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Este é o Som do Gabinete Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira com a análise do coronel José do Carmo. Muito bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Bom dia, coronel. Depois de mais um dia de reuniões trilaterais entre representantes da Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, o porta-voz do Kremlin disse que a ofensiva russa vai continuar até que Kiev aceite as condições exigidas por Moscovo. Ora isto inclui a cedência de territórios, o controlo da central nuclear de Zaporíjia. Coronel, perante esta posição maximalista de Moscovo e sabendo o que defende Zelensky sobre a soberania da Ucrânia, vê alguma hipótese de chegar a acordo?
O que se vê aqui é que a Rússia mantém desde o princípio os seus objetivos. Não alterou nenhuns objetivos, no fundo conta com, digamos, neste momento, uma certa parcimônia ou uma certa atitude favorável dos Estados Unidos. A Ucrânia, neste momento, está com dificuldades numa série de projectos, em termos antiaéreos, e está a sofrer consequências disso. E a Rússia acha que, neste momento, ainda se considera capaz de pressionar, mesmo nas negociações, para impor os seus pontos de vista, e que não são só esses dois que referiu, é muito mais que isso.
Sim, é muito mais, claro.
É muito mais. No fundo, é manter a capacidade de prosseguir o seu objetivo final, que não é apenas ali aquela região. A Ucrânia, obviamente, sabe que vai ter que fazer cedências não legais, mas formais, digamos, de facto. A Ucrânia vai ter que fazer cedências de territórios que estão ocupados pela Rússia e não os vai reconhecer como território russo, mas vai ser pressionada a aceitar a situação de facto, uma espécie de congelamento. Agora, tudo se joga aqui. É doloroso para a Ucrânia. Putin também está encostado à parede, não pode recuar, tem que apresentar resultados e, portanto, estamos numa mesa de negociações em que a Rússia sente que tem ainda, ou pelo menos projeta essa ideia, de que tem uma capacidade de prosseguir a guerra por mais anos. Não a tem de facto, sem colocar em causa questões fundamentais para o próprio país, o futuro para o país. Mas o fazer crer que sim, que tem, cria uma pressão, porque o outro lado não existe. A Ucrânia está, neste momento, condicionada por armas que não tem, por acidentes que estão a acontecer, energia em que está a ser afetada. Portanto, a Ucrânia projeta esta imagem que tem que ceder qualquer coisa.
E coronel, uma reunião que mais uma vez não contou com a presença de representantes europeus. E sobre isto importa mencionar as palavras de Zelensky, que disse que Putin apenas tem medo de Trump, não tem medo dos europeus e quer humilhar a Europa. Faz a mesma leitura e é só Putin que despreza a União Europeia ou Trump também tem ajudado?
A impressão que nós temos é que Trump e Putin têm uma espécie de afinidade, embora toda a gente saiba que a América não é amiga da Rússia, a América como país. Esta administração tem bastante afinidade, ou pelo menos o presidente Trump tem uma certa afinidade. Há ali uma simpatia, uma admiração e há ali um histórico contínuo de justificar ou aceitar justificações russas e compreender o presidente Putin. Portanto, é óbvio que Trump prometeu a Putin a entrega do Donbass, isso torna-se falso. Na reunião do Alasca prometeu. O objetivo da América nesta guerra, um objetivo estratégico, é, no fundo, garantir que este conflito não se prolonga muito tempo para que a Rússia não fique ainda mais encostada à China. Esse é o grande objetivo, pelo menos o objetivo racional. Agora, a Europa tem o problema que tem, quer dizer, não tem capacidade industrial e militar.
E perdeu toda a sua capacidade de dissuasão?
Não perdeu, mas essas capacidades... A Europa potencialmente tem capacidade e até tem mais capacidades industriais e tecnológicas, e económicas que a Rússia. A Rússia é uma economia do tamanho de Espanha, basicamente, não é muito mais do que isso. Digamos que é uma bomba de gasolina com armas nucleares. É isto que é a Rússia. Mas a Rússia tem esta capacidade existente, está no terreno, é um potencial de combate que está no terreno. A Europa não o tem. Pode ter, potencialmente tem. E pode ter, mas só que isto demorando, quer dizer, todo o processo de armamento e de desmantelamento da capacidade militar, isto não é uma coisa que se recupere por decreto num mês ou dois. E a Europa está neste problema, está num hiato em que quer impor a sua vontade ou quer fazer valer os seus interesses, mas não tem, de facto, capacidade como Europa. Há países na Europa que estão claramente a fazer por isso. A Alemanha está claramente a armar-se e não tardará muito a ser uma potência militar de relevo. Agora, a Europa como um todo não tem unidade de comando, não há ali uma vontade política que determine. Depois há muitas dissensões europeias, os gastos militares de outros países, que jogam também nas eleições. Tudo isto torna a Europa um anão militar, um anão em termos de política internacional.
Entretanto, o acordo New Start entre Estados Unidos e a Rússia para a contenção de armas nucleares chegou ao fim, expirou. Sergey Lavrov diz que a Rússia vai agir responsavelmente e que está disposta a explorar soluções políticas e diplomáticas para estabilizar a situação estratégica global. Por seu lado, Marco Rubio diz que qualquer acordo nuclear com a Rússia deve incluir a China, devido ao seu arsenal considerável e em rápida expansão. Coronel, como é que olha para tudo isto e para o futuro do nuclear das grandes potências?
Pois, este acordo era um dos últimos dos cinco acordos estruturantes que havia. Era aquele que punha um cap nas cabeças nucleares que os países, ou seja, a América e a Rússia, podiam ter. Mas este acordo já estava suspenso pela Rússia há três anos, em 2022 ou 2023. A Rússia suspendeu este acordo e, portanto, de fato considera-se que houve uma aceitação tácita dos termos do acordo, mas o acordo, de fato, já não está em vigor, ele foi suspenso pela Rússia. Agora A questão é, não havendo acordo, os países podem livremente aumentar a sua produção de armas nucleares. Não é que mais armas nucleares vão tornar mais seguro, aliás, pelo contrário, vão tornar o mundo mais inseguro, porque há mais hipótese de erros, há uma proliferação. Isso para a Rússia também não é bom, porque a Rússia não tem capacidade industrial para entrar numa corrida às armas. Lembremos que a União Soviética caiu justamente por causa de uma corrida às armas impulsionada por Reagan. A Rússia não tem capacidade militar de acompanhar uma corrida às armas. Agora, a questão americana é muito importante, porque neste momento a China é uma potência muito mais preocupante para os Estados Unidos do que a Rússia. E a China está a construir armas nucleares a um ritmo chinês, a um ritmo intenso e a produzir rapidamente, tal como está a criar uma frota de porta-aviões. A China, neste momento, é uma preocupação muito maior para os Estados Unidos. E não faz sentido os Estados Unidos limitarem-se a 1500 ogivas nucleares, quando a China não está incluída no acordo, nem a China, nem a Coreia do Norte, nem uma série de países. Podemos chegar ao ponto em que os países como a Rússia diz que se limita, mas a verdade é que não se limita. A Rússia assina acordos, mas depois não os cumpre, arranja sempre maneira de dar a volta. E por isso a Rússia não é confiável. Neste momento, nem sequer há aquele tratado que permitia voos de reconhecimento livres por cima dos países para verificar as coisas. Neste momento, o tratado Open Skies também já caducou. Nada disso é verificável. Um acordo é uma camisa de forças para os Estados Unidos, que é um Estado de direito, não pode fazer coisas só por vontade de quem lá está.
Sobre a tensão entre Estados Unidos e Irão, Trump avisa que o líder supremo deveria estar muito preocupado. Alega que o Irão tentou retomar o programa nuclear. O presidente dos Estados Unidos avisou Ali Khamenei no momento em que existe a possibilidade de colapso das negociações entre Irão e Estados Unidos, marcadas para esta sexta-feira em Omã. Coronel José do Carmo, havendo negociações e depois do Irão ter dito que o programa de mísseis iraniano não vai estar em discussão, o que podemos esperar?
Eu escrevi um artigo sobre isto e na altura disse que o que ia acontecer era isto mesmo, era uma pressão dos Estados Unidos, "eu faço, acontece, eu acabo vocês todos".
E eu ataco.
Sim, "vou fazer já isto". Agora, os Estados Unidos, de facto, esta pressão, este contínuo pressionar faz parte das negociações. Os Estados Unidos querem acabar com o programa nuclear iraniano, não é só esta administração, são as administrações todas anteriores. E Trump está a tomar medidas nesse sentido. E ele espera, ou ele quer conseguir isto por negociações, porque é a maneira, ou seja, "eu meto medo, ou fazes ou levas". Esta é a estratégia de Trump em todo lado. Só que também já é uma estratégia que toda a gente começa a saber como é. E os iranianos também não são tontos, já perceberam que há aqui um extremar de posições, uma ameaça latente, e depois tudo isto se vai resumir no meio. Provavelmente é isso que vai acontecer. O Irão até exigiu que as negociações fossem noutro país, não na Grécia. Tudo isto é uma tática para esvaziar a empáfia do adversário, ou seja, esvaziar a capacidade dele exigir tudo. Se de facto os Estados Unidos tivessem a capacidade de exigir tudo, não cediam em nada disto. Neste momento, provavelmente já irão ceder nos mísseis, não será agora, será daqui a uns tempos. E o programa nuclear irá se discutir e o Irão, entretanto, tem esta estratégia paciente de ir andando e as coisas vão se esvaziando.
Era para concluir, coronel.
Pronto, então obrigado pelo espaço.
Obrigada pela sua análise, coronel. Um bom final de semana.
Obrigado.
Muito obrigada.