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Está no ar o Gabinete de Guerra, está com a Rádio Observador. Vamos, nos próximos minutos, falar dos conflitos em curso nas diferentes partes do globo, com destaque para o conflito na Ucrânia e também a situação no Médio Oriente. Vamos começar pelo conflito na Ucrânia, mais concretamente em Sumy. Conosco está o Major General Isidro Morais Pereira, a quem agradeço a presença neste Gabinete de Guerra. Vamos começar com a situação em Sumy, porque hoje foi confirmado que o governo ucraniano acabou por demitir o governador de Sumy. Estamos a falar de Volodimir Artyukh. Este governador primeiro tinha dito que não estava nada agendado para Sumy no domingo, mas depois confirmou que estava a ser planeada uma cerimónia militar para a cidade de Sumy no domingo, mas que não era o governador que estava a organizar, era uma outra entidade que estaria a organizar. Confirmou que iria acontecer e confirmou até que tinha sido convidado. Isto surgiu depois de um governador de uma região vizinha ter dito que este governador de Sumy estava a preparar esta condecoração de uma brigada no centro da cidade e que tinha alertado para o risco elevado para civis e militares. Não tinha outra hipótese aqui o governo de Kiev, a não ser afastar este governador, primeiro por não ter de imediato confirmado esta informação, mas depois a tornar oficial que iria haver esta cerimónia e sabendo que estava avisado para os perigos de realizar essa cerimónia no centro da cidade, não tinha outra hipótese, o governo de Kiev.

Obviamente, até porque numa situação como esta, tem que haver uma unidade completa de compromisso entre as entidades políticas e entre as entidades militares. A Ucrânia é um país que está em guerra há mais de três anos e a realização de uma cerimónia que prevê o ajuntamento de tropas, ainda para mais num país que esteve muitos anos sob o domínio da União Soviética, em que há grandes ligações com a Rússia, porque são ligações até familiares, e são imensas as famílias em que um dos cônjuges é russo, o outro é ucraniano, e há aqui uma relativa facilidade em veicular informação pra um lado e pro outro. Quer dizer, há atividades de espionagem que têm sido descobertas praticamente todas as semanas, lá tem havido relatos disso. O mesmo acontece também do lado da Rússia, que há, de certeza, elementos que estão a veicular informações para as forças ucranianas. Portanto, eu acho que é uma atitude completamente irresponsável, ainda para mais tão próximo da fronteira russa, poder organizar uma cerimónia desta natureza sem dar conhecimento, inclusivamente, ao governo central e ao comando das Forças Armadas ucranianas. Acho muito bem que se homenageiem os heróis, acho muito bem que haja esse tipo de atitude perante aqueles que dão a vida na frente de combate, mas há naturalmente regras de segurança que têm que ser observadas quando um país está em guerra. Todo e qualquer ajuntamento de tropas fora da sua atividade normal, em situações desta natureza, oferece a um adversário, naturalmente, objetivos que podem configurar-se como objetivos remuneradores. Aquilo que acabou por se verificar foi um ataque que teve uma forte implicação fundamentalmente sobre a população civil. Era um Domingo de Ramos, grande parte das pessoas estavam a deslocar-se para um local de culto e são dois mísseis que são dois mísseis especiais. Hoje em dia também há informações de que são mísseis de fragmentação, com cabeças explosivas de fragmentação, fundamentalmente utilizados para destruir grandes concentrações de pessoas, e acabou por ter os efeitos nefastos que nós conhecemos. Acabou por matar cerca de 33, que é o número que se fala hoje.

35 é o dado mais recente.

Já está em dado mais recente, são 35.

Sendo que são 44 ainda hospitalizadas, sete em estado grave.

Exatamente, 44 hospitalizados ainda, dos mais de 100 feridos, e ainda há muita gente em estado grave, portanto, é possível que o número de mortes ainda aumente. Portanto, foi mais um crime hediondo cometido pelas forças da Federação Russa. E relativamente a este responsável administrativo, eu acho que naturalmente não resta outra possibilidade senão ao governo central da Ucrânia demitir este homem e até proceder criminalmente ou no mínimo disciplinarmente contra ele, porque nada justifica que se oculte a verdade numa situação destas. Nada justifica isto. E é bom que a verdade venha ao de cima, porque até à data é aquilo que nós, quando digo nós, digo nós portugueses, digo nós europeus, que continuamos de uma forma generalizada do lado da causa ucraniana, e bem, da causa da liberdade, da causa do direito internacional e do direito soberano que os povos têm a decidir sobre o seu futuro. E a Ucrânia tem-se comportado neste capítulo Dentro das baias que são estabelecidas pelo Direito Internacional Humanitário, porque mesmo quando se diz que a Ucrânia agora retaliou e há as notícias de que a Ucrânia terá retaliado.

A Ucrânia diz que atacou a base da brigada russa que bombardeou Sumy.

Exatamente.

Os artigos até referem vingança, "revenge for Sumy", vingança por Sumy.

É uma vingança, no fundo, aquilo que teria dito o próprio Kirill Budanov, o homem das informações, e o próprio presidente Zelensky, teriam dito que este ataque não ficaria sem resposta. Portanto, e a resposta já foi dada esta noite e foi exatamente alvejando aqueles que são os responsáveis pelo lançamento desses mísseis. Esses mísseis Iskander com cabeças de explosivas de fragmentação e que provocaram a destruição que nós conhecemos. Isto não é a primeira vez que acontece. A Rússia é useira e vezeira em utilizar este tipo de tática, que é uma tática indireta, procurando desmoralizar as populações, procurando atacar aquilo que Clausewitz nomeava de ventre mole, que são as populações, são aquelas que estão mais indefesas, mas no fundo, também diz outra coisa muito importante, é que não há guerra nem há conflito que se ganhe sem o apoio de uma base sólida que é a população, quer dizer, acaba por se perder. Portanto, esta estratégia indireta de afetar a vontade das populações de continuarem a apoiar o esforço de guerra é uma prática própria da Rússia. Fê-lo em vários locais, na Chechênia, na Síria, e continua a fazê-lo agora na Ucrânia. E aquilo que aconteceu não é de excluir que volte a acontecer. Havendo ou não havendo justificação para determinado tipo de ataques, o que é certo é que se havia uma reunião ou se havia um local onde estariam reunidos militares que iam ser condecorados. Portanto, estes mísseis não têm que ter cabeças de fragmentação, podem ser mísseis com uma carga única e podem atacar o local exatamente onde está essa reunião, não têm que atacar indiscriminadamente a população. Estamos aqui perante, naturalmente, mais um crime de guerra.

Falar aqui também da NATO. Mark Rutte está a fazer uma visita surpresa à Ucrânia, encontrou-se com Zelensky, secretário-geral da NATO. Diz que vai continuar a ajudar a Ucrânia, claro que luta por uma paz justa e duradoura, mas esta visita acontece num dia em que há também a informação de que os Estados Unidos podem vir a cortar financiamento da NATO. Como é que vê esse cenário, essa possibilidade? De facto, estamos a caminhar para o final da NATO ou para um desfecho da NATO que não poderíamos prever aqui há uns anos?

Não, é algo que não se previa. É algo que já tinha sido de alguma forma assinalado. Os Estados Unidos já vinham dando sinais de que os europeus tinham que investir mais na respetiva defesa, teriam que ter aparelhos militares mais capazes, mais eficazes, o que significava que tinham que investir. Aliás, se regressarmos à Cimeira de Gales, 2014, ainda o presidente americano era Barack Obama, e já nessa altura os Estados Unidos colocavam uma fasquia que era 2% da riqueza anualmente produzida por cada país. E eles recomendavam que para que a NATO fosse, de facto, uma organização defensiva eficaz, que os países investissem pelo menos 2% da sua riqueza anualmente produzida em defesa. Portanto, estes sinais já vinham sendo dados por parte dos Estados Unidos. Agora, não devemos confundir o investimento que cada país faz no seu aparelho de defesa e o somatório desses aparelhos de defesa acaba por ser, se estamos a falar na NATO como um todo, acaba por contribuir para o poderio militar da NATO e para a capacidade de defesa coletiva da NATO. Outra coisa é o que cada país paga pra estrutura de funcionamento, pra estrutura de comando, pros quartéis-generais da NATO e pra algumas forças militares que são forças próprias da NATO, como os batalhões de comunicações, etc. Portanto, uma coisa é o que cada país tem em termos de forças militares, outra coisa é a estrutura de comandos da NATO e a estrutura de forças. E pra essa estrutura funcionar no seu dia a dia, os países pagam uma determinada fee anual. E os Estados Unidos, pelos vistos, que são aqueles que mais contribuem também nesse aspecto, já mostraram que não estão dispostos a continuar a contribuir também decisivamente ou definitivamente, de uma forma mais eficaz ou mais efetiva pra esse tipo de gastos. E é por isso que neste momento a própria NATO já está inclusivamente a tentar reorganizar os seus quartéis-generais, o seu dispositivo de comando na própria Europa, porque os Estados Unidos, pelo menos esta administração, já deu sinais de que inclusivamente o comando das Forças Aliadas ou o comandante das Forças Aliadas, o Supremo Comando Aliado das Forças Aliadas na Europa, o SACEUR, que está em Mons, que tem sido comandado há décadas por um general norte-americano de quatro estrelas, que poderá naturalmente ser disponibilizado pra que outros países europeus assumam essa responsabilidade e os gastos que isso naturalmente também implica. Portanto, eu acho que o secretário-geral da NATO já tem essa noção, já está devidamente informado Inclusivamente, já estão a ser feitas reuniões e trabalhos no sentido de poder substituir essa responsabilidade que os americanos sempre tiveram ao longo dos anos, praticamente desde que a NATO foi formada, até o momento em que teve o seu primeiro quartel-general em Paris e depois quando a França de de Gaulle decidiu sair da estrutura militar da NATO e o quartel-general das forças aliadas na Europa passou para Mons, para a Bélgica. Os Estados Unidos sempre assumiram o comando das forças aliadas na Europa. Portanto, neste momento, estamos num momento de viragem. A narrativa que tem sido feita pela atual administração dos Estados Unidos tem sido que os europeus usaram e abusaram dos americanos durante uma série de décadas e que neste momento têm que cuidar da sua defesa e têm que investir mais na defesa. Bom, ninguém diz o contrário, essa é uma realidade. Os próprios países europeus, já todos eles reconheceram que isso é uma verdade. É preciso algum tempo para efetuar essa transição. Agora, se isso significa que os Estados Unidos se vão desligar completamente desta organização de defesa coletiva que é a NATO, que permitiu tantas décadas de segurança e também de bem-estar aos povos europeus e de paz, vamos ver no que isto dá, porque o próprio executivo norte-americano tem tido vozes dissonantes. Por exemplo, Marco Rubio, na última reunião há cerca de uma semana em Bruxelas dos ministros das Relações Externas ou dos Negócios Estrangeiros dos países, reafirmou o cometimento dos Estados Unidos à NATO e que os Estados Unidos estavam com a NATO, que não abandonariam os seus parceiros europeus. E depois ouvimos também por parte de Donald Trump e por parte de J. D. Vance, o vice-presidente, e por parte, inclusivamente, do secretário de defesa norte-americano, um outro tipo de diálogo. Temos que estar preparados para a pior hipótese. A análise que eu propriamente faço é que os Estados Unidos dificilmente abandonarão a NATO.

Muito bem.

Eu penso que investirão menos na NATO.

Mas vão acabar por continuar.

Mas vão acabar por continuar. Essa é a análise que eu faço.

Vamos falar do Médio Oriente, até porque avança a BBC que o Hamas terá rejeitado uma nova proposta de cessar-fogo de Israel. Como é que vê essa posição do Hamas?

As negociações são difíceis. Muito embora tenham envolvido e continuam a envolver o mediador dos Estados Unidos, o Egito e o Qatar, fundamentalmente estes três, esta troika, chamemos-lhe assim. Mas neste momento, aquilo que o governo israelita, Netanyahu e a sua equipa põem em cima da mesa para poder reatar um cessar-fogo, são incompatíveis com aquilo que são os anseios do Hamas. E agora vou concretizar para atalhar caminho e para ser mais sintético. Israel pretende um desarmamento completo do Hamas. O Hamas nem quer ouvir falar em entregar as suas armas. Este é que é o grande problema, é o grande pomo da discórdia, porque a troca de reféns vivos e mortos ao longo de um segundo período de tréguas não é o grande problema. E o Hamas, por seu turno, exige a retirada completa e incondicional das tropas israelitas da Faixa de Gaza.

Certo, o Hamas sabe também que se entregar todos os reféns fica sem a principal arma.

O Hamas só entregará os reféns se tiver a garantia de que Israel retira todas as suas tropas da Faixa de Gaza. Por outro lado, Israel só retirará as suas forças da Faixa de Gaza, ou pelo menos de parte dela, porque entretanto criou algumas buffer zones, como nós sabemos, se o Hamas for desmilitarizado e entregar as armas. Portanto, estamos num momento crucial, sinceramente, face às posições de Israel, do governo israelita, e às posições assumidas pelo Hamas, eu acho que neste momento não devemos estar otimistas quanto a um desfecho positivo ou um desfecho favorável a este conflito, pelo menos para já. Parece-me que a troca de reféns ao longo do tempo, o Hamas já está na disposição de entregar reféns vivos e mortos, até já concordou em entregar o primeiro refém a ser entregue num refém de dupla nacionalidade israelita e norte-americana, num sinal de boa vontade com um dos países que está a mediar este cessar-fogo. Mas de qualquer maneira, Israel continua a não concordar com este tipo de introduções por parte do Hamas. É sabido qual é a posição de Israel e inclusivamente qual é a posição norte-americana, pelo menos a do presidente norte-americano. É que o Hamas não é um interlocutor válido no que toca ao futuro político dos palestinianos que vivem na Faixa de Gaza.

Major-General, temos que terminar.

É por isso que as coisas, na minha análise, não me parecem estar a correr de feição. Parece que ainda vamos ter que aguardar e talvez tenhamos que assistir a mais, como é que diz o Donald Trump, a mais morticínio ou a mais carnage, como ele diz em inglês. Vamos assistir a isso, certamente, porque não estamos sequer próximos de um acordo.

Muito bem, Major-General Isidoro Moraes Pereira, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador.

Nada, obrigado eu.