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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. João Diogo Barbosa, um porta-voz da Casa Branca diz que o Grupo Wagner, a pedido das autoridades russas, está a preparar-se para entregar um sistema de defesa antiaéreo ao Hezbollah ou ao Irão. Em sentido contrário, o Irão deverá enviar para a Rússia mísseis de curto alcance modernos. Em tempos, os dois países disfarçavam este apoio mútuo. Que impacto pode isto ter?
Sim, eu acho que é um pezinho de desenvolvimento, se calhar até por oposição aos desenvolvimentos entre Israel e o Hamas, porque de facto não interessava à Ucrânia e ao mundo em geral que o conflito continuasse a acelerar e a exigir cada vez mais recursos. A verdade é que para a Rússia, o Grupo Wagner, e isto foi muito discutido nos últimos meses, sempre serviu como uma espécie de braço armado não oficial e, portanto, muito mais fácil de usar como ponta de lança diplomática para apoiar governos. A aliança ou até o alinhamento entre a Rússia e o Irão não é novo, não é uma novidade dos últimos dias. O facto de também se recorrer ao Grupo Wagner, que desde que Prigozhin conheceu o seu fim, tinha uma posição um pouco estranha, estava remetido para África e não se percebia bem até como é que o Estado russo ia continuar a apoiar as suas operações aí. Parece que agora vai expandir as suas operações para o Medio Oriente com uma agravante ou com uma nota que é muito relevante. O Grupo Wagner teve sempre também uma vertente comercial e, portanto, não são um exército sujeito diretamente a um Estado, são um grupo muito próximo dos mercenários. Evidentemente, que depois da morte do seu fundador, mais dependentes do governo russo, mas continuam a ser distantes de um exército e, portanto, também não me parece que o armamento que tenham hoje é exactamente aquele que o Irão esperaria para uma guerra em grande escala. E parece-me também que a situação no Medio Oriente, com estes acordos, com o cessar-fogo temporário, ajuda a justificar que, eventualmente, um Irão mais agressivo, que foi o receio que tivemos logo no início de outubro, mas que tem desaparecido. Também o facto de só poder contar com o Grupo Wagner, nem sequer com o governo russo, parece-me que é uma escalada controlada e, portanto, sendo uma má notícia, não é uma notícia que nos tenha de deixar sem sono durante vários dias.
Vladimir Putin vai participar hoje na cimeira virtual do G20. João Diogo Barbosa, o que é que podemos esperar deste regresso depois de não ter estado presente no encontro de setembro na Índia?
O facto de Putin estar disposto a voltar a estas reuniões é também interessante. Havia uns interesses mútuos de países que não queriam ouvir Vladimir Putin e Vladimir Putin que não queria falar com certos países. O G20 é um grupo alargado, que tem não só democracias e não só democracias progressistas e liberais, mas o regresso de Vladimir Putin parece dar força àquela ideia de que com uma falta de movimento e até uma falta de interesse no conflito na Ucrânia, começa a pensar-se no dia a seguir. E se a solução for, de facto, até pelo receio do que possa chegar das eleições americanas, ter uma negociação diplomática e assegurar uma solução mais ou menos duradoura para o conflito, faz sentido que Vladimir Putin volte a ser aceite nestes fóruns. É, de facto, algo que para o presidente Zelenskyy e para a sua política externa parece ser uma derrota, porque Putin não abrandou propriamente o seu conflito, continua a dedicar muitos recursos e os combates continuam, por exemplo, em Kherson, mas conseguiu, do ponto de vista da respeitabilidade, voltar à cena internacional. Temos visto cada vez mais notícias de países do chamado Sul Global, que estão cada vez mais desalinhados com o Ocidente. E, portanto, parece-me que este é um sinal de que o conflito ucraniano está cada vez mais a caminho de uma fase diplomática, porque a fase militar parece um bocadinho empatada na situação atual e, sendo assim, parece-me que o maior perdedor será mesmo Zelenskyy, que não tem aqui uma forma de assegurar que é possível recuperar todos os territórios invadidos pela Rússia e que se calhar vai ter mesmo de ser sujeito a muita pressão, eventualmente até dos Estados Unidos, para que se chegue a um acordo em moldes que não são exatamente aqueles que a Ucrânia pretendia. Portanto, uma má notícia diplomática para a Ucrânia e para Zelenskyy.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem uma nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.