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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos alguns dos principais focos de tensão um pouco por todo o mundo. Hoje contamos com a análise de João Albuquerque, é especialista em Relações Internacionais. João Albuquerque, seja muito bem-vindo. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre a conferência de imprensa de Donald Trump. Falou a partir da Casa Branca para dar detalhes sobre o resgate do piloto do caça que foi abatido na passada sexta-feira pelo Irão e que foi mais tarde resgatado com sucesso. Prometeu ainda, Donald Trump, mais ataques ao Irão com um número maior de investidas e assegura que o regime iraniano pode cair numa única noite e que essa noite pode ser o prazo definido pelo líder norte-americano, isto numa referência ao ultimato para a reabertura do estreito de Ormuz. João Albuquerque, há muito que podemos analisar sobre este discurso de Donald Trump. Vamos começar por este último ponto. O Irão pode mesmo cair numa única noite?
Olá, muito boa noite. Boa noite aos ouvintes da Rádio Observador. Tudo isto se torna, confesso, um quadro um pouco surrealista. Estávamos a ver Donald Trump ao lado do Coelho da Páscoa na Casa Branca a falar e a ameaçar o Irão e a falar do resgate do piloto em condições um pouco fora do normal ou fora daquilo que seria de esperar numa situação de grande tensão e de grande conflito entre os dois países, com riscos tremendos para ambos os lados e com implicações diretas para todos nós. Eu duvido muito. Eu acho que tem havido desde o início um subestimar da parte da administração americana daquilo que era a verdadeira capacidade de resistência do Irão, da preparação que o Irão tinha feito e demonstrou, e tem demonstrado ao longo deste último mês, que tem tido ao longo dos últimos anos, precisamente para um cenário desta envergadura, desta dimensão. Isto era algo que para o Irão estava em cima da mesa há muito tempo e que era uma possibilidade para a qual as forças da Guarda Revolucionária estavam preparadas e, portanto, houve um subestimar da parte americana da verdadeira capacidade de resistência iraniana e de resposta, seja através do bloqueio, seja através de ataques diretos que o Irão tem conseguido realizar. Eu acho que o exemplo mais paradigmático é obviamente o abater dos dois caças americanos, porque não é tanto do ponto de vista dos danos que isso possa causar, mas é o aspecto visual simbólico que isso representa de provocar baixas e ter um impacto real na força militar, no poderio militar americano. E, portanto, eu julgo que este vociferar agora de Donald Trump de que o Irão poderá ser aniquilado numa noite só, num dia só, faz de certa maneira relembrar o momento há uns meses em que Donald Trump dizia ter aniquilado por completo toda a estrutura nuclear do Irão e meses depois estamos precisamente no mesmo ponto com o Irão a demonstrar novamente capacidade de resiliência e de resistência a esta ofensiva.
João Albuquerque, Donald Trump já andou para trás, já andou para a frente, deu o dito por não dito por mais do que uma vez em relação a toda essa guerra no Médio Oriente. Há alguma forma de sabermos o que é que podemos esperar nas próximas horas quando se aproxima esse ultimato definido por Donald Trump?
É difícil. Eu acho que há aqui um aspecto que não é de subvalorizar. Eu confesso que me junto àquele clube que tende a não analisar as reações de Donald Trump à luz de uma suposta loucura, insanidade ou desconexão com a realidade. Tenho tentado evitar entrar nessa lógica simplista de análise em relação ao que são as ações de Donald Trump, mas acho que não podemos deixar de considerar que há na cúpula de liderança americana um conjunto de pessoas que estão a tomar decisões, que têm claramente uma falta de preparação muito significativa e uma incapacidade muito significativa de entender a realidade, aquilo que está em causa, em particular o secretário da Guerra, Pete Hegseth, que não tem qualquer qualificação, parece-me a mim, de capacidade e preparação para lidar com um conflito desta envergadura. E depois um conjunto de conselheiros que obviamente estão implicados muito mais na lógica defesa dos seus próprios interesses do que na resolução do conflito de uma forma célere e que preserve os interesses americanos. Eu acho que é um ponto das declarações de Donald Trump que demonstra bem esta visão que Donald Trump tem, que é meramente negocial, de certa maneira comercial, da forma como encara todo este conflito, que é dizer que deveriam ser os Estados Unidos a aplicar portagens, as tolls que ele referia no estreito de Ormuz e não o Irão, porque os Estados Unidos tinha ganho já a guerra. E há, de certa maneira, esta visão transacional para Donald Trump, que é o objetivo final é sempre um ganho económico, é um ganho imediato financeiro, e é isso que tem orientado sempre a ação de Donald Trump ao longo de toda a sua passagem pela Casa Branca, quer no primeiro, mas sobretudo agora neste segundo mandato.
João Albuquerque, temos apenas um minuto para abordar o cessar-fogo que foi proposto pelos países mediadores. A Casa Branca confirmou esse cenário, mas sublinhou que o presidente Donald Trump não endossou a iniciativa. Num minuto, João Albuquerque, sem luz verde de Trump, há forma de haver cessar-fogo?
Dificilmente, nem há nenhum indicador de que o Irão esteja disposto também a aceitar essas condições e, por outro lado, que esteja envolvido nessas negociações. Portanto, há, de certa maneira, uma retórica de conquista ou de vitória que depois acaba por não ter correspondência com a realidade e que acaba única e exclusivamente por ser uma progressão de força dos Estados Unidos que na realidade não tem correspondência com as ações no terreno e, portanto, não se antevê, pelo menos, enfim, resta a ver o que é que Donald Trump fará efetivamente a partir do dia de amanhã com esta ameaça de aniquilar o Irão, seja lá o que isso for. Mas não há antevisão de que o Irão esteja numa situação de cedência e de que as relações possam retomar um caminho de negociação ou pelo menos de cessar-fogo nesta fase.
Está feito o Gabinete de Guerra, hoje com a análise do especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque. Muito obrigado por ter estado desse lado. O Gabinete de Guerra regressa amanhã à antena da Rádio Observador e fica como sempre disponível em podcast.