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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Por aqui, como já sabe, todos os dias analisamos as principais novidades daquilo que vai acontecendo nos dois maiores conflitos pelo mundo, não só na guerra na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Em cada dia contamos com um especialista. Hoje junta-se a nós o major general Isidro Morais Pereira. Bom dia, bem-vindo.

Muito boa tarde.

Hoje vamos falar em primeiro lugar da guerra da Ucrânia. Vamos olhar para a eleição, novamente, de Roberta Metsola como presidente do Parlamento Europeu. Ela que alertou para os ditadores na vizinhança e promete que a Ucrânia vai continuar no topo da agenda como prioridade para o novo mandato. Senhor major-general, esta reeleição de Roberta Metsola é uma garantia de continuidade do apoio europeu à Ucrânia nesta guerra?

É uma excelente notícia para a Ucrânia, e não apenas para a Ucrânia, mas para a causa da ordem mundial liberal, da ordem mundial baseada em regras em que nós vivemos no pós-Segunda Guerra Mundial e que queremos manter, porque é do nosso interesse não voltar ao tempo em que a força imperava sobre o direito. O mundo, a seguir ao grande desastre que foi a Segunda Guerra Mundial, a seguir à primeira, em que houve milhões e milhões de mortes, aprendeu pelos erros que cometeu e chegou à conclusão de que a velha lógica da anarquia absoluta e do direito dos mais fortes sobre os mais fracos tinha que ter os dias contados, e que teriam que se criar organizações internacionais que fossem capazes de regular os diferentes entre Estados ou coligações de Estados. Nós estamos justamente num momento em que esta lógica, em que esta evolução em termos sociais está a ser posta em causa pelos ditadores a que Roberta Metsola se refere. E infelizmente, eu julgo que ela não se refere apenas àquele que tem vindo a ser conhecido pelo eixo do mal, a Federação Russa e os seus aliados.

Nem apenas a Putin, não é?

Nem apenas a Putin, não se refere só a Putin e à Federação Russa, não se refere apenas ao Irão, que tem sido um grande aliado nesta guerra contra a Ucrânia, não se refere apenas à China, não se refere apenas à Coreia do Norte, mas julgo que ela, de uma forma mais subliminar, está a referir-se a alguns cavalos de Tróia que temos neste momento encravados na própria União Europeia e na própria NATO, designadamente à Hungria, protagonizada pelas últimas iniciativas do senhor Viktor Orbán, e também um pouco por Robert Fico, o homem que é agora o primeiro-ministro da Eslováquia, mas mais pelo primeiro. E eu julgo que é a eles que ela também se refere. Portanto, são notícias excelentes, porque Roberta Metsola, e se nós fizermos uma visão retrospectiva daquilo que têm sido as suas posições e, mais do que as suas posições, a sua força e a quantidade de vezes que já se deslocou, inclusivamente a Kiev, a mostrar o apoio claro e inequívoco da União Europeia, eu julgo que são excelentes notícias para a causa da Ucrânia. E é uma garantia a 100% de que a União Europeia vai continuar a apoiar o esforço de guerra na Ucrânia e a causa ucraniana? Não será bem assim, mas penso que é um passo nesse sentido, porque não é apenas Roberta Metsola que tem o leme na mão. No fundo, quem acaba por tomar as decisões acabam por ser os países, as grandes decisões, mas julgo que as lideranças na estrutura da União Europeia, quer neste caso Roberta Metsola, quer na próxima eleição, em que esperemos que Ursula von der Leyen também venha a ser eleita, eu julgo que por parte da União Europeia, e ainda bem que assim é, porque neste momento pairam algumas dúvidas sobre se o apoio norte-americano continuará caso as eleições em novembro corram de feição a Donald Trump. Eu não direi que o apoio dos Estados Unidos cesse à causa ucraniana, mas poderá haver aqui alguns contratempos. E é bom que a Europa se organize para se substituir, pelo menos temporariamente, enquanto esses contratempos não sejam resolvidos.

E é precisamente sobre isso, senhor major-general, que vamos falar agora, porque Viktor Orbán, o presidente da Hungria, disse hoje que caso Donald Trump seja eleito nas eleições norte-americanas, que vai rapidamente exigir a Kiev que se comecem negociações de paz com Moscovo. E aqui o rapidamente é mesmo, diz Viktor Orbán, que antes até da tomada de posse, provavelmente, Donald Trump vai querer fazer alguma coisa já em relação a isso. Acredita nessa proatividade e, já agora, no benefício dessa proatividade de Donald Trump em relação à guerra na Ucrânia?

Não me parece que seja exatamente como Viktor Orbán diz. Orbán, mal a Hungria tomou posse nos seus seis meses de atividade da presidência do Conselho Europeu, Orbán optou por agir de seu próprio mote, quer dizer, sem sequer consultar os restantes líderes dos outros países da União Europeia. Orbán optou por agir como pacificador, sem um plano de paz dele, Orbán não tem qualquer plano de paz. Orbán, no fundo Desde Kiev, a seguir vai a Moscovo, a seguir vai a Pequim, depois reúne-se com o putativo próximo presidente ou candidato à presidência dos Estados Unidos. Mas no fundo ele é o interlocutor do plano de paz da Rússia. No fundo, nós sabemos o que a Rússia pretende. E aquilo que o Sr. Órbán está a dizer é que o Donald Trump, muito possivelmente ainda antes da cerimónia de tomada de posse, que será só em 2025, como nós sabemos, poderá começar a colocar em cima da mesa algumas exigências que irão no sentido de respeitar um pouco aquilo que são as condições impostas pelo Kremlin. E são condições que vão exatamente contra aquilo que eu referi antes. Quer dizer, se for exigido à Ucrânia que entregue parte do seu território, e não estamos a falar de um pedacinho de território, estamos a falar de mais de 25% do seu território, porque inclusivamente partes dos oblasts que foram declarados como território russo e que a Rússia não controla, metade do oblast de Donetsk, quase metade do oblast de Zaporizhzhia, 35% do oblast de Kherson, o reconhecimento final a nível internacional da soberania da Federação Russa sobre a Crimeia. Portanto, é algo que neste momento é absolutamente inaceitável pelo executivo de Kiev. E a última sondagem que foi feita aos ucranianos, quase 70% dos ucranianos são completamente contra esta possibilidade, de forma declarada. Quer dizer, não me parece que esta solução tenha pernas para andar. Se Biden vai utilizar esta mesma fórmula e vai tentar obrigar, de alguma forma, Zelensky a aceitar essas condições, eu não me parece, até porque é preciso conhecer um pouco a forma como funciona o poder político nos Estados Unidos. É um regime presidencialista, naturalmente o presidente tem muito poder, mas poder a sério tem o Congresso norte-americano. E nós sabemos que mesmo no Partido Republicano, a quantidade de senadores e de congressistas que são a favor da causa ucraniana é muito significativo. Portanto, eu não creio que o próprio presidente norte-americano, se quiser impor condições draconianas à Ucrânia para que se faça a paz, eu não creio que ele vá ter o apoio do Congresso norte-americano, nem da Câmara Alta, nem tampouco da Câmara Baixa, porque Donald Trump sozinho não tem o poder todo. Aliás, eu recordaria que há uns tempos, quando se dizia que Trump pretendia que os Estados Unidos saíssem da NATO, eu recordaria que o Congresso norte-americano aprovou uma lei-travão. Neste momento são precisos dois terços da Câmara Alta e dois terços da Câmara Baixa para que os Estados Unidos saiam, por exemplo, da organização que nós conhecemos, fundada em 1949, e que tem sido garantia de paz no mundo, principalmente no mundo ocidental, que é a NATO. Portanto, não me parece que esteja tudo nas mãos de Donald Trump. Que Donald Trump possa, de alguma forma, tentar ser um interlocutor privilegiado para que se dê alguns passos mais seguros no sentido da paz. Agora, se Donald Trump, de alguma forma, alinhar com as propostas que são as propostas do Kremlin, eu acho que o mundo muda. O mundo muda, mas muda a sério, porque essas propostas entram em contradição absoluta com aquilo que é a Carta das Nações Unidas e o princípio da soberania dos Estados e a integralidade territorial e a manutenção das fronteiras tal qual como elas são reconhecidas internacionalmente. Portanto, se isso acontecer, estamos no início de uma nova ordem mundial e assistiremos, naturalmente, a uma deriva dos Estados Unidos fora dessa mesma ordem. Quer dizer, é algo que neste momento é difícil de imaginar. E depois há um outro aspeto que eu também gostaria de sublinhar.

Para avançarmos, senhor major.

E para avançarmos. Eu tendo vivido nos Estados Unidos e conhecendo razoavelmente bem esta realidade, tenho a noção que os Estados Unidos é um país em que há muitas instituições que são bastiões da democracia e defensores da liberdade e do império do direito sobre o direito da força. E estou-me a referir concretamente ao aparelho militar norte-americano. O aparelho militar norte-americano é poderosíssimo, tem uma influência enorme na sociedade norte-americana e eu não creio que Trump possa fazer seja aquilo que for contra a vontade dos seus generais. Esse é outro fator que temos de levar em linha de conta.

Senhor major, vamos olhar muito rapidamente para a guerra na Ucrânia, temos apenas três minutos, aliás, para a guerra no Médio Oriente, e vamos falar sobre as declarações da ministra israelita dos Colonatos e Projetos Nacionais. Falamos de Orit Strook, que hoje falou sobre a manutenção das tropas em Gaza. Relembro que é uma ministra da política mais de extrema-direita, é uma das ministras do governo de coligação que sustém Netanyahu como primeiro-ministro. Esta manutenção das tropas em Gaza é uma boa ideia ou é uma ideia que colhe apoios em Israel?

Vamos ver. O grande problema de Gaza são os reféns e aquilo que está a dividir neste momento a opinião pública israelita é a questão da negociação de um cessar-fogo tendo em vista a libertação dos reféns Há muita gente em Israel que acha que as hostilidades deveriam cessar no sentido de que, pelo menos, deveria haver os reféns que ainda estarão vivos, que já não serão muitos, nem ninguém julgo que tenha a noção de quantos estarão vivos, e pelo menos também a recuperação daqueles que estão mortos ou dos respectivos corpos. Esse tem sido o fator. Agora, penso que ninguém em Israel discorda de que a capacidade militar do Hamas deverá ser destruída. Quer dizer, é isso que está a acontecer. Eu relembraria que depois deste último ataque, que foi feito num campo de refugiados, onde presumivelmente estaria um dos líderes da fação armada das Brigadas Al-Qassam e também o próprio comandante da Brigada de Khan Yunis, e que presumivelmente estarão mortos. Mas entretanto também fontes da Arábia Saudita dizem que nesse caso já foi encontrado um substituto, que será o irmão de Sinwar, o irmão de Yahya Sinwar, o Muhammad Sinwar. Portanto, desde esse dia, não houve um único ataque por foguetes contra Israel. Isto significa, muito rapidamente, que Israel tem um dispositivo militar mais reduzido dentro da Faixa de Gaza e normalmente atua quando tem informações fidedignas de que o Hamas se poderá estar a reorganizar ou a reagrupar em determinados locais e aí leva a cabo ataques cirúrgicos, que muitas vezes, naturalmente, numa região como esta, e sendo que o Hamas procura refúgio no seio das populações, invariavelmente há danos colaterais e há populações que sofrem com este tipo de ataques.

Agora para fechar, senhor major, por favor.

Agora mesmo para fechar, no sentido de cumprir com aqueles que são os objetivos que foram fixados no início desta campanha, que se iniciou pouco depois de 7 de outubro com a invasão terrestre da Faixa de Gaza, é fundamental que as tropas israelitas continuem em Gaza até garantirem que, de facto, a capacidade militar do Hamas foi neutralizada ou pelo menos reduzida a tal ponto que num futuro, nem a próximo nem a médio prazo, possa constituir um perigo para Israel. Portanto, aí não há dúvida absolutamente nenhuma. Agora sobre a questão desta senhora, e não apenas ela, nós sabemos que no governo de Israel inclusivamente há extremistas que até acham que se o problema na Cisjordânia são os colonatos, então ocupe-se completamente a Cisjordânia, como nós ouvimos declarar hoje. E isso, de facto, também não é aceitável. Não me parece que seja aceitável à luz daquilo que são as leis internacionais.

Senhor Major-General Isidor Moraes Pereira, agradeço mais uma vez a sua presença aqui no Gabinete de Guerra. Todos os dias, amanhã estamos de volta depois das 16:10, como é habitual. Muito obrigado. Até uma próxima.

Muito obrigado, eu. Até à próxima.