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Este é o Som do Gabinete Guerra das Manhãs 360 esta segunda-feira com a análise do Francisco Pereira Coutinho, professor universitário e especialista em Direito Internacional. Olá Francisco, bom dia, bem-vindo.
Muito bom dia.
Bom dia. Donald Trump cancelou o ataque ao Irão, que segundo ele teria sido o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Diz que o fez para dar uma oportunidade às negociações e depois também ter sido convencido por aliados como a Arábia Saudita, os Emirados e o Qatar. Francisco, que leitura faz deste recuo? Foi a influência regional que conseguiu conter Washington?
Sim, eu creio que sim. Creio que terá sido a influência regional, especialmente da Arábia Saudita. Já não é a primeira vez em que isto acontece. Aliás, isto é cíclico, porque nós vemos ameaças de Trump e depois vemos isto. As pauturas chamaram o taco, Trump All Chickens Out, e depois vai dizer que já disse que os iranianos estão a pedir por um acordo, depois vão dizer que os iranianos deram tudo e a seguir vai dizer que afinal não é possível negociar com os iranianos e vai novamente ameaçá-los com bombardeamentos. Tem sido assim desde abril. E neste caso concreto, aquilo que se percebe é que de fato os países da região, especialmente a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados, têm muito a perder com um ataque em larga escala dos Estados Unidos, porque os iranianos não estão quietos e estiveram também muito ativos no plano negocial, especialmente o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, e avisaram os vários países da região que se os Estados Unidos de fato atacassem centrais elétricas, centrais de abastecimento d'água, o setor energético iraniano, os iranianos iriam retaliar exatamente na mesma medida. E portanto, quem tem muito a perder ali na região são os outros estados, e são aliados também dos Estados Unidos e acima de tudo, têm também grandes relações comerciais com o próprio Donald Trump. Principalmente a Arábia Saudita. O negócio do século, que o Donald Trump está sempre a falar, é com os sauditas. E portanto, foi por tudo isto, Donald Trump acabou por recuar e ainda bem.
Trump disse também que foi o próprio Irão que pediu para negociar, algo que Teerão desmentiu imediata e publicamente. Este desencontro de narrativas no próprio dia das conversações faz parte ou só mostra que os canais de negociação continuam extremamente frágeis e susceptíveis a um novo colapso?
Sim, completamente. Portanto, isto faz parte então do tal ciclo. Ele diz que faz isto porque os iranianos pediram para negociar. Por quê? Porque no fundo, o que é que o Trump está a dizer? As minhas ameaças resultaram. Portanto, eu só estou a recuar porque eles cederam. E a seguir vai dizer que as negociações estão a correr muito bem, que conseguiu tudo o que queria e depois quando toda a gente perceber que isso não é verdade, vai dizer que isto não está a resultar justamente porque os iranianos não são pessoas confiáveis e vai voltar com as ameaças.
Como já ouvimos.
Ouvimos ciclicamente e várias vezes. Claro que Trump podia ser visto, e é verdade, que ele ameaçou esteve com alguns ataques durante algumas semanas, mas foram ataques ainda assim contidos. Portanto, a possibilidade de escalar o conflito tomando o estreito como operação militar terrestre, ele não quer fazer, claramente, toda a gente já percebeu isso e vem dizer isto. Mas não é para levar muito a sério, nós temos sempre que confirmar com aquilo que os iranianos estão a dizer em relação àquilo que o Trump no fundo anuncia. Aliás, ele faz um post em que diz que os iranianos pediram para negociar e que vão dar aos Estados Unidos aquilo que os Estados Unidos querem, que neste caso concreto é a abertura do Estreito e a resolução do problema nuclear. As duas coisas. Nós neste momento nem sequer conseguimos ter o Estreito aberto e o Estreito continua fechado, que isto depois é o problema com o Trump. Ele diz que vai conseguir e está iminente, mas depois o que nós observamos? Nós estamos a passar navios. Portanto, alguma coisa está aqui que não joga em relação às declarações de Trump, em relação à realidade que nós estamos a observar. E portanto Trump tenta sempre moldar a realidade aos seus desejos e anuncia várias vezes. O problema é que a realidade não se mexe, especialmente aqui no Medio Oriente, as coisas são particularmente complicadas.
Mas Francisco, o Trump também diz que as questões nucleares ficam para depois, que agora o mais importante é o Estreito de Ormuz. É sustentável dissociar a segurança marítima energética do programa de enriquecimento do urânio de Teerão?
Aqui acho que sim, acho que é absolutamente essencial. E claro que isso também faz parte da própria estratégia de Trump, não só aqui, isso aconteceu também em Gaza, que é tentar resolver os problemas de curto prazo que permitam pelo menos um cessar-fogo ou algum tipo de acordo, e só depois avançar para as questões mais complicadas. Agora qual é que é o problema? É que geralmente consegue acordos que são celebrados em cima do joelho e que não são propriamente muito densificados. E isso depois leva a que existam dificuldades em perceber aquilo que cada uma das partes se comprometeu a fazer, que foi aquilo que aconteceu com o memorando há cerca de um mês. E portanto, a questão que tem que ser resolvida neste momento tem a ver com o Estreito de Ormuz e com as diferentes visões que os Estados Unidos e o Irão têm sobre o Estreito. Os Estados Unidos querem o Estreito completamente aberto, o Irão quer manter algum controle sobre o Estreito e está a negociar com os países da região um novo arranjo para o Estreito de Ormuz. A dúvida que existe neste momento é se os Estados Unidos vão aceitar esse eventual acordo a que o Irão chegue com os países da região. E aparentemente não é muito fácil também ao Irão conseguir convencer os países da região a manter ali um controle sobre o Estreito de Ormuz. Portanto, esta é que é a dificuldade neste momento. Mas acima de tudo, isto já é uma vitória iraniana, porque no final de fevereiro o Estreito estava aberto, estávamos a discutir a questão do programa balístico e nuclear iraniano, e neste momento estamos apenas a discutir a questão da abertura do Estreito.
Sobre a Ucrânia, Zelenskyy deixou o aviso que a Rússia quer expandir a produção de mísseis balísticos enquanto as sanções não chegam. Francisco, se isto acontecer, se Moscovo conseguir acelerar o ritmo de produção destes mísseis antes do Ocidente entregar interceptores à Ucrânia, a defesa aérea ucraniana corre sérios riscos
Corre. Isto de facto é um problema gravíssimo. Aliás, uma das explicações que foi dada para Donald Trump neste momento, voltando atrás, desculpe, na questão do Irão no ataque, tem a ver justamente com isso, porque o stock de mísseis antibalísticos americanos, os mísseis Patriot e THAAD, está muito baixo. Estima-se que já tenham gasto cerca de metade ou mais dessas munições e elas demoram muito tempo a serem produzidas. O que é que isso significa? Significa que se o Irão atacasse os países da região e as bases militares norte-americanas, os Estados Unidos iam ter dificuldades em defendê-las. Portanto, precisam mesmo desses mísseis antibalísticos. Isto depois liga-se com a guerra na Ucrânia, porque os ucranianos precisam muito disso, porque neste momento não têm grandes contramedidas e têm muita dificuldade em repelir ataques com mísseis balísticos da Rússia. E Putin sabe isso e tem esses mísseis, tem essa produção feita. Os ucranianos estão a produzir os seus próprios mísseis balísticos, mas estão ainda no início de produção desses mísseis. A Ucrânia, nos tempos da União Soviética, produzia muitos destes mísseis, mas deixou de o fazer. Então há aqui uma assimetria que neste momento favorece a Rússia. Aliás, é um dos poucos pontos da guerra que neste momento a Ucrânia não tem como se defender. E isto vai ser particularmente difícil no inverno, porque vamos ver ataques russos sobre a infraestrutura elétrica ucraniana e isto pode deixar a Ucrânia em grandes dificuldades. Os ucranianos pediram ajuda aos americanos, aos seus aliados, mas neste momento não existem estes mísseis, até por causa da guerra no Irão, em quantidade suficiente para a Ucrânia se defender. E depois houve aqui uma notícia muito preocupante, que foi aparentemente um recuo de Donald Trump em relação à licença que teria dado aos ucranianos para produzir os Patriot. Isto foi uma decisão mesmo muito estranha, porque isto era uma licença que seria dada aos ucranianos e os ucranianos demorariam ainda algum tempo, se calhar alguns anos, a produzir os Patriot. Portanto, este recuo de Donald Trump é mesmo muito difícil de explicar e poderá ter a ver com pressões russas, não sabemos muito bem, ou outro tipo de contrapartidas que ele queira dos ucranianos.
Em termos políticos, podemos dizer que a Ucrânia está a atravessar uma crise. Há quem diga que neste momento Zelensky tem mais apoio fora da Ucrânia do que dentro do próprio país. Ao mesmo tempo, o chefe das forças ucranianas foi substituído por alguém extremamente próximo de um grupo que já não considera Zelensky indispensável.
Sim, realmente houve uma crise política interna muito grave e não parece que tenha sido uma crise que tenha sido bem gerida pelo presidente ucraniano. Há aqui um paradoxo que é a Ucrânia é um país democrático, mas a Ucrânia é um país onde não há eleições. E não há eleições porque há uma guerra. Agora, a população continua a manifestar-se sempre que não concorda com algumas decisões tomadas pelas suas lideranças políticas, e foi o que aconteceu neste caso concreto. Portanto, houve aqui um problema entre o ministro da Defesa e o comandante supremo das Forças Armadas, e o presidente Zelensky geriu mal esse conflito, porque ele resolveu despedindo o ministro da Defesa. Mas a população não concordou e, portanto, protestou. Aliás, o próprio Zelensky vem dizer a certa altura, quando explica a decisão, que por ele teria despedido os dois. As manifestações vieram e ele acabou por despedir mesmo os dois. E acabou por acalmar os manifestantes, trocando o comandante supremo das Forças Armadas por alguém mais próximo do perfil do ministro da Defesa. O ministro da Defesa, entretanto, não regressou. Agora, como não há eleições, não é possível substituir o presidente. E, portanto, Zelensky perdeu aqui internamente alguma credibilidade, porque geriu isto procurando responder àquilo que via nas ruas, e já não é a primeira vez que isto acontece. Há cerca de um ano, ele fez exatamente a mesma coisa, teve exatamente o mesmo problema quando resolveu desmantelar as agências anti-corrupção e imediatamente na rua tivemos manifestações. Agora, isto há aqui um aspecto positivo, que mostra que a Ucrânia é mesmo uma democracia, porque o presidente reage àquilo que vê nas ruas. Portanto, não há nada a ver com aquilo que se passa, por exemplo, na Rússia. Agora, não havendo eleições, é evidente que as coisas não se passam com um grau de normalidade e, portanto, Zelensky tem que aprender uma lição com aquilo que se passou aqui e procurar prevenir situações como estas. Agora, digo-lhe uma coisa, eu acho que a certa altura os ucranianos vão ter que encontrar aqui uma forma de organizar algum ato eleitoral.
Pode-se, não é?
Porque entretanto já vamos para cinco anos de guerra e se vamos esperar que esta guerra acabe, a situação vai-se tornando cada vez mais difícil. É muito importante nos sistemas democráticos que os políticos estejam legitimados ciclicamente pelo povo. É claro que Zelensky continua a ter legitimidade, porque não estamos a ver manifestações na rua a pedirem a sua substituição, do Zelensky. E já se percebe que os ucranianos são perfeitamente capazes de ir para a rua e dizer aquilo que querem. E como não vimos ainda isso, aparentemente Zelensky continua a ter completa legitimidade para ser o presidente ucraniano.
Mas nada com mira a votos, não é?
Nada com mira a votos, claro. Agora, claramente as manifestações não pedem a sua substituição, nem os seus rivais querem e exigem a sua substituição. E porque toda a gente compreende que de facto não é uma situação normal, o país está em risco existencial e, portanto, não podem dar aos russos munições com distinções internas que resultam sempre de atos eleitorais, que muitas vezes são complicados de gerir, mesmo em situações de normalidade, quanto mais no contexto de um conflito armado.
Francisco Pereiro Coutinho, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Boa semana, Francisco.
Semana, obrigado.
Obrigada.