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Temos vários pontos na agenda para a reunião de hoje do gabinete de guerra: a ausência de Vladimir Putin na cimeira dos chamados BRICS, também o acordo de cereais e ainda o chá que terá tomado com o líder do grupo Wagner. Temas para análise com o Bruno Cardoso Reis, coordenador do doutoramento em História e Defesa do ISCTE, em parceria com a Academia Militar. E aqui também a contar com as dúvidas da Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
Pelo menos esses três pontos na nossa ordem de trabalhos. Boa tarde, Bruno Cardoso Reis. Começamos por essa notícia que dá conta de que o presidente russo já não vai à cimeira dos BRICS, das economias emergentes Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul, no próximo mês. Vai só acompanhar por videochamada. Será seguramente para contornar o mandado de detenção internacional.
Sim, eu naquele nosso programa semanal, "Os Cinco Continentes", no sábado passado, referi a questão do processo recente, na semana passada, do ex-ministro das Finanças moçambicano, que foi extraditado da África do Sul para os Estados Unidos. Também tinha um mandado de captura internacional, neste caso da Justiça americana, por causa daquele caso dos 2 mil milhões desaparecidos em empréstimos de ajuda a Moçambique. E embora ele fosse um ex-ministro, a verdade é que isso voltou por esta questão, que no fundo, apesar do governo moçambicano não querer que essa extradição se desse, queria que ele regressasse a Moçambique, apesar do governo sul-africano apoiar isso, a verdade é que uma série de ONGs e depois em última análise o Supremo Tribunal decidiram que não era assim e que a África do Sul tinha de honrar esse mandato. E de facto, na África do Sul continua a haver separação de poderes e instituições que funcionam. E eu disse: "Imagino que o presidente Putin esteja, à luz disto, um pouco a repensar a sua ida à África do Sul", embora ele seja um chefe de Estado em funções e aí a questão da imunidade soberana coloca-se de outra forma. Aliás, já se tinha colocado também na própria África do Sul com Omar al-Bashir, o ex-presidente do Sudão, que acabou realmente por ir à África do Sul e depois sair, mas saiu antecipadamente. Acho que isto é o confirmar dessas suspeitas, ou seja, realmente não é em vão que há o mandado do Tribunal Penal Internacional. Infelizmente, o tribunal não tem os meios que nós gostaríamos, porque realmente não existe um governo mundial único. Muito depende aqui da ação dos Estados, mas ainda há muitos Estados, inclusive Estados no sul global, que são democracias, onde há divisão de poderes, onde há instituições que funcionam e este mandato tem realmente um custo, não só reputacional e político, mas até prático em termos da ação da diplomacia russa.
Bruno, sabemos agora que Moscovo deu três meses às Nações Unidas para implementar a parte do acordo dos cereais que previa a exportação de produtos russos. Em contrapartida, poderia depois retomar o acordo que visa os cereais ucranianos. Esta é uma linha vermelha para a ONU e para a União Europeia?
Pode ser aqui uma forma de pressão adicional. No fundo, acho que há aqui duas hipóteses. Uma é que tudo isto sejam pretextos, porque o próprio secretário-geral António Guterres, que em algumas ocasiões tem feito alguma pressão também sobre os países ocidentais, no sentido de dizer que realmente é preciso ver se não há aqui efeitos até indiretos, que não são os previstos das sanções, mas por uma questão de excesso de prudência, etc., as empresas, os bancos não se querem envolver e tentar ativamente lidar com isso. Nesta altura, o que ele realmente disse foi que até tinha feito uma proposta concreta da criação de uma filial do banco agrícola russo que lidasse só com os negócios ligados à exportação de cereais, que voltaria, essa sim, a ter acesso ao mercado financeiro global, ao mercado do dólar, ao Swift. Tudo coisas, aliás, diga-se, que a Rússia diz que não são precisas, que não lhe fazem falta nenhuma, inclusive até recomenda que os outros países não comprem nem vendam em dólares, mas aparentemente, quando se trata de vender, a Rússia prefere receber em dólares. Mas o que se dava a entender é que a Rússia não tinha dado seguimento a isso. Não sei se é a Rússia aqui a fazer um pouco de finca-pé e a querer insistir que não é uma filial, é mesmo todo o banco, o que lhe daria outras possibilidades, no fundo, utilizar este banco para fugir de forma mais ampla às sanções, se é realmente uma questão de se concretizar isto ou se é simplesmente uma forma de a Rússia tentar fazer este jogo diplomático, que exige, de facto, algum jogo, no sentido de dizer: "Não é por culpa nossa que não há acordo. Nós continuamos a ser muito amigos dos países do sul global, dos países africanos, dos países do Médio Oriente", muitos dos quais, inclusive a própria África do Sul, acham que esta questão dos cereais é vital para a economia global, para a segurança alimentar, para evitar fomes a nível global e que isto não pode ser posto em questão. E tentar passar a ideia de que se não há acordo é porque os países ocidentais não querem ou porque a ONU não é mais pró-ativa, mas não sei se é esse jogo ou se ainda há realmente espaço para, com mais algumas cedências neste campo, se conseguir que a Rússia regresse realmente ao acordo.
Bruno, mas ao mesmo tempo temos a Ucrânia a acusar a Rússia de atacar locais de exportação desses mesmos cereais. Estamos a falar das zonas portuárias. Isto pode ser um sinal de que dificilmente esse acordo possa ser retomado, mesmo que a Rússia demonstre alguma abertura?
Sim, acho que pelo menos mostra que não é muito realista esperar isso no curto prazo ou sem algumas cedências que a Rússia possa apresentar como uma vitória. Porque no outro periúdo, em que a Rússia disse também não vamos renovar o acordo, o acordo deixou de estar válido. Durante uns dias houve uma espécie de limbo em que a Turquia insistiu que sim, que estaria, mas de facto não houve este tipo de ameaças ou ataques. Aqui o grande problema Que estes ataques vêm tornar real. A Ucrânia pode dizer o acordo vai continuar, a Turquia pode dizer vai continuar, mas é fundamental que os navios, se existe transporte de cereais, as empresas que são donas desses navios, se sintam seguras em enviar navios para uma zona de conflito e portanto, para isso iam ter o mínimo de garantia de segurança. Ora, se estão a ser atacadas, inclusive infraestruturas portuárias, infraestruturas de exportação de cereais no porto de Odessa, é evidente que a mensagem russa é não arrisquem. Portanto, não façam isso, porque haverá aqui um risco. Aliás, a própria Rússia já veio até também dizer que passaria a considerar os navios que desafiassem esta espécie de bloqueio, que a Rússia volta a colocar em vigor, consideraria que estavam a transportar armas para a Ucrânia, portanto, seriam um alvo legítimo. Não sei se a Rússia se atreveria a tanto, se atacaria mesmo um navio mercante civil de outro país, mas acho que obviamente aqui a ideia é criar pressão, criar incerteza, criar risco, para tornar muito difícil que o acordo continue a funcionar sem o acordo da Rússia.
Bruno, como prometido, temos ainda aqui este outro ponto na agenda, relativamente ao chá que Vladimir Putin tomou com o líder do grupo Wagner. É uma questão que tem sido menos mediática esta recente tentativa de rebelião na Rússia nos últimos tempos. Os serviços secretos britânicos contam que nos últimos dias os dois tomaram um chá, Putin e Prigozhin. Ele passa de traidor a convidado. É de estranhar este encontro ou teria de acontecer mais cedo ou mais tarde?
Tudo isto é realmente muito estranho. E enfim, a questão do chá oferecido por russos ligados ao regime, realmente não tem, em termos de saúde de quem o bebe, nem sempre é uma bebida muito indicada, mas claramente Prigozhin achou que não havia esse risco. Mostra que tem aqui alguma confiança. No fundo, para mim, tudo isto só mostra este ponto fundamental, ou se quisermos dois. Um é que Putin só respeita a força e, portanto, lida desta forma com uma oposição armada que chegou a 200 km de Moscovo como uma coluna militar, e lida da forma que nós sabemos, com uma oposição democrática, que mesmo presa continua a condenar mais crimes e que está constantemente a ser ameaçada, inclusive violência e tudo isso. O outro aspecto é que Putin claramente não considera poder dispensar o grupo Wagner, pelo menos não de qualquer forma, não enquanto eles tiverem números e armas. E portanto, isso obriga a um compromisso. E também se percebe isso até no contexto da invasão da Ucrânia e desta ofensiva ucraniana. Nós temos razões para acreditar e há responsáveis ucranianos a dizerem isso, que parte da teoria da vitória ucraniana passaria não só por forçar aqui ruturas na frente, por aumentar a taxa de atrição das forças russas e da logística russa, mas com isso, com essa pressão crescente, acabar por provocar divisões nas fileiras, acabar por provocar tensões entre diferentes unidades, diferentes forças e o golpe falhado de Prigozhin veio provar que isso não é completamente disparatado. Infelizmente para a Ucrânia, durou muito pouco tempo. Ou seja, Putin percebeu que tinha rapidamente que chegar a um compromisso quase a qualquer preço, para evitar o risco de um colapso do regime e um colapso da frente militar na Ucrânia. A par disso, também temos esta nova pista do próprio Prigozhin ter vindo dizer que aparentemente, o grupo Wagner se iria concentrar em África. E isso realmente era também uma das questões que se colocava, que era o grupo que tem sido muito importante, sobretudo a partir de 2014, 2015, na projeção do poder russo em várias zonas, sobretudo no Médio Oriente, sobretudo em África, apoiando regimes autocráticos, juntas militares no Mali. Por exemplo, um destes dois grupos que está agora em combate no Sudão, na Líbia, na Síria e portanto, o que é que ia acontecer a essa capacidade irregular que a Rússia estava a usar para reforçar a sua influência. E portanto, aparentemente, uma parte do compromisso seria deixar de estar ativa na Ucrânia e portanto, demasiado próximo, diria eu, de poder voltar a ser uma ameaça ao poder, ao regime russo, e portanto concentrar-se aqui no teatro africano, onde realmente tem sido um instrumento muito útil para conquistar influência, para explorar recursos também. Muitas vezes o grupo está associado à exploração de recursos, como por exemplo, o ouro no Sudão e era importante também para a Rússia não perder essa valência, sobretudo quando em termos de forças militares, por exemplo, convencionais, sabemos que elas estão completamente focadas e esgotadas também pelo esforço militar na Ucrânia.
Houve um incêndio na base militar da Crimeia. Fala-se na retirada de 2000 pessoas. Kiev não reivindica o ataque. Há sinais de quem tenha a responsabilidade?
A Ucrânia, sobretudo em relação ao território propriamente russo, mas mesmo em relação à Crimeia, muitas vezes tem adotado esta postura que não é invulgar neste tipo de ataques, digamos, menos convencionais. Israel, por exemplo, faz isso com muita frequência, que é não confirmar, nem desmentir que foram eles ou eventualmente haver algumas fontes dos serviços secretos que dão a entender ou que dizem que sim, mas não há um comunicado oficial a dizer que sim. Mas acho que tudo aponta que será realmente a Ucrânia. Enfim, não é impossível, são vendados nesse sentido. Não é impossível que haja um acidente. Os paióis às vezes têm problemas, ou outro tipo de estruturas logísticas de combustível, etc. Numa base militar podem ter problemas, mas acho que é uma coincidência muito grande, sobretudo tendo em conta que claramente a Ucrânia tem estado a reforçar a pressão militar, os ataques no sul e sobretudo, e também na zona da Crimeia. Portanto, isso também tem aqui uma utilidade em termos políticos, em termos estratégicos, no fundo, mostrar que a Crimeia não está esquecida, que a Crimeia não está completamente controlada pelas forças russas e que mesmo essa rota de apoio logístico, que parece à partida mais segura, mais a sul e que passa por território sempre russo até à ponte Kerch e depois pela Crimeia, a partir da Crimeia para diferentes zonas da frente sul, da zona de Zaporíjia, etc. Que mesmo essa rota aparentemente mais segura, também não é assim tão segura, também pode estar em risco e portanto, obviamente, isso também tem um impacto prático em termos da quantidade de munições, de outro tipo de material de apoio das forças russas, mas também até em termos da moral, em termos psicológicos.
Cumprimos, portanto, os pontos previstos para a reunião de hoje do gabinete de guerra. Fomos até mais além. Obrigada, Bruno, pela tua análise. Temos sempre estado a acompanhar, como sempre, desde o início deste conflito, a guerra na Ucrânia. Também no site do Observador há um live blog ativo com todos os desenvolvimentos.