O jornalista português Ricardo Ribeiro, que esteve detido na Cisjordânia, disse esta segunda-feira à Lusa que a detenção teve que ver com a “estratégia de limpeza étnica e de opressão aos palestinianos” que Israel leva a cabo mas quer esconder.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros tinha confirmado na quinta-feira à Lusa a detenção dos dois portugueses, um deles jornalista, na região de Rantis, na Cisjordânia, uma zona rodeada por colonatos.

A Lusa contactou esta segunda-feira um dos portugueses que esteve detido, o jornalista do Fumaça Ricardo Ribeiro, que relatou as circunstâncias e disse que ambos regressaram a Portugal este sábado.

O que aconteceu, afirmou, faz parte da “estratégia de limpeza étnica e de opressão contra os palestinianos na Cisjordânia” por parte de Israel que considera que, se não existirem internacionais – quer jornalistas, quer outros voluntários – no terreno, a verem, a testemunharem e a documentarem aquilo que eles fazem, acabam por conseguir perpetuar as suas ações.

“A estratégia é muito clara: é retirar as pessoas todas dali e depois inventam coisas para legitimar esse processo de deportação e de detenção”, explicou.

O jornalista português estava na Cisjordânia com quatro amigos portugueses, integrados num grupo maior, de cerca de 30 pessoas, que participava numa iniciativa anual da apanha da azeitona.

“Eu estava em trabalho, faço reportagem na Palestina desde 2017, mais ou menos há 10 anos, portanto para mim ir à Palestina é uma coisa que acontece bastante recorrentemente como parte do meu trabalho (…). Neste caso, este ano em particular, também estava lá porque estou a escrever um livro sobre apoio mútuo na Cisjordânia e estava a fazer reportagem para conseguir terminar esse livro”, explicou.

Nesta altura, coletivos da Palestina pedem a voluntários e repórteres internacionais que se juntem a quem tem olivais, mesmo ao lado de colonatos na Cisjordânia, pois sabem que quando forem fazer essa apanha da azeitona vão ser atacados por soldados ou colonos, “porque acontece isso todos os anos”, descreveu.

Quinta-feira, “o dia em que nós fomos detidos, foi exatamente um desses dias, em que nos juntámos a uma família palestiniana que estava a apanhar azeitonas”, explicou.

Segundo o jornalista, a dada altura um drone (aeronave não tripulada) começou a sobrevoar as cabeças do grupo.

O jornalista relatou que depois chegaram dois veículos militares ao local, mas o grupo que estava com os palestinianos não mostrou resistência e foi-se embora. Foi quando regressavam à aldeia que dois soldados foram a correr atrás do segundo português cuja detenção foi noticiada na semana passada, e que tem uma página na rede social Instagram, que se chama “Histórias da Palestina”, onde publica vídeos que testemunham o que se passa na região.

Após isso, relatou Ricardo Ribeiro, o grupo perguntava aos soldados o que se passava, e os militares, passado algum tempo, declararam que aquela era uma “closed military zone” (zona militar fechada).

Posteriormente, chegou um terceiro veículo militar e foi quando o jornalista foi abordado e detido.

“Eu apresentei-me como jornalista, mostrei a minha carteira profissional, disse que estava a fazer o meu trabalho, mas para eles era completamente irrelevante”, relatou.

Durante o interrogatório, recordou, percebeu que a sua detenção não se devia à presença numa zona militar fechada, mas sim, segundo os militares, ao “apoio e publicação de apoio a organizações terroristas”.

Foi-lhe mostrado um dossier, datado de 2025, com dezenas de print screens (capturas de ecrã) e de citações de artigos e reportagens escritas por si publicadas no Fumaça e nas suas redes sociais em que falava sobre a Palestina.

Questionado pela Lusa sobre se sofreu de algum tipo de violência, respondeu: “Eu não quero falar sobre o que aconteceu dentro do interrogatório, não é por não querer falar sobre as coisas que passei, é mais porque, pelo menos para mim, aquilo que importa neste momento não é focar nas condições de detenção, mas mais sobre o que se passa na Palestina“.

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