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E que tem como convidado o professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School e a coincidir com o final da Cimeira da NATO e com vários factos relacionados com o conflito no Médio Oriente, desde logo o anúncio feito esta manhã por Donald Trump de que o cessar-fogo acordado com o regime iraniano tinha terminado. Boa tarde, professor. Bem-vindo. Podemos rasgar o memorando de entendimento assinado entre os dois países? De nada vale?
Boa tarde, Miguel. Ainda não rasgamos o documento, se bem que podemos amarfanhá-lo um bocadinho porque realmente demonstrou algum tipo de fragilidade. Mas há aqui muita guerra de comunicação. Uma guerra de comunicação que tem vários vectores, um deles realmente retórica de Donald Trump, com ameaças inclusivamente verbais, uma linguagem no mínimo pouco diplomática e estadista. Mas em pura verdade, olhando a factos concretos, o ataque dos Estados Unidos foi pouco mais que simbólico e a resposta foi muito simbólica. Portanto, verdadeiramente não há nada de muito concreto que obrigue a escalar. Essas escaramuças são normais nestes processos. O que demonstra solidez é o que se seguirá, o caminho que venha a ser evocado. Era expectável essa sequência nesta altura, porque tínhamos Donald Trump na Turquia, tínhamos o funeral do Aiatolá a decorrer. Isso foi uma surpresa, mas de resto, como Ormuz se tornou a chave de todo este processo, era expectável que houvesse ali algum tipo de disputa pelo controle. Os petroleiros que estavam um pouco orientados por Estados Unidos fugiram um bocadinho ao mecanismo de controle do Irão, e o Irão achou que isso poderia ser perigoso para os seus grandes objetivos e para a sua grande arma, que é o controle do estreito e a possibilidade de vir a fazer uso com taxas de passagem, com controle de toda a navegação e portanto atacou, houve ataques, contra-reações, etc. Mas verdadeiramente o que está aqui em causa é o que se vem desenvolver a seguir, se esta ameaça que Donald Trump de atacar hoje se concretiza ou não. Parece-nos, no entanto, que é mais uma questão de pressão, como também pressionou dizendo que irá bloquear o estreito se houver algum tipo de retaliação do Irão, que irá tomar a ilha de Cara, o que nos parece ainda mais inviável, mas dentro dos cenários, eles são múltiplos. A paz e estabilidade definitivamente não é um deles, mas acreditamos que há espaço para a diplomacia, que há espaço para os negociadores. Aliás, como o próprio Trump disse, que não queria envolver-se muito, mas que deixava os negociadores prosseguir com a sua missão. Agora, naturalmente, temos algumas dúvidas que o memorando de entendimento se mantenha totalmente como está, mas rasgar, definitivamente não me parece que no pé em que estamos que isso aconteça.
Sendo que o senhor professor fazia referência há pouco a esta ameaça feita há pouco por Donald Trump de voltar a atacar o território iraniano esta noite, a coincidir com as cerimónias fúnebres do antigo líder supremo do Irão, Aiatolá Ali Khamenei. Cerimónias fúnebres que decorrem há vários dias, termina amanhã, reúne milhares de pessoas e várias delegações internacionais. Representa uma vitória do Irão?
Eu não diria uma vitória, diria mais uma prova de vida, uma demonstração de resiliência face a uma ameaça existencial, mais do regime propriamente do que o país. E foi importante essa prova de vida alicerçada, na minha opinião, em três áreas: uma do próprio regime, a resistência do regime, apesar de quase que já vamos na terceira leva de dirigentes, pelo menos em algumas funções já vamos. A nível interno, a mobilização de milhões de pessoas contra o Grande Satã, porque não é só simbologia de respeitar o seu líder supremo, é também, de alguma forma, dar corpo a esta resistência frente aos Estados Unidos e, de alguma forma também, a Israel. E depois, a nível externo, demonstrar que não está isolado. A recepção das delegações de vários países, alguns deles inclusivamente um pouco de surpresa, mas que tiveram o cuidado de fazer aliar versículos do Alcorão com que eram anunciados cada um deles. E se o Hezbollah, o Hamas e outros atores como os Huthi basicamente receberam mensagens de cumprir a aliança com Deus, a Arábia Saudita foi exposta a um versículo que referenciava o combate entre dois exércitos, o crente e o não crente, obviamente simbolizando que a Arábia Saudita seria o não crente. A Turquia foi evidenciada como aqueles que se mantiveram à margem, o Líbano como aqueles que não se sacrificaram. Basicamente só o Qatar teve aqui uma posição um bocadinho mais quem se referenciou como mediador. Portanto, não deixou de aproveitar a oportunidade. Agora, foi surpresa que os ataques surgissem nessa altura, o que levou o presidente a abandonar o Iraque, visto que as cerimónias corriam agora em Najaf e Karbala E isso retirou um bocadinho da visibilidade, mas em suma, só armou assim é que poderá ser considerado uma verdadeira vitória, porque de alguma forma não fazia parte dos objetivos, não fazia parte das áreas de análise e o Irão conseguiu trazê-lo para a centralidade de todo este processo.
Noutro tema, Donald Trump ontem, no primeiro dia de cimeira da NATO em Ancara, na Turquia, voltou a ameaçar tomar a Gronelândia. Senhor professor, como é que devemos interpretar esta ameaça renovada?
Parece-nos mais um marcar de posição, uma mensagem interna e externa muito em linha com o National Security Strategy desta segunda administração de Trump. Não há dúvida que a Gronelândia e todo o Ártico têm uma importância geopolítica acrescida na atualidade. A Dinamarca e a Europa, de uma maneira mais geral, de certo modo, esqueceram-se da segurança, mas também os Estados Unidos têm responsabilidades, visto que retiraram as bases que chegaram a ter na região, deixaram apenas uns radares e, portanto, têm também responsabilidade. E a Europa e a Dinamarca, a Dinamarca inclusivamente comprou uns aviões P-8 Poseidon, que basicamente são de vigilância anti-nave e submarino, e que sinalizaram haver uma maior dinâmica, seja por exercícios, seja inclusivamente por projeção de forças para a região. Portanto, pareceu-nos mais um elemento desestabilizador para mostrar poder logo à entrada do conflito e também demonstrar que está sentido com a Europa, não só por este controlo da Gronelândia que falávamos, mas também a posição da Espanha, da Itália, do Reino Unido, etc. Mas as fontes foram falando de alguma unidade em Ancara. Havia três grandes objetivos, os mais evidentes, apesar de serem conhecidos outros, mas havia três maiores, que era basicamente o renovar dos votos, dar uma prova de unidade, e isso parece ter sido conseguido. O desenvolvimento do acordo de investimento, capacidades do assumir a responsabilidade por parte da Europa, ou seja, o pilar europeu da NATO, o que também parece ter havido acordo, e o apoio à Ucrânia, nomeadamente dentro do campo da defesa aérea, em que foram anunciados 50 milhões de euros, mais exatamente 60 milhões de dólares, e também há um extra na conferência de imprensa de Donald Trump, ou pelo menos no momento em que estava reunido com Zelensky, em que anuncia que vai permitir que os Patriots sejam fabricados na Ucrânia, como sendo arma defensiva, ou seja, não tentando ofender Putin, mas que realmente poderá dar uma capacidade de intercetores que a Ucrânia definitivamente não tem. Portanto, julgo que os três grandes objetivos foram conseguidos. Paralelamente, foi dado o campo também a Erdogan para procurar tirar partido de todo este conflito, como potência pan-regional na competição islâmica, mas também com Israel, o que foi também uma mensagem para Israel por parte de Donald Trump. No programa F-35, foram readmitidos no programa e na possibilidade que teve no palco que teve para criticar a Europa em relação à sua indústria de defesa e o seu investimento. Portanto, verdadeiramente, esta mudança da geopolítica e da comunicação diplomática que Donald Trump fez acaba por colocar este linguajar pouco formal, mas na prática, verdadeiramente foram atingidos os objetivos e Donald Trump fez parte desse sucesso.
E desta forma chegamos ao final deste gabinete de guerra. Senhor professor, ainda sugeria abordarmos aqui mais um tempo aquela afirmação de Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, que disse a Trump: "Estou do seu lado". Queria o senhor professor abordar a questão, se será este um sintoma de uma subjugação dos membros da Aliança Atlântica a Donald Trump, tema que haveremos de abordar noutra oportunidade. Professor Jorge Rodrigues, muito obrigado mais uma vez pela sua presença neste gabinete de guerra, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, hoje a coincidir com o final da cimeira da Aliança Atlântica, que decorreu durante os últimos dois dias em Ancara, na Turquia.