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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Daniela Nunes, o presidente russo começou logo por dizer no G20 que a guerra na Ucrânia é uma tragédia, que é preciso pensar numa forma de parar o conflito. Esqueceu-se de quem começou?

Sim, o discurso de Putin é qualquer coisa de mais ou menos surreal e de completamente deslocado da realidade. Eu não me refiro, obviamente, à parte em que ele reconhece que a guerra é uma tragédia e é chocante, porque com isso eu sou obrigada a concordar. Mas refiro-me à parte em que ele diz que a Rússia está disponível para estabelecer negociações de paz e que a guerra só não terminou ainda por culpa da Ucrânia. Portanto, isto, no mínimo, dá vontade de recordar o senhor Putin que esta guerra só aconteceu por causa dele. Ponto final. Mas enfim, esta é a parte do surrealismo do discurso, porque depois também há a parte interesseira, cínica, oportunista. Há claramente aqui um aproveitamento deste palco, que é o G20, para trazer para cima da mesa um conjunto de trunfos, sobretudo associados à posição russa, por exemplo, nos contextos geopolíticos asiático e africano, para onde, segundo Putin, a Rússia está mais preocupada em desviar as suas atenções de cariz econômico. Sobre a África, em particular, como não poderia deixar de ser também, foi deixado bem claro que a Rússia de Putin é uma potência extremamente altruísta e está a enviar cereais gratuitamente para os países mais necessitados nesta região. Resumindo, Putin quer obviamente capitalizar este momento para passar uma imagem quase diplomática e de bondade, e que está a fazer de tudo para reverter a tragédia que é a guerra na Ucrânia, que ele próprio provocou, mas que agora não há meio de acabar, porque os ucranianos, os maus da fita, não deixam. É o que temos e é mais do mesmo de uma narrativa que é já muito antiga, com 25 anos.

E o presidente russo mostra-se também pronto para negociações. Daniela Nunes, acredita que podem ser retomadas estas negociações e que a Rússia poderá fazer cedências?

Não, não acredito. Como eu estava a dizer, parece-me que esta tentativa de passar uma imagem de bom da fita não passa realmente de uma narrativa, porque se Putin quisesse a paz, se ele preferisse a paz à guerra, ele não teria começado esta guerra. Ele é o único autor do conflito na Ucrânia e não me parece que esteja propriamente interessado em negociar a paz, até porque a guerra lhe traz um protagonismo que a paz não traz. O que me parece é que o exercício que ele está a fazer, e como eu estava a dizer, neste palco que é o G20, é um exercício de capitalizar as atenções daqueles que lhe são mais próximos e porque à mesa do G20 não se sentam apenas democracias liberais e ocidentais, mas outros também, que têm boas relações e nutrem alguma amizade pela Rússia de Putin. Estou a pensar, por exemplo, no presidente chinês, que também se senta à mesma mesa. O que me parece é que Putin vai querer capitalizar a atenção destes seus amigos, mas também de outros inimigos, no sentido de passar a imagem de que pelo menos, do ponto de vista da retórica e da oratória, está calmo, está sereno, até está a tentar negociar a paz, mas o presidente Zelensky não deixa e não quer colaborar. Estou obviamente a ser irônica para dizer que não me parece que haja verdadeiramente interesse da parte da Rússia de Putin em negociar paz nenhuma. Parece-me, sim, que há um interesse em passar uma imagem que é mentira, que é uma farsa e que é já habitual.

A participação no G20 pode ser vista como uma derrota para Volodymyr Zelensky?

Eu percebo essa pergunta e percebo que possa ser algo desconfortável para o executivo ucraniano observar o seu homólogo e inimigo sentado à mesa do G20. Pode soar a Zelensky uma certa tentativa de considerar a opinião e a narrativa da Rússia, mesmo que exclusivamente neste contexto mais restrito que é o G20. Mas emoções à parte, e porque não é de emoções que se faz a política, muito menos a guerra e nem sequer a paz, o que temos que perceber é o seguinte: se algum dia quisermos entrar em vias de conversação com a Rússia, de fato, e portanto, isto no sentido de um acordo de paz, que não parece estar para breve, como eu estava a dizer há pouco. De fato, o que é preciso, em primeiro lugar, que aconteça, e isto até é mais ou menos redundante, é conversar. Ou seja, a passagem para o nível da diplomacia vai obviamente implicar que Putin tenha um lugar à mesa. E isso não branqueia de forma nenhuma o que é a visão ocidental, que é a minha, em particular, sobre a atitude e sobre as pretensões imperialistas da Rússia nos últimos anos e, em particular, dirigidas à Ucrânia. Não me parece que esta seja nenhuma forma de derrota ou desconsideração relativamente a Zelensky, mas antes uma forma de presságio sobre a possibilidade, quiçá, desta guerra poder um dia conhecer uma nova fase, muito menos bélica e muito mais diplomática, é o que eu quero dizer, e que vai implicar, obviamente, olhar nos olhos do presidente russo. Mas não implica, e gostava de deixar isto aqui bem claro, ceder à Rússia território ucraniano. Não é isso que eu estou a dizer, de forma nenhuma Agora, este é o cenário mais bonito e mais desejável, mas também é um cenário que não me parece que vá acontecer para já. Para já, o que me parece é que Putin, como eu também estava a dizer há pouco, está só a tentar aproveitar este momento de algum protagonismo para fazer passar uma imagem de tentativa de negociação e de pacificação do que se está a passar na Ucrânia, que não corresponde, na realidade, àquele que é o seu interesse no terreno, neste momento, e em particular, quando as atenções do mundo inteiro se desviaram, a partir do dia 7 de outubro, para o Médio Oriente. Portanto, julgo que ele também irá capitalizar esse desvio de atenções, no sentido de tentar recolher o maior número de dividendos no teatro de guerra na Ucrânia, uma vez que agora Estados Unidos e Ocidente têm que se dividir entre não um conflito, mas dois. E portanto, julgo que não é nesta fase, especialmente, que vamos poder entrar nessa tal fase que eu chamava menos bélica e mais diplomática.

Vamos ao último ponto na nossa ordem de trabalhos para hoje do Gabinete de Guerra, Daniela Nunes. O Kremlin reconheceu hoje que está a desenvolver relações com o Irão, mas recusou comentar o que foi dito pelos Estados Unidos. Sugeriram que os iranianos estão a ponderar fornecer mísseis balísticos à Rússia. O Irão é um país que pode vir a ter também um papel mais ativo no outro conflito do Médio Oriente. Isto pode estar aqui tudo relacionado?

Bem, esta relação entre Rússia e Irão não é propriamente uma novidade e, portanto, também não é nova a ideia de uma possível cooperação militar e estratégica entre os dois. E como aliás referiu, julgo que mesmo utilizando essa expressão de cooperação militar e estratégica, o senhor porta-voz Dmitri Peskov. É claro que não é uma boa notícia, é aliás uma notícia que põe a nu uma certa interligação inevitável entre os dois grandes conflitos que estamos a viver, um na Ucrânia e o outro no Médio Oriente, porque o que está em causa é o fornecimento de um sistema de defesa antiaéreo por parte do grupo Wagner ou ao Hezbollah ou ao Irão, que como sabemos se encontram bastante mais próximos do epicentro dos acontecimentos na atual guerra entre Israel e o Hamas e, portanto, são actores que ninguém quer ver envolvidos nesta guerra, porque isso de alguma maneira significaria quase que internacionalizá-la. Portanto, regressamos aqui à lógica da importância da diplomacia e de estar atentos àquilo que Putin tem para dizer. Porque de facto, quer ele tenha coisas importantes, verdadeiras ou apenas disfarçadas e carregadas de cinismo para dizer, o que importa realmente é que as ações de Putin e da Rússia de Putin, as pretensões imperialistas de Putin e estas relações de amizade que ele vai construindo mundo fora, têm um impacto. E estes apoios, quer eles sejam apenas morais ou logísticos, têm implicações globais e essas implicações são especialmente preocupantes na fase em que estamos, de um ponto de vista mundial, geral, global, que é não de uma guerra, mas de duas. E portanto, é preciso estar especialmente atento a estas linhas, a estas comunicações e a estas trocas de apoio mútuas, porque de facto o mundo está cada vez mais pequenino e cada vez mais interligado. Essa interligação e essa pequenez é para muitas coisas extremamente útil e positiva, mas quando o cenário é o de duas guerras, essa pequenez e essa interligação podem significar a aproximação das duas guerras, a aproximação de grupos terroristas no sentido do piorar do cenário que já existe, quer no palco ucraniano, quer no palco israelita e palestiniano. E, portanto, o que não queremos ver é uma escalada e um envolvimento ainda maior de outros actores, nem numa guerra, nem noutra, mas em particular na guerra do Médio Oriente, que envolve grupos terroristas, não considerados terroristas pela Rússia, mas que sabemos que são grupos terroristas e, portanto, não queremos um envolvimento excessivo dos actores de uma guerra com os actores da outra guerra, porque isso, inevitavelmente, não sabemos se a curto, médio ou longo prazo, resultaria quase de certeza numa internacionalização dos conflitos, que não é desejável para ninguém, obviamente.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.