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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Estamos no programa em que analisamos os conflitos em curso, com especial destaque neste período para o conflito no Médio Oriente. Eu sou o Miguel Cordeiro, comigo em linha está João Albuquerque, especialista em relações internacionais. João, muito boa noite. Vamos começar com este período de pausa que está a acontecer no Médio Oriente, nos bombardeamentos, sabendo que há ataques pontuais que ainda acontecem em algumas regiões. Mas analisando aquilo que está a acontecer entre ontem e hoje e o que já tem sido dito sobre estas negociações, podemos efetivamente perspetivar um entendimento para os próximos dias?
Olá, Miguel, e olá aos ouvintes da Rádio Observador. Aquilo que é mais assinalável, se há alguma constante ou alguma previsibilidade naquilo que é o comportamento de Donald Trump, é exatamente o fato dele ser permanentemente errático e com isso trazer um fator de grande imprevisibilidade, não só naquilo que ele vai dizer, mas também em nós conseguirmos perceber se as ações acompanham as palavras. Nós tivemos vários exemplos disso nestes últimos quatro anos de guerra na Ucrânia, com vários avanços e recuos e com, de certa maneira, uma diferenciação entre aquilo que Donald Trump dizia e depois aquilo que era efetivamente o comportamento dos Estados Unidos na arena internacional em relação à Ucrânia. E estamos agora a ver novamente este tipo de comportamento em relação ao Irão. Donald Trump tinha, numa primeira fase, e acho que estamos todos recordados, há uns meses ter anunciado com grande pompa e circunstância de que as capacidades militares do Irão, nucleares em particular, estavam dizimadas e que, portanto, com a operação especial que tinham realizado, tinham conseguido alcançar esse objetivo, para poucos meses depois invadirem de fato o país, no meu entender, totalmente pressionados pela ação de Israel, e envolverem-se no conflito de uma forma direta com o ataque direto ao país. Isto obviamente demonstra grande incerteza, no meu entender também alguma incapacidade de leitura, digamos assim, até para não ser demasiado duro nas palavras, mas alguma incapacidade de leitura da cúpula de decisão militar americana neste momento, na interpretação que faz da capacidade de resistência e da capacidade defensiva do Irão, mas também de uma capacidade histórica de resistência do próprio povo, com uma história milenar que todos conhecemos.
Sendo que Donald Trump hoje esteve basicamente a falar sobre estas negociações. Tem aqui algumas expressões curiosas à moda de Donald Trump. Primeiro disse que os líderes já se foram todos no Irão, que ninguém sabe com quem há de falar, mas que, na verdade, os Estados Unidos da América estão a falar com as pessoas certas. Mais uma contradição, diz que ninguém sabe com quem está a falar, mas depois diz que está a falar com as pessoas certas. E diz também Donald Trump que os Estados Unidos da América estão neste momento em negociações com o Irão, que começou a falar com sensatez quanto a armas nucleares. Ficam algumas dúvidas sobre o que interessa efetivamente aos Estados Unidos da América e a Israel para se poder chegar a um acordo. Mas Donald Trump, o que tem dito entre ontem e hoje é que parece que está a ficar satisfeito com aquilo que está a acontecer. E já ontem Netanyahu também disse que Donald Trump estava inclinado para chegar a um acordo.
Claro, isto parece denotar, e de certa maneira traz-nos de volta à sua primeira pergunta, parece denotar alguma incoerência ou pelo menos a confrontação com a realidade acaba por levar Donald Trump a tomar outro tipo de decisões. Eu acho que efetivamente as consequências da invasão, quer do ponto de vista militar direto no terreno e as repercussões que isto obviamente pode ter para o envolvimento militar dos Estados Unidos, quer as consequências económicas que todos nós estamos já a sentir com o aumento do preço do petróleo e da energia e todas as consequências que daí derivam, em particular do aumento dos preços dos produtos e da produção, etc., juntamente com o facto de estar a ter pela primeira vez em muito tempo uma rutura clara na sua base de apoio mais tradicional, mais vincada, de oposição à decisão do presidente de avançar com esta operação, levaram Donald Trump a recuar, de certa maneira, com as intenções que tinha demonstrado inicialmente, que era efetivamente destruir completamente a capacidade militar iraniana e acabou por avançar no sentido, falava-se da hipótese de atacar algumas infraestruturas energéticas cruciais do país e depois acabou por recuar quando percebeu o impacto que isso poderia ter, não só por todas estas questões que eu dizia, mas também as hipóteses que percebeu que o Irão tinha de retaliação aos militares americanos na região ou até de mais longo alcance. Isso, obviamente, levou a uma mudança de estratégia de Donald Trump.
Enquanto se discute este possível cenário de um acordo de negociações entre Estados Unidos da América e Irão, o Wall Street Journal hoje avança que o Pentágono prepara-se para ordenar o envio de 3 mil paraquedistas para o Médio Oriente. O New York Times já tinha noticiado esta segunda-feira que o Pentágono estava a considerar a mobilização de 3 mil soldados. E agora diz o Wall Street Journal que serão paraquedistas e que essa ordem estará muito iminente. Cita oficiais não identificados que confirmam essa ordem escrita para a mobilização desta unidade a ser emitida nas próximas horas. Que sentido fará este envio de 3 mil paraquedistas, 3 mil militares para o Médio Oriente por parte dos Estados Unidos da América? E que sucesso pode efetivamente ter os Estados Unidos numa operação destas com 3 mil paraquedistas?
Eu diria que acima de tudo, custa perceber quando estávamos ainda agora a discutir esta ideia de que o Hamas estaria satisfeito com esta pausa no conflito e com as possibilidades que isso abriria de avançar com negociações diplomáticas e de resolução do conflito de outra forma. Eu não quero colocar de maneira nenhuma em causa a notícia do Wall Street Journal, não tenho quaisquer fontes para o fazer, nem justificação para o fazer. Efetivamente, não é de desconsiderar a hipótese de os Estados Unidos aumentarem a sua presença militar na região e prepararem-se, mesmo que esse envio não seja direto para entrar no território iraniano, para serem colocados em bases militares próximas como forma de dissuasão, ou pelo menos como forma de pressão sobre o Irão, demonstrando reais intenções dos Estados Unidos em permanecerem ativos no conflito e não permitirem que o Irão tenha a veleidade ou a ideia de que o conflito estará para terminar. Isto obviamente faz parte de estratégias e táticas de guerra que visam reforçar ou dar mais solidez à capacidade militar de cada um dos lados e, portanto, só as próximas horas nos poderão trazer mais segurança na decisão efetivamente tomada pela cúpula militar americana.
O dia de hoje também fica marcado por uma decisão do Líbano, que expulsou o embaixador iraniano e já há várias reações, vários países na região aplaudem. Há também já países europeus a aplaudir essa decisão, mas o Hezbollah não gostou nada, considera um pecado nacional e estratégico a expulsão do embaixador iraniano do Líbano. Vamos aqui por partes. Primeiro, o que levou, de facto, o Líbano a expulsar este embaixador iraniano e se isto também pode ajudar a atenuar os bombardeamentos israelitas, principalmente sobre esta região, e o que pode fazer o Hezbollah também, uma vez que está insatisfeito com esta decisão do Líbano.
De certa maneira, eu acho que precisávamos de fazer um pouco de zoom out à análise aqui e tentar perceber um pouco aquilo que está a acontecer na região. A mim parece-me evidente que há muitos anos que o principal prejudicado com a ação do Hezbollah são os próprios libaneses e o próprio Estado libanês, que obviamente se encontra numa situação muito difícil por não ter meios para combater a presença do Hezbollah no território e obviamente contava com o Irão como principal patrocinador e financiador dos esforços que o Hezbollah mantinha na região. E, portanto, obviamente, esta reação do Hezbollah é absolutamente natural no âmbito do quadro de alianças estabelecidas. Isto importa também porque temos visto alguns sinais, mais recentemente, da impaciência da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos com o continuar das ações hostis da parte do Irão e dos ataques que têm sido lançados aos seus países e obviamente as repercussões que isto tem do ponto de vista económico e da segurança do próprio país. E portanto, isto acaba por, na região, criar um ambiente de grande hostilidade à continuação que o Irão tem vindo a desenvolver, e nós não devemos ter nenhum problema em afirmar que o Irão tem sido um fator de desestabilização da região por todas essas ligações que foi tendo ao longo do tempo com o Hezbollah no Líbano, com o apoio à Síria e obviamente com o apoio também ao Hamas em Gaza. E, portanto, há aqui, de certa maneira, um fim de linha, um pressionar dos países da região que se sentem também ameaçados, não só pela ação de Israel e pelas invasões que tem feito, mas também pelo facto da grande instabilidade que o Irão provoca na região ao financiar estes movimentos terroristas que causam grandes instabilidades e dificuldades políticas, económicas e de segurança a todos estes países que com eles fazem fronteira.
Vamos falar ainda um pouco do conflito na Ucrânia, até porque hoje a notícia é que a Rússia lançou um dos maiores ataques diurnos desde o início do conflito. Neste caso, é apresentado um número: mais de 400 drones enviados contra a Ucrânia desde as 9h00. Durante a noite já se tinham registado também alguns ataques, 23 mísseis cruzeiros e sete balísticos contra a Ucrânia durante a noite. Atingiram pelo menos 10 locais em todo o país. Os ataques durante o dia concentraram-se em várias regiões da Ucrânia, incluindo a capital, mas focou-se essencialmente na região a oeste. Há relatos de locais atingidos em Lviv, a zona histórica de Lviv a ser bombardeada e a ser atingida. O que está aqui a fazer a Rússia? Qual é o objetivo da Rússia com este ataque em larga escala que acontece hoje em várias regiões da Ucrânia, mas muito concentrado também na região a oeste?
Se me permite, Miguel, a primeira palavra é de grande consternação pelas vítimas que estes ataques causaram e pelas pessoas que se encontram no território e que são vítimas destes ataques permanentes que duram há mais de quatro anos e que a Rússia nunca efetivamente cessou por completo e que assolam gravemente a vida de toda a população ucraniana. Portanto, a primeira palavra é precisamente de solidariedade, porque a vida torna-se absolutamente insustentável nestas circunstâncias. O segundo aspecto é que não há também, ou não parece haver muitas dúvidas neste momento, de que a Rússia É um dos principais vencedores do conflito que se abriu da frente do conflito que se abriu no Irão. Não só pela componente financeira, porque obviamente provocou ondas. Uma das reações que se verificou foi, de facto, alguns países procurarem restabelecer relações com a Rússia para procurarem conseguir importar as suas matérias-primas, as matérias-primas de que a Rússia muito depende para exportar, em particular o petróleo e o gás. E obviamente, isto dá um balão de oxigénio, uma almofada financeira grande à Rússia numa altura em que sabia que essas dificuldades eram muito sentidas. E depois há também, de certa maneira, o desviar de atenções, quer do ponto de vista diplomático, quer do ponto de vista mediático, quer também do ponto de vista político, permite uma amplitude de ação à Rússia e reforçar a sua ação militar longe, de certa maneira, dos holofotes mediáticos e intensificar a sua ação continuando a prosseguir os seus objetivos, que é obviamente a anexação da Ucrânia enquanto território. E portanto, nós não podemos perder o foco, de certa maneira, e neste aspecto, é mesmo como conclui a minha intervenção, nós não podemos perder o foco e a União Europeia não pode perder o foco de ser decisiva na ação e neste momento não está a ser por conta dos bloqueios que se verificam no Conselho, em particular da Hungria, que neste momento ultrapassaram todos os limites daquilo que era o comportamento normal e previsível de Viktor Orbán e que estão a causar grandes embaraços à capacidade de decisão da União Europeia e de apoio militar e financeiro à Ucrânia.
Com apoios que continuam suspensos por causa dessa posição da Hungria e num período em que estão suspensas as negociações que estavam a decorrer trilaterais entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos da América para se chegar a um entendimento, algo que pudesse dar um cessar-fogo a este conflito. João Querque, muito obrigado por esta análise neste Gabinete de Guerra. A análise aos conflitos está de regresso amanhã.