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Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, obrigado.
E hoje quer dizer algo que mistura futebol e Ceuta? Como é que isto tudo se encontra?
Se calhar não devia misturar, mas tinhas razão ontem quando disseste que em cada dia havia um escândalo. E é verdade. Ontem foi a Sydney Sweeney.
E não é preciso procurar muito.
Não, aparece em todo lado. Hoje são os três jogadores do Real Madrid que ontem, não é que tenham recusado completamente vestir a camisola da entidade patronal, mas vestiram de forma que a mensagem que passava na camisola, durante um jogo de futebol, naturalmente, não fosse lida. E a mensagem, em português, dizia qualquer coisa como: "Estamos com Ceuta" ou "Estamos com os habitantes de Ceuta". E três jogadores do Real Madrid vestiram-na, repito, de maneira que a mensagem não pudesse ser lida. Isso causou o escândalo. Uns defendem os jogadores. Eu também acho que nem todo o assalariado tem de vestir a camisola ou qualquer camisola que a entidade patronal decida impor-lhe. Claro que isso demonstra uma atitude sobre essas três pessoas e traduz um ponto de vista que eles têm sobre a questão de Ceuta. E que eu saiba, nenhum dos três, que serão naturalmente milionários, fez qualquer coisa para ajudar os imigrantes ilegais ou os invasores, ou o que quisermos chamar às pessoas que, de qualquer maneira, por onde possamos pegar, invadiram Ceuta há coisa de mês e meio. Mas acho que discutir isso e não discutir Ceuta, ou discutir isso, em vez de discutir Ceuta ou o que está acontecendo em Ceuta, é capaz de não ser a melhor atitude. É capaz de ser mais importante falar sobre o que está acontecendo em Ceuta. E toda gente sabe que desde o final de julho, Ceuta foi tomada, também não vejo outra palavra, por dezenas de milhares de pessoas que vinham a partir de Marrocos, serão na esmagadora maioria marroquinas. E na altura, nos dias seguintes a essa invasão, para certos mídia, o caso tinha sido resolvido num ápice pelo governo do senhor Sánchez. Infelizmente, a realidade parece discordar e ainda há, pelos vistos, entre 12 mil a 15 mil pessoas ou invasores em Ceuta e as autoridades locais são absolutamente impotentes para conseguir resolver o problema, embora o tentem. E da parte do governo central, do governo espanhol, não se vê nem competência e, sobretudo, não se vê vontade para resolver o problema. E o problema é um eufemismo, não é uma coisa ligeira, porque há mês e meio que os habitantes daquela cidade, que é uma cidade espanhola, goste-se ou não, concorde-se ou não, isso é outro assunto que não vem ao caso, mas há mês e meio que aquelas pessoas se sentem abandonadas pelas autoridades do seu país e entregues a uma situação que imagino, deve roçar o desespero. A revista britânica Spectator fez há dias um levantamento daquilo que, quer as televisões falem ou não, ou quer a esquerda admita ou não, continua a acontecer em Ceuta. Eu roubei descaradamente alguns desses dados, sintetizei-os para poder enquadrá-los aqui no Ideias Feitas. E alguns desses dados mostram o seguinte: mostram que continua a existir, desde o final de julho, um aumento brutal da criminalidade. Há roubos sem violência, há roubos com violência, há assaltos a pessoas, há assaltos a estabelecimentos comerciais, arrombamentos de veículos, o uso de armas brancas em disputas de rua, há agressões sexuais. Isto não é só por parte dos que entraram face aos habitantes de Ceuta, é também entre os próprios que entraram. Pelos vistos, há ali discordâncias e dissidências. Há agressões a forças de segurança e militares. Houve agentes da Guarda Civil que foram feridos, alguns gravemente. Há incêndios, há vandalismo, pega fogo a contentores de lixo, a automóveis, há acampamentos informais na via pública, com a insalubridade que isso traz. Há defecação em público, lixo por todo lado, focos de contaminação, ruído noturno extremo. Os cafés e os bares viram-se obrigados a fechar muito mais cedo, outros quase nem abrem. Há supermercados que contrataram seguranças privados para evitar roubos. E isto afeta o ambiente escolar, há pais que não deixam os filhos ir às escolas, etc. Os próprios hospitais, faltava mais, passaram a não ter condições para atender a clientela, vamos dizer assim. Ou seja, o drama de Ceuta é um drama real, é um drama que está aqui perto. Ceuta não fica propriamente na Sibéria, fica aqui muito pertinho e não passa, naturalmente, pela atitude de três futbolistas, independentemente da opinião que possamos ter sobre a opinião deles. O que se passa em Ceuta é uma tragédia real e dá a ideia que é uma espécie de experiência avançada e pioneira do que pode vir a acontecer em boa parte da Europa. E, aliás, o que se passa em Ceuta já se passa em alguns pontos da Europa. E era muito bom que esta situação terrível para aquelas pessoas tivesse um lado positivo e que Ceuta pudesse servir de aviso. Mas eu, como não sou otimista, nunca fui, se calhar já não vou a tempo de ser, eu acho que aquilo que se passa em Ceuta, o mais certo é que venha a servir de profecia e isso não é bom. Mas enfim, ainda há pouco vocês estavam a falar do discurso do Estado da União. E o Estado da União não é famoso E há uma série de pormenores e uma atitude estrutural geral que aponta ou que sugere que nada disto vai ser resolvido da forma que talvez pudesse ainda ser resolvido. Eu também começo a duvidar que isto já pudesse ser resolvido, mesmo com vontade política. E vontade política é coisa que não há.
Obrigado, Alberto. E até amanhã.
Até amanhã, Ricardo. Um abraço.
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