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Abrimos a porta do Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos alguns dos principais conflitos ativos do globo, bem como as situações mais tensas na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno Cardoso Reis, seja muito bem-vindo ao Gabinete de Guerra. Vamos começar por falar do Irão. Vladimir Putin esteve ao telefone com o presidente iraniano. Bruno, a minha pergunta é: que papel pode ter a Rússia na situação que se vive atualmente no Irão?

Olá, boa tarde a todos. A posição que a Rússia tem é de aliada do regime iraniano. Como era também aliada do regime de Assad na Síria. Há realmente, sobretudo como resultado da guerra da Ucrânia, uma convergência bastante clara e pública de interesses e uma cooperação crescente em várias áreas, inclusive na área econômica, mas também na área militar, entre o Irão e a Rússia. Isso não foi sempre assim, mesmo com o regime islâmico dos Aiatolás a partir de 1979, houve momentos de grande tensão. O regime de Khomeini fez uma campanha de repressão brutal contra o Partido Comunista Iraniano, que era historicamente relativamente forte, bastante mais repressivo, mais violento que no tempo do Xá, e isso também criou tensões, e depois todo aquele apoio ao fundamentalismo islâmico por parte do Irão também criava desconfianças na União Soviética e depois na Rússia, mas de facto houve esta convergência. Agora, daí a dizer que a Rússia vai ter aqui um papel decisivo, acho que não estou seguro que seja assim, ou que até que a Rússia tenha aqui algum interesse em desempenhar um papel muito público. No fundo, acho que não irá muito para além disto, que é manifestações públicas de apoio ao regime, apelos à calma, apelos a que não haja intervenção de outras potências, nomeadamente dos Estados Unidos ou de Israel, que possam ameaçar o regime iraniano. Mas não me parece que a Rússia vá aqui correr grandes riscos para defender o regime dos Aiatolás ou que pudesse ser muito eficaz se quisesse fazer isso, porque como vimos no caso da Síria, em que havia até uma presença militar russa, isso acabou por não impedir a queda do regime da família Assad.

Bruno, entretanto, ainda no Irão, os protestos prosseguem, mas aparenta ter acalmado muita da agitação. É essa a leitura que fazes, Bruno? E será que com esta calma, os Estados Unidos não irão atacar?

Acho que não podemos ter certezas sobre o comportamento norte-americano, sobretudo com um presidente como Donald Trump, porque há aqui pressões em sentido contrário. Por um lado, o Trump valoriza muito os países do Golfo, estes petroestados. Sabemos que houve pressões para ele não atacar o Irão, porque isso iria potencialmente desestabilizar a região, criar problemas ao escoamento de petróleo em segurança no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz. Por outro lado, o regime iraniano é visceralmente anti-americano, isso faz parte da sua identidade desde 1979. Utiliza esta linguagem do grande Satã para se referir aos Estados Unidos. E já vimos que no passado Trump mostrou-se disposto a atacar o Irão mais do que outros presidentes americanos. Eliminou o líder da Guarda Revolucionária, o general Soleimani, no seu primeiro mandato, e agora no segundo mandato, fez este ataque com Israel contra o programa nuclear. Portanto, eu não consigo ter certezas. Parece-me que neste momento os sinais são de que Trump está mais inclinado para não avançar militarmente, até porque as declarações que tem feito parecem, no fundo, estar a arranjar desculpas para não cumprir aquilo que ele pareceu ter prometido, que é: se houvesse uma repressão violenta, e basicamente o que nós assistimos foi um banho de sangue, o que estamos a assistir é um banho de sangue no Irão, mais de 2 mil mortos, provavelmente. Se isso acontecesse, Trump tinha dito, haveria uma ação militar dos Estados Unidos contra o regime. E portanto, agora o que ele está a dizer é prometer que não vai haver execuções ou que adiaram as execuções que estavam previstas. Na verdade, não houve nenhuma comutação de pena de morte, mas parece ter havido o adiamento, pelo menos, de uma execução e, portanto, aparentemente, Trump está a agarrar-se a isso, mas isso pode ser tudo também uma manobra de desinformação, como ele fez na véspera também do ataque. Disse que ia demorar umas semanas a pensar no assunto e depois passado poucos dias houve o ataque contra o Irão. Sobre a questão de saber se isto é o fim deste movimento de protesto, acho que temos de esperar. Temos poucas informações. O Irão é um país enorme. Aparentemente, o regime conseguiu controlar com este banho de sangue a situação na capital para já, mas uma das coisas que caracterizou este movimento foi que foi muito mais amplo, muito mais disperso em centenas de localidades. Portanto, vamos ver se fora da capital, o movimento se mantém ou não. Agora, o grande problema, o grande desafio para um movimento deste tipo é que realmente se não houver fraturas no regime, se não houver deserções de fações, se não houver polícia e militares a recusarem-se a disparar ou a passarem até pro lado dos militantes dos manifestantes, como aconteceu em 1979, dificilmente um regime como este cai, ou seja, um regime que está disposto a matar a sua população para se manter no poder consegue resistir durante muito tempo, mesmo que seja muito impopular. Vimos isso, por exemplo, na Venezuela ou vemos isso, por exemplo, em Cuba.

Bruno, ainda no Médio Oriente e voltamos a falar de Donald Trump, ele que disse que o Conselho de Paz para Gaza está formado. A minha pergunta é: quais são, Bruno, os principais desafios que vai ter pela frente?

Os principais desafios que tem pela frente, que são os desafios cruciais para se passar realmente pra segunda fase, isto foi anunciado como o início da segunda fase mais ambiciosa do plano de paz, não é nomear mais pessoas para, à partida, administrar em Gaza. O grande problema é conseguir que o Hamas desarme voluntariamente, abandone as armas voluntariamente, sendo o Hamas um movimento armado, de resistência armada, isso faz parte da sua identidade. E de fato, os sinais que temos é que o Hamas continua a recusar-se a fazer isso. E depois, e em função disso, é conseguir que haja forças de manutenção de paz que poderiam criar as condições pra esta administração agora nomeada, de fato, ter alguma capacidade para controlar efetivamente Gaza e exercer com alguma segurança as suas atividades e conseguir começar a reorganizar, reconstruir a vida normal em Gaza. Porque realmente a maior parte dos países mostraram alguma disponibilidade de princípio para fazer parte desta força internacional, estão a insistir que estão dispostos a fazer manutenção de paz, mas não imposição de paz, ou seja, não estão dispostos a ir forçar o Hamas a desarmar só ir combater o Hamas. E, portanto, esses parecem os desafios cruciais e esses continuam a estar mais ou menos no mesmo pé que estavam aqui há uns dias ou há umas semanas atrás.

Bruno, vamos avançar, dar destaque à Gronelândia neste gabinete de guerra. Está a ser feito um reforço militar por parte da Europa e há ainda mais conversas por parte dos Estados Unidos e ainda mais encontros durante o dia de hoje. Esta presença europeia reforçada pode ter algum tipo de efeito dissuasor? O que é que há aqui ainda em cima da mesa que possa trazer mais informações sobre a questão Gronelândia?

E tivemos, entretanto, aliás, referido no noticiário antes do gabinete de guerra, aparentemente esta ameaça há poucos minutos de Donald Trump que poderia avançar com sanções contra quem se opuser à anexação da Gronelândia, que é mais uma ameaça absolutamente extraordinária e inaceitável, como aliás disse, pelo menos implicitamente, o nosso ministro da Defesa. Realmente, isto não é um comportamento de um aliado em relação a outros aliados. E, portanto, eu diria que a boa notícia hoje é que há realmente um encontro entre congressistas republicanos e democratas, e portanto entre os parlamentares norte-americanos e também deputados dinamarqueses e da Gronelândia, para passar esta mensagem, que é a maioria dos parlamentares norte-americanos, democratas e republicanos, opõem-se à anexação, muito menos uma anexação pela força. Também a senadora do Alasca, aliás, do principal território ártico dos Estados Unidos, também veio deixar claro isto mesmo, que a esmagadora maioria dos americanos opõem-se à anexação da Gronelândia, mesmo sem ser pela força, mesmo que seja voluntária, só à volta de 17% é que aceitariam isso e praticamente 90% rejeitam a ideia de uma anexação pela força. E, portanto, espero que esse tipo de pressão da opinião pública dos parlamentares norte-americanos possa ter algum efeito sobre Donald Trump, mas não é garantido que seja assim. Aparentemente, pelo menos até hoje, até há poucos minutos atrás, não estava a ter aparentemente esse efeito. Agora, eu acho que é muito importante realmente este reforço de presença militar europeia. Por um lado, permite responder àquilo que é o pretexto para estas ameaças, que é a ideia de que a Gronelândia não está suficientemente defendida face às ameaças russas ou chinesas. As ameaças chinesas são completamente inexistentes, portanto, isso é um completo disparate. Não há nenhuma presença militar chinesa nesta região há anos e anos, não há basicamente registro disso acontecer. E em relação à Rússia, também não tem acontecido em anos mais recentes. Eventualmente poderá haver submarinos nucleares russos na zona do Ártico, mas os submarinos nucleares não são pra atacar a Gronelândia, seriam eventualmente para atacar os Estados Unidos. E, portanto, realmente nada disto faz nenhum sentido. Em certo sentido, é um desperdício de meios termos que estar a enviar tropas europeias para dissuadir, pra deixar claro que não será possível aos Estados Unidos entrar na Gronelândia sem oposição, sem a oposição da Dinamarca e dos seus aliados europeus, mas aparentemente isso é indispensável. E, portanto, acho que desse ponto de vista é útil face a estas ameaças completamente descabidas de Donald Trump.

Bruno, é uma situação que certamente vai continuar a marcar a geopolítica mundial. Entretanto, na Ucrânia, na guerra entre a Ucrânia e a Rússia, mantêm-se os ataques russos às infraestruturas energéticas com o objetivo de deixar os ucranianos em temperaturas abaixo de zero. E Bruno Cardoso Reis, esta não é a primeira vez que o frio é utilizado como arma por parte da Rússia.

Sim, a famosa ideia do General Inverno, como uma espécie de aliado da Rússia, seja no combate às invasões napoleônicas no início do século XIX, seja depois contra a invasão nazi também. Mas enfim, aí estávamos a falar de usar o inverno, as condições climatéricas, o fato das tropas russas estarem mais bem equipadas e mais habituadas também a lidar com esse frio extremo do que os seus inimigos. Portanto, estávamos a falar de usar isso contra forças invasoras, contra tropas de outros estados Aqui estamos a falar de usar o inverno contra a população civil, supostamente num estado irmão da Rússia, supostamente, e é esse o argumento da Rússia, os ucranianos, na verdade, são uma espécie de pequenos russos que estão a ser enganados pelo maléfico Ocidente, mas aparentemente nem isso impede, não tem impedido nesta guerra, que de facto a Rússia vise liberadamente alvos civis, ataque de forma indiscriminada zonas habitacionais e vise de forma muito liberada, de facto, estas infraestruturas críticas que são cruciais para a sobrevivência da população civil num contexto, num clima em que realmente a questão do aquecimento, nomeadamente, é absolutamente vital para a sobrevivência. Os ucranianos mostram sempre enorme resiliência, enorme heroísmo, sejam os militares, seja a população civil, portanto, têm conseguido responder, improvisar respostas, usar geradores, usar lenha, procurar recuperar o mais depressa possível a rede elétrica, mas realmente é uma situação extremamente difícil para a população ucraniana, tanto mais quanto, segundo Zelensky, também houve alguns problemas com atrasos no fornecimento de munições para os sistemas antiaéreos, portanto, isso obviamente aumenta a vulnerabilidade da Ucrânia. Aparentemente, o problema já estará resolvido ou pelo menos atenuado, mas realmente é muito importante no meio de todas estas diversões, todas estas outras questões, não esquecer que a invasão russa da Ucrânia continua.

E que é já o conflito mais longo da Rússia desde sempre?

Sim, é o conflito mais longo desde a Grande Guerra do Norte, que opôs a Rússia à Suécia no início do século XVIII, até 1721. Mas de facto, nos últimos séculos é o conflito mais longo da Rússia, Rússia como Estado ou de Rússia como parte mais importante da União Soviética, é realmente o conflito mais importante e também, de longe, o mais mortífero, se excetuarmos a Segunda Guerra Mundial. Portanto, é realmente um conflito extremamente mortífero e que tem este dado extraordinário, que a Rússia, que já é o maior país do mundo, de longe, que é um país com imensos recursos e com muito pouca população, com uma densidade populacional muito baixa e com uma população em contração muito acelerada, em envelhecimento muito acelerado, o que conseguiu com esta guerra foi ter provavelmente em torno de um milhão de baixas, mortes e feridos graves, e ter em torno de um milhão de pessoas que fugiram da Rússia para não serem forçados a combater nesta guerra de Putin. E portanto, do ponto de vista dos interesses da própria Rússia, acho que é bastante evidente que esta guerra é realmente absolutamente desastrosa, mas para o regime, parece ser uma questão de vida ou de morte, para o regime de Putin.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigado pela tua análise. É o ponto final no Gabinete de Guerra, hoje com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. O Gabinete de Guerra fica, como sempre, também disponível em podcast.