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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que falamos dos destaques dos conflitos um pouco por todo o mundo. Hoje contamos com a análise de Ana Cavalieri, a especialista em relações internacionais. Olá, Ana, muito bem-vinda mais uma vez.
Obrigada, boa noite.
Boa noite. Começamos pelo conflito iraniano. O presidente do Irão assumiu pela primeira vez que o país está disponível para acabar com a guerra com os Estados Unidos da América, falou com o presidente do Conselho Europeu, disse que os iranianos têm essa vontade, desde que sejam salvaguardadas algumas garantias que previnam depois um reinício desta guerra. Como é que avalia os sinais que têm sido transmitidos de parte a parte nos últimos dias para a resolução deste conflito? Sendo que os Estados Unidos também dizem que as conversas têm sido positivas. Como é que avalia estas mais recentes movimentações entre estes dois lados do conflito?
Até agora, não há nenhum indicador que pareça concluir que as posições que são muito divergentes entre os iranianos e os americanos possam estar a convergir. Ou seja, aquilo que Pezeshkian acabou de referir é aquilo que já nas últimas semanas o lado iraniano tem defendido, que não só para eles aceitarem um cessar-fogo, as garantias de segurança precisavam de estar lá, no fundo, que o cessar-fogo não seria uma espécie de pausa para daqui a um, dois, três, quatro anos, uma aliança americana e israelita poder atacar outra vez, com a mesma justificação de que seria necessário desmantelar a base militar que pudesse sustentar um programa nuclear ou programa de mísseis balísticos. E também passaria por haver uma espécie de confirmar da soberania iraniana sobre aquilo que seria o controle do Estreito de Hormuz. Essas garantias, à partida, seria a China e o Paquistão, mas principalmente a China, poderiam de alguma maneira servir aqui como uma espécie de mediador, garantindo que não houvesse capacidade de os Estados Unidos ou Israel poderem traçar essa linha outra vez. Todavia, é preciso também referir que parece que há uma espécie de divergência entre aquilo que Pezeshkian está a dizer e está a tentar pressionar, de alguma maneira, que aconteça. Pezeshkian, que é o presidente iraniano, é mais sensível àquele que é o issue do colapso da economia, que é uma economia já muito agravada nos últimos meses, mas que agora durante a guerra está absolutamente devastada. A inflação, que já era atroz, disparou ainda mais. Isso está a ser muito difícil, provavelmente sustentar toda a governação interna do país com aquilo que a Guarda Revolucionária quer. Neste momento, a Guarda Revolucionária está representada por aquilo que é o chefe do Parlamento iraniano, que é Ghalibaf, mas também por Raeisi e Vahidi, que são duas personalidades muito intensas naquilo que é a perspectiva da manutenção de um regime teocrático, escatológico e opressivo no Irão. E eu penso que também existe uma divergência política, neste momento, interna no Irão, entre Pezeshkian, que é um líder fraco naquilo que pode verdadeiramente fazer para terminar aquilo que acontece com o regime, e depois quem efetivamente tem poder neste momento, que é provavelmente Ghalibaf, Raeisi e Vahidi, que são pessoas que estão dispostas a continuar a alavancar aquilo que são as suas duas grandes armas assimétricas, que é o controle do Estreito de Hormuz e também a capacidade, apesar de cada vez mais diminutiva, de conseguir fazer danos suficientes àqueles que são os aliados dos Estados Unidos no Golfo, nomeadamente o Bahrain, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, a própria Arábia Saudita. Existe, no fundo, no lado iraniano, a crença de que se conseguirem causar dano suficiente à economia global através do Estreito de Hormuz e danos muito específicos às economias dos países do Golfo, os Estados Unidos não terão capacidade ou vontade política para fazer aquilo que seria necessário para derrubar o regime.
Falou aqui do Estreito de Hormuz e é inevitável falarmos do petróleo. Trump quer que a Europa vá comprar aos Estados Unidos, é esse o objetivo desde o início desta guerra?
Eu penso que o objetivo desde o início desta guerra, para além de destruir as ambições do programa nuclear e não conseguindo destruir as ambições, destruir as capacidades que pudessem fazer prosseguir esse programa nuclear, eu penso também dentro da administração americana sabiam que o facto de os americanos serem exportadores de petróleo e serem os maiores produtores de petróleo na atualidade, naturalmente os tornava menos vulneráveis a uma escassez física de combustíveis fósseis. O problema é que os americanos também sabem que o preço do petróleo, o preço dos combustíveis, ou seja, de todos os produtos refinados e processados que vêm dessa extração de petróleo, tudo é definido ao nível global e isso impacta aquilo que é a quantidade de petróleo que existe, e isso é impactado ao nível global, por aquilo que acontece no Estreito de Hormuz. Não só isso, a pessoa sabe que os Estados Unidos têm uma economia ainda muito interdependente com parceiros econômicos. Então, um descalabro econômico na China talvez não fosse assim, mas um descalabro econômico dos parceiros mais importantes para os Estados Unidos na Ásia, o descalabro econômico dos parceiros econômicos europeus, que são também muito importantes, uma economia interdependente como ainda é a americana. Ou seja, há muitas cadeias de abastecimento, há muitas cadeias de produção que iriam ficar comprometidas Se houvesse um descalabro energético a nível mundial, mesmo que não afectasse em termos de escassez física os Estados Unidos, que depois fosse impactar o preço de produtos finais que consumidores americanos compram e consomem. E isso, naturalmente, Trump sabe que afecta aquilo que será a estabilidade económica e a inflação no próprio país, sendo certo que para os Estados Unidos é também um ano de eleições. Pelo que aquilo a que em inglês se chama "disingenuous", que aqui em português será desonesto, é desonesto Trump dizer que o Estreito de Hormuz não é um problema americano, quando, número um, ele próprio disse que uma das condições para os iranianos não serem destruídos ao nível das plantas elétricas e da produção de energia eléctrica, ou também a Ilha de Kharg. Ele referiu expressamente que ou os iranianos aceitavam um acordo em que deixavam as suas ambições do programa nuclear de lado e também o seu programa de mísseis balísticos, mas também a abertura do Estreito de Hormuz. Ou seja, Trump anteontem, isto foi há dois dias, estabelece a abertura do Estreito de Hormuz como uma condição essencial para o Irão não ser destruído na sua totalidade. Depois, nas dias de hoje, refere que os nossos aliados europeus não nos ajudaram, então isso também não vai ser um problema nosso abrir o Estreito de Hormuz, sendo certo que o Estreito de Hormuz está condicionado e o Irão está, em termos geopolíticos, sob ataque com maior intensidade, desde que houve o início desta guerra, pelo que eu penso que neste momento Trump está a contradizer-se de uma forma absolutamente directa.
Falamos também da Ucrânia, porque hoje assinalam-se quatro anos do massacre de Bucha. Os diplomatas europeus marcaram presença no local para prestar homenagem às vítimas. Ana, o apoio da União Europeia tem sido claro, mas com a intensidade da guerra no Médio Oriente e das repercussões que está a ter, até mesmo a nível económico, a Ucrânia está aqui de alguma forma a ficar esquecida. As negociações, por exemplo, têm estado em pausa.
Isso mostra muito a relevância daquilo que são os Estados Unidos como actor geopolítico primordial, na medida em que quando a atenção se foca no Médio Oriente, nós sabemos, e isto tem sido um padrão na nossa análise, aquilo que é a atenção do conflito da Rússia e da Ucrânia diminui. E isso parece ser algo que passou-se quando Gaza era o foco, agora quando o Irão está a ser o foco, sendo certo que há notícias interessantes entre aquilo que são parcerias que o Zelenskyy está a tentar promover, ou melhor dizendo, que está a aceitar muitas dessas parcerias promovidas por países como a Arábia Saudita e outros aliados do Golfo, que sabem que os ucranianos são líderes por necessidade, infelizmente, a tragédia da guerra assim o impôs, que são líderes naquilo que são a defesa anti-aérea de drones. Nós sabemos que um dos grandes dramas desta nova maneira de fazer ofensiva aérea é que estes drones, que são muito baratos, também são muito lentos, estão a ser interceptados muitas vezes com mecanismos que são muito caros, que são normalmente mecanismos utilizados para tentar abater mísseis de cruzeiro ou mísseis balísticos, que estão a ser utilizados para agora tentar derrubar estes drones. E nós sabemos que os ucranianos têm desenvolvido técnicas a baixo custo, que fazem mais sentido em termos económicos adoptar e na sua eficácia. E então sabemos que algumas parcerias estão a ser feitas, não só os americanos estão a tentar agora pedir ajuda técnica e logística relativamente aos ucranianos, e então vai ser interessante saber se algum dia alguém vai pedir ao Trump para agradecer pessoalmente ao Zelenskyy. Quando isso foi uma das críticas, a falta de agradecimento, quando Zelenskyy sempre agradeceu muito a ajuda americana, mas naquele embate na Sala Oval. Agora é interessante que parece que as Forças Armadas americanas é que precisam um pouco deste expertise muito específico das forças ucranianas. Mas sim, neste momento, sendo certo que aquilo que se está a passar no Irão em termos macro de análise geopolítica, também impacta aquilo que é a Rússia e a Ucrânia, na medida em que nós sabemos que o Irão sempre foi um grande parceiro, nomeadamente em termos operacionais e militares das forças de guerra russas. Nós sabemos que muitas componentes e algumas armas, e nomeadamente drones, que a Rússia utilizou contra a Ucrânia, eram enviados e eram quase um patrocínio iraniano. Sabemos também que há aqui uma aliança chinesa e russa que quer que o Irão continue a estar dentro da sua esfera de influência e então não passe para a esfera de influência americana, que é um dos grandes objectivos que não é explícito nesta guerra com o Irão, mas que me parece claro. No fundo, aquilo que os Estados Unidos querem, acima de tudo, não é uma mudança de regime per se, como nós entendíamos há 20 anos, que era a base daquilo que eram as operações americanas no Médio Oriente, que era tentar transformar regimes talvez opressivos ou tirânicos em democracias liberais. Era quase uma mudança de regime constitucional que se pretendia para concretizar aquilo que era uma expressão democrática de um povo. Aqui não, aquilo que os americanos aqui essencialmente querem é uma alteração governativa que seja um interlocutor na liderança do Irão, que seja mais cooperante com os Estados Unidos e que esteja menos dentro da esfera de influência da aliança China-Rússia. E eu penso que esse objetivo neste momento parece que não está a ser concretizado, na medida em que se os Estados Unidos, mesmo num acordo que façam, se mantêm na governança iraniana, aquilo que são líderes Que são, na sua própria natureza, antiocidentais, ou seja, teocráticos, islamistas, extremistas que têm como grande objetivo cessar aquilo que eles acham que é a influência nefasta dos valores ocidentais na sociedade islâmica. Se isso continuar, então eles não estarão dentro da influência americana, que seria talvez um dos grandes objectivos com esta coerção militar e económica, que era no fundo passar a ter um regime mais cooperante a liderar o Irão. Mas depois de várias lideranças decapitadas, até agora, aqueles três homens que eu referi, Alibaf, Hassei e Vihadi, não parecem ser esses homens. Tazefkian e Arachi, em que o Arachi é o ministro dos negócios estrangeiros, talvez podiam ser mais persuadidos por esse tipo de inclinação, mas até agora não há sinais de que isso possa acontecer.
Ana, gostava de aproveitar os últimos dois minutos que temos para recorrer também à sua experiência, para falar das eleições da Hungria que estão aí à porta. Budapeste queixa-se, e já não é a primeira vez, de interferência no ato eleitoral, depois de ter sido divulgado que houve conversas com a Rússia. Por outro lado, há várias publicações internacionais que hoje dão conta de que o ministro húngaro dos negócios estrangeiros terá fornecido também ao chefe da diplomacia russa, Sergey Lavrov, informações estratégicas sobre questões cruciais. De que forma é que a Europa, não afastando a Hungria da aliança europeia, porque Viktor Orbán está primeiro-ministro e as relações com os países não se medem exclusivamente durante o mandato de alguém, de que forma é que a Europa consegue precaver-se das ações da equipa de Viktor Orbán? Ou de que forma é que fica só a assistir a tudo isto acontecer?
Antes de ir a essa questão, eu só quero corrigir, eu tinha dito Vihadi, mas é Vahidi. A última vez que eu disse esse nome, tinha me enganado naquele comandante. Relativamente à União Europeia, isso é um dos constrangimentos inerentes àquilo que é a União Europeia como organização transnacional que não invalida aquilo que é soberania em pleno direito de cada Estado-membro. E isso vai fazer com que os constrangimentos que nós vemos à ação coletiva da União Europeia fiquem muito presos a esse facto inerente à constituição da própria União Europeia. Ou seja, há determinadas matérias que ainda dependem de um consenso absoluto dentro do Conselho da Europa, de todos os Estados-membros. Existem outras maneiras, muitas vezes outros mecanismos dentro da União Europeia, em que através de uma maioria um pouco mais reforçada é possível ultrapassar esses mecanismos, mas em termos de defesa, de segurança, aquilo que são os diversos interesses geopolíticos de cada país fez com que naquilo que foi o último tratado de Lisboa, que reafirmou esse princípio, há ainda determinadas esferas de quase exclusiva competência em termos de soberania. E naturalmente, aquilo que são as forças políticas lideradas por Orbán ainda entendem que não acompanhar os restantes Estados-membros da União Europeia quanto a um apoio muito claro e evidente é o correto. Sendo certo que entre a Ucrânia e a Hungria ainda existem determinadas divergências por causa de um oleoduto muito específico, que é o Drushba, é o canal Drushba, que os húngaros acusam os ucranianos de sabotarem diretamente, impedindo combustíveis fósseis de irem, eu penso que é gás natural este canal específico, mas agora eu teria de confirmar se é petróleo ou gás natural, mas eu acho que é gás natural. Porque a Hungria está muito dependente desse canal para as suas necessidades energéticas. Ou seja, isso também existe, a Hungria e a Eslováquia têm também interesses geopolíticos muito específicos para determinar, dada a falta de alternativas a conseguir energia por outros meios, a terem determinadas queixas relativamente à Ucrânia. Sendo certo que a Ucrânia rejeita a acusação que foram eles que sabotaram esse canal que vem da Rússia e que, no fundo, alimenta quase todas as necessidades energéticas da Hungria. Eu penso que já há quase uma década que existe uma espécie de frustração muito latente naquilo que são o resto dos Estados-membros, porque veem a Hungria como uma força de bloqueio. Também veem que a Hungria é liderada por forças políticas que sentem alguma afinidade ideológica com determinadas correntes nacionalistas que Putin representa.
Aliás, deixa-me só interrompê-la, Ana, para também falar aqui de um detalhe interessante que é, em vésperas de eleições, há placares por toda a cidade de Budapeste, a capital húngara, com a cara de Peter Magyar, que é a oposição a Viktor Orbán, ao lado de Volodymyr Zelensky e Ursula von der Leyen, ou seja, isto são cartazes afixados pelo partido de Viktor Orbán, colando aqui a oposição ao resto da Europa. Portanto, parece que é um pouco a Hungria contra a União Europeia.
Exatamente. E eu penso que existe um descontento. Eu não conheço todas as dinâmicas internas de política interna na Hungria, mas aquilo que impera, no fundo, nas conversas ou nos tópicos destas eleições relativamente à política externa, é colar a oposição àquilo que são os interesses dos globalistas E a União Europeia representa essa identidade globalista. Viktor Orbán e a força política que ele representa será alguém que quer tentar proclamar ainda uma ideia mais nacionalista da Hungria, mais conservadora e dos chamados valores tradicionais e de família da Hungria. É uma ideia popular presente numa direita mais populista, que refere que existe uma elite globalista de burocratas destas grandes organizações internacionais que estão a fazer as decisões sobre os destinos económicos e de segurança dos países, e que a população deixa de ter verdadeiro poder democrático, porque são os burocratas em Bruxelas que verdadeiramente mandam naquilo que são os assuntos principais, internos e externos e de política internacional. Isso é uma ideia que é muito vendida nestas eleições, e de certo que se a oposição ganhar, parece que o próprio povo húngaro se sente mais bem representado por uma maior integração europeia. E também, penso eu, existe aqui uma espécie de reconhecimento que nas dinâmicas geopolíticas atuais, países pequenos e médios isolados, sem grandes alianças, perdem o rumo, não têm capacidade. Então há aqui um dilema muito explícito. A Hungria então ou continua num pendor mais isolacionista relativamente à União Europeia, o que significa mais dependente de uma influência russa, ou então integra-se na influência europeia. E eu, se fosse húngara, não tinha a menor dúvida de onde é que eu queria estar em termos de bloco colectivo de influência, que era a europeia, como é óbvio. Penso que muitos húngaros também partilham da minha opinião. Vamos ver agora o resultado das eleições.
Vamos ver no dia 12 de abril. Ana Cavalieri, muito obrigada pela sua análise neste Gabinete de Guerra e por se ter juntado a nós mais uma vez. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.