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Está aberto o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, o programa em que falamos de conflitos internacionais. Eu sou o Miguel Cordeiro e já nos próximos minutos, neste Gabinete de Guerra, recebo a Mónica Dias, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais e diretora de Estudos Políticos da Universidade Católica. Professora Mónica Dias, bem-vinda à Rádio Observador. Vamos começar com uma notícia que marca esta tarde. Está a escrever a imprensa israelita que Benjamin Netanyahu tinha conhecimento do plano do Hamas para atacar o sul de Israel desde 2018. E está a ser detalhado que Benjamin Netanyahu tinha conhecimento desse plano em detalhe. É certo que não sabia quando é que poderia acontecer, mas sabiam, as forças israelitas e Benjamin Netanyahu, diretamente, aquilo que era o plano do Hamas e aquilo que acabou por acontecer depois, a 7 de outubro de 2023. Que leitura faz desta informação que está hoje a ser divulgada?
Muito boa tarde, mais uma vez. Obviamente, uma notícia que vem confirmar aquilo que alguma imprensa, mesmo em Israel, já dizia e alguma oposição a Netanyahu em Israel já afirmava na altura. Ou seja, sabemos que logo a seguir aos terríveis ataques de 7 de outubro, surgiu esta ideia de que Netanyahu teria contribuído, ou melhor, contribuído não se pode dizer, mas teria dado uma oportunidade para que o Hamas pudesse fazer este ataque, através da redução de forças de segurança junto, precisamente, da zona sul desta fronteira e precisamente através da deslocação de forças de segurança para a Cisjordânia, onde estava naturalmente a defender e apoiar os colonos que estavam a tentar avançar com mais colonatos, com a ocupação de mais territórios. Já vamos a isso também, que tem a ver com as notícias de hoje, mas voltando àquilo que aconteceu tragicamente e que foi um dos dias mais difíceis da história de Israel. E, portanto, desde o início que havia esta ideia de uma certa culpa também por parte de Netanyahu, por não ter cuidado bem da segurança destes territórios, dos kibuts e desta fronteira, precisamente, sul de Gaza, na fronteira entre Israel e Gaza. Na altura também, por exemplo, analisou-se muito que pessoas é que estavam a vigiar estes postos durante a noite do dia 6 para dia 7, e foi feita uma investigação grande. E houve uma oposição muito forte, muito grande, as pessoas protestaram em Israel contra Netanyahu. E, portanto, estas ideias existiam desde o início. Agora, estas revelações, que ainda devem ser confirmadas, obviamente dizem e vão criticar toda a política montada por Netanyahu, toda a defesa, não só do Netanyahu, mas também do seu governo, com muitos grupos e partidos de extrema-direita, porque temos aqui, obviamente, a ideia de uma encenação e de uma porta que se abriu ao Hamas, não um convite direto para atacar Israel, mas sim uma porta aberta, um não olhar para algumas zonas, para que um episódio trágico acontecesse, que tivesse por consequência, obviamente, o escalar do conflito e um apoio incondicional às políticas de Netanyahu e do seu governo de extrema-direita e anti-Palestina. E, portanto, aquilo que muitos diziam que já acontecia, que era um rumor, parece ter uma confirmação. No entanto, eu alerto para uma leitura muito prudente destas afirmações, porque podem elas próprias também contribuir para o escalar do conflito e não surgem por acaso. Quero dizer, surgem agora que-
Eu ia falar dessa questão, do timing. Sim, eu ia falar dessa questão do timing. Estamos a entrar na discussão do plano de paz. Sabemos que há uma reunião amanhã entre Netanyahu e Donald Trump. Estas notícias, nos últimos dias, têm começado a surgir com maior intensidade. Já se falava aqui sobre o conhecimento ou não de Benjamin Netanyahu. Netanyahu dizia que não conhecia em detalhe, que afinal sim, sabia-se que o Hamas poderia vir a atacar, mas não sabia em detalhe. Agora, as notícias confirmam que se sabia em detalhe.
Exatamente, essa ideia. Desculpe, só interromper.
Força.
A política de Netanyahu sempre se baseou de que um ataque do Hamas seria iminente. E toda a segurança e toda a política de Netanyahu sempre se baseou neste medo que criava, nesta possibilidade de ameaça de Hamas que poderia atacar a qualquer momento. E, portanto, parece-me que esta revelação não é nenhuma novidade, porque foi isso sempre que Netanyahu disse, de alguma forma. Agora, se tinha conhecimento realmente de grupos concretos, se de fato negligenciou-
De locais concretos que seriam atacados Dizia, e de locais concretos que poderiam ser atacados. Poder ignorar isso, efetivamente, pode levar a complicações políticas internamente para a liderança israelita e também para este momento de discussão do cessar-fogo.
Sim, parece-me que surge agora e é muito importante dizer que a sociedade israelita também está muito dividida. Não esteve nos dias 7 e 8 de outubro, obviamente, diretamente a seguir aos ataques do Hamas. No entanto, esse apoio, essa solidariedade e essa unidade incrível de Israel nunca foi um apoio incondicional a Netanyahu. Aliás, são vários professores, são várias comunidades de Israel que criticaram muito fortemente a conduta e a incapacidade, na altura, de proteção. Quer dizer, como é que este Estado, que protegeu a sua população durante tantos anos, foi tão fraco, não teve capacidade de proteger estas comunidades e, portanto, desde o início que houve este receio. Agora, parece-me que são duas coisas diferentes. Dizer que Netanyahu sabia exatamente que ia haver um ataque naquele dia com estas forças, parece-me que é um assunto diferente. Agora, é meu entender que, de facto, houve uma retirada de forças de proteção e de segurança nestes territórios, portanto, nestas fronteiras, isso houve, e que houve uma deslocação para a Cisjordânia destas forças, isso também é um facto. Obviamente que preocupa muito, como já disse há pouco, porque neste momento estas revelações podem impedir um processo de paz, que obviamente já é também um processo de paz muito frágil, muito desequilibrado também, e aparentemente vamos começar amanhã a discutir a segunda fase de um plano de 20 pontos. Mas ainda não sabemos muito bem como é que deve funcionar este conselho de paz. E atenção, é um conselho de paz que só teria possibilidade de se pronunciar e de gerir a Faixa de Gaza, não a Cisjordânia, e haveria também um comitê nacional para a administração de Gaza, prevendo-se a desmilitarização total do Hamas, ou seja, é isso que está agora em causa. Foram cumpridos outros pontos desses 20 pontos, mas ainda há muitos pontos para cumprir aqui. Por exemplo, um ponto que me parece muito complicado é o que estava previsto no ponto sete e oito destes 20 pontos do plano de paz, que era a aceitação de ajuda humanitária e que seria enviada ajuda humanitária à Faixa de Gaza. Isso não me parece que já aconteceu. E também a entrada e distribuição de ajuda na Faixa de Gaza, sem interferência das duas partes, a possibilidade das agências das Nações Unidas, da Cruz Vermelha e outras instituições internacionais poderem operar neste território e a abertura da passagem de Rafah em ambas as direções. Também aqui ainda não há qualquer funcionamento satisfatório destas premissas e que são fundamentais para o início desta segunda fase do plano. Fala-se aqui também da entrega incondicional de todas as armas e depois da destruição de todos os túneis e da rendição digamos, total e da recusa do Hamas em participar em qualquer forma de gestão deste território de Gaza. E, portanto, vamos ver como é que estas negociações vão decorrer amanhã, mas parece-me que um ponto muito crítico é que a população da Faixa de Gaza ainda vive em situação absolutamente terrível, contra tudo o que foi combinado, sem qualquer ajuda substantiva humanitária e também a passagem de Rafah ainda não funciona, ainda não foi aberta, mesmo com segurança, apenas poucas ajudas passam aqui, poucas pessoas podem passar numa direção e outra, e obviamente esta ajuda humanitária e também o acesso às agências das Nações Unidas neste território são absolutamente fundamentais para que se possa avançar. Temos que esperar o melhor, recear o pior, mas esperar também o melhor. Vamos então esperar que estas negociações possam concretizar este ponto sete e oito, fundamental também dos 20 pontos do plano de paz acordado em setembro e também aceito pelo Hamas a 3 de outubro, mas ainda falta muito por fazer e temos aqui notícias contraditórias. O meu receio é que estas notícias que chegam hoje possam desestabilizar muito a população de Israel, que possam pôr em perigo este plano de paz, que pode parecer pouco e desequilibrado, como eu disse há pouco, mas é o melhor que temos neste momento. E agora o apoio, o auxílio a esta população de Gaza é absolutamente prioritário. A reconstrução de, por exemplo, vias para que esta ajuda humanitária possa chegar é fundamental e também, obviamente Aqui uma vigilância que não seja apenas do Estado de Israel, mas que haja também, como previsto nos 20 pontos, de facto, nesta zona desmilitarizada, forças neutras que possam garantir esta proposta de paz.
Apenas mais um tema, temos mais sensivelmente dois minutos e queria conversar consigo, professora Mónica Dias, sobre uma proposta de Emmanuel Macron, que defende agora o uso de um novo empréstimo conjunto dos 27 Estados membros da União Europeia, que financiaria investimentos estratégicos e permitiria à União Europeia desafiar a hegemonia do dólar, uma espécie de eurobonds. Como é que vê este plano de Macron, esta proposta de Macron?
Macron é, de facto, sempre um líder europeu que gosta muito dos microfones e dos holofotes e geralmente tem bons planos económicos quando outros depois devem ser aqueles que pagam. E, portanto, esta ideia dos eurobonds tem precisamente a ver com uma possibilidade de conseguir uma permissão da dívida europeia, portanto, de aumentar a dívida europeia através de uma espécie de eurobonds para financiar a defesa da União Europeia, mas também do maior investimento em inteligência artificial e até em tecnologias verdes. E obviamente que Macron tem um ponto muito importante. Macron afirma, aliás, de uma forma muito semelhante àquilo que já fez também o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no seu discurso tão importante e que falava numa rutura, numa época de rutura. De facto, Macron apela aqui a um acordar da Europa, uma autonomização, um avanço da Europa sem os Estados Unidos, apela realmente que a Europa não conte mais com os Estados Unidos. Isto também é curioso. Macron foi provavelmente o líder que mais vezes se encontrou com Donald Trump, quer em Paris, quer em Mar-a-Lago, quer em Washington, já no primeiro mandato. Foi aquele que tentou seduzir Donald Trump para de facto entrar e apoiar a União Europeia. É agora aquele também que lança estas afirmações de um corte total com os Estados Unidos. E de facto, o que é positivo é que Macron desafia os outros líderes para uma atitude autónoma, crescida, responsável e autónoma em relação às suas estratégias de defesa, mas fá-lo contando com a força militar dos outros Estados, incluindo aqui também a Grã-Bretanha, que não faz parte da União Europeia, e sobretudo, obviamente, com a capacidade económica da Alemanha, dizendo, no entanto, nesta mesma declaração, isto parece-me importante, que há uma relação muito boa com o novo chanceler alemão e que o eixo franco-alemão é fundamental para se conseguir esta autonomia e esta política crescida e responsável da Europa. Vamos ver como é que reagem os outros líderes europeus, porque obviamente que a França e mesmo outros países não podem avançar sozinhos, tem que ser um avanço a 27, ou pelo menos daqueles que depois querem avançar mais para de facto cuidarem da Europa, da sua defesa, da sua política externa de uma forma autónoma e não já dependente dos Estados Unidos.
Professora Mónica Dias, muito obrigado por esta participação no Gabinete de Guerra.