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Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira com a análise de Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Olá, muito bom dia, bem-vindo.

Bom dia, como está?

Bom dia, obrigada. Temos que começar pelas negociações em Istambul. Na lista do Kremlin não consta o nome de Vladimir Putin e segundo a imprensa norte-americana, Trump também não irá. Francisco Proença Garcia, mais uma vez o líder russo a fazer todos de parvos, incluindo os líderes europeus que estiveram em Kiev e o próprio presidente norte-americano?

Não, vamos lá ver.

Qual é a leitura que faz disto tudo?

Isto era expectável. Para já, não são negociações, são conversações. Para negociar é preciso haver cedências de ambas as partes e haver uma agenda. O Putin não está interessado em ceder qualquer parte do território, penso eu. Mantém a sua agenda de dizer que a Ucrânia não pode fazer parte da NATO. O que é que ele lá ia fazer? Eu penso que ele só aparecerá um dia mais tarde, quando houver um acordo que lhe seja favorável. Aí ele vai aparecer e Donald Trump. Nós criamos grandes expectativas. Eu nunca tive muita expectativa que ele aparecesse, porque não há nada para negociar da parte dele. Agora, há uma coisa que é importante: vão sentar para conversar. São vice-ministros, está bem, é uma segunda linha, mas vai estar uma presença norte-americana significativa com o seu secretário de Estado, vão estar vice-ministros russos, vão conversar. O Zelensky não vai estar, o Putin não vai estar. Esses só aparecerão o dia que tiverem que assinar alguma coisa a que eles cheguem a acordo e que saiam ambos vitoriosos. O Putin ouviu sequer responder a esse repto Zelensky: "Ele tem que ir", eu não respondo isso. É uma desconsideração, ele não o considera sequer capaz de sentar à mesa com ele para negociar.

Até porque não o considera um presidente legítimo.

É criar expectativas excessivas, aliás, foram criadas expectativas excessivas para a opinião pública, porque, na realidade, para o Putin, ele aceitou enviar uma delegação e aceitou conversar. Não é negociar, veja, é bem diferente. É vamos conversar, vamos fazer um ponto da situação. É um ponto de partida que é positivo. Pode não valer nada, mas é positivo, ele já aceitou isso. Porque claro que está a ganhar tempo, continua a bombardear, continua a destruir as infraestruturas, porque ele quer legitimar a sua posição. Ele não quer negociar, ele quer legitimar os territórios que já conquistou, quer impedir que entre na NATO, de maneira que não há negociação possível. A pressão internacional tem que continuar a ser exercida da parte da União Europeia e com muita força da parte da NATO. Nós só não vamos lá. Vai ser muito difícil.

Entretanto, o Papa Leão XIV ofereceu-se para mediar as negociações, as conversações entre Rússia e Ucrânia e silenciar as armas no mundo. Parece viável, Zelensky mostrou-se muito grato.

Há outro sinal de esperança, ainda bem. Já o Papa Francisco tinha tido a iniciativa de promover a paz. De maneira que para iniciar o seu mandato, o sumo pontífice faz muito bem estabelecer essas pontes, quer dizer, o sumo pontífice é o supremo das pontes, é estabelecer as pontes para o diálogo. Mas ele só vai aparecer também quando for para assinarem os acordos finais, que as grandes figuras só aparecem no final. Mas já deu um tiro de partida, já há pronúncio a falar, onde envolver o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, onde envolver uma constelação de entidades, mas é bom estarem a conversar e haver essas iniciativas. Agora, daqui até um resultado concreto e objetivo e que seja legitimado pela comunidade internacional, porque se o direito internacional desaparece e vamos legitimar a intervenção militar e o uso da força e o rasgar dos tratados e dos acordos internacionais, o que será péssimo para nós. Mas são duas boas iniciativas.

É verdade. Entretanto, termina hoje a viagem de Donald Trump ao Médio Oriente, sem ter passado por Israel. Francisco Proença Garcia, o que fica deste périplo, além de uma série de acordos, o levantamento de sanções à Síria e um avião oferecido pelo Qatar?

Essa do avião cada um faz as interpretações morais que quiser. Na minha interpretação, isso é o sumo da corrupção. E depois do Qatar, o Qatar que tem a Al Jazeera, o Qatar que apoia o Hamas, o Qatar que apoia os movimentos do Estado Islâmico, o Qatar que apoia as intervenções em Cabo Delgado, no Congo. Ele está a apoiar indiretamente o Putin. E agora eles vão comprar 200 aviões. Em vez de o implicar sanções, apoia. Isso é o inverso daquilo que devia ser. Mas há outros valores que se levantam, mais importantes. A compra dos aviões é um sinal péssimo para Israel. Israel diz: "Já chega. Nós todos aceitamos o 7 de outubro, foi um massacre tremendo, mas aquilo que tem estado a acontecer, já chega. Temos que encontrar uma solução pacífica e imediata", porque a morte daquelas pessoas e o sofrimento de ambas as partes, a libertação dos reféns tem que acontecer e os bombardeamentos têm que acabar. Isso não tem estado a acontecer. E agora, esta intervenção. Mas tem um lado positivo, veja. Com a Síria, vamos pacificar com a Síria, vamos ter conversações com a Síria. Também era um antigo terrorista. O Yasser Arafat também foi antigo terrorista e depois recuperou-se. O homem aqui da Líbia, que é o Kadhafi. Eles estão a se recuperar. É importante estabilizar a zona e depois ir acompanhando a situação. Mas é importante, veja uma coisa, eu refiro outra vez os acordos de Abraão. Por muito negativo que seja tudo isto que o Donald Trump está a fazer, se houver, de facto, o retomar dos acordos de Abraão, ou seja, os árabes todos, as nações árabes terem relacionamentos com Israel, é capaz de trazer alguma pacificação à região. Agora, ir ao Qatar. Não se esqueçam uma coisa, no Qatar tem a maior base americana do Médio Oriente. O comando central norte-americano é baseado no Qatar. Isto tudo é muito controverso. As relações internacionais são assim, são complexas, são fluidas e depois têm, sobretudo, os interesses é que prevalecem, os interesses momentâneos. As alianças não têm que ser coerentes, têm é que ser convenientes, e são assim De maneira que, neste momento, é o que temos.

Mas Francisco, Steve Witkoff, que também acompanhou Trump nesta viagem ao Médio Oriente, quando foi questionado pelas negociações sobre a guerra em Gaza, garantiu que estão a ser feitos progressos em todas as frentes. Que progressos serão estes? Ou isto é só porque fica bem dizer isto?

Para já fica bem dizer isso. Ele não pode dizer que não há progresso. Ele é um negociador-mor do reino, ele tem que mostrar que há progressos. Mas há de haver sempre conversações na área diplomática, com os elementos de intelligence. Tem que haver sempre alguma negociação ou acompanhamento da situação. Mas isso depois é negado pela nova intervenção de Netanyahu, uma intervenção em força militar para arrasar com aquilo que ainda está de pé e para transferir populações. Está a ver? É contraditório, mas as negociações ou as conversações entre os elementos de intelligence e a diplomacia, que não são públicas, são nos bastidores, essas têm que acontecer permanentemente. E tem que haver sempre ligação, porque senão nunca encontramos um ponto comum para podermos conversar e encontrar uma solução. De maneira que essas existem, nós não sabemos quais são. Nós gostávamos que isso desse tudo nas notícias.

Claro, sim.

Mas felizmente ou infelizmente não vem, porque há coisas que são as chamadas agendas escondidas dos Estados. Nem tudo pode ser público. Mesmo os acordos têm partes secretas que não são de domínio público, os documentos e os conceitos estratégicos, mesmo o próprio norte-americano, tem áreas que são de acesso restrito.

Reservado, restrito, sim. Claro.

Está a ver? As ideias, os princípios, nós sabemos quais são, mas depois como é que isso se faz, como é que se executa, quando, em que tempo, quais são os planos de contingência, nós não sabemos. De maneira que temos que ter a noção que essas conversações paralelas existem sempre, vão sempre existir. Vão ter resultado. Podem não ser no imediato, mas vão ter alguns frutos. Ou frutos que são parcos, mas para aqueles reféns que foram libertados, foram frutos significativos. E para as famílias que os acolheram, foram frutos significativos. Agora já chega. Vai levar tempo.

Exatamente, pois vai. Francisco Esperança Garcia, muito obrigada pela sua análise. Bom final de semana para si.

Muito obrigado.

Muito obrigada. Boa quinta-feira.