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E o "Minuto Guerra" na Rádio Observador, é o programa em que analisamos os principais conflitos a marcar a atualidade. Hoje temos conosco Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Miguel, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite, por estar conosco.
É um gosto.
E começamos pela guerra na Ucrânia e, claro, com a notícia que está a marcar o dia de hoje. Volodymyr Zelensky confirmou que se vai encontrar com Donald Trump este domingo. Vai acontecer em Mar-a-Lago, a chamada residência não oficial de Donald Trump. Miguel Baumgartner, o que é que podemos esperar desta reunião?
Eu acho que há aqui uma estratégia que está conciliada com a Europa, que tenta trazer de novo para a órbita e para a esfera daquilo que são o conceito de processo de paz e de cessar-fogo por parte da Europa e da Ucrânia, os Estados Unidos. Ou seja, nós sabemos desde há muito tempo que Donald Trump tem uma forma mais próxima de estar com Vladimir Putin. E depois tivemos aquele momento que foi visto pelos dois como grande fragilidade militar e política de Zelensky, naquela semana, que eu chamaria de semana negra de Zelensky, que foi com a demissão dos vários ministros, com a queda do seu chefe de gabinete por corrupção e depois com o aumento da capacidade militar e do ganho de terreno por parte da Rússia. E nesse momento, o que nós vimos foi uma união Trump-Putin para, de alguma forma, provocar a queda de Zelensky, obrigando-o a assinar um acordo de paz, que era praticamente a submissão da Ucrânia. Como ele conseguiu se manter, como ele consegue os 90 mil milhões por parte da Europa e conseguiu garantir financiamento para os próximos 24 meses, como ele vê que existe um certo desespero em Donald Trump neste avança e recua, avança e recua também por parte da Rússia, parece-me a mim que está em marcha uma tentativa última de tentar resgatar novamente Donald Trump para uma posição mais próxima da Ucrânia e mais próxima da Europa. Isto tendo em conta de que tem havido vários ataques e ataques dentro do território russo por parte da Ucrânia, dando esta ideia de que a Ucrânia militarmente não está derrotada e que consegue infligir em território russo estes ataques, dando esta ideia a Donald Trump de que a Ucrânia não está a perder a guerra. Isto por quê? Porque partido um certo momento, temeu-se aqui na Europa que Donald Trump poderia fazer um ultimato à Ucrânia dizendo: "Tem que entregar territórios, tem que ceder, tem que assinar o acordo de paz", porque tinha deixado de acreditar que militarmente era possível derrotar a Rússia. Portanto, parece-me que é isso que está em vista. Até porque sabemos, do outro lado, da mesma forma que sabemos que Zelensky vai encontrar-se com Donald Trump, também sabemos que o Kremlin já veio dizer que os 20 pontos são profundamente inaceitáveis e que não os vai aceitar. Portanto, chegamos ao mesmo ponto que estávamos no princípio do mês de dezembro. Ou seja, nenhuma das partes quer ceder, nenhuma das partes quer assinar um acordo de paz, que é uma assunção de derrota também. A Ucrânia não pode fazer e a Europa não pode permitir nunca que a Ucrânia o faça, porque senão a Europa era derrotada também. E do lado da Rússia, temos a posição maximalista que será mantida até o final.
E tendo em conta essa análise que aqui está a fazer, Zelensky avisou que muita coisa pode ser decidida antes do Ano Novo, ou seja, nos próximos dias. De que tipo de decisões é que terá o presidente ucraniano em mente? E essas decisões poderemos esperar que venham já este domingo?
As decisões são as tais medidas de segurança, ou seja, é isto que tem sido a grande posição, porque não pode haver nem cessar-fogo, nem pode haver um acordo de paz sem essas medidas de segurança estarem implementadas. E tem aqui outro ponto que é importante, que é: não mais a Ucrânia quer as medidas de segurança como foi quer nos Acordos de Minsk ou nos Acordos de Budapeste, portanto, que foi uma declaração política. Não, quer que estas medidas de segurança para a Ucrânia sejam assinadas através de acordo e sejam ratificadas pelos parlamentos e pelos congressos dos países respectivos. Ou seja, o que obrigaria não só a uma aceitação formal por parte dos Estados Unidos, por parte da presidência, como depois ser ratificado pelo Congresso. Ou seja, Zelensky quer tornar quase em lei a proteção da Ucrânia.
As garantias de segurança.
Exatamente, as garantias de segurança. E é isso que se está a tentar fazer, a tentar convencer Donald Trump a fazê-lo. Nós não sabemos por mais quanto tempo Donald Trump vai estar na presidência, poderá terminar em três anos, como seria normal, ou poderá tentar um terceiro mandato.
Dois anos.
Não, há gente que o defende. Mas nós não sabemos até que ponto é que esta direita americana estará no poder. E, portanto, ele quer uma garantia que seja uma garantia através da legislação, que seja então o poder do Congresso a declarar guerra ou declarar que é preciso defender a Ucrânia Porque a Ucrânia foi atacada.
E entretanto, Vladimir Putin assume que está disposto a ceder território conquistado na Ucrânia para controlar o Donbass. Ou seja, no fundo, oferece esses territórios que foram agora temporariamente ocupados, mas fica com a região do Donbass, que sabemos que tem uma grande importância estratégica e importância para Vladimir Putin. Foi sempre este o plano e há a hipótese da Ucrânia alguma vez aceitar uma troca dessas ou ser obrigada a aceitar essa troca?
Não, de maneira nenhuma, porque nós sabemos que a parte do Donbass tem ali uma ligação, quer de caminhos de ferro, quer de estradas, que se fosse tomado por parte da Rússia, a Rússia ficaria quase como uma via verde para chegar a Kiev. E como se tem a percepção, que nos parece a todos óbvia, de que a Rússia não tem intenção só de conquistar e de administrar os territórios já ocupados, e que a intenção mantém-se de dominar completamente a Ucrânia, e como nós já ouvimos também da boca de vários líderes europeus que não se pode confiar em Vladimir Putin e os próprios serviços secretos de vários países europeus dizem que a intenção de Vladimir Putin não é conquistar militarmente, mas é dominar politicamente a Ucrânia, existe esta percepção por parte das Forças Armadas ucranianas e do seu presidente que a queda do Donbass seria então a abertura de uma via verde para chegar a Kiev. Portanto, não me parece que haja possibilidade absolutamente nenhuma. A ideia, inclusive, por parte de Zelenskyy, de criar uma zona desmilitarizada, controlada por forças militares de terceiros de manutenção de paz, era uma tentativa de trazer para o terreno, não forças europeias, porque estariam completamente fora, postas de parte por Vladimir Putin, mas a ideia, se calhar peregrina, que Zelenskyy tem desde o início desta guerra era de convencer, depois na altura com o acordo de cessar-fogo ou mesmo no acordo de paz, era ter tropas americanas a fazer essa manutenção de paz, o que eu também não acredito que Donald Trump esteja interessado. Mas a queda do Donbass ou a entrega do Donbass por troca de outros territórios estará sempre fora de opção por parte de Zelenskyy.
E seria o princípio do fim para a Ucrânia aceitar a cedência de territórios, especialmente o Donbass?
Aceitar, juridicamente não o pode fazer, porque a Constituição não permite. Por isso é que Zelenskyy disse: "Bom, mas então vamos fazer eleições presidenciais e vamos fazer referendos". Portanto, tem que ser feito isso. Entretanto, ele estaria disposto a fazer uma alteração da Constituição que o pudesse fazer. Agora, ele não pode entregar porque juridicamente não permite. E depois nós também vimos outra coisa, que foi uma sondagem que apareceu em que 75% dos ucranianos não aceita qualquer cedência de terreno. E depois era cerca de 62% ou 65%, a diferença não era muita, que dizia que está disposto a continuar com esta guerra até ao fim pela manutenção de uma Ucrânia unida com todos os territórios. E portanto, existe por parte da sua própria opinião pública, totalmente contra a cedência dos territórios. Agora, se a Rússia aceitasse um cessar-fogo, que foi isto que foi oferecido por parte da Europa, nomeadamente até um cessar-fogo no período de Natal, quer o Natal católico, quer o Natal ortodoxo, para que as partes beligerantes pudessem se sentar à mesa para chegarem a um denominador comum que lhes permitisse, a partir desse denominador comum, olhar para um processo de paz, quer-me parecer que a Ucrânia estaria disposta a aceitar que a Rússia administrasse alguma parte dos territórios já ocupados, até que um dia alguém, uma futura geração, um presidente diferente, pudesse chegar a um acordo sobre os territórios. Agora, como isso não vai acontecer, porque a Rússia não aceita qualquer cessar-fogo, porque sabe que um cessar-fogo é também uma forma da própria Ucrânia se reorganizar, isso não vai acontecer e, portanto, está completamente fora de hipótese a entrega de territórios, muito menos o território do Donbass.
E a Ucrânia tem estado na ordem do dia, mas vamos falar também do Médio Oriente, Miguel Baumgartner. Queria apresentar-lhe aqui este tema. Israel avançou hoje para o reconhecimento oficial da região separatista da Somalilândia. Numa altura em que Israel está cada vez mais isolado, este tipo de iniciativa tem algum significado especial de procura de novos aliados em regiões estratégicas do planeta?
Sim, isso pode ser que seja, até porque eu vou abordar aqui dois pontos que me parecem serem importantes. Primeiro, Israel quer se posicionar para o futuro e Israel acaba por ganhar um aliado no chamado Corno de África, e também projeta uma certa influência numa rota marítima que é vital. E este apoio político e potencialmente até de poder ajudar com a própria segurança, seria também na ideia de ter acesso ao Estreito de Bab-el-Mandeb, acho que é assim que se diz, que é um dos chamados choke points destas rotas internacionais. Tudo poderia pensarmos que era uma grande capacidade diplomática de Israel, mas tem aqui um ponto muito interessante: é que os Estados Unidos, que também querem ter naquela região uma influência política, foram avisados por parte da China há uns meses atrás que a China não iria aceitar, uma vez que a China tem relações comerciais com a Somália e, portanto, tem com o governo somali uma parceria econômica, não iria aceitar o reconhecimento por parte dos Estados Unidos desse movimento separatista. Então o que me parece que nós estamos aqui a assistir? É o reconhecimento, porque é o primeiro Estado. É o reconhecimento feito pelos Estados Unidos através do seu parceiro preferencial no Médio Oriente, que é Israel. Eu fiz a primeira leitura que poderia ser a leitura política interessante. Israel tem posição aqui, tem o parceiro no Corno da África, tem ali naquela rota marítima super importante, portanto, tem uma certa influência, mas essa influência que Israel demonstra querer não é para Israel, mas é sim para os Estados Unidos. Isto por quê? Como a China veio avisar os Estados Unidos que não queria, de modo absolutamente nenhum, o reconhecimento do movimento separatista e, portanto, daquilo que seria considerado um novo país, os Estados Unidos fazem-no através de Israel.
E é uma forma também de Israel ganhar vantagem negocial para o futuro, quando for preciso o apoio de Donald Trump.
Completamente. Da mesma forma que Donald Trump foi o primeiro a dizer no Parlamento israelita de que deveria ser dado um perdão a Netanyahu, e depois Netanyahu acabou por falar sobre esse perdão, e da mesma forma que o acordo de paz foi feito, não para trazer a paz à Faixa de Gaza, porque nós vemos que esse cessar-fogo é violado diariamente de parte a parte, mas foi para retirar do centro da atenção o que se estava a passar na Faixa de Gaza. Nós sabemos que a Faixa de Gaza continua a ter problemas de abastecimento de eletricidade, de água, de alimentação. Continuamos a ter o Hamas a rearmar-se. Aquela linha amarela que tinha sido criada, que era a chamada terra de ninguém, que era suposto ter um certo policiamento por parte de um país terceiro que estaria na manutenção de paz, não acontece e Israel informou os Estados Unidos que tomou essa terra. E portanto, é uma troca de favores. Da mesma forma que Donald Trump mantém Netanyahu com uma certa credibilidade interna que o permite manter-se no poder e acalmou a região, porque nós vimos que a região neste momento está supostamente calma. Por outro lado, Israel não é a primeira vez que acaba por fazer favores políticos, quer aos Estados Unidos e a outros presidentes, mas nomeadamente àquele que é o seu grande parceiro internacional, que é Donald Trump.
Miguel Baumgartner, muito obrigado por ter estado na Rádio Observador.
Eu é que agradeço.