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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Eu sou o Martim Madeira e hoje contamos com a análise de Luís Tomé, professor catedrático e diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e também investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais. Boa noite, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Olá, boa noite.

Vamos começar com a situação no Médio Oriente e mais especificamente com o helicóptero que foi abatido no estreito de Ormuz. Donald Trump responsabiliza o Irão, apesar de ainda não termos muitas informações sobre o incidente e não sabermos se de fato foi o Irão ou não. O Irão também ainda não respondeu. E o presidente norte-americano promete retaliar, diz que os Estados Unidos têm de responder a este alegado ataque iraniano. Trump tem dito que os dois países estão quase a chegar a um acordo. JD Vance também disse hoje que um acordo está quase a ser alcançado no âmbito nuclear. Esta promessa de retaliação, não sabendo ainda se foi o Irão ou não a abater este helicóptero, não estraga um bocadinho as contas para um acordo que supostamente vai ser assinado em breve?

Sim, é absolutamente contraditório, mas quando o presidente dos Estados Unidos assume hoje que a responsabilidade é do Irão e que os Estados Unidos não podem deixar de responder a este ataque, fica sem grande margem para não retaliar. O que é contraditório, por um lado, com esse otimismo mais uma vez demonstrado que dentro de dois ou três dias chegarão a um acordo de entendimento com o Irão, mas também é contraditório com o que ele terá pedido a Netanyahu para não retaliar contra os ataques diretos do Irão no norte de Israel pelos ataques que a seguir aos ataques que Israel fez sobre Beirute, no Líbano. Portanto, tudo isto é bastante contraditório e não sabemos, de facto, se isto faz parte da lógica comunicacional de Donald Trump com dois sentidos: por um lado, para afetar os mercados, que aliás reagiram com baixa do preço de petróleo quando ele se mostrou otimista em alcançar um acordo em dois ou três dias, como reagiram depois logo com a subida dos preços do petróleo perante essas ameaças renovadas ao Irão e, por outro lado, se também não é muito no sentido de uma mensagem direcionada aos seus descontentes apoiantes republicanos, em particular MAGA, que vêm dizendo que no fundo a estratégia da administração Trump não é a favor dos interesses dos Estados Unidos, mas é quase em exclusivo a favor dos interesses de Israel. E portanto, no meio de toda esta comunicação contraditória do próprio presidente Donald Trump, não sabemos exatamente o que é que ele vai fazer. Agora ele tem um dilema, porque esta resposta que ele vai ter que dar ao Irão, acho que não vai poder fazer de outra forma, tem que ser bem calibrada para evitar que, definitivamente, aquilo que tem sido a aposta prioritária desta administração nos últimos tempos não ponha em causa o tal cessar-fogo e as negociações que prosseguirão com o Irão. Uma resposta demasiado violenta contra o Irão e obviamente provocando uma retaliação iraniana pode pôr de facto fim àquilo que são as negociações com vista a um acordo.

Ainda por cima também falava do descontentamento dos norte-americanos e há as pressões também dos norte-americanos a dizer que de facto é Israel que controla os Estados Unidos. E eu queria falar exatamente disso. Inclusivamente, Trump disse hoje que Netanyahu faz o que Trump quiser. Basta o presidente norte-americano dizer que Israel faz. Foram estas palavras de Donald Trump. Não tem parecido o caso ultimamente. Isto é um afago próprio no ego por parte de Donald Trump ou é uma realidade?

Uma realidade não é, porque nós percebemos que os Estados Unidos têm aquilo que se costuma chamar muitos leverages sobre Israel e sobre o governo Netanyahu, quer do ponto de vista do importantíssimo apoio diplomático perante um Israel que se está a tornar cada vez mais um Estado pária, e nós vemos inclusivamente países europeus e tradicionais parceiros de Israel a distanciarem-se, quer obviamente do apoio da assistência militar. E portanto, os Estados Unidos e Donald Trump têm aqui um leverage importante sobre a administração israelita, sobre o governo israelita. O problema é que isso, e às vezes até estas passagens que nós vemos publicamente de ameaçar e de viras com Netanyahu, não se concretizam nas ações. E é por isso que se é verdade que a insistência de Trump em alcançar um acordo com o Irão e manter o cessar-fogo afasta e cria divergência em relação a Netanyahu, que não quer, por um lado, parar a guerra com o Irão e obviamente também contra o Hezbollah no Líbano, isto aparentemente aprofunda as divergências entre Trump e Netanyahu, mas ao mesmo tempo surge a hipótese de isto ser muito performativo para mostrar publicamente que Donald Trump tem alguma tutela sobre Israel e que aquilo que se passa no Médio Oriente é conduzido por Estados Unidos e pelo presidente Trump em favor dos interesses dos Estados Unidos, que portanto não seguem aquela suspeita de que a superpotência, afinal de contas, tem uma política externa condicionada pelo seu protetorado Israel.

Mas parece-lhe que estas iniciativas de Trump de vir a público é um mostrar quem manda, não é? Isto é Donald Trump a tentar recuperar o controle e a tentar recuperar a narrativa ou tentar combater a narrativa de que Israel controla os Estados Unidos e não ao contrário?

Sim, claramente. Isso aliás é desde o início, desde 28 de fevereiro, que nós vemos isso. Já tinha acontecido um pouco nos bombardeamentos do ano passado, mas agora é mais claro quando nós vemos não é apenas o presidente Trump, vemos o vice-presidenteO secretário da defesa ou da guerra, sempre na mesma linha e sempre a enfatizar que aquilo que os Estados Unidos estão a fazer e vão fazer, e até o hipotético acordo que estão prestes a alcançar, será sempre nos interesses dos Estados Unidos. Esse sublinhado é precisamente para dizer que os Estados Unidos estão a atuar, esta administração, em função dos interesses americanos e não em função dos interesses de Israel. E em grande parte, este tipo de sublinhado é para acalmar os constatares dentro do movimento MAGA e de republicanos que estão convencidos, e se calhar cada vez mais convencidos, até pela impopularidade desta guerra, de que esta administração não só não tem objetivos claros nem estratégia, como está de facto condicionada pelos interesses de Israel. Mesmo aquilo que é a tentativa de fazer avançar as negociações rumo a um acordo com o Irão está permanentemente a ser boicotada, torpedeada por Israel e pelo governo Netanyahu. E se depois não há mais do que algumas expressões de indisposição por parte do presidente Trump, tudo o resto se mantém. Netanyahu, aliás, várias vezes contradiz aquilo que Trump diz, porque depois desses avisos e ameaças que Trump publicamente transposto lhe teria feito, Netanyahu vem dizer que o próprio presidente Trump compreendia a necessidade do que Israel estava a fazer na sua legítima autodefesa. Isto é uma contradição clara, além de que Donald Trump diz para não retaliar e ele retaliar contra o Irão, diz para parar os ataques no Líbano, pois estes têm continuado permanentemente. Há aqui uma degradação da autoridade do presidente dos Estados Unidos e uma incapacidade para parar Israel e o governo Netanyahu de continuarem independentemente a fazer prosseguir a sua agenda e os seus objetivos.

E também é importante relembrar que, por exemplo, no início da guerra no Irão, houve um membro do staff de Joe Biden que já tinha dito também que Israel tentou arrastar, na altura da administração Biden, os Estados Unidos para uma guerra contra o Irão. Biden rejeitou. Entretanto, esta administração acabou por pegar nesta guerra e é também uma ameaça que Netanyahu já fala há mais de 30 anos, que fala numa arma nuclear no Irão, que nunca se chegou a verificar durante 30 anos, mas que tem estado a dar essa ameaça. Também queria falar um bocadinho sobre o Líbano e tinha dito que os ataques israelitas continuam e o exército israelita diz agora também que está pronto para realizar ataques no Irão. Trump ontem também revelou que disse a Netanyahu na segunda chamada que teve, que caso Israel continuasse os ataques, Israel ficaria sozinha no Médio Oriente e nesta guerra. Não parece estar a ser o caso mais uma vez. É mais uma repreensão que vai passar em branco e que Israel vai ignorar por completo, mais uma negação da autoridade de Donald Trump.

Parece evidente, porque se nós temos o ministro da Defesa, as Forças Armadas de Israel, as IDF e vários membros do governo a dizerem que vão continuar as ações no Líbano, em particular no sul do Líbano, isto contraria aquilo que aparentemente Donald Trump vem instruindo o governo israelita a fazer. Claramente, o Líbano tornou-se um quadro de disputa indireta de um outro conflito maior, porque o Irão está a utilizar o Líbano também como novo elemento que tem em cima da mesa das negociações, porque nós começámos a ver uma estratégia de mera sobrevivência do regime iraniano, depois uma clara instrumentalização da questão do Estreito de Ormuz, depois introduz a questão do conflito de Israel com o Líbano, depois colocou a linha vermelha e usou a força perante o ataque a Beirute, a capital do Líbano. Agora já quer a retirada, como o Hezbollah também exige, total das forças israelitas do sul do Líbano e o fim desse conflito, vai certamente introduzir Gaza e a Cisjordânia.

Também o Iémen, com o Estreito de Bab-el-Mandeb.

O Iémen, o Estreito de Bab-el-Mandeb. Nós vamos ver um crescendo do lado iraniano de uma postura defensiva. Há aparentemente até uma mudança da estratégia iraniana que está a querer reequilibrar o que tinha perdido em seu desfavor, equilíbrios no Médio Oriente, no caso favorecendo Israel. E neste contexto das negociações de cessar-fogo ou de conflito congelado, o Irão está em crescendo. É por isso também que me parece que Donald Trump, se diz e responsabiliza publicamente o Irão de fazer este ataque contra um Apache, um helicóptero americano, e se ameaça retaliar, não pode deixar de o fazer, até porque senão há linhas vermelhas que o Irão não pode continuar a pisar. O problema é que está ligado o conflito no Líbano, porque Israel também como não quer parar e acha precoce parar a guerra contra o Irão, de alguma forma manter o conflito contra o Hezbollah no Líbano, desrespeitando aliás aquilo que são as indicações da administração Trump, mantém sempre vivo o risco de regresso em larga escala ou larga intensidade do conflito entre os Estados Unidos e o Irão. E o xadrez é suficientemente complexo para aqueles que não têm muito interesse ou não têm interesse nenhum em fazer concessões e as negociações só significam levar a outra parte a capitular, isto favorece quem quer prejudicar um acordo e negociações de paz. E nessa primeira linha, temos o governo Netanyahu e aqueles que dentro do regime iraniano não querem qualquer tipo de concessão aos Estados Unidos.

Um jogo de estratégia um bocadinho difícil de perceber. Passamos agora da guerra do Irão para a guerra na Ucrânia, uma guerra que já dura há muito mais tempo, com uma dificuldade em resolver. Do outro lado também há um homem muito complicado, Vladimir Putin. A Comissão Europeia propôs hoje um novo pacote de sanções à Rússia centrado nos setores de maior impacto: energia, serviços financeiros, criptomoedas. Ainda querem proibir também combatentes das Forças Armadas russas de entrar na União Europeia. Especialmente esta parte da energia é de um grande impacto também porque os oleodutos na Rússia estão a ser bombardeados, há um risco de crise energético na Rússia. Isto é a União Europeia a perceber que a Rússia, como o Zelensky disse hoje numa entrevista, está mais fragilizada e sozinha, e então a União Europeia está a tentar sufocar Putin para levá-lo à mesa de negociações?

Sim, esse é o argumento da presidente da Comissão Europeia quando anuncia esta proposta de mais um, 21º pacote de sanções à Rússia com alguns aspectos inovadores. Um desses é mesmo a proibição de entrada no espaço Schengen, e portanto também da União Europeia, de combatentes que têm estado nesta agressão à Ucrânia. Mas a questão de fundo, e por isso é que a Comissão Europeia gostava que isto fosse aprovado até 15 de julho, tem que ver com este novo mecanismo dinâmico de preço de petróleo russo. O que a Comissão Europeia propõe é, em vez da revisão prevista para 15 de julho, que implica aceitar um pagamento superior apenas 15% abaixo do preço médio, como os preços do petróleo subiram por causa da guerra no Médio Oriente, nós iríamos pagar mais alto esse valor. O que a Comissão Europeia propõe é adiar essa revisão de 15 de julho para janeiro de 2027, mantendo o teto do preço como está agora. Estamos a falar de cerca de $44 por barril. Independentemente da subida dos preços do petróleo no mercado internacional, não se paga mais à Rússia para a Rússia não beneficiar desse aumento. Mas é um contexto, como dizia, e bem, que revela um momento favorável nesta fase à Ucrânia, e isso é visível na distribuição do presidente Zelensky e nesta nova diplomacia revigorada que tem exibido, porque ainda hoje uma cimeira de países nórdicos e bálticos manifestam expressamente apoio à adesão da Ucrânia, tanto à União Europeia como à Aliança Atlântica.

Também com a vitória das eleições na Arménia, de um partido pró-europeu ontem, também mostra esta força pró-Ocidente face à Rússia.

É mais uma prova de que as coisas não estão a correr bem ultimamente à Rússia, não só no terreno, porque alguns dados dizem que a Ucrânia recuperou 100 quilômetros quadrados em maio, como há um número muito significativo de baixas do lado russo, a situação económica degrada-se. Mas por exemplo, hoje Zelensky também diz que teve uma conversa telefónica muito positiva com os enviados do presidente Trump, o Witkoff e o genro Kushner. E a presidente da Comissão Europeia veio dizer que espera que na próxima semana seja aberto o primeiro pacote de negociações com vista à adesão, que está relacionado com o Estado de Direito e com as reformas democráticas da adesão da Ucrânia e da Moldova à União Europeia. Basicamente está a abrir a porta para a próxima fase do processo da adesão, abrindo formalmente as negociações. E isto depois do tal encontro com o E3, os líderes do Reino Unido, da França e da Alemanha, que na prática está tudo a preparar-se para a cimeira do G7 na próxima semana, 15 de junho em França, e da NATO na Turquia, em Ankara, no início de julho. Portanto, é uma fase que Zelensky e os seus aliados europeus pressentem como para atingir pelo menos o cessar-fogo, pressionando ainda mais Vladimir Putin, que tem dificuldades de todo o género, pressentem que é o momento adequado. Agora há aqui um fator fundamental que é uma incógnita ainda, que é como é que a administração Trump vai lidar com a Rússia de Putin, com a Ucrânia que afinal mostra ter cartas e com seus aliados europeus.

Sim, a ver vamos também Putin sugeriu o patriarca de Jerusalém para liderar as negociações destes dois países. Poderia ser uma opção mais neutra também, o Vaticano é um Estado mais neutro, se calhar Putin poderia aceitar mais esse lado. Mas queria lhe fazer uma pergunta e que me respondesse muito rapidamente. Só lhe pergunto porque Zelensky disse hoje que os meses de junho e julho vão decidir o futuro da guerra. Concorda?

É difícil, o que podemos dizer é esperar para ver. Agora, de facto, os últimos dois meses correram francamente bem, quer do ponto de vista operacional no terreno, quer do ponto de vista diplomático, apesar da distração que todos temos tido, a começar pela administração americana e até países europeus, com o Médio Oriente. E portanto, se a Ucrânia conseguir continuar a fazer ataques em profundidade, na retaguarda, no apoio logístico, centrais energéticas e até de petróleo na Rússia, e se a Rússia continuar a mostrar-se, por um lado, vulnerável e, por outro, incapaz de retomar a iniciativa, pois estes dois meses podem ajudar àquela perceção que existe neste momento de que o tabuleiro começa a ficar mais favorável do ponto de vista militar e do ponto de vista diplomático à Ucrânia e, portanto, neste caso, a Ucrânia, tendo cartas, terá que levar Vladimir Putin a aceitar finalmente fazer concessões, coisa que até agora nunca quis fazer.

Chegamos ao final do nosso tempo. Obrigado, Luís Tomé, professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e também investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais. Muito obrigado por esta análise no Gabinete de Guerra.

Eu é que agradeço. Boa noite.

Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.