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Estamos no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e hoje temos conosco o major-general João Vieira Borges. Bem-vindo mais uma vez ao Gabinete de Guerra. Começamos, senhor major-general, pelo Médio Oriente, porque Israel anunciou o destacamento de forças militares na Síria devido aos conflitos entre beduínos e drusos. Damasco acusa Tel Aviv de vir causar instabilidade. Aquilo que lhe pergunto é se esta nova incursão israelita, agora na Síria, é também uma tentativa de desviar atenções para aquilo que se passa em Gaza.

Muito boa tarde. Julgo que não será. Desta vez, aquilo que está acordado é amanhã o primeiro-ministro do Qatar fazer as últimas negociações com o Hamas. De acordo com as fontes árabes a que eu tive acesso, o processo está a correr bem, para ir ao encontro daquilo que era o desiderato de Trump, que era até o final desta semana. Até porque também houve um recuo, o único até agora, da parte de Israel relativamente às áreas ocupadas, a 1,5 km junto à fronteira com o Egito e 1 km nas outras, para a zona tampão. Isto é uma questão diferente, pode ser associada ou não, mas eu julgo que não, tem a ver com uma questão que não foi controlada inicialmente por Israel, tem a ver com os combatentes beduínos e com os drusos, e depois o apoio, na prática, aos combatentes beduínos da parte do governo da Síria, e portanto a resposta foi aquela que nós vimos, e que continuamos a ver, mas isto tem outras questões também associadas. Tem a ver com os montes Golã, tem a ver com uma zona tampão, que é importantíssima para Israel, e tem a ver com água, que numa região é muito importante, tem a ver com o rio Jordão. Aproveitando aquilo que é a instabilidade na Síria, Israel joga as suas cartas, criando uma zona tampão, na minha perspectiva, importante, até Damasco, zona essa que tem a ver, obviamente, com este grupo etnorreligioso, que é em torno de 600 mil pessoas na Síria, e cerca de 150 mil em Israel. São aqui um conjunto de fatores que criam instabilidade na região, e portanto o caos está sempre presente, seja no Líbano, seja na Cisjordânia, seja na Síria, seja em Gaza, seja com o Irão. Realmente, a situação que vivemos ali na região é das mais complexas que já vimos agora desde 47, tendo em conta tantos atores envolvidos.

E de resto, os Estados Unidos já fizeram saber que não apoiaram os ataques israelitas à Síria nos últimos dias. Dizem estar a dialogar diplomaticamente com Israel e com a Síria ao mais alto nível para tentar resolver a atual crise. Que papel têm ou podem ter os Estados Unidos também nesta questão?

Aqui têm um papel importante a partir do momento em que Trump decidiu acabar com as sanções que havia ao regime sírio. Isso foi importantíssimo na ligação entre os Estados Unidos e a Síria, por razões diferentes. Há aqui situações, é o caso da influência que deixou de haver da parte do Irão e passou a haver da parte da Turquia. Os Estados Unidos aproveitaram essa circunstância, independentemente de terem consciência de que, obviamente, o novo presidente já tem um passado, o al-Sharaa, um passado complexo, fazia parte daquelas listas de terroristas dos Estados Unidos, mas foi uma postura que permitiu uma maior intervenção dos Estados Unidos na Síria. E portanto, isto é muito incômodo e permitiu ir ao encontro do grande projeto de Trump, que vem da primeira administração. Todo o projeto Abraão é importantíssimo para os Estados Unidos da América e a Síria fazia parte desse projeto, tal como fazia o Líbano, e tal como faria depois também a própria Arábia Saudita. Portanto, isto no fundo vem atrasar todo um projeto, e obviamente não é favorável aos Estados Unidos, independentemente da ligação que têm sempre e o apoio a Israel. Mas este é um caso diferente, e já vimos que quer Trump, quer Marco Rubio, estão particularmente incomodados com esta situação e que têm feito esforços enormes de contactos para resolver a situação.

Senhor major-general, vamos agora olhar rapidamente também para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Hoje a União Europeia aprovou o 18º pacote de sanções contra a Rússia, disse a Kaja Kallas, que é o maior de sempre. Aquilo que pergunto é: 18 pacotes depois, estas sanções ainda fazem sentido, ainda têm consequências?

As sanções fazem sempre sentido, nem que seja no sentido político ou diplomático. Ou digamos que ciclicamente é mostrar a posição da União Europeia à Rússia, diminuindo a sua liberdade de ação econômico-financeira. Mas, por outro lado, sendo passadas, também vai fazendo com que a própria Rússia arranje soluções através daquilo que são os seus parceiros ou aliados, no caso da China ou caso da Índia, que compensam sempre as sanções. É o caso agora destas sanções. Este pacote foi um pacote dificílimo de aprovar, mas é um pacote que tem impacto considerável, porque é um pacote que tem a ver com o teto do preço do petróleo russo, ou seja, reduzido, se não me engano, para $47 ou $48 por barril, com mecanismos de revisão que não percebi quais eram, mas seja como for, também é extensível a sanções a embarcações adicionais, e daí a tal frota paralela da Rússia, daí haver dois países, que era Malta e mais um país que não estou a ver agora. Malta é que tinha mais problemas com estas embarcações A Eslováquia tinha problemas que tinham a ver mais com os preços e, portanto, a negociação não foi fácil. Andam neste pacote há mais de duas semanas, finalmente foi aprovado, mas em resposta à sua questão, o que eu digo é que todos os pacotes são bem-vindos. Agora, é evidente que estes pacotes têm, dentro da própria União Europeia, opositores.

E vai sendo cada vez mais difícil a União Europeia ter consenso, como se viu agora neste caso, na aprovação destas sanções.

Sim, estamos a falar de uma organização, não estamos a falar de um país e portanto, isto mostra sempre a dificuldade que é numa organização como esta, conseguir ser dissuasora, mesmo em termos económicos, que é a área em que tem um peso maior, cerca de 16% do PIB mundial, mesmo aí tem dificuldades, quanto mais nas outras componentes, designadamente na componente militar.

E de resto, como o senhor Major-General dizia há pouco, estes pacotes de sanções vão sendo espaçados e na reação, a própria Rússia já veio dizer que se adapta e já se consegue adaptar àquilo que vão sendo as sanções. Mas o facto é que na reação, Dmitry Medvedev acusou os europeus de estarem desnorteados com este novo pacote de sanções. A sensação que dá daquilo que é a reação russa é de que acaba por não haver grande impacto destas sanções. É essa a mensagem que a Rússia tenta passar com esta reação?

Sim, isso é muito importante. Isso é o jogo da contrainformação e da desinformação, então Medvedev. Isso é muito importante, mas já agora, se me permite, não é só relativamente à União Europeia. Esse jogo de desinformação e de desacreditação, obviamente, também esteve relativamente às palavras de Trump e às ameaças de Trump quando falou nos 50 dias e nas consequentes ameaças após essa data. Eu lembro-me que após algumas horas daquelas declarações de Trump, a bolsa em Moscovo até subiu. Se não me engano, 2 ou 3%, à volta disso. Eu tenho a certeza que Vladimir Putin e a maior parte dos russos já não acredita minimamente nas consequências destas sanções, seja dos americanos, seja dos europeus. E também, na minha perspetiva, está convicto que vai ter uma vitória em breve. E portanto, os 50 dias para ele foi para festejar. Ou seja, como dizia Kalash, 50 dias é muito tempo, são muitas mortes, é muita destruição, mas para mim, em termos militares, também tem a ver com atingir determinado tipo de objetivos em 50 dias, designadamente os oblasts que ainda não estavam ocupados. Porque na prática há dois deles que estão quase ocupados, Lugansk e Donetsk, mas os outros dois não estão, nem Kherson nem Zaporizhzhia. E portanto, vai ser uma oportunidade para os conquistar e ter maior liberdade de ação. Isto se não houver outras questões ainda mais complexas em termos militares. Portanto, aquilo que Trump deu a Putin também foi uma oportunidade de resolver os problemas em 50 dias, como quem diz: "Tens 50 dias para ocupar aquilo que tu pretendes e depois falamos". É isso a que vamos assistindo.

Ou seja, no terreno, aquilo que se vai passando é que a Rússia vai aproveitando sempre para ir aumentando aquilo que é também as suas conquistas no terreno.

Sim, porque aquilo que é de contrapartida da parte de Trump e que marcou efetivamente uma nova fase, é o fornecimento de sistemas, sobretudo defensivos. O Patriot, que é um sistema defensivo para proteger infraestruturas e as populações, sobretudo na área da retaguarda, tendo em conta que é o único sistema que destrói mísseis balísticos e que são aqueles que têm maior eficácia. Mas de qualquer maneira, há outro tipo de armas que seriam importantes para a Ucrânia, que são as armas ofensivas, é a única maneira de bater a retaguarda da Rússia, fazendo com que obviamente não se desenvolvam os outros ataques sobre a profundidade. Por outro lado, não estou a falar de contra-bateria, que é o que usamos na artilharia, mas estamos a falar de uma linguagem mais simples que toda a gente entende. Portanto, se tiverem armas com capacidade ofensiva, as forças russas estarão colocadas, sobretudo as que estão relacionadas com artilharia, a uma distância maior. Em vez de estarem a 50 km, que é o alcance da artilharia, estarão a 150, estarão a 170, estarão a 200, o que fará com que tenham menos impacto, que fará com que não apoiem a manobra da infantaria e da cavalaria, das forças de manobra em primeiro escalão, as próprias forças de artilharia, ou farão isso com maior dificuldade, o que atrasaria certamente toda a operação militar. Mas infelizmente não é isso que vai acontecer. Aquilo que se está a fornecer à Ucrânia, simplesmente armas defensivas e portanto vão continuando a permitir em determinados pontos da frente, a penetração das forças russas. E ao fim de 50 dias, haverá mais 900 km² de ocupação e mais 20 mil mortos e feridos. Portanto, é isso que vamos ter daqui a 50 dias. Se as coisas não entrarem em rutura.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter vindo a mais um "Gabinete de Guerra" e pela sua análise. O "Gabinete de Guerra" está de regresso na próxima segunda-feira. Bom fim de semana.