Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Falamos de conflitos em curso na Rádio Observador. Está aberto o Gabinete de Guerra, hoje com os comentários de Bruno Cardoso Reis, historiador. Sou Miguel Cordeiro e vamos começar com Kursk, que tem sido tema em destaque durante os últimos dias. Hoje, Vladimir Putin falou para dizer que vai avançar um extermínio dos ucranianos, promete uma resposta poderosa ao inimigo. O presidente Vladimir Putin garantiu que o inimigo, neste caso a Ucrânia, vai ter uma resposta poderosa à ofensiva em Kursk, que todos os objetivos que definimos vão ser alcançados, diz Vladimir Putin, e acusa os líderes do regime de Kiev de não só estarem a cometer crimes contra o povo russo, como também de embarcarem no caminho de extermínio dos ucranianos. Bruno Cardoso Reis, o que esperar desta resposta da Rússia prometida por Vladimir Putin?

Boa tarde, Miguel. Boa tarde a todos. Para já, o que nós vimos mais uma vez é que há realmente aqui uma ideia que foi muito popular no início da guerra e continua muitas vezes a ser evocada, de uma espécie de escalada automática. Ou seja, se houvesse qualquer tipo de ataque a território russo, que isso levaria, começando-se até por falar na própria Crimeia, que foi anexada, logo a uma espécie de Terceira Guerra Mundial automaticamente. Portanto, a um alargamento da guerra a países da NATO, a uma guerra nuclear. Isso claramente, mais uma vez, não aconteceu, mesmo com o ataque numa escala nunca vista, com unidades regulares ucranianas e não dissidentes russos contra o próprio território russo e não contra território que a Rússia reclama, mas que não é internacionalmente reconhecido como russo, por exemplo, a Crimeia ou estes territórios ocupados no leste e no sul da Ucrânia. Isso é um primeiro dado. Agora a questão é que é realmente uma operação de alto risco. A Ucrânia claramente achou que precisava de correr esses riscos para conseguir resultados, para conseguir mostrar que ainda tem alguma iniciativa, para conseguir também travar, desviar tropas, retardar ou travar as ofensivas que ainda que lentamente estavam a avançar no leste. Agora o problema é que o mais difícil vem a seguir, porque obviamente Putin vê isto como uma humilhação e tem que tomar medidas para evitar que isto continue. Até onde é que ele irá? Isso teremos de ver. Já vimos, por exemplo, estes incêndios suspeitos na central de Zaporíjia, estas declarações atribuindo aos ucranianos a responsabilidade pelo que venha a acontecer aos ucranianos, aos civis ucranianos. É um tipo de retórica muito típica deste tipo de regimes muito agressivos. O Hitler também usava este tipo de retórica, a culpa dos mortos polacos e franceses era sempre de quem se tinha atrevido a combater a Alemanha nazista. O Putin utiliza o mesmo tipo de retórica. Portanto, o problema aqui não é a Rússia ter invadido a Ucrânia e estar diariamente a bombardear alvos civis na Ucrânia, são os ucranianos estarem a combater, atreverem-se a combater a invasão russa. Mas realmente não sabemos exatamente até onde é que o regime irá. Eu diria, provavelmente, este tipo de provocações, certamente uma concentração de meios militares grandes nesta região para tentar expulsar estas forças ucranianas e isso obriga a Ucrânia a tomar uma decisão difícil, que é tentar manter algum deste território, sabendo que ele vai ser um alvo privilegiado de ataques russos, talvez em posições mais defensáveis, mais preparadas do que aquelas que estão para já ocupadas, ou eventualmente procurar retirar, mas correndo o risco de haver um alargamento da frente e de haver mais ataques às zonas ucranianas adjacentes a esta zona. Portanto, é realmente uma opção de alto risco, e também há a possibilidade de haver reforço dos ataques com drones, mísseis e meios aéreos à população ucraniana. Aliás, já começou a acontecer. Do meu ponto de vista, para os ucranianos, a questão de base é sempre esta, que é: eles acreditam que não há mais ataques contra civis ucranianos, contra alvos ucranianos, simplesmente porque a Rússia não tem meios para isso. E acreditam que por muito que haja aqui um desejo de escalada, haverá limites ao que a Rússia conseguirá fazer, que tem sobretudo a ver com isso, com as capacidades, com os meios disponíveis, mais do que propriamente com qualquer tipo de autocontenção por parte da Rússia. E depois uma questão de base fundamental, que é que eles também acreditam que o regime russo quer acabar com a democracia ucraniana, quer acabar com uma Ucrânia independente e qualquer tipo de cedência de fundo implicará eles aceitarem passar a viver diretamente ou indiretamente de Vladimir Putin e do atual regime russo. Isso parece ser inaceitável para a maioria dos ucranianos, apesar dos enormes riscos que eles correm todos os dias por causa desse desafio de vários anos às opções, às prioridades de Putin.

Mas olhando aqui para a posição da Rússia, já percebemos que isto não se trata propriamente de um raide pontual da Ucrânia. Já estamos nisto há praticamente uma semana. Diz o governador de Kursk que a linha da frente ucraniana tem 40 km, controla 28 locais na região. A imprensa ucraniana diz que há militares ucranianos a fazerem trincheiras no local e a apontar para uma permanência na região e para combates nessa região. Algo falhou por parte da Rússia para que isto aconteça e a frente de guerra passa a estar também em território russo. Isto leva a uma mudança naquilo que é o formato deste conflito.

Sim, para já é uma viragem importante exatamente por isso, porque é o primeiro ataque de unidades regulares ucranianas em quantidade significativa. Até aqui tínhamos assistido a alguns ataques a território russo, mas ou com drones ou então com forças irregulares de russos dissidentes que estão a combater ao lado da Ucrânia. Aqui realmente é algo claramente diferente. Também não é claramente um raide de curta duração, uma coisa de atingir dois ou três objetivos e rapidamente retirar. Como referes, já dura praticamente há uma semana E temos tido essa informação de que poderia haver a preparação de trabalhos defensivos, a criação de linhas defensivas que indicariam que sim, que haveria uma intenção de permanecer pelo menos em parte desse território. Isso também pode ser desinformação para induzir os russos em erro, ou podem ser linhas defensivas mínimas para permitir uma retirada em segurança, uma retirada ordenada. Mas eu diria que, do ponto de vista estratégico, seria interessante a Ucrânia manter algum território russo, porque se a Ucrânia for forçada a negociações, pode sempre dizer à Rússia que se quer recuperar território russo ocupado, tem que devolver território ucraniano ocupado. Enquanto até aqui a Rússia podia sempre dizer: "Vamos ter um cessar-fogo, vamos ter paz, vamos ter o que quiserem, mas claro que nós vamos manter o território que ocupamos militarmente, não vamos devolver." Estava aqui uma moeda de troca à Ucrânia importante, agora com o risco de intensificação significativa dos combates nesta zona.

Sim, mas sendo que nas últimas semanas andava a ser discutido de forma mais intensa e talvez até com mais seriedade a questão de negociações de paz, com estes avanços da Ucrânia, isto pode ficar adiado.

Um dos resultados deste ataque é assistirmos aqui a uma espécie de discurso russo completamente delirante, coisas como "é inaceitável atacar alvos civis", mas o que a Rússia tem passado tempo a fazer durante estes anos todos, mais do que documentado por todo o tipo de organizações internacionais? O que fez em reação a este ataque? Atacar um supermercado na cidade vizinha. Putin vem dizer: "Não é aceitável, não podemos negociar com pessoas que se comportam desta maneira, que invadem o país vizinho." Mas o que a Rússia fez em relação à Ucrânia? Mas isso significa que é possível que no curto prazo, pelo menos, para quem achasse que as negociações de paz estavam iminentes, fica claro que não estarão. Do meu ponto de vista, isso nunca foi muito realista. As posições das partes continuam muito afastadas.

Falemos do conflito no Médio Oriente, porque há a indicação de que pode estar mesmo para breve. Por quê? Porque aproxima-se aqui uma data, Tisha b'Av, várias fontes dos serviços secretos ocidentais acreditam que o Irão pode estar a preparar-se para retaliar Israel nesta noite de 12 para 13 de agosto, por ter uma conotação simbólica para o povo israelita. O Jerusalem Post diz que se trata de uma data importante na história do judaísmo, dedicada à reflexão em relação a tragédias passadas que afetaram os judeus. Marca desde logo os aniversários da destruição do primeiro e segundo templo em Jerusalém, em duas ocasiões diferentes, 587 a.C. e 70 d.C., mas há outras datas associadas a esta noite ou este dia. Sendo que perante esta possibilidade de ataque iminente, o chefe das Forças de Defesa de Israel aprovou de imediato planos para ter uma prontidão imediata a tudo o que possa acontecer. Faria algum sentido atacar nesta altura por parte do Irão e termos esta reação? Falem-me um pouco desta data, Bruno.

Sim, é uma data marcante na história do judaísmo, a destruição do templo, ou seja, o grande centro religioso do judaísmo histórico, na antiguidade. E realmente o regime teocrático iraniano é muito sensível também a este tipo de datas simbólicas, a estas associações religiosas. É verdade que este ataque israelita ao líder do Hamas, Haniyeh, teve lugar também numa data especialmente importante e humilhante para o Irão, ou seja, no contexto da tomada de posse do novo presidente. E poderia haver também esta ideia de uma espécie de retaliação também ao nível simbólico, de uma data com uma importância equivalente. Agora, acho que sobretudo o que é relevante é que há indicações, os próprios responsáveis israelitas têm chamado a atenção de que têm informações de uma concentração de meios, de alterações no dispositivo militar iraniano que indicariam que poderia estar iminente o ataque. Temos também a indicação de que os Estados Unidos estão a reforçar os seus meios militares nesta região. Recordo quando foi do primeiro ataque na história direto do Irão para Israel, por exemplo, os Estados Unidos também participaram no esforço de interceção de alguns desses meios. E aqui a grande questão, mais do que saber se haverá um ataque, é saber em que escala. E sobretudo, aquilo que seria especialmente perigoso seria uma escalada significativa, ou seja, termos um ataque que poderia ser muito mais eficaz, mas que também obrigaria Israel a uma resposta militarmente muito mais forte, ou seja, uma forma de ultrapassar as defesas antiaéreas de Israel, que são as mais sofisticadas do mundo em vários níveis, desde o famoso Iron Dome à Funda David, até ao sistema Arrow, tendo alcances de 70 km até 2700 km. Uma forma de ultrapassar isso era haver ataques com mísseis e drones, não só a partir do Irão, mas também a partir do Hezbollah, que tem, estima-se, um arsenal de mais de 150 mil mísseis e outros tipos de projéteis, e também inclusive a partir dos Houthis do Iêmen, ou seja, multiplicar aqui quer o tipo de projéteis, quer as direções desses projéteis, de forma a tentar saturar o sistema e impossibilitar uma resposta eficaz. Se acontecer uma coisa desse tipo, realmente aí a resposta de Israel seria certamente também No sentido de uma escalada muito significativa, quer em relação a ataques ao Hezbollah no Líbano, quer em relação mesmo a ataques a Israel. Portanto, vamos ver se teremos um ataque mais do gênero daquele que já vimos no passado, ou seja, o Irão com uma retórica muito agressiva, mas apesar de tudo, quando se trata de concretizar, acaba por ser um ataque relativamente localizado, que permite também a Israel ter uma resposta relativamente limitada. Certamente a pressão da comunidade internacional, dos Estados Unidos em relação a Israel, mas por exemplo, no caso do Irão, da China, que tem muitos interesses econômicos nesta região e que não a quer ver desestabilizada, será certamente no sentido de uma resposta mais limitada. Portanto, essa parece ser a grande dúvida, quando exatamente e sobretudo a dimensão desse ataque.

Quanto a Gaza propriamente dito, onde temos tido o epicentro de todos esses conflitos no Médio Oriente, os últimos dias ficam marcados por esse ataque a uma escola em Gaza. Foram identificados 75 corpos. Os médicos identificaram os corpos de 75 palestinianos, dos 93 que morreram no fim de semana nesse ataque a esta escola. Diz Israel que era uma escola utilizada para o Hamas operar vários ataques contra Israel. Independentemente do que aconteça em torno diplomático à volta deste conflito no Médio Oriente e de todas estas questões, Gaza continua a ser este palco e prevê-se que assim continue, Bruno?

Sim, aliás, Israel voltou a emitir avisos. Neste caso, não houve sequer um aviso, com a justificação de que era um centro de comando e portanto se houvesse um aviso, esses elementos do Hamas ou da Jihad Islâmica desapareceriam. Mas Israel emitiu um novo aviso para evacuação da zona de Khan Yunis e portanto, aquilo que se confirma, foi aquilo que eu também fui prevendo já nos últimos meses, que é muito difícil de eliminar completamente um movimento como o Hamas. É muito difícil, portanto, dar por terminada a guerra, mesmo tendo Israel feito este esforço de ir avançando sistematicamente de norte para sul. Muitas vezes essas organizações clandestinas muito enraizadas, que têm paióis escondidos, etc., podem simplesmente desaparecer, misturar-se no meio da população e depois voltar a reorganizar-se, a reaparecer como uma força militar organizada. E portanto, aquilo que é dramático nisto é que não há qualquer perspectiva, nem de segurança, nem de restabelecimento de uma vida normal para a população civil em Gaza. Vemos, por um lado, a multiplicação de ataques e por outro, esta constante impossibilidade de se fixarem novamente na sua residência habitual ou mesmo numa outra residência, porque estão constantemente a ser arrastados pelo conflito de um lado para o outro, com obviamente uma situação extremamente precária.

Entretanto, informação divulgada pela Hamas que desde 7 de outubro do ano passado morreram cerca de 16 mil crianças na Faixa de Gaza. Terminamos assim este Gabinete de Guerra.