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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que damos destaque às principais questões geopolíticas que estão a marcar a atualidade. Hoje contamos com a análise da especialista em Relações Internacionais, Ana Cavalieri. Muito obrigado. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Muito boa tarde.

Boa tarde.

Vamos começar, Ana Cavalieri, por falar da situação no Médio Oriente. O Irão diz que as negociações com Omã sobre o Estreito de Ormuz estão em curso e que deverão prosseguir em várias rondas. Que futuro tem qualquer tipo de negociações no Médio Oriente sem a presença dos Estados Unidos?

Eu penso que os Estados Unidos têm uma participação, mesmo que não de forma absolutamente aberta ou pública. Isto porque, naturalmente, Omã está sempre em discussões com os Estados Unidos e são os Estados Unidos que têm as forças militares, nomeadamente portadores de aviões na área, que poderão então fazer qualquer bloqueio naval, nomeadamente a navios que querem aceder aos portos iranianos ou sair dos portos iranianos. Portanto, esse acordo entre Omã e o Irão tem de haver uma aceitação não só americana, mas por parte da comunidade internacional, porque naturalmente, se houver qualquer registro que implique portagens, independentemente do nome que se der às portagens, podem dizer que são pagamento de taxas por proteção marítima ou por trabalho administrativo, ou proteção ambiental, continuam a ser portagens que terão fins políticos, porque nomeadamente a China supostamente estará pronta para aceitar exceções a ser cobrada de portagem. Ou seja, o Irão quase que politicamente iria deixar a China poder utilizar o Estreito de Ormuz sem pagar nada, mas depois cobrar outros países. Isso é absolutamente inaceitável. Os americanos, até agora, não parecem estar dispostos a aceitar qualquer esquema que não seja o livre traço.

Ana Cavalieri, e a mesma situação não acontece também do lado do Irão, que também não estão dispostos a aceitar outro cenário que não seja o que é idealizado por Teerão?

Exatamente. Aquilo que em termos geopolíticos o Irão não quer abdicar como vitória é o controle do Estreito de Ormuz. Por isso, quando os navios, depois de assinado o Memorando de Entendimento em meados de junho, começaram com a ajuda do apoio da navegação, tanto americana, mas também com os britânicos, que ajudaram a dar essa ajuda aos navios mercantes e aos petroleiros a passarem no lado do Estreito de Ormuz que ladeia Omã. Porque antigamente, não é assim tão antigamente, mas antes de fevereiro, aquilo que era utilizado era uma via de trânsito internacional mais ou menos a meio dos estreitos e de repente com a guerra, com o início do conflito, os iranianos tentaram fazer um controle e os navios até começaram a ceder a essa exigência e irem para o lado que ladeia o Irão, nomeadamente para passar depois na Ilha de Qeshm e outras ilhas em que os iranianos conseguem controlar o tráfego. Mas depois, após o Memorando de Entendimento, os americanos quiseram pouco a pouco libertar o estreito desse controle que o Irão teria obrigado aos navios e os petroleiros, naturalmente, eles não querem ser atingidos. Há seguradoras aqui também que estão sempre a fazer a gestão do risco. E então os americanos começaram a querer que os navios começassem a utilizar o lado de Omã e a Guarda Revolucionária achou isso, e naquela que é a perspectiva da sua grande carta negocial irracional, ou seja, a Guarda Revolucionária começou a atingir alguns petroleiros com drones, precisamente para dizer: "Não, isto é inaceitável, nós não vamos deixar que o estreito fique nas condições que estavam antes do início da guerra". E no Memorando de Entendimento, supostamente havia 60 dias que haveria livre-trânsito, sem dispor especificamente que lado ou que via do Estreito de Ormuz é que estes navios poderiam utilizar, e depois de 60 dias, Omã, o Irão, mas também os outros aliados do Golfo iriam então determinar a melhor gestão para o tráfego do Estreito de Ormuz, mas o Irão imediatamente impôs aquilo que é a sua linha vermelha nestas negociações. Eles querem controlar o Estreito de Ormuz. Para os americanos, isso é inaceitável.

Ana Cavalieri, ainda sobre este tema no Médio Oriente, o Irão garante que os Estados Unidos vão ser punidos ainda hoje e reitera controle precisamente sobre o Estreito de Ormuz, que falávamos ainda agora. Que ações é que podem ainda os iranianos levar a cabo que os Estados Unidos não estejam à espera? Há aqui alguma hipótese de surpresa?

Eu penso que não, na medida em que aquilo que os iranianos têm é a capacidade assimétrica, porque eles conseguem impor o medo e o risco aos operadores destes navios, apenas ameaçando que poderá haver algumas minas ainda no Estreito Ormuz ou que aquelas lanchas pequenas com metrelhadoras, os chamados mosquitos, conseguem também atingir as tripulações e estes navios, ou então com drones. Basta poucos meios. Aliás, é uma das grandes revoluções, embora não seja uma revolução, porque isto antecipadamente já se sabia, a administração americana sabia que provavelmente este era o cenário com maior possibilidade de acontecer. São muito poucos meios que são necessários, basta haver uma capacidade reduzida de drones e de lanchas, mas a dissuasão acontece mesmo por esses meios. E enquanto os iranianos conseguirem apresentar essa aparência de poderem ainda ser uma ameaça àqueles navios, as seguradoras e as companhias de navios mercantes e de petroleiros não irão querer atravessar o estreito com essa segurança. Os americanos estão a fazer aquilo que nas últimas duas semanas tentaram executar Que são missões intensas, mas específicas em escopo, ou seja, não são missões alargadas para tentar degradar as centrais, as estações de comando e controle que estão em Bandar Abbas e em outros lugares fronteiriços do estreito, da parte terrestre que ladeia o Estreito de Ormuz que pertence ao Irão. Ou seja, tudo aquilo que eram plataformas de lançamento, armazenamento de munições, sistemas de defesa antiaérea, radares que os iranianos ainda poderiam ter ou que têm, efetivamente, para apoiar algumas dessas operações. Eles têm de lançar drones de algum sítio. E os drones, relativamente à distância de alcance que têm, têm de estar naquela zona mais perto que ladeia o Estreito de Ormuz da parte do Irão. Eles estão a tentar degradar ainda essas capacidades que estão nessas áreas do território iraniano. O problema é que nós tivemos uma guerra alargada de ação cinética durante 38 dias, mas depois houve um cessar-fogo penso que foi em 7 de abril, ou no início de abril, e a partir desse momento nós sabemos que a China tem tentado abastecer e reerguer um pouco as capacidades ofensivas iranianas e também alguns sistemas de vigilância. E isso deu naturalmente ao Irão, que tem a sua indústria militar muito degradada, mas ainda com essa capacidade de fazer alguma dissuasão, aliás, não só no Estreito de Ormuz, mas também naquilo que tem feito nos últimos dias, que é nomeadamente atacar a Jordânia, que é uma distância considerável do Irão. E não só isso, também acionou os seus proxies. Agora temos os houthis no Estreito de Bab al-Mandab a tentar fazer com que navios que saiam da Arábia Saudita não possam passar, ou atingiram esses navios. Temos também milícias no Iraque, apoiadas pelo Irão, financiadas pelo Irão, abastecidas pelo Irão, que estão também a fazer ataques à Arábia Saudita nas suas infraestruturas energéticas. E depois sabemos que se os Estados Unidos fizessem aquilo que seria necessário fazer, que seria passar a atacar em força as infraestruturas de duplo uso, pontes e centrais elétricas, que ainda não fizeram essa ação ofensiva intensa relativamente a estes tipos de alvos. Isso seria uma escalada fundamental, que seria provavelmente aquilo que poderia então enfraquecer verdadeiramente o regime. Existe sempre o receio de que os americanos não tenham os intercetores suficientes para depois proteger a retaliação iraniana às centrais de dessalinação e outras infraestruturas energéticas dos países do Golfo, porque a água é escassa ou é de difícil acesso se não houver estas centrais de dessalinação. Então eu penso que o cálculo americano é que eles não têm os intercetores suficientes para garantir as capacidades de defesa, caso o Irão faça um ataque quase de desespero, de última resistência. São esses os cálculos que estão a constranger ambas as partes.

Ana Cavalieri, temos ainda um minuto e meio neste gabinete de guerra para abordar a questão que envolve a União Europeia, neste caso a Polónia. O primeiro-ministro polaco classificou esta quinta-feira a queda e a explosão de um míssil em território polaco como um incidente grave. Já não é a primeira vez que acontece um incidente deste gênero. O que é que podemos retirar desta situação, Ana Cavalieri? Isto é mais um teste à reação europeia por parte da Rússia? Temos um minuto e meio até ao fecho do programa.

Eu penso que é. Existem determinadas estratégias híbridas e de provocação que a Rússia tenta utilizar para conseguir testar a capacidade não só de organização militar e de disposição das linhas de defesa. Nós sabemos que tem havido um reforço por parte da NATO, do flanco leste, para haver maior capacidade de resposta, para preparar para todos os cenários. Mas existe aqui também, e isso é fundamental, um teste político àquilo que as lideranças, aos indícios que as lideranças europeias estão preparadas para saber até que ponto é que existe coesão política para uma resposta. Sendo certo que, neste momento, eu penso que este incidente deve requerer mobilização de preparação para demonstrar dissuasão à Rússia, que caso houvesse qualquer ataque mais premente, haveria meios para rapidamente fazer uma resposta tão poderosa que pudesse reajustar a capacidade de dissuasão para os russos não continuarem. Mas é também um pouco para manifestar o facto de Putin saber que está num dilema profundo. A economia está cada vez mais degradada e devastada. Estão a perder com as suas baixas no exército russo, são absolutamente incomportáveis. Antecipa-se uma mobilização a curto prazo, geral, da parte da Rússia, e então para os russos é fundamental agora, já que não estão dispostos a ir para a mesa de negociações para haver um abandono do território em Donbass, provavelmente a alternativa que Putin irá querer é tentar escalar em várias vertentes. Uma delas é nestas ameaças híbridas a membros da NATO, testando então a coesão política por parte dos membros europeus.

E é com essa ideia que fechamos o gabinete de guerra de hoje com a análise de Ana Cavalieri.