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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, num dia em que várias embaixadas estão a encerrar na capital ucraniana, em Kiev, devido à ameaça de um forte bombardeamento à capital ucraniana. É um dos temas em destaque na edição de hoje do Gabinete de Guerra. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com o major general Isidro Morais Pereira. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco. Comecemos precisamente por aí. Boa tarde. Acaba de ser divulgado em diferentes órgãos de comunicação social que Portugal vai encerrar temporariamente a embaixada em Kiev. Isto já tinha sido também uma decisão de Estados Unidos da América, Espanha, Grécia, Itália. A Ucrânia fala em desinformação sobre um ataque aéreo, ou seja, esta decisão das embaixadas acontece por causa de um potencial ataque aéreo significativo a acontecer esta quarta-feira. Diz a Ucrânia que é um ataque psicológico de informação massivo. Dizem os serviços secretos ucranianos que há vários erros na mensagem que está a circular e que isso é habitual nas mensagens de desinformação da Rússia. Que leitura devemos fazer deste encerramento da embaixada portuguesa? Que dados terá o Ministério dos Negócios Estrangeiros português e a embaixada para tomar esta decisão, ou será apenas uma precaução, dada a decisão dos Estados Unidos da América, que acaba por ser uma grande embaixada a encerrar por causa desta ameaça?
Vamos lá ver. Portugal vai a reboque daquilo que os Estados Unidos decidiram e outros países também pertencentes à NATO e à União Europeia, porque Portugal não tem uma capacidade de aquisição de informações na Ucrânia instalada, não tem uma rede de satélites espiões, não tem uma agência de informações que faça o screening de praticamente tudo que são comunicações no espaço cibernético. Portanto, Portugal vai um pouco a reboque daquilo que são as informações que ele tem através de uma colaboração estreita com as agências de informações, designadamente dos Estados Unidos, da Alemanha, da Inglaterra, da França. Neste espaço europeu em que finalmente as agências de informações estão a operar. Isto parte do princípio de que a Ucrânia tem uma versão diferente, porque acha que estas decisões levadas a cabo por uma série de países ocidentais estão relacionadas com o conjunto de informação que é veiculada exatamente no espaço cibernético e que pode ter sido eventualmente plantada pela própria Federação Russa, que é mestra neste tipo de ações de contrainformação e da utilização da mentira, veiculada hoje por diferentes órgãos. Hoje em dia, espalhar uma mentira no mundo é praticamente instantâneo, face à importância e à relevância que as redes sociais têm. Portanto, vamos ver. Eu acho que para termos a certeza se quem tem razão é a Ucrânia, porque a Ucrânia conhece melhor que ninguém o modus faciend da própria Federação Russa. Nós não devemos esquecer que a Ucrânia durante muitos anos fazia parte de um bloco político conhecido por União Soviética, como nós sabemos. Se alguém conhece muito bem a maneira de pensar da Rússia, é precisamente a Ucrânia. Portanto, eu não me admiraria que houvesse aqui uma grande operação de informação, tendente, mais uma vez, a intimidar os países ocidentais e obrigá-los a tomar determinadas ações preventivas e a causar a instabilidade permanente nas sociedades ocidentais, porque são inúmeras as pessoas que se perguntam: "Então Putin vai mesmo usar armas nucleares?" É evidente que Putin não vai utilizar rigorosamente nenhuma arma nuclear.
Acha que não há essa possibilidade?
Não. Neste momento, a leitura adequada e pragmática de todos os indícios é exatamente de que Putin não irá utilizar nem armas nucleares táticas, muito menos estratégicas. Pelas razões que nós conhecemos e porque não há indícios disso, não há indícios técnicos, sob o ponto de vista militar e das informações que nos levem a concluir que esse tipo de ação possa estar iminente ou sequer no horizonte de médio prazo. As razões são muitas, até porque a utilizar armas dessa natureza, neste momento, Putin perdia parte dos seus maiores aliados, a começar pela China, passando pela Índia, porque a posição chinesa e indiana não se alteraram desde o início desta invasão em grande escala da Ucrânia, continua a ser a mesma. Portanto, a utilização de armas de destruição maciça, seja de que tipo forem, nucleares, biológicas ou químicas, são absolutamente inaceitáveis. Esta é a posição chinesa e a posição indiana. Nada disto se alterou. E depois, Putin sabe perfeitamente que a lógica do tempo da Guerra Fria, a existência de uma capacidade de retaliação imediata a um primeiro ataque, continua a existir por parte, designadamente, dos Estados Unidos e das potências nucleares ocidentais, começando pelos Estados Unidos, passando pela França e pela Inglaterra. São tudo potências nucleares e que levam a cabo exercícios de prontidão das suas armas nucleares, dos seus vetores de lançamento, dos procedimentos necessários para porem em funcionamento uma resposta. Portanto, Putin tem por certo que se utilizar armas nucleares O tempo de duração, o tempo de vida dele próprio e o ataque que se seguirá naturalmente aos meios de lançamento russos, às próprias cidades russas e aos principais centros de decisão não tardará, será praticamente imediato. Portanto, isto significa que a lógica da destruição mútua assegurada continua bem presente e que nós saibamos, não há indício rigorosamente nenhum sob o ponto de vista militar, exceto o ponto de vista psicológico, e agora vamos ao psicológico, de que Putin e a sua entourage estejam com tendências para o suicídio. Muito antes pelo contrário, continuam com a tendência para assassinar pessoas, como foi este último bailarino que caiu do quinto andar, que nós sabemos, devia estar a fazer aspargata numa janela e escorregou. Portanto, é no fundo isto que se está a passar. Agora, é provável ou é verosímil que a Rússia possa desferir esta noite, na noite seguinte, amanhã, um ataque violento utilizando uma quantidade inusitada de drones e de mísseis, porque tem vindo a armazenar mísseis, tirando aqui o último ataque que foram utilizados 120 mísseis de todos os tipos, desde mísseis de cruzeiro até mísseis aerobalísticos, como o Kinzhal ou o Dagger, até outros classificados também de hipersônicos. Todos os tipos de mísseis foram utilizados, os Caliber, etc. Quer dizer, que pode ser levado a cabo um ataque ainda mais significativo, com um número maior de mísseis e drones, designadamente sobre as principais cidades ucranianas, incluindo a capital onde estão as embaixadas, essa possibilidade não é de excluir.
E pode acontecer a qualquer momento. Quer dizer, vamos olhar para trás, isto já aconteceu.
Já aconteceu. Agora deixe-me dizer-lhe, isto enquadra-se numa forma racional de pensar o fenômeno guerra? Não, isto enquadra-se num desejo puro e duro de vingança. É a que isto soa, porque qual é o objetivo imediato de levar a cabo um ataque massivo ou maciço sobre Kiev utilizando mísseis?
Mas isso já vimos no outro conflito, por exemplo, no Médio Oriente, aquelas situações de resposta, de vingança do Irão, por exemplo.
Portanto, um ataque dessa natureza é possível. Na minha opinião e na leitura que eu faço da informação que está disponível e que nós temos a maior parte dela naturalmente ausente em fontes abertas, e alguma informação até privilegiada que também de vez em quando tenho acesso. Agora, aquilo que me parece é que um ataque nuclear está completamente posto de lado. Um ataque violento utilizando uma quantidade inusitada de mísseis e de drones é perfeitamente possível. E até diria mais, até é provável, porque conhecendo o temperamento de Putin, com desejo de vingança e de mostrar aos seus e um pouco aos seus, não apenas aos seus, aos russos, à população russa e também aos seus aliados, que a Rússia continua a ter um poder, continua a querer mostrar que é um país poderoso e que é capaz de levar a cabo ações militares de grande envergadura e de grande poder destrutivo, é bem provável que isso aconteça. E daí que as embaixadas, os países ocidentais que têm naturalmente acesso à informação privilegiada, que possam estar a tomar medidas preventivas, deslocando, retirando ou fechando temporariamente as suas representações diplomáticas em Kiev. É perfeitamente admissível. Portugal está a fazê-lo porque chegou por si só a essa conclusão? Não. Portugal está a fazê-lo porque está a seguir aquilo que os seus aliados que têm acesso a essas fontes lhe dizem para fazer ou lhe aconselham a fazer. A realidade é esta.
Olhar aqui para o que é o investimento em defesa, porque hoje tivemos declarações sobre isto. Marcelo Rebelo de Sousa falou sobre a necessidade da Europa acordar em matéria de defesa, para depois elogiar o fato de Portugal estar a investir mais na defesa. Sendo que Nuno Melo, ministro da Defesa português, também defende o reforço do pilar europeu da NATO, muito por causa de Putin, e diz que os países da Europa estão a investir menos do que vai investir, por exemplo, a Rússia no próximo ano. Só um país a investir mais do que os países europeus. Há, de fato, razões para se preocupar com isso a nível europeu, as diferenças de investimento, comparado, por exemplo, só com a Rússia.
É aquela questão. Portugal está a investir mais na defesa? É sério? Não sabia. Parece que se calhar estamos a acordar, mas estamos a acordar muito devagarinho, porque o nível de investimento que Portugal está a fazer na defesa continua a estar muito longe do patamar dos 2%, quando, por exemplo, a Polônia está se a aproximar rapidamente de um investimento de 5% da sua riqueza anual produzida todos os anos, naturalmente, que é o Produto Interno Bruto, a Polônia já vai perto dos 5%. Portanto, o que é notável, e os países que fazem fronteira com a Rússia, os países mais próximos do Oeste, todos eles já ultrapassaram claramente a barreira dos 2%. Portugal ainda está longe de lá chegar. Portanto, eu ficaria muito satisfeito se de fato Portugal estivesse a acordar finalmente e a investir na defesa e a estruturar a defesa por forma a proteger quer as instalações críticas, a começar pelos Pelas instituições que governam o nosso país, que não estão devidamente protegidas, como nós sabemos. Não há um sistema de defesa antiaérea capaz para proteger nem a Assembleia da República, nem o Palácio de Belém, nem o Palácio de São Bento, tampouco nem o resto dos ministérios. Eu, sinceramente, gostaria que esse investimento fosse feito, e não apenas esse, que se pensasse também em proteger as populações. Onde é que está a legislação a dizer que nas novas construções devem ser construídos bunkers à prova de ataque com armamento convencional e até para ataques nucleares? Onde é que está essa legislação? Já foi aprovada? Já alguém se preocupou com isso? Não me parece. Parece-me que o governo português, e não é um problema deste governo, é evidente, tem sido algo que se tem mantido ao longo das últimas décadas. Nós continuamos, porque temos ali o santuário da Nossa Senhora de Fátima relativamente perto, eu acho que continuamos a confiar mais na Nossa Senhora de Fátima. Pelos vistos, consideramo-nos o povo escolhido por ela. Há quem se considere o povo escolhido por Deus, nós somos pela Nossa Senhora. Agora, medidas concretas para tornar este país, as instituições e a sociedade civil como um todo, mais resiliente a possíveis ações de ataques, sejam convencionais, sejam eventualmente até com armas de destruição em massa. Eu, sinceramente, não vejo nem legislação, nem ações concretas até hoje. Portanto, eu acho que o Presidente da República tem razão em dizer que Portugal tem que acordar, o Nuno Melo também. Mas já ia sendo tempo de deixarmos de utilizar palavras e narrativas. Menos conversa e mais ações. É isso que tem que acontecer, porque esta ideia daquele mundo anunciado por Francis Fukuyama, da paz perpétua, esse mundo não existe, isso é uma utopia. Desde que o mundo é mundo, há guerras e elas vão continuar a existir. E nós temos que nos preparar para nos defendermos, porque essa ideia de que nós estamos protegidos porque estamos longe da ameaça, é uma ideia completamente errada, porque um dos principais fatores de poder das Forças Armadas russas é a sua quantidade exorbitante de submarinos.
É como se diz no desporto, a defesa é sempre o melhor ataque.
A defesa é sempre o melhor ataque. Na dúvida, trancas à porta.
Isso mesmo.
Nós temos que rapidamente acelerar o passo. E para terminar, é dizer que eu tenho a consciência perfeita, porque também gerir recursos à disposição, quando tive a oportunidade de comandar pessoas e estar à frente de determinadas instituições ao mais nível, tive a noção que o dinheiro é sempre escasso. Mas quando o dinheiro é escasso, os líderes têm que definir prioridades e é isso que tem que ser feito. Nós votamos em determinadas pessoas para nos representarem e elas têm que ter coragem para discernir aquilo que é importante daquilo que é acessório em determinados momentos. E a defesa, neste momento, devia ser uma das principais prioridades do nosso Executivo.
Major-General Isidoro Moraes Pereira, muito obrigado pelas suas explicações aqui no Gabinete de Guerra. Uma boa tarde.