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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos os principais conflitos que marcam a atualidade. Hoje recebemos o major-general João Vieira Borges, com destaque para a guerra na Ucrânia, quarto aniversário da invasão russa. Várias declarações para analisar neste Gabinete de Guerra. Major-general, vamos começar por Volodymyr Zelensky, que diz que o povo ucraniano confia na Europa. Isto na sequência da visita de Ursula von der Leyen e também de António Costa a Kiev. A minha pergunta para si, major-general João Vieira Borges, é se Zelensky tem motivos para confiar na Europa.
Zelensky tem motivos para confiar na Europa em função daquilo que tem sido o apoio da Europa, quer apoio político, quer apoio financeiro, quer até apoio militar, não sendo uma organização militar. E, portanto, em face daquilo que tem sido a postura dos Estados Unidos da América, em particular de Trump, digamos que a Europa passou a ter um peso muito maior para a Ucrânia, exatamente porque as condicionantes que têm sido impostas, a pressão que tem sido feita no âmbito do processo negocial e a redução do apoio, quer financeiro, quer em termos de material de guerra direto, obviamente que levam a essa aproximação maior à Europa. E, portanto, acho que é perfeitamente natural, é muito justo também. Ele tem a noção disso, independentemente das limitações que a Europa em geral tem, a própria União Europeia, relativamente a determinado tipo de apoios, designadamente os apoios militares.
Que têm sido consistentes, major-general.
Têm sido consistentes, independentemente de haver problemas no porta-aviões europeu, ou seja, em termos de manobra, como nós vimos hoje inclusivamente, tem muita dificuldade de contornar legislação. Nós estamos a falar de uma organização internacional, não estamos a falar de um país, e portanto determinadas situações que têm a ver com a burocracia normal e com o modus funcionar da União Europeia condicionam o apoio, não é só nos 90 mil milhões no empréstimo, é também de determinado tipo de apoios, designadamente até outro tipo, neste caso, de sanções. O 20º pacote de sanções também foi condicionado, porque há mecanismos que dificultam a aceleração de todo o processo. Independentemente disso, a Europa tem feito muito mais do que aquilo que era expectável. Se há quatro anos perguntássemos o que a Europa podia fazer se houvesse uma guerra, designadamente de invasão da Rússia a um Estado europeu, certamente que na altura teríamos mais limitações ou seríamos mais céticos do que a realidade. Agora, aquilo que nós esperávamos é que fosse melhor e, em particular, Zelensky gostava que a situação de apoio militar, designadamente, fosse muito melhor, mais rápida, mais eficaz.
Já António Costa diz que a Rússia não pode sair da mesa das negociações de paz premiada e diz também que está à espera de mais negociações à procura de chegar a um entendimento para o fim da guerra. Major-general, parece-lhe que seja um cenário possível?
É um cenário possível, mas não é muito provável. Quer a questão do direito internacional, concretamente os crimes de guerra, quer a questão territorial, obviamente que houve uma evolução considerável desde o início da guerra. Neste momento, a própria Ucrânia defende a congelamento de combates e a cedência, de fato e não de jures, de uma porcentagem que ronda os 19, 20% do território. Aqui há três anos ninguém o pensaria. Aqui há dois anos a União Europeia nem falava nisso, falava só numa paz justa e duradoura. E portanto, hoje em dia, temos cedências da parte da Ucrânia consideráveis, que nunca levarão a que consideremos que tenha sido uma paz justa. Portanto, é preciso também ter consciência daquilo que foi a evolução deste conflito, independentemente da resistência, da resiliência, do sangue derramado pelos ucranianos na defesa da sua terra. E temos a noção do que é Putin. Não vou dizer aquilo que Zelensky disse relativamente a Putin. Digo que é um autocrata, imperialista, que obviamente decidiu invadir ilegalmente, ilegitimamente, o território do país vizinho. Nós não gostaríamos, certamente, que a Espanha fizesse o mesmo, independentemente das narrativas que encontrou. Encontram-se sempre narrativas nesta Europa. E por isso, depois de duas guerras mundiais centradas na Europa, nós criamos mecanismos internacionais, designadamente no âmbito do direito internacional e através da própria Organização das Nações Unidas, pra que isso não voltasse a acontecer e aconteceu. Aconteceu com um homem que o preparou durante 23 anos. E, portanto, nesse aspecto, eu compreendo António Costa perfeitamente, mas depois a realidade, infelizmente, é outra. E outra sustentada agora também, não só pela China, que apoia tacitamente a Rússia, mas agora também pelos Estados Unidos, naquilo que é a nova era das grandes potências, em que aquilo que é a lógica é a lógica do poder, aquilo que é a lógica é os interesses dos Estados, em particular das grandes potências, que não estão minimamente preocupados, até os Estados Unidos, com valores e princípios. Estão preocupados com os seus interesses, com as suas conquistas, e isso tem dificultado, nomeadamente no último ano, a atuação da Ucrânia em defesa daquilo que é legítimo e a própria atuação da União Europeia e dos povos livres e democráticos.
Vamos falar de um outro cenário que é bastante complicado, pelo menos na teoria, para a Ucrânia, que é a adesão à União Europeia. Hoje, Volodymyr Zelensky voltou a pressionar para que se defina uma data para uma possível adesão da Ucrânia à União Europeia. Ursula von der Leyen diz que esse compromisso não é possível. Esta questão de entrar na União Europeia é utópica para a Ucrânia?
Não, é muito importante e tem a ver com a sobrevivência da Ucrânia. Eu acho que é muito importante, em termos políticos, que a Europa se livre de burocracias e de interesses de alguns dos Estados, a começar na Hungria e acabar na Eslováquia e até a passar pela própria Polónia. Portanto, eu acho que é fundamental para a Europa que a Ucrânia, independentemente de não respeitar todas as suas condições impostas ou as condições impostas pela União Europeia, designadamente nas áreas da corrupção, na área das finanças, ela entre, porque esse é que é o instrumento mais forte que a União tem para fazer face à Rússia. O problema da Rússia não era a NATO. A NATO, na altura em que invadiu a Ucrânia, estava morta. Portanto, o problema sempre foi liberdade e democracia que representa a União Europeia. Aliás, tudo tem a ver, exatamente com Maidan, tudo tem a ver com, na altura, haver população que se manifestou a favor da entrada na União Europeia e isso acavou numa reação da Rússia. Esse é que é o grande problema. Portanto, a resposta da União Europeia, na minha perspetiva, deve ser uma resposta mais política que econômico-financeira ou de outra dimensão. Essa é que era a grande resposta, à entrada da Ucrânia o mais rápido possível na União Europeia.
Entretanto, o ministro da Defesa da Ucrânia apresentou hoje o novo plano das Forças Armadas da Ucrânia para enfrentar este quinto ano de guerra com a Rússia. O plano muito centrado em melhorar a defesa aérea, travar avanços inimigos e tentar privar ao máximo a Rússia de recursos. Major-General, parece-lhe um bom plano para uma guerra que vai entrar no quinto ano, que já está no quinto ano, e o que é que mais a Ucrânia tem capacidade para fazer?
Parece-me um bom plano. Estamos a falar de quem está no teatro de operações, de quem sabe efetivamente aquilo que necessita. Não o vou criticar. Tenho lido artigos de generais ucranianos com posições muito semelhantes, mas a guerra evoluiu muito nos últimos anos. Estes quatro anos transformaram completamente a guerra. Tornou-se numa guerra em que os drones e guerra eletrónica têm um peso específico, em que a guerra energética passou a ser parte dos dois opositores, de maneira diferente. No caso da Rússia, para pressionar a população, para privar a população, enquanto que no caso da Ucrânia é para privar o reabastecimento para a guerra, porque há alternativas. Estamos a falar não propriamente de atacar as centrais, mas atacar outro tipo de infraestruturas. Mas independentemente disso, temos novas doutrinas, temos novas táticas, temos novas unidades, temos uma nova organização para o combate. Para nós militares, olhamos para aquele teatro de operações e não tem absolutamente nada a ver com aquilo que era há quatro anos o tipo de guerra convencional. E, portanto, aquilo que a Ucrânia pode fazer, agora em resposta à sua questão, é exatamente tentar compensar o fato de ter uma relação, em termos militares, de um para cinco e alguns sítios de um para 10, com a tecnologia. Portanto, a tecnologia, como foi no início com os drones, como tem sido com a guerra eletrónica e outras questões, é que pode mudar, pelo menos, defender a Ucrânia, designadamente quando falamos de defesa aérea. A defesa aérea não é para atacar ninguém, é para proteger a população e as infraestruturas. Por isso é tão prioritária e por isso não pode haver nenhum aliado, a começar nos Estados Unidos e a acabar em Portugal, que não possa fazer o máximo para proteger a população e, portanto, ceder esse tipo de sistemas. Outra coisa diferente são os sistemas mais ofensivos, nem que seja para fazer combate em profundidade. Isso sempre foi mais complicado. A Ucrânia sempre esteve limitada, nunca foi uma guerra justa, porque a Ucrânia é que nunca pôde utilizar os mesmos equipamentos da Rússia, porque os aliados também não o prometiam. Desde o F-16, o HIMARS, tudo isso que nós nos lembramos ao longo desta guerra, que depois deu vantagem natural à Rússia.
Major-General, estamos a chegar ao final do nosso tempo. Temos ainda três minutos. Eu ia perguntar-lhe um balanço destes quatro anos de guerra. Acabou por, de certa forma, já responder. Como tal, pergunto expectativas para este quinto ano de guerra que começa agora.
Aquilo que nós vimos nestes quatro anos foi a transformação, em termos internacionais, do sistema político que estávamos habituados, que é uma nova era das grandes potências, que eu já referi. Estamos com um mundo mais incerto, mais inseguro. É muito complicado em termos de rearmamento mundial. Temos as organizações internacionais, como a ONU, e não só, e o direito internacional em crise. Apesar de tudo, nós não ganhamos guerras com esperança. A democracia não se defende com palavras, defende-se cada vez mais com armas e infelizmente com sangue. E aquilo que vamos continuar a ter é exatamente uma guerra, porque é essa a intenção de Putin. Ele não quer a paz, ele quer atingir os seus objetivos e ainda não atingiu. Independentemente de passarem quatro anos, não fez as conquistas, designadamente o Donbass, militarmente ainda não atingiu esse objetivo. Os objetivos mais de foro político já os atingiu. Pode sempre justificar, atingiu ou não, a desnazificação e desmilitarização também não atingiu, claro, mas ele consegue contornar esse tipo de objetivos mais políticos. Aqueles que são mais objetivos, como era a conquista do Donbass, não conseguiu, porque está lá a fronteira, ele ainda não chegou lá. E por isso é que ele pressiona tanto nas negociações para que haja cedência desses territórios. Essa é que é a parte mais complicada. E a Ucrânia já cedeu parte dos seus argumentos. É o caso de aceitar que haja uma zona, como propôs os Estados Unidos, uma zona económica, que ainda ninguém sabe o que é, porque aquilo também não aparece para o exterior exatamente o que é aquela zona, se tem 40 quilômetros, se tem 20, mas seja como for.
Para concluir, Major-General.
Já vai assentando essas. E isso para mim é que é chave. Nem é tanto Zaporia que há de ser negociado de outra maneira. Chave é a questão territorial. Chave é exatamente aquilo que Putin queria, que era invadir em três dias e tomar a Ucrânia. Não conseguiu, mas pelo menos vai ter que conquistar aquilo que prometeu aos russos, que é a conquista do Donbass. Ainda não chegou lá, ao fim de quatro anos, infelizmente para todos nós.
Está tudo dito no gabinete.
Se me permite, infelizmente, no sentido da guerra ainda não ter acabado, independentemente da conquista ou não, esperemos que não conquiste. Era neste sentido que eu estava a dizer.
Exatamente, no sentido de a guerra continuar. Quatro anos já ficaram para trás. Começa o quinto ano de guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Está tudo dito no Gabinete de Guerra, hoje com o major-general João Vieira Borges, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Até uma próxima oportunidade. O Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.