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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador, onde analisamos dois dos principais conflitos ativos no globo, um no Médio Oriente, outro na Faixa de Gaza. Para tal, temos conosco o major-general João Vieira Borges, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Muito boa tarde, major-general, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar este gabinete de guerra a falar da guerra na Ucrânia, falar de uma conversa entre Donald Trump e Vladimir Putin, que terão discutido o desarmamento nuclear. A Rússia está disposta a fazê-lo, é o que diz o presidente dos Estados Unidos. Parece-lhe, major-general, este um cenário a ter em conta?
Muito boa tarde. É um cenário a ter em conta, mas numa visão não exclusivamente entre Estados Unidos e a Rússia. Trump também disse que a China estaria no processo, independentemente de ter uma dimensão em termos de armamento nuclear, que ainda não se aproxima quer dos Estados Unidos, quer da Rússia, mas que quando chegarmos a 2030, já estará ao mesmo nível. As maiores preocupações de Trump, julgo que serão mais com a China do que propriamente com a própria Rússia. Esta é uma maneira de chamar a China também a um processo, que obviamente é um processo que já há mais tempo que deveria ter sido discutido. Aqui a quantidade foi ultrapassada nos últimos anos pela qualidade dos lançadores, porque a capacidade de destruição é enorme nos três vetores. E, portanto, é tempo de, numa situação em que há uma ligação mais próxima entre o presidente dos Estados Unidos e o presidente da Rússia, em particular, é tempo de, como eu dizia, voltarmos a novos acordos de destruição, que é isso que nós estamos a falar.
Major-general, vamos falar também aqui de um tema que envolve o ministro da Defesa do Canadá, que admitiu a possibilidade do Canadá enviar tropas para a Ucrânia, se for necessário. Disse o ministro da Defesa do Canadá que o país está pronto para enviar essas tropas e afasta para já, ainda assim, receios sobre a falta de capacidade das Forças Armadas canadianas. O que é que nos pode dizer esta posição, tendo em conta que, para já, ninguém tem propriamente colocado esta opção em cima da mesa?
É muito interessante, porque o Canadá foi o primeiro país a reconhecer a independência da Ucrânia, julgo que em 2 de dezembro de 1991, juntamente com a Polônia. O Canadá tem uma ligação já antiga à Ucrânia, materializada no dia, como nós sabemos, do Dia da Ucrânia, no domingo passado, com a visita do seu primeiro-ministro, Carney. E nós vimos inclusivamente protocolos e vimos também, sobretudo esta manifestação de garantia de segurança, de dar credibilidade à garantias de segurança. Tem-se discutido, sobretudo depois da reunião em Washington com os aliados e com o Zelensky, da parte de Trump, exatamente quais eram os países que estavam disponíveis. Fala-se na China, fala-se noutros países, mas era importante que houvesse algum que chegasse à frente e que não tivesse naquela linha de países que a Rússia não vai aceitar, certamente, que é o caso, como nós sabemos, quer da França, quer do Reino Unido, muito menos da Alemanha, por outras razões. E, portanto, julgo que foi importante avançar com essa disponibilidade.
E acredita, major-general, que existam mais países a seguir este exemplo do Canadá?
Sim, existem mais países, mas que é muito complicado, em termos políticos, tomar uma decisão antes de haver uma negociação, no sentido de regular aquilo que são efetivamente as garantias de segurança. Aquilo que andamos a discutir é meramente política e estratégia, porque depois na praxis, que é o que interessa, os pormenores, como dizia até o presidente Trump, que não tem conhecimento de pormenores, ele dizia isso ontem, os pormenores, depois têm a ver exatamente com os países e têm a ver, sobretudo, com aquilo que nós designamos por capacidades, que tenham que ser aceites pela outra parte. As forças onde é que vão estar localizadas, que capacidades é que devem dispor essas forças. E há países que independentemente da vontade que tenham de mandar forças, de apoiar a Ucrânia ou de apoiar as Nações Unidas, espero bem que seja com uma resolução das Nações Unidas, como dizia a China, obviamente podem depois não ter os meios necessários ou mais adequados ao cumprimento dessa missão. O Canadá, curiosamente, é um país que tem uma experiência enorme em termos de operações de paz, inclusivamente com algumas situações complicadas. Já tem a tal experiência, já tem os tais contactos multilaterais e já tem uma imagem externa positiva e simultaneamente negativa por situações que tiveram a ver com algumas violações em algumas operações da parte de alguns militares. Mas são situações pontuais, que obviamente afetam, mas não vão ter, com certeza, repercussões para esta operação.
E do outro lado do conflito, como é que esta notícia pode ser recebida? A Rússia tem direito a sentir-se ameaçada ou até mesmo ofendida?
Não, o entendimento da Rússia relativamente ao Canadá, é que o Canadá faz parte da NATO e, portanto, como faz parte da NATO, não entra no processo. A Rússia também entende que, tal como foi e muito mal com o Memorando de Budapeste em 94, deve fazer parte Do processo. Inclusivamente falou nos cinco membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas a serem os membros que efectivamente garantiriam a segurança. E nesse caso estaria a França e o Reino Unido, como sabemos. Mas nós nunca sabemos efectivamente qual é o posicionamento da Rússia, só sabemos o sentido negativo. E o sentido negativo, na minha perspectiva, a resposta à sua questão é esta: o Canadá faz parte da NATO, portanto nunca fará parte das garantias de segurança qualquer força do Canadá, independentemente da disponibilidade, que como eu disse, é uma mensagem política importante para outros países.
Vamos também olhar para falar sobre o campo de batalha. A Ucrânia tem focado muito dos ataques contra instalações que suportam as Forças Armadas russas na Crimeia. Aqui falamos de ataques a instalações logísticas, é o que avança a imprensa ucraniana. Major-General, aqui o impacto ucraniano acaba por ser muito este, tentar ao máximo evitar e enfraquecer a capacidade militar russa.
Sim, isto faz parte da ofensiva aérea em curso e é sobretudo contra a indústria petrolífera russa e contra objectivos na área da retaguarda, independentemente das limitações que tem neste momento a Ucrânia, porque não pode utilizar sistemas de armas de longo alcance americanos contra alvos na Rússia, o que diminui consideravelmente a capacidade. No entanto, obviamente que isso levou a que a Ucrânia acelerasse todos os seus processos relativamente à construção de mísseis com grande alcance e grande capacidade, o caso do Neptuno, o caso do Flamingo. Não temos os dados todos, e é bom que não tenhamos, relativamente às características dos sistemas, mas segundo disse o presidente e o chefe de Estado-Maior, já há essa capacidade e têm feito exactamente ataques em profundidade com sistemas de armas já ucranianos. Mas isto é uma gota no oceano, porque outros sistemas com maior alcance seriam muito mais dissuasivos, impediriam mais a capacidade da Rússia de enviar forças para a linha da frente, onde vai tendo alguns avanços, como nós sabemos, 300, 400, 500 km² mensais nos últimos meses, e inclusivamente hoje tomaram, o que é uma preocupação grande, duas vilas numa província nova, a Dnipropetrovsk, que ficam sob controle russo.
E esse é precisamente um dos temas que eu gostava de abordar consigo, major-general. A Rússia ocupou pela primeira vez localidades nessa região. A Ucrânia controlava na totalidade essa zona de Dnipropetrovsk desde o início da guerra. Isto é sinal de que as forças ucranianas estão a regredir, a perder ainda mais território?
Não, é sinal daquilo que eu vi no teatro de operações, nas imagens a que tive acesso. É sinal de que a prioridade da Ucrânia foi, obviamente, para o Donbass, para os dois, e em especial para Donetsk, e também para Zaporizhzhia, em função do deslocamento de forças russas para Zaporizhzhia, e menosprezou esta província de Dnipropetrovsk. E ao menosprezar, porque também tem grandes dificuldades, não só em termos de equipamento, mas também de pessoal, obviamente, foi uma operação de surpresa, o que se pode transformar do nível tático para o nível estratégico e político. Como nós sabemos, a Rússia logo que põe um pé num oblast, reconhece o oblast na sua totalidade como ocupado e como fazendo parte da Federação Russa. E isso é muito perigoso e certamente que vamos ter grandes combates nos próximos dias na região.
Vamos avançar, falar sobre o conflito no Médio Oriente e com novidades no que toca aos protestos contra o governo de Benjamin Netanyahu. De novo, vários manifestantes, centenas de manifestantes que voltaram a bloquear estradas, exigem o fim da guerra, o regresso dos reféns. Major-General, começa a aumentar muito a contestação a Benjamin Netanyahu. Até onde é que o primeiro-ministro israelita tem capacidade para aguentar este tipo de contestação interna?
Ele tem essa capacidade, as eleições são para o ano. O grande problema dele não têm sido as manifestações, o grande problema dele tem sido gerir os partidos minoritários, mas que sustentam o governo, designadamente os partidos de extrema-direita, e esse é que é o problema dele, ou os partidos mais ligados a extremistas religiosos também, por causa da questão do serviço militar. Esse é que é o grande problema dele para se manter no poder e para ir ao encontro daquilo que foi o novo objetivo da nova ofensiva militar para libertar Gaza do Hamás. Relativamente às manifestações, desde o início deste governo, até antes da própria guerra, ele tem feito a sua gestão. É evidente que isso tem repercussões internas, tem repercussões até mesmo de imagem externa, se nós consultarmos, e aconselho os nossos ouvintes a irem às páginas de Israel, que felizmente não são como as páginas da Rússia nem do Irão. Portanto, dão tudo em direto das duas partes, desde a oposição, é um país democrático, mas de qualquer maneira, obviamente que isso não faz com que caia o governo. É uma pressão grande, é uma pressão que coloca a questão dos reféns no seu devido lugar, que é no fundo do pensamento da maior parte dos israelitas, enquanto que para Netanyahu e este governo o mais importante é ocupar. Ele diz libertar, mas é ocupar Gaza e se calhar também ocupar a Cisjordânia e impedir aquilo que foi discutido, e muito bem, em Nova Iorque, no sentido de politicamente Termos uma solução para a região, criando os dois Estados e afastando claramente o Hamas da sua dimensão militar.
E é essa a linha vermelha, a ocupação de Gaza City?
Sim, é uma linha vermelha. Já estamos a ver os ataques de ontem, que ainda não têm a ver com a operação no seu conjunto, são preliminares da operação, como eles dizem, porque a operação inclusivamente necessita dos tais 60 mil militares que estão a ser convocados. Independentemente de ainda não haver as tais cinco divisões do exército que participam nessa operação, independentemente de também não termos todos os dados, estes tais preliminares já deram origem, como vimos, à matança de cinco jornalistas, num total também que já vai em 270 jornalistas, mas desta vez com imagens na televisão que levaram a que uma comunidade internacional pressionasse claramente o governo de Israel.
Era precisamente essa a pergunta que eu ia fazer, major-general. Esse ataque a um hospital, que provocou também a morte de jornalistas, vários organismos que manifestaram repúdio e se mostraram contra, também a comunidade internacional. São demasiadas instituições a dizer o mesmo, de certa forma, a mostrar-se contra. Isto não tem um peso, não tem um impacto na forma como Israel age, na forma como são percebidas as suas ações?
Desta vez teve. Efetivamente, já houve ataques a vários hospitais, mas nós não vimos os ataques em direto, a não ser numa situação em que foi no parque de estacionamento, como se lembrará, já há cerca de um ano. Mas desta vez, este ataque teve duas dimensões. A primeira, porque é dado em direto. A segunda, porque há um ataque e há um segundo ataque no mesmo local. Ou seja, crime de guerra assumido por qualquer homem de Relações Internacionais ou de Direito Internacional Público e, portanto, homem ou mulher, qualquer investigador. A questão é que a própria IDF, as Forças de Defesa de Israel, ordenaram a investigação de imediato, aperceberam-se que isto não teve nada a ver com o força aérea, foi um encurralamento em excesso, provavelmente de um carro de combate. Ainda não temos os dados todos, mas mesmo que sejam drones, eu tenho uma certa dificuldade em entender que tenham sido só drones pelos estragos que eu vi ou pelos danos que vi. Mas o próprio IDF lamentou os danos a civis e disse, justificou, que não teve nada a ver com jornalistas e veio Netanyahu logo a seguir dizer que era um trágico incidente. Foi a primeira vez, no meio destas atrocidades todas que temos visto, destes efeitos colaterais todos, que quer a IDF, quer Netanyahu, se pronunciaram desta maneira. Ou seja, isto teve impacto direto pela imagem, pela comunidade internacional, inclusivamente, e bem, Portugal classificou como inqualificável, o Macron como inaceitável e outras palavras de outros dirigentes. Mas não podemos ficar pelas palavras. Na situação em Gaza tem que haver mais pressão internacional, sobretudo de Trump, que a única coisa que disse é que daqui a duas semanas — ele usa sempre as duas semanas para tudo, já percebi — daqui a duas semanas...
E acabam por não ser duas semanas.
Nunca é. Isto é a linguagem de Trump. Daqui a duas semanas a situação vai estar resolvida, quando neste momento, e o próprio Qatar hoje e o Egito ontem pressionaram a comunidade internacional para pressionar Israel, porque ainda não respondeu a uma proposta que estava já trabalhada, em que o Hamas tinha aceitado as tais tréguas de 60 dias para troca de metade dos reféns.
Para concluir, major-general.
E espero que efetivamente esta situação seja também pressão. Por um lado, é a pressão de Israel pela operação sobre o Hamas, por outro lado, é a pressão dos efeitos colaterais e da comunidade internacional para um acordo de cessar-fogo ou para umas tréguas de 60 dias. Espero bem que caminhemos nesse sentido, porque a situação é muito drástica naquela região, é uma catástrofe autêntica e Israel não está isento, certamente, de vários processos de crime de guerra, como foi este que teve lugar ontem no Hospital Nasser.
Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado, major-general João Vieira Borges. O Gabinete de Guerra fica por aqui, fica também disponível em podcast e está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.