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E começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Hoje contamos com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas e relações internacionais. Bom dia, professor. Muito obrigada por estar conosco.
Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.
Bom dia. Começamos pelo Médio Oriente. Joe Biden conversou ao telefone com Netanyahu sobre a urgência para se chegar a um acordo com a Hamas, ao mesmo tempo que no Qatar os negociadores israelitas acusam Antony Blinken de sabotar as negociações. Professor, afinal, o que se passa entre Tel Aviv e Washington?
Maria João, primeiro que tudo, talvez convenha falar e dizer que a palavra acordo não parece correta, porque a palavra acordo, tal qual como concordar, vem do étimo latino cor cordis, que significa coração. Por isso, para se celebrar um acordo, é preciso que ambas as partes estejam na mesma circunstância de coração, o que não acontece com Israel e o Hamas. Claro que não é o caso. Por isso, nós estamos perante um desacordo. Quanto muito, poderíamos falar de uma tentativa de compromisso, mas um compromisso de curta duração, até porque as palavras, como nós sabemos, são mais do que dadas, são palavras quase chantageadas, são palavras impostas. Portanto, as negociações foram adiadas até novo aviso, até acontecer aquilo que os negociadores chamam, e em diplomacia nós usamos a expressão, momento oportuno, algo que no caso em análise se afigura difícil. E por quê? Porque esta dupla leitura da ação de Blinken relativamente a este pretenso acordo a que eu chamaria compromisso. Tem a ver com o adiamento, nunca pode ser desligado de dois factores. Primeiro, da circunstância, tanto Israel como a Hamas não quererem, portanto, parar de fazer novas exigências, que uma vez satisfeitas, a uma das partes imediatamente inviabilizam o cessar-fogo porque desagradam à outra parte. Dito muito claro, Israel, em nome da segurança, nunca vai retirar as forças que tem nos corredores, tanto no de Filadélfia como no de Netzaim, e exige a libertação, já na primeira fase, do maior número possível de reféns. Ora, os reféns são o maior trunfo que o Hamas dispõe. E o que é que o Hamas pretende? Pretende que os seus prisioneiros, aqueles que estão nas prisões israelitas, essencialmente os que vão ser libertados, sejam membros ativos do grupo, sejam terroristas, em linguagem ocidental, e que possam ficar em Gaza junto das famílias. Para quê? Para continuarem a luta. Quer isto dizer o quê? Que as tropas israelitas deveriam abandonar Gaza, na perspectiva do Hamas. E as tropas israelitas não querem abandonar Gaza e evidentemente, temos aqui um impasse que não se vê maneira de o poder resolver no curto espaço. Por que é que Joe Biden telefona a Netanyahu? Para lhe mostrar que, afinal de contas, agora podemos ter aqui um novo problema: a entrada do Irão em cena. E por quê? Porque a vingança do Irão não desapareceu, foi apenas adiada. E como foi adiada, vai ser retomada. E o que Netanyahu já disse é que está preparado para todos os cenários, tanto de defesa como de ataque. E está a tentar levar também o conflito para a zona do Líbano, com o Hezbollah. Estamos aqui numa situação cada vez mais periclitante e todos deitam achas para a fogueira. Esse é o problema, Maria João. Por quê? O Hamas acabou de convocar os muçulmanos para quê? Para uma manifestação em massa, porque vai ser comemorado na sexta-feira, devia ter sido ontem, 21 de agosto, o 55º aniversário do ataque de um cristão australiano contra a Mesquita Al-Aqsa. Mas um ataque que o Hamas e todos os palestinianos dizem que teve a mão de Israel. E nós sabemos que pode não ter tido, mas no mundo palestiniano, nós percebemos que as ideias não são aceites por serem verdadeiras ou falsas, mas por nós querermos acreditar nelas.
Sobre a guerra na Ucrânia, faz sentido a Rússia dizer que a incursão ucraniana em Kursk coloca em causa qualquer tipo de acordo. Mas que acordo? E professor, com que moral faz o Kremlin uma afirmação desta?
Com moral zero. E a verdade é que daqui volta a aplicar-se a situação do acordo quando não terá um compromisso. Portanto, no terreno, a grande verdade é que na situação não está a acontecer grandes desenvolvimentos. E nós estranhamos a aparente incapacidade russa para libertar a zona ocupada para as forças ucranianas. Pode ser algo do foro estratégico que nos esteja a escapar, mas pode indiciar também que há falta de material humano e bélico no exército russo. E se for o elemento humano, a mobilização geral não vai resolver. E por isso é provável que nós tenhamos um regresso ao terreno daqueles grupos armados, os ditos mercenários, de que o grupo Wagner foi o melhor exemplo. Agora, Zelensky também diz que tem condições para prosseguir a incursão em Kursk e que as tropas ucranianas estão mais fortes na defesa de Donetsk. Também temos de relativizar, Maria João, essa leitura. Por quê? O elemento humano não estica e é evidente que para haver um efetivo maior em Kursk, tem de faltar na defesa de Donetsk. A meu ver, tal qual como no caso do Médio Oriente, repare, hoje termina a convenção Democrata. E o que acontece é que Biden gostaria de ter o acordo do Médio Oriente como um legado. E Kamala Harris gostaria muito de poder dizer que pertenceu a esta equipa que conseguiu finalmente este apoio e que a partir de agora vai restituir aos Estados Unidos Um papel de uma potência respeitada no mundo inteiro. Não acontece. O mesmo se passa com a Rússia. Quem é que está na Rússia? O primeiro-ministro chinês. Quem é que fala? Xi Jinping mandou o primeiro-ministro da China falar. Quem é que fala do lado russo? Putin mandou o seu primeiro-ministro Mikhail Mishustin, que é um perfeito desconhecido. E o que o primeiro-ministro russo disse? Disse que as sanções eram ilegítimas, os protestos eram rebuscados, mas que reconheceu: a Rússia enfrentava uma situação externa muito difícil. Quem é o culpado? O Ocidente. Por quê? Porque o Ocidente quer entravar o potencial econômico e tecnológico da Rússia e da China. Há aqui uma clara denúncia de que o Ocidente está querendo impor a hegemonia. E o Ocidente, na visão russa, é tudo aquilo que não é China e Rússia. E depois, estes interesses comuns, é evidente, ele consegue ver aquilo que falou ontem no mundo multipolar. Há muitos meses que eu ando a falar no mundo de múltiplas ordens, em que cada um interpreta os princípios, os valores, de acordo com os seus interesses. É o que nós estamos a assistir. E por isso mesmo, quando me pergunta se a Rússia tem moral para exigir, claro que não tem. E repare, Maria João, há aqui um outro dado. O Parlamento ucraniano aprovou, mas apenas com uma maioria de 55 votos, que a Ucrânia fizesse o processo de adesão ao Tribunal Penal Internacional.
Sim.
E por que apenas 55 votos de diferença, Maria João? A meu ver, por uma razão muito simples, é que no Parlamento ucraniano sabe-se que este tribunal julga os quatro crimes contra a humanidade, de agressão, o genocídio e os crimes de guerra. E o que muitos dos deputados ucranianos têm medo é que as acusações não vão apenas incidir sobre os militares e as espias russas. Também podem incidir, e vão incidir seguramente, sobre militares e espias ucranianas, porque num cenário de guerra, estes crimes são cometidos de parte a parte, ainda que em doses muito desiguais.
Professor, ainda pegando no encontro entre Putin e o primeiro-ministro chinês, isto na Rússia, isto acontece na semana em que soube que Joe Biden aprovou um plano nuclear estratégico altamente secreto e com linhas de dissuasão orientadas para um novo foco, a China. José Filipe Pinto, esta decisão, que é inédita, surge depois da acumulação de ogivas nucleares por parte de Pequim. Mas a preocupação não deve ser de todo o Ocidente e não apenas dos Estados Unidos?
É de todo o Ocidente. O problema é que o Ocidente não tem capacidade para poder ter uma voz ativa. Este é o grande problema. Há, até o momento, duas grandes potências nucleares. A Rússia, por um lado, e os Estados Unidos por outro. A China começa este processo. A Coreia do Norte começa esse processo. E aqui na União Europeia só temos um país que tem capacidade nuclear: é a França. Tínhamos dois, porque o Reino Unido também tem, até superior à França, mas o Reino Unido saiu, como nós sabemos, através do Brexit. Então, o que é que acontece? O Ocidente não tem, neste momento, uma capacidade para poder ser um ator importante na nova cena internacional. Aliás, eu aproveito para lhe dizer que o meu próximo livro, que está praticamente pronto, é precisamente que papel é que a União Europeia pode ter neste mundo de múltiplas ordens. Dito de uma forma mais simples, estamos condenados a ir por arrasto dos Estados Unidos ou poderemos juntar-nos com cada uma das ordens em cada momento, de acordo com as diferentes conjunturas e de acordo também com os nossos interesses. Vai depender muito dos nossos políticos. Neste momento, estamos numa situação de subalternidade e consideramos que os Estados Unidos são o chapéu protetor que nos consegue guardar salvos relativamente a estes perigos todos. O problema é que repare, nós falamos no Irão, falamos no Oriente Médio, por quê? O Irão está a acabar também o seu processo nuclear.
Exatamente.
Mas não se torna imediatamente numa potência nuclear, mas fica suficientemente capaz para destruir Israel. Esse é que é um facto. O nuclear foi criado não para usar, mas para dissuadir. Aliás, quando foi feita a primeira bomba atômica, quem a conseguiu produzir, avisou os decisores políticos que nunca deveria ser usada. Nós, se perguntarmos aos japoneses, em Nagasaki e em Hiroshima, eles perceberão que quem tem o poder, usa-o sempre que os seus interesses são postos em causa.
José Filipe Pinto, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia, professor.
Muito obrigado. Um bom dia para si, Maria João.