação que se está a viver em Gaza.
Claro que deveria, mas é a mesma questão. Por quê? Porque em Gaza, Israel continua a intensificar os ataques, porque o Hamas, apesar de decapitado a nível das lideranças, ainda continua a dispor da capacidade, por exemplo, para disparar foguetes que atingem Israel. E quando a ONU acusa Israel de 136 ataques contra 27 hospitais e 12 outras instalações médicas em Gaza, isto é evidente que está a colocar o ônus da responsabilidade em Israel, a dizer que Israel está a cometer crimes de guerra ou contra a humanidade. Eu chamo a atenção dos senhores ouvintes que crimes de guerra e crimes contra a humanidade são coisas diferentes, apesar de ambos serem crimes autônomos e estarem, portanto, sob a alçada do direito internacional e da jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Agora, é importante percebermos que Israel não vai reduzir, mas acentuar o seu ataque tanto ao Hamas, como aos Houtis, como ao Hezbollah. Por isso mesmo nós percebemos que a situação está muito para durar, porque não é neste momento previsível que Israel, face ao enfraquecimento dos seus oponentes, vá assumir uma posição de paz ou de mais tranquilidade. Por quê? Porque receia que verdadeiramente esses inimigos aproveitem esse cessar-fogo para se reagrupar e se rearmar. Repare, Luís, hoje mesmo completa-se exatamente metade da duração prevista para o cessar-fogo entre o Israel e o Hezbollah. É o 30º dia dos 60 dias que foram acordados. Foi um cessar-fogo em que as violações dos termos do acordo são constantes. Israel fala em mais de 170 violações cometidas pelo Hezbollah. E o Hezbollah argumenta que está a usar o direito à autodefesa, que estava previsto neste acordo. Mas, por outro lado, Israel também é acusado pelo governo do Líbano de estar constantemente a incumprir, a não respeitar os termos do acordo. E Israel diz que o faz porque o exército libanês acaba por ser incompetente para garantir a segurança e impedir as deslocações do Hezbollah. Face a isto, o que é que acontece? O conflito está a exigir um preço que sob o ponto de vista humanitário, é um preço que ninguém deveria ser obrigado a pagar. É evidente que Israel vai sempre ter uma justificação. É que não está a atacar populações civis, que está a atacar alvos militares que se escondem debaixo de infraestruturas como, por exemplo, os hospitais e as escolas. É uma situação, Luís, muito grave, é uma situação desumana, mas em termos reais, a guerra é precisamente isso: é a desumanidade levada ao máximo. E Israel, sob esse ponto de vista, mais a mais sentindo que Trump vai respaldar esta ação, vai ser cada vez mais violento e por isso mesmo, não é expectável que os apelos a uma ação mais cordata, mais humanitária, surtam qualquer efeito junto de Netanyahu.
E nesse sentido do que dizia o José Filipe Pinto, está previsto para dia 20 a tomada de posse de Donald Trump. Isso poderá ter também algum efeito no futuro deste conflito, nomeadamente entre Israel e o Hamas?
Acabará por ter, mas temos de perceber uma coisa. Trump dá ameaça àquela que é a sua bandeira de discurso. E Trump assume que nós sabemos que fala-se muito que os Estados Unidos representam a casa no topo da colina. E ele entende que esta influência dos Estados Unidos tem de ser interesseira e não está obrigado a cumprir o normativo internacional sempre que esse normativo não é compatível com os interesses da terra do Tio Sam. Agora, repare, Trump acaba de convidar Xi Jinping para a sua tomada de posse. Isto muitos veem como uma forma de envolver a China, por exemplo, na resolução do conflito, principalmente na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Mas principalmente na Ucrânia, porque sabemos que há uma ligação de Xi Jinping a Putin. Só que eu tenho muitas dúvidas. Primeiro que tudo, que Xi Jinping aceite o convite e depois que Xi Jinping se vá envolver na resolução do conflito. Eu aceito, eu concordo que Xi Jinping vai continuar a apelar à paz e a tirar benefícios do gás russo barato e da instabilidade no Médio Oriente. E por isso mesmo, nós temos que perceber, Luís, que este é um mundo de múltiplas ordens. Repare, o Irão acabou de dizer ao líder supremo que a Síria foi ocupada por estrangeiros. Mencionou os Estados Unidos como criminosos gananciosos e os sionistas de Israel. E mais do que isso, voltou a falar da vontade de Allah. Isto percebe-se que a Síria vai ser um palco de lutas pelo poder. E em vez de termos dois palcos de guerra, vamos ter três palcos de guerra. E repare, a França acaba de bombardear zonas de influência do Daesh no deserto sírio. A União Europeia está a aproximar-se do conflito, já está a interferir no conflito. O mundo verdadeiramente tem muitos pontos de discórdia. E estes pontos de discórdia não estão a resolver-se diplomaticamente, estão a resolver-se pela força das armas. E é evidente que sempre que as armas falam, a palavra com sentido perde sentido. E por isso mesmo perde sentido porque deixa de ser ouvida. E nós olhamos para esta racionalidade feita de irracionalidades, mas em cada parte pensa que a sua racionalidade é a verdade suprema. E repare, é um perigo, Luís, chamarmos a religião de volta a estes conflitos. Neste momento está na Síria, em breve estará no Médio Oriente, porque num primeiro momento falou-se numa guerra separatista, da luta pela independência, mas depois todos nós percebemos que é o Irão que verdadeiramente tutela todo este eixo da resistência, que verdadeiramente, na perspectiva de Israel e dos Estados Unidos, é o novo eixo do mal.
E, portanto, vai ser um ano de muitos desafios também nestes conflitos. José Filipe Pinto, muito obrigado por ter vindo ao primeiro Gabinete de Guerra do ano. Obrigado, até à próxima.
Até à próxima, Luís. Bom dia.