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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Professora Lívia Franco, a legisladora regional Yekaterina Duntsova é candidata às eleições presidenciais na Rússia. A antiga jornalista entregou a documentação e aguarda agora a aprovação da Comissão Eleitoral Central para poder desafiar o presidente russo nas eleições do próximo ano. Isto é um problema para Putin ou resolve-se sem problemas para o Kremlin?

Eu acho que nós já sabemos a resposta de antemão. Resolve-se sem problema nenhum. Aliás, até podemos fazer a seguinte leitura de que, para uma aparência de pluralidade, convém a estas eleições e ao próprio candidato Putin que haja outros candidatos concorrentes. Porque senão, de facto, a leitura automática que se faz é que isto não são eleições verdadeiras. Portanto, é normal que vão aparecendo aqui e ali candidatos, mas são obviamente candidatos muitíssimo controlados. Aliás, tem sido esse sempre o trabalho que a Comissão Eleitoral Russa tem feito nos últimos momentos de escrutínio, nas outras eleições, de permitir que haja mais candidatos para a tal aparência de um sistema que é plural e democrático, mas sabendo, evidentemente, que esses candidatos não reúnem as condições mínimas para poder concorrer com o candidato Putin. Eu acho que nós sabemos todos, neste momento, qual vai ser o resultado das eleições. Até porque nesta semana que passou, aquela intervenção em debate televisivo com audiência feita pelo presidente Putin, nós vimos que ele se encontra, de facto, num momento bastante fortalecido. O tom com que fez as intervenções e a narrativa que ele trabalhou foi uma narrativa de quem se sente numa posição muito confortável, de quem se sente numa posição de força naquilo que é o terreno da operação militar da Ucrânia, de quem vê a sua posição fortalecida também do ponto de vista geopolítico, mas também quem sente que não há verdadeiras ameaças internas. Tendo sido resolvido uma série de episódios, nomeadamente ligados, por exemplo, à insurreição do líder Wagner, que entretanto, como nós sabemos, deixou de facto de fazer parte da equação, de quem sente que não há aqui nenhum perigo e é essa a leitura. A sua posição está muito sólida e é evidente que o resultado das eleições, neste momento, não são de todo questionadas.

General Vieira Borges, no terreno, Zelensky diz que a Ucrânia vai responder ao pesado bombardeamento russo em Kherson. Para isso, diz que precisa de drones mais eficazes. Diz ele que é uma prioridade proteger a vida dos soldados. O líder ucraniano sente o avanço russo e uma incapacidade óbvia de não responder com as mesmas armas.

Sente, efectivamente. Ele recebe os relatórios de operações e os relatórios de informações e daí a sua imagem pesada nestes últimos discursos, os apelos aos apoios dos Estados Unidos e ao apoio dos europeus, a urgência no fornecimento de munições, de equipamento, porque ele está com graves problemas, quer em termos de material, quer em termos de pessoal. Quando ele falou em recrutamento de 400 a 500 mil homens, ele tem consciência de que efectivamente as baixas têm sido elevadas e tem problemas muito graves que levam a que, por exemplo, o Umerov, o Ministro da Defesa, já faça apelo a ucranianos que estão no estrangeiro. A situação é muito crítica em termos militares, mas de qualquer maneira, ele tem noção de que efectivamente a questão que referiu agora dos drones, a eficácia, que não tem sido grande da parte dos drones ucranianos, é necessário tecnologicamente serem melhorados, porque da parte da defesa aérea, por enquanto, enquanto houver munições, têm tido grande sucesso. Por exemplo, esta noite, dos 35 drones lançados, foram destruídos 34. Este último dia foi um dia muito complicado, com 99 ataques, 99 combates, com muitos mísseis, com muitos ataques aéreos, 68. Estou aqui a ver agora a lista. São 88 ataques, sistema lança-foguetes múltiplo, ou seja, da parte da Rússia, nós temos visto sobretudo grandes ataques. É uma autêntica ofensiva sobre Kherson, na margem esquerda, e também a Azov. Eles estão a tentar ainda ganhar durante este período, independentemente de já estarmos no inverno e serem sobretudo ataques de combate em profundidade. Há aqui sucessivos avanços da parte da Rússia, pontuais, claro, mas uma grande dificuldade com grandes baixas. Isto é outro lado que as pessoas não têm noção. Vamos vendo os dados de Gaza. Eu acompanho todos os dias estes dados. Estamos todos os dias com mais de mil baixas dos relatórios da Ucrânia relativamente à Rússia. Já vai em 350 mil, de acordo com o próprio dado da Ucrânia. Só hoje, para as pessoas terem noção, apesar de tudo, a Ucrânia consegue fazer 16 ataques aéreos, consegue destruir 14 carros de combate, 31 viaturas blindadas, 20 sistemas de artilharia e cerca de 1080 militares. É claro que estes números nunca são confirmados. A Ucrânia também não dá os seus indicadores. Eu tenho sempre a noção que numa guerra deste tipo, com contra-bateria e combate em profundidade, as baixas daquele lado são as mesmas do outro lado. Ou seja, andamos aqui a ver pelo menos 600, 700 jovens russos e ucranianos a morrerem todos os dias. E andamos nisto há semanas e vamos continuar. Se não houver aqui uma ação também, e espero que haja, em simultâneo com aquilo que vamos vendo, no sentido de negociações, de alguma aproximação a alguma solução Porque nós não podemos andar nisto, sobretudo a Ucrânia, porque obviamente os 44 milhões já não estão lá. A Ucrânia, se tivesse 35 milhões e depois em termos de operações, deve ter uma relação em termos humanos de um para cinco ou de um para seis, se não for de um para 10, porque nós nunca temos os dados concretos. A situação é muito crítica para a Ucrânia e estas mensagens são muito importantes para os Estados Unidos, que anda a discutir problemas internos, mas esquecer-se de que esta guerra é que vai resolver o futuro do mundo em termos do sistema político internacional e das relações de poder.

Professora Lívia Franco, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, diz que Washington tem um plano para que a Ucrânia possa financiar-se no futuro e deixar de depender da ajuda militar e econômica dos Estados Unidos. Que plano pode ser este?

Eu não conheço nenhum plano em detalhe. Julgo muito difícil a existência de um plano que permita à Ucrânia autofinanciar-se ou ter autonomia daquilo que são seus parceiros ocidentais. Outra coisa é ter um plano para assegurar que, de alguma maneira, os parceiros conseguirão ajudar a Ucrânia, de facto, a ter uma alavancagem financeira e militar sustentada deste esforço de guerra. Mas tenho alguma apreensão sobre as características e as condições desse plano, enfim, tem que ser apresentado para nós analisarmos. Neste momento, de facto, tenho muita dificuldade. Agora, o que é que eu posso dizer em relação a esta matéria? Posso dizer que eu acho que há uma clara vontade política dos governos ocidentais em manterem este apoio. Outra questão é o nível de apoio e, sobretudo, o nível de apoio, tendo em vista uma série de desafios que acontecem a nível interno destes países. Ora, aquilo que nós estamos a notar é que essa agenda política interna, e não é apenas a dos Estados Unidos, é também dos países europeus, e nós também temos importantes eleições que vão acontecer em 2024 em importantes países europeus, estou a pensar, por exemplo, no caso do Reino Unido. E essas agendas internas são capazes de tornar refém este auxílio, que é um auxílio que se inscreve na agenda da política externa. É isso que está a acontecer neste momento nos Estados Unidos. E vamos lá ver, a natureza dos governos dos países ocidentais é serem democráticos e, portanto, haver também a alternância de quem está no poder, exigir uma constante negociação e, portanto, esse apoio sustentado e confirmado a médio e longo prazo, porque esta guerra na Ucrânia, todos os indicadores o mostram, é uma situação que não tem resposta a curto prazo, não é uma solução política para determinar as hostilidades a curto prazo, exige que seja um plano que tenha essa sustentabilidade. Parece-me muito difícil que isso aconteça. Acho que talvez esse seja um discurso para acalmar e, sobretudo, é um discurso para dizer, em última análise, os parceiros ocidentais percebem que têm que estar do lado da Ucrânia. Agora, com estas especificidades a nível interno dos países parceiros, o que é sempre uma coisa muito desgastante e é uma coisa que a liderança russa sabe negociar muito bem e sabe tirar um excelente partido, como nós temos visto até ao momento.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem uma nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.